Preconceito regional não tá com nada

Por Maria Shirts

Nessa semana uma das minhas parceiras desse blog, a Paula Elias, compartilhou sua indignação no Facebook por causa de uma publicação realmente assustadora. Se tratava de alguns comentários reacionários dos paulistanos que não gostaram do resultado da eleição para a prefeitura de São Paulo, que saiu no último domingo. Segundo aqueles internautas revoltados, o candidato Fernando Haddad, que irá gerir nossa cidade a partir de 2013, havia sido eleito por causa da “corja de nordestinos alienados” que habita SP.

Que há paulistanos preconceituosos e racistas na nossa cidade, e basicamente no mundo inteiro, (e pior, se manifestando na internet) não é novidade. Aliás, um dos problemas desse tipo de manifestação é que ela é tão recorrente que nós acabamos nos acostumando, o que dá mais margem para elas. Dessa vez, entretanto, eu não me dei por conformada com a atitude reacionária paulista. Fiquei pensando dias a respeito e, por isso, resolvi contar uma história aos leitores desse blog.

Privilegiada que sou, fui viajar à Bahia, em janeiro de 2011, durante as minhas férias. Fiz o tradicional circuito no qual se encontra toda a zona oeste paulistana: Península do Maraú, Moreré e Chapada Diamantina. Passei um mês viajando e, por causa de alguns contratempos, voltei de ônibus para São Paulo.

O percurso de Salvador à capital paulista demora, em média, 36 horas (isso quando o seu motorista não some em algum lugar perto de Teófilo Otoni e você tem que avisar a companhia que o seu ônibus está órfão). Quem já fez essa viagem sabe que essas 36 horas passam lentamente, principalmente quando você está num veículo sem leito.

Depois de umas 18 horas (mesmo) eu fiquei bem entediada, havia acabado meu livro e já estava cansada de olhar a paisagem – que, diga-se de passagem, é muito surpreendente. Nesse momento, passei a prestar atenção naquele “microcosmos” no qual eu me encontrava. Apesar de reclusa num ônibus durante 36 horas, posso dizer que foi uma das experiências mais legais que eu tive nos meus longos 21 anos. Com certeza aquelas eram as pessoas mais gentis e bem humoradas as quais eu compartilhei uma viagem de ônibus. Faziam total jus à máxima “aqui não tem tempo ruim”, recorrente na Bahia.

Comecei a praticar o overhearing e logo detectei que os homens “do fundão” estavam discutindo política. Eles haviam subido no ônibus em Feira de Santana e, pelo que pude constatar pelo sotaque, eram todos nordestinos. Durante duas horas prestei atenção naquela conversa e posso dizer que adquiri mais conteúdo do que em muitas das 865 aulas de política que tive na PUC-SP. Não que meus professores não sejam bons, muito pelo contrário. Mas aqueles homens estavam literalmente vivendo a política, até então implementada pelo governo Lula.

E durante horas eles exaltaram como o ex-presidente havia permitido que eles pudessem comprar uma passagem para visitar sua família, que estava em São Paulo. E durante horas bradaram (mesmo, gritando) que o ex-presidente havia dado a oportunidade para a compra de sua casa, ou do seu carro, e que mais um pouco eles conseguiam ir para São Paulo de avião. E pra quem pensar “é claro que eles só vão elogiar a gestão, o Lula é o novo pai dos pobres!”, saiba que estes mesmos homens tinham plena consciência do esquema de corrupção conduzido pelo PT. Eles inclusive colocaram em questão se a Dilma, então recém-eleita, não seria mais uma integrante da máquina de corrupção. E tem mais! Grande parte da pauta também girou em torno do sanguessuga José Sarney e da sua malandragem coronelista.

Sim, tudo foi discutido com uma linguagem simples, por pessoas que não tiveram acesso à educação ou informações suficientes. Eu não consegui saber, infelizmente, quais eram as suas fontes. No entanto, eles sabiam do que estavam falando.

E não, eu não fiz esse post para exaltar o governo Lula –  ao qual eu tenho críticas e elogios – , mas para compartilhar uma experiência, única, de que gente pobre (e nordestina!!!!) também sabe o que se passa no Brasil. Fica a dica para aqueles que acham que não.

Vamos brincar de Índio?

Difícil alguém levar a sério um post que começa com uma citação da XUXA, né? Sim… Citei mesmo a “Rainha dos Baixinhos”, aquela que dizem ter pacto com o próprio demo e que aceitou R$ 2 milhões pra mudar a cor de cabelo (até eu que sou mais bobo aceitaria, na moral).
Mas, por favor. Não julguem!
Semana passada, as redes sociais e meios mais verdadeiros da mídia nacional fizeram uma ampla campanha de apoio à manifestação dos índios da tribo Guarani Caiová. Para quem não sabe, este grupo indígena, sofre (e SOFRE em CAPS LOCK) há muito tempo. Suas terras foram loteadas e distribuídas faz anos com a mesa velocidade e ferocidade que as pessoas comem aquele bolo do aniversário de São Paulo, sabe? Sem perspectiva de vida, de melhoria de situação e de luz no fim do túnel, esses índios apresentam taxas de suicídio e alcoolismo altíssimas em sua sociedade. Comparadas à sociedade “”””normal”””” (e bota aspas nisso), são porcentagens alarmantes.
Porém, até a semana passada – e infelizmente até agora – pouco foi feito. O apelo dos chefes da tribo e a conclusão mórbida, porém real, de que eles mesmos estão assinando seu atesado de extinção chocou. Mas precisa chocar ainda mais.
Por isso que eu lanço a reflexão. “Vamos brincar de Índio”.
CALMA! Não falo pra gente desenterrar nossos LPs antigos da chata da Xuxa, mãe da Sasha (#travalíngua). Nem de começarmos a andar pelados, caçar comida e se pintar inteiro de URUCUM  (por mais LEGAL que seja isso, confesso). Estou falando, sim, de analisarmos – ainda que superficialmente – a condição indígena no nosso Brasil. Ou melhor, no Brasil que era deles.
Falar de índio hoje no nosso País quase nunca causa apelo. Muitas, MUITAS, pessoas ainda acham realmente que o destino mais próprio à população indígena ou é o isolamento completo e absoluto, para que elas esqueçam que os mesmos existam… OU a inserção dessa galera no nosso modelo super justo e eficaz de viver no mundão de meu Deus. Sinceramente, não sei qual dessas correntes de “pensamento” é a mais burra.
Imaginar que uma pessoa que está acostumada e que DESEJA continuar sua história no local origem é difícil demais? Precisamos realmente achar que todo mundo precisa ter um iPad, um iTouch, um notebook, morar enclausurado numa lata de sardinha (a.k.a apartamento de classe média) e demorar 200 mil horas para se descolar dentro de uma caótica, violenta e suja metrópole?
Achamos realmente que o índio será mais feliz e mais conectado ao mundo se retirarmos ele de sua reserva e mandarmos ele para o incrível mundo feliz da periferia das grandes cidades brasileiras? Entupi-los de comida cara e cheia de gordura e açúcar? Colocar ele num sub-empreguinho “digno” onde ele vai ganhar uma merreca porque “nunca teve estudo”, ou “porque é selvagem”?
Nos centros e nos bairros nobres ele não será sequer bem-vindo. E se fossem, será que seriam felizes com o nível de poluição sonora, visual e presos a castelos eletricamente protegidos por cercas e hipocritamente sustentados por ideais conservadoras e religiões proibitivas.
Sem menor intenção de doutrinar alguém, mas já doutrinando… Índio tem o direito de ficar onde está. A terra é deles, sempre foi. Vamos reler – e reescrever – nossos livros didáticos de Estudos Sociais. No dia 22 de Abril de 1500, Cabral parou sua nau em um país já descoberto, já ocupado e já habitado.
E durante os mais de 500 anos após, o que aconteceu na nossa Pátria amada, foi um verdadeiro genocídio. Sem exageros.  Não precisa ser o especialista da FUNAI ou do IBGE pra constatar isso. Qualquer mapa divulgado na internet mostra explicitamente esse doloroso e triste fato. Qualquer gráfico mostra, seja em barras, em pizzas ou em porcentagens, que morreram índios demais!
Vamos falar a verdade. Afinal de contas, índio deve fazer barulho e índio TEM sim seu orgulho. Vamos brincar de índio, e COM o bandido – pra mostrar pra todo mundo quem de fato ele é, e o que ele causou aos riquíssimos povos que, de fato construíram nosso lindo País.
O chato agora é que eu fiquei com a música na cabeça…
Pegue… Seu arco-e-flecha, sua canoa… Vamos remar…” 

Por que gostamos do Haddad?

por Artur Lascala

Ufa, que alívio. Enfim, Haddad está eleito. Russomano, humilhado. E Serra, assim esperemos, sepultado da vida política. Meus colegas já teceram excelentes análises, que podem ser lidas aqui e aqui. Prefiro concentrar o meu post, mais uma vez, naquilo que senti, o que a eleição de Haddad provocou em mim.

Isso é um fator importante, pois nunca havia passado pela experiência da esperança com algum político. Nunca tinha comparecido diante da urna com tanta convicção. Nunca o barulhinho e a tela FIM tinham me deixado com a sensação de dever cumprido.

Esse sentimento certamente existiu quando o Lula foi eleito em 2002. Mas eu ainda era um tanto jovem e não me engajei. Na eleição da Dilma eu não estava no Brasil, mas, de toda maneira, a nossa atual mandatária não me comoveu. Não restou dúvida que ela representava o melhor projeto político dentre os possíveis. Entretanto, era uma opção estritamente racional.

Haddad não é nenhum Lula, não tem o seu carisma transcendental, mas conseguiu incendiar um pouquinho o ânimo de quem acredita que São Paulo tem jeito.

Além disso, porém, há outra razão, pertencente mais ao campo da psicologia do que da política. Haddad toca a mim, e acho que também aos demais membros do Esparrela e nossos leitores porque nós podemos nos ver nele. Alunos universitários — de humanas, sobretudo — conseguem enxergar no ex-ministro a imagem do professor, grande referencial de ideias e valores para nós.

E também traz algo do sonho platônico da república dos filósofos. Platão pensava num governo dos melhores, em que os sábios fossem os soberanos. Haddad traz para a nossa democracia a sua bagagem um doutorado cujo título é De Marx a Habermas – o materialismo histórico e seu paradigma adequado. É mole?

Por outro lado, Fernando Henrique é o exemplo mais bem acabado de um rei-filósofo brasileiro. Não vou entrar no mérito de ele ter sido ou não um grande presidente, mas parece claro que suas claro que suas passagens pela Sorbonne não o ajudaram tanto assim. Ainda mais quando o seu sucessor é a mais completa antítese e um sucesso político quase sem precedentes.

Haddad venceu uma ideia de “novo” e “esperança” tal qual Obama fez em 2008 com “Yes, we can”. Mas, podemos o que, cara pálida? Que novo é esse? Sonhos tão sedutores quanto difíceis de definir.

Políticos eleitos em meio a marés de esperança têm, porém, uma situação delicada, uma vez que o potencial para desapontamentos é muito grande e ele pode se encontrar receoso de tomar medidas impopulares mas necessárias. Tomara que o muito bem-vindo bilhete único mensal capitalize bem a administração Haddad e lhe dê mais margem em outras áreas.

Mesmo assim, o Haddad e seu jeito de “falar como nossos professores” sensibilizou a mim e a muitos. Desejamos a ele toda a sorte.

Não ataca, não abusa, não sufoca que São Paulo não deixa

Por Fernando Rinaldi

 

No primeiro turno, a situação das eleições de São Paulo se complicou. O velho Serra apareceu aí mais uma vez, sem novidades para uma cidade que vem caminhando ao caos por conta de uma política viciada. Chalita foi aquele que se fez de bom moço, amigo de todos: do Alckmin, da Dilma, de Deus, do diabo e do Padre Fábio de Melo. Haddad, candidato escolhido por Lula, provocou a princípio algumas controvérsias devido à sua aliança com o partido de Paulo Maluf. Eis que surgiu Russomano, candidato de direita, ligado à Igreja Universal, e que até pouco antes do dia da votação estava isolado na liderança.

Dadas essas circunstâncias, alguns eleitores começaram com o discurso de que votariam no “menos pior”, como parece já ter se tornado hábito dos brasileiros desiludidos. Situação diferente se verificou no Rio: Marcelo Freixo, longe de ser o candidato ideal, foi um dos raros candidatos em que alguns cariocas votaram com convicção. Apoiado por artistas, Freixo cresceu consideravelmente nas pesquisas de intenção de voto, tendo conseguido engajar a juventude no processo eleitoral e angariar o apoio de parte da classe média carioca. Vale lembrar que, fora do Rio de Janeiro, muito se disse por aí a seguinte frase: “Se eu fosse carioca, votaria no Marcelo Freixo.” Perdeu para Paes, mas a velocidade com que ele cresceu revela pontos positivos dos cariocas.

E em São Paulo? Bem, em São Paulo percebemos o quanto a cidade está dividida a partir de um poderoso critério: a renda dos cidadãos. Nos bairros centrais, de classe média ou classe média-alta, predominou um reacionarismo tenebroso. Lembro-me aqui do vídeo que se propagou pela Internet, em que Marilena Chauí criticou o conservadorismo da classe média paulistana. Chauí não criticou exatamente a classe média em si, mas seu modo de conduta violento na vida pública aqui na cidade de São Paulo. O problema dos pequenos burgueses, segundo Chauí, é que eles não são propriamente burgueses, por isso o medo de se proletarizar. O “parecer ser” é, pois, um imperativo. Por alguma razão, a classe média paulistana dá importância demasiada ao status que pode adquirir e para uma imagem que, além de depender do olhar do outro, depende de uma cidade que segrega seus cidadãos de todos os jeitos possíveis. Não se está dizendo aqui que isso não ocorra em outras cidades brasileiras ou mesmo em outros países, mas é um fato a olhos vistos que em São Paulo isso se dá de maneira acentuada. Talvez seja por isso que se elejam políticos coniventes com esse tipo de atitude. Basta ver, por exemplo, os vereadores eleitos por aqui…

Nessa mesma palestra, Chauí declarou que ela viaja pelo Brasil inteiro e que como a classe média paulistana ela nunca viu igual. Pois é, mas candidatos como o Celso Russomano nós já vimos parecidos, muitas vezes, talvez com outros rostos, com outros discursos. Por sorte, evitamos um resultado catastrófico, mas o tal “fenômeno Russomano” revelou alguns sintomas da nossa mentalidade caduca. Mesmo o susto tendo passado, esse “fenômeno” não começou com a candidatura desse bendito nem terminou com a sua derrota. Seria possível, então, falar num “russomanismo” como um movimento tão forte como já foi o malufismo? Ainda é cedo para saber, mas, tratando-se de São Paulo, é bem provável.

Com o Russomano fora da disputa (pelo menos por enquanto), os paulistanos tiveram de escolher hoje entre Fernando Haddad e José Serra. Este último nós também já tínhamos visto várias vezes, com o mesmo rosto, com o mesmo discurso e o mesmo jeito de fazer política. E ele fez de tudo para ganhar: participou de um culto evangélico, foi apoiado por Malafaia, jogou futebol em Ermelino Matarazzo, criticou o kit anti-homofobia de Haddad e defendeu o Coronel Telhada. Teria Serra seguido os mandamentos do “russomanismo”? Esperem, não respondam ainda que eu preciso fazer uma retificação imediatamente: ele, na realidade, fez de tudo para perder – perdeu o sapato, a credibilidade e possivelmente a sua última chance de ser eleito para algum cargo no Executivo.

Felizmente, os paulistanos escolheram Haddad, um rosto relativamente novo do PT que promete arejar um pouco a política sufocada e sufocante de São Paulo e que, como Freixo, conseguiu empolgar alguns eleitores que clamam por mudança. Não há dúvida de que o Serra teve mais votos nos bairros mais ricos, pois sua política condiz com o que quer a tal da classe média que mereceu a crítica de Marilena Chauí (e a nossa). Dessa vez, porém, a taxa de rejeição do Serra falou mais alto e a classe média conservadora perdeu. Os paulistanos não cometeram novamente o erro de deixar políticos que atacam, abusam e sufocam tomarem o poder da nossa cidade.

E vocês podem estar se perguntando agora o que acontecerá agora com o Serra e  com o Russomano. Não me surpreenderia nada se o Serra se candidatasse a síndico do seu prédio, prometendo aos condôminos ficar até o fim do mandato. Já o futuro do “russomanismo” e do Russomano é incerto, mas eu tenho esperança de que ele vá catar uvinhas e suma.

PS: Já que tudo indica que Haddad venceu mesmo, posso quebrar o protocolo? Chupa, V.,G., F., E., R., S., E., R., R., A.!

Desejo.

Por Paula Elias

Esses dias recebi a notícia que um casal querido vai ter o primeiro filho.

O neném deve nascer em junho de 2013. Se for menina, Lígia, se for menino, Artur. Já é uma criança super amada, super mimada, cheia de tias corujas [ca-ham] pra enchê-la de beijocas.

Outro dia o Luís Henrique – o famoso Pão- escreveu sobre vontade de mudar o mundo. Khalil Gibran escreveu que “toda semente é um anseio”: essa pequena semente de vida me encheu de anseios por um mundo melhor.

A hobbesiana que mora dentro de mim já revirou os olhos, fingiu enfiar o dedo na garganta e ameaçou injetar insulina na minha veia: eu não ligo. Hoje vou jogar flores pra cima, cantar age of aquarius, e deixar a bicho-grilagem dominar geral.

Voltando a história: acabou que eu fiquei pensando nas coisas que eu gostaria que mudassem no mundo, para que essa criança vivesse na melhor humanidade possível.

Ao fim, ao cabo, – como diria um grande professor são paulino – não desejo muita coisa.

Desejo que essa criança tenha seus direitos respeitados. Que ela tenha acesso à saúde, à educação, à cultura. Mas que nada faça um “dodói” sarar mais rápido que um beijo de mãe.

Desejo que essa criança nunca seja julgada pela cor dos cabelos, da pele, dos olhos. Tampouco pelo manequim da roupa. Que ela saiba que é linda, de dentro pra fora, de fora pra dentro, e que nunca deixe capa de revista ou novela alguma lhe dizer o contrário.

Desejo a ela ar puro pra respirar, mar limpo pra pular ondas no ano novo, árvores pra comer fruta do pé.

Desejo que ela saiba andar de bike desde pequena, e que, mesmo morando em SP, pedale bastante para aprender que na vida também precisamos tirar as rodinhas uma hora ou outra.

Desejo que ela se orgulhe muito das origens duplamente libanesas, mas que se orgulhe mais ainda de ser brasileira. Desejo que ela possa  viver num mundo em paz, para conhecê-lo todinho e encontrar irmãos por todos os cantos.

Desejo que ela saiba amar. Amar profundamente. Desejo que ela encontre o amor, quantas vezes quiser, puder ou imaginar! Desejo que ela nunca sinta medo do amor, nem ache que seus sentimentos são errados, pecado ou crime.

Desejo que ela tenha o direito de se casar com quem ama. E por fim, de ter filhos com quem ama.

Para que eu possa desejar tudo isso de novo.

O que esperar de Fernando Haddad prefeito?

Por Leonardo Calderoni

Pode-se votar 13, 45, branco, nulo ou até boicotar as eleições. Muitos outros dirão que tanto faz o que se faça ou se deixe de fazer. De qualquer modo, a campanha está chegando ao fim e no domingo conheceremos o novo prefeito de São Paulo. A menos que alguma tragédia ou milagre (a depender do ponto de vista) sem precedentes na história das eleições paulistanas ocorra, Fernando Haddad será eleito. E o que se deve esperar de uma (muitíssimo provável) gestão Haddad? Longe de esgotar a questão, tentarei aqui iniciar uma reflexão sobre essa iminente possibilidade.

Consumada, a eleição de Haddad representará a terceira prefeitura do PT em São Paulo. No entanto, não deve representar uma repetição do passado. As experiências das prefeituras petistas de Luiza Erundina (1989-1992) e Marta Suplicy (2001-2004) servem como parâmetros de comparação importantes, porém bastante limitados. Os contextos e os atores são diferentes nos três casos.

Por que afirmo isso? No primeiro caso, é bem simples: quando Erundina surpreendeu o país ao eleger-se prefeita nas eleições de 1988, o PT era um partido muito menos forte e muito mais de esquerda (esquerda com E maiúsculo e ninguém duvidava disso). Como era de se esperar, ela teve enormes dificuldades para governar: foi boicotada virulentamente por empresários, pela mídia e pelo resto da classe política.

Para piorar, o país se encontrava no final da década de 1980 em uma situação caótica: o crescimento econômico estava lá embaixo e a inflação nas alturas. Em outras palavras: se já não bastasse ser boicotada por todos os lados, havia para Erundina uma natural dificuldade arrecadatória e administrativa pelo contexto da época. Ainda assim, diz-se que a sua gestão foi corajosa e marcada por importantes realizações sociais, uma das razões pela qual se explicaria o fato da ex-prefeita, até os dias hoje, ter bastante força política nas periferias da cidade.

Ao pensar no governo de Marta Suplicy, também marcado por realizações sociais importantes e no qual o próprio Haddad trabalhou, a comparação talvez tenha mais sentido. Contudo, é preciso tomar alguns cuidados. O PT no início dos anos 2000 já era um partido mais forte do que na década de 1980. Mas não tinha a força e sustentação que adquiriu após a chegada de Lula na presidência a partir de 2003 (e em especial a partir de seu segundo mandato). De maneira distinta em relação à Erundina, Marta também teve consideráveis dificuldades de governabilidade e problemas de cunho arrecadatório e administrativo.

Convém lembrar que ela recebeu uma prefeitura arrasada pelos 8 anos de corrupção desenfreada das péssimas gestões de Paulo Maluf (1993-1996) e Celso Pitta (1997-2000). Ademais, o Brasil, no período que vai do final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso ao início do primeiro mandato de Lula, não estava lá muito bem das pernas economicamente. Nas eleições municipais de 2008, Marta cansou de dizer  que, caso fosse eleita e tivesse uma nova chance, poderia fazer muito mais que em sua gestão anterior. Segundo a ex-prefeita, ela teria 10 bilhões de reais a mais para investir.

É importante perceber que a situação de Fernando Haddad ao (muitíssimo provavelmente) iniciar sua gestão na prefeitura ano que vem será bastante diferente das de suas predecessoras. O PT hoje em dia é um partido muito mais forte. Com a sua reconfiguração político-ideológica, sustentado por alianças questionáveis (porem não desprezíveis) e com a promessa de ajuda maciça do governo Dilma Rousseff, Haddad governará sob marcos diferentes dos de Erundina e Marta.

Se esses novos marcos implicam em limitações sob a óptica do poderíamos chamar de “enfrentamento ideológico de grandes interesses”, também significam grandes potencialidades do ponto de vista administrativo. Não se pode esquecer que o país também vive outro momento econômico. Nossa economia pode até dar uma patinada aqui e acolá, mas o contexto atual é indubitavelmente bem melhor do que os dois anteriores. No ano que vem, São Paulo terá um orçamento recorde e acima do previsto de mais de 40 bilhões de reais.

Trocando em miúdos: a despeito de todas as limitações, Haddad e o PT estão com a faca e o queijo na mão para mostrarem ao que vieram na cidade de São Paulo. Não têm condições de romper magica e revolucionariamente paradigmas de longa data, mas têm, sim, todas as condições de promover relevantes realizações. Adicionalmente, é importante dizer que a campanha do petista teve forte apoio nas regiões mais pobres e carentes da cidade, da juventude em geral e de muitos movimentos sociais (e isto não é juízo de valor; é uma constatação factual). Portanto, a expectativa em relação ao governo Haddad não será alta. Será altíssima. Sua própria candidatura ajudou a edificá-la ao contrapor-se de maneira veemente aos inúmeros destemperos da gestão Kassab e, principalmente, ao tratar de modo pormenorizado algumas das complexas problemáticas da cidade que estão aí há muito tempo.

Passado o momento eleitoral, será preciso analisar cada vez mais atentamente os enormes desafios que se colocam para o próximo governo e as suas ações subsequentes. No caso de um governo Haddad, estou convicto de que, caso a sua gestão não consiga realizar pelo menos parte significativa das promessas de campanha, ele o PT terão enormes problemas nas eleições paulistanas de 2016. E então não importará quão alto seja o sucesso relativo do Partido dos Trabalhadores no plano federal e em outros rincões do Brasil. Sampa, a terra da garoa, é um mundo à parte.

Gato, galã, bonitão etc

Por Maíra Souza

Outro dia eu estava parada no trânsito, ouvindo traquilamente Gangnam Style no rádio, enquanto cultivava meus hábitos saudáveis de alimentação entre um sinal vermelho e outro. Foi quando um rapaz bateu no vidro do meu carro e pediu um gole da minha Coca-Cola e um pouco das minhas batatas fritas do Mc Donald’s. Imaginei meus pais recomendando a não abrir os vidros, mas ignorei minha racionalidade preventiva de paulistana e cedi: dei o meu lanche e passei algumas horas pensando no quão ruim deve ser viver de restos.

E é sobre essa população que sobrevive com os restos do dinheiro público, das roupas, da boa-vontade e dos Mc Donald’s alheios. Essa semana, acompanhei o caso do Rafael Nunes, a nova subcelebridade conhecida nas redes sociais e nos jornais como “Mendigo gato de Curitiba” ou mendigo galã, mendigo bonitão, e afins.

Para quem não sabe, a história é a seguinte: uma mulher passeava no centro de Curitiba quando o Rafael pediu para que ela tirasse uma foto dele porque ele queria ser famoso. Ela assim o fez, postou a foto dele no Facebook e em algumas horas, ele já estava no feed de notícias de milhares de pessoas. A questão é que o Rafael se destacou dos outros milhares de mendigos de Curitiba, do Brasil e do mundo porque ele é gato – definindo, aqui, gato como: estilo de beleza totalmente adequada aos padrões europeus, pele branca, loiro, olhos azuis, alto, e com aquela barba por fazer que as mina pira. [vide] E, de fato, houve um alvoroço de mulheres dispostas a adotá-lo e comentando que o levariam para casa, dariam casa, comida e roupa lavada. Afinal, onde já se viu mendigo feio, não é mesmo?! Logo, surgiram diversas especulações sobre o rapaz ser uma farsa, pois “um cara desses não pode viver na rua!”.

Uma vez comprovada a veracidade da desgraça do Rafael, sabemos que ele veio de uma família de classe média e costumava ser modelo, até que entregou-se ao crack, disse “no, no and no” para a rehab, e optou por viver na rua. [veja a tentativa da entrevista com ele] A repercussão dessa história sensibilizou uma clinica de reabilitação que ofereceu tratamento ao rapaz, e agora Rafael passa bem e internado por tempo indeterminado – e, aposto que daqui a alguns meses ele dará uma entrevista exclusiva ao Fantástico ou até participará de algum reallity show.

Engraçado como a figura de vagabundo ou delinqüente muda drasticamente quando uma exceção foge à regra. Do paradoxo da foto, notou-se que “viciado” passou a ser “doente”, que “vagabundo” transformou-se em “ex-modelo” e que “degradante” virou “misterioso”. Um dos comentários sobre a foto afirmava: “Lindo e viciado… ele não devia ser mendigo. Devia ser galã da Globo”. E quem deveria ser mendigo? Que beleza abre portas nunca foi segredo para ninguém, e, assim como o dinheiro, pode trazer cor aos invisíveis. Triste que os outros milhares de feios não mereçam um pouco de audiência ou uma oferta de tratamento.

Os malefícios do crack não estão imunes a nenhuma classe social ou características físicas, e desejo toda a sorte do mundo ao Rafael. Vale observar que há quem viva nessas condições por ironia do destino, do livre arbítrio e da própria realidade. Assim como há quem já nasceu nas ruas, há quem nasceu feio, há quem nasceu bonito. Acontece, não é mesmo?!

Os atributos físicos são mais perceptíveis, inclusive para a solidariedade. Muitos viram no Rafael a figura de um sapo que, a partir de um beijo (ou, no caso, de uma rehab) se transformaria num príncipe digno de qualquer final feliz da Disney. A imagem do galã que não pertence ao submundo vivido nas ruas, repleto de todos os antagônicos de beleza incomoda, assim como a Cracolândia ou o sopão.

Dei uma lida no último censo dos moradores de rua de São Paulo, e, dos frenquentam os albergues da prefeitura, a maioria é paulista, alfabetizado (muitos com ensino superior completo), dependente químico, com passagens pela FEBEM Fundação Casa, e quase a metade não possui nenhum documento, excluídos, portanto, da vida civil, da cidadania, da visibilidade – inclusive, uma vez liguei para o SAMU quando presenciei um mendigo tendo uma convulsão na rua, e a moça informou que não poderiam fazer nada pois o SAMU não atende mendigos.

Enfim, escândalo mesmo é ser GATO. Simples assim.