Antropologia urbana.

Por  Paula Elias

Todo mundo devia trabalhar em casa por algum período da vida. Digo isso porque durante meu mestrado passei mais de dois anos fazendo “home office”,  atividade mais conhecida como surtar de pijama na frente do Word. Trabalhar em casa dá a chance de conhecer a fauna e a flora das suas cercanias, distração melhor do que ficar olhando para a geladeira aberta como se ela fosse o oráculo de Delfos do século XXI.

Aqui pelas minhas bandas, por exemplo, temos um selvagem que aterroriza a vizinhança: um CARIOCA. Nos momentos de desespero, tédio ou procrastinação estudar sua existência e impacto no seu (nosso) habitat me fez sentir um mix de Lévi-Strauss com narradora de documentário do Discovery.

O tal do carioca é responsável por 88,7% das gritarias indesejáveis na minha vizinhança. Não, ele não bate na mulher, nem discute no bar, o negócio é o Flamengo.

Em dia de jogo do Flamengo ele se põe na sua janela e de tempos em tempos inicia um canto solitário: MEEEEEEEEEENGOOOOOOOOOOOO!

MEEEEEEEEEENGOOOOOOOOOOOO!

Seus vizinhos paulistanos estressadinhos não hesitam em mandá-lo calar a boca, voltar pro Rio, “carioca folgado, meu”, “são três da tarde esse cara não trabalha, pô”, etc, etc. Confesso que já me flagrei desejando poderes psíquicos pra quebrar a TV dele e impedir que ele assistisse o maldito MENGO!

Ele me lembra uma baleia jubarte sozinha no oceano, sem nenhum amiguinho pra fazer carioquice com ele. Sua existência parece se justificar unicamente pela irritação e estranhamento que causa a seus vizinhos, já que até hoje ninguém se juntou a ele ou respondeu “aqui é Vasco, mermão”, ou alguma expressão em carioquês.

O grito de mengo nas quartas feiras, o andar de havaiana em dia de semana no meio do expediente, chamar bolacha e biscoito e aquele sotaque que consegue enfiar 2437 vogais em “E aí?”: tudo parece MUITO intencional, só pra reafirmar constantemente sua existência.

Essa quarta começou de novo uma gritaria no finzinho da tarde. Já pensei com meus botões: ai, não… de novo não. Até que eu me lembrei que não tinha jogo do Mengão: ele já tinha jogado – e empatado –  com o Vasco.

O responsável pelo barulho não era o carioca, era uma outra pessoa qualquer. E não é que eu fiquei triste?

Acho que, no fundo, eu até gosto dos gritos do vizinho. Arrisco a dizer que toda a implicância paulistana com os cariocas é que nem birra de criança com sono.

Estamos sempre correndo, estressados, selva de pedra… aí vem aquele sotaque de “sou flamengo e tenho uma nega chamada Teresa” pra nos lembrar de areias branquinhas, caipirinha, samba e descanso?! Não há quem contenha a frustração.

É: fiquei triste quando percebi que não era o tal do carioca. E saindo de casa, apressada como sempre, deixei minha cabeça relaxar, colocar havaianas e desejar pelas próximas feriazinhas no Rio….

PS. Mãe, pode ficar calma, eu prometo que não aplaudo o pôr do sol…

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O grande dia

Há 5 meses foi a minha formatura. Como toda formanda no dia da festa, tive o meu dia de princesa à la Netinho. No que eu estava no salão fazendo as unhas, conversava com a minha tia sobre a minha ansiedade para a festa e tudo mais. Nisso, uma moça me perguntou: “É HOJE O GRANDE DIA?”. Tensão.

Depois de uns 2 segundos de pânico por me imaginar na mesma situação só que no contexto do dia do meu casamento, disse que não. Daí a moça perguntou qual era a ocasião, e minha tia respondeu que se tratava de uma comemoração bem melhor do que casamento, afinal, eu tinha apenas 22 primaveras. A moça nos olhou com uma certa indignação e disse: “mas o que pode ser melhor do que casar?”.

Essa pergunta ficou um tempo na minha cabeça. Fiz uma lista mental de dezenas de ocasiões que me deixariam mais feliz e completa, como: viajar, fazer outro intercâmbio, trabalhar um tempo em outra cidade, conhecer um Mr. Grey (risos), descobrir o que eu quero fazer da vida por conta própria, fazer um mestrado, comprar um apartamento com as minhas economias (embora, no momento, estas não sejam o suficiente nem para comprar a casa da Barbie), entre outros itens da minha to do list antes dos 30.

Ao responder que se tratava da minha festa de formatura, a moça fez um “hum, legal”,no maior estilo “grande bosta”. Lembrei dessa história pois hoje conheci duas noivas. Uma de 21, e outra de 19 anos. Ambas namoravam há 5 anos e pareciam felizes da vida. Engraçado como a nossa geração é conhecida por ser tão interessada pelo efêmero e pelas mudanças constantes, ao mesmo passo em que parte dela sonha com o casamento como o final feliz merecido.

Mas será?! Paixão e amor verdadeiro à parte, hoje em dia não temos coisas mais diferentes para almejar? Às vezes fico na dúvida se eu estou ficando velha, ou se as pessoas estão envelhecendo antes da hora. Ok, cada um com seu sonho. Mas…

Segundo uma breve estatística dos meus amigos mais próximos, 5 a cada 10 famílias têm pais divorciados – sem contar os meus. Sim, todo mundo sabe que o significado da palavra casamento mudou muito nas últimas décadas, e que ainda continua mudando. No fundo, todo mundo meio que quer encontrar a tampa da sua panela, juntar os trapos e tudo mais. Mas também, todo mundo quer poder se divorciar se necessário, pois, o “até que a morte nos separe” não existe mais – ainda bem!.

O sonho de vestir-se de noiva é inerente a milhões de meninas, e não vejo problema nenhum nisso. Entretanto, não consigo entender pra que realizar esse sonho aos 20 anos de idade. Religião, paixão, pretexto para sair de casa, ou simplesmente viver uma aventura de comédia romântica, e várias outras razões explicam. Eu, pelo menos, gostaria de viver dezenas de grandes dias antes de jogar um buquê pro alto. Fica a reflexão.

A morte do padre

Por Maria Shirts

Ontem um padre foi morto na PUC-SP. Desmembrado. Decapitado em praça pública, enquanto o coro berrava: “Corta! Corta! Corta!”. Parece narrativa de romance policial série B. Mas, na verdade, esse foi o cenário do Pátio da Cruz, ontem, que recebeu uma performance de ninguém menos que Zé Celso, dramaturgo da antropofagia ou, para outros, “aquele cara meio maluco do teatro”.

Para aqueles que não entenderam nada, explico: A PUC-SP (universidade na qual eu curso Relações Internacionais) foi alvo, na primeira quinzena deste mês, de mais uma atitude autoritária da igreja. Lá, pra quem não sabe, acontecem, a cada quatro anos, eleições para reitor. E nós (alunos, professores e funcionários) temos o privilégio de escolher o nosso representante. As eleições aconteceram em agosto deste ano. Quem ganhou? O atual reitor, o professor Dirceu de Mello, um senhorzinho pra lá de esperto da faculdade de Direito. Diferente nosso processo eleitoral, né?

O problema foi que a autoridade mor da instituição, um sujeito chamado Dom Odilo Pedro Scherer, escolheu outra pessoa para ocupar este cargo, a professora Anna Cintra que, de esperta, ao meu ver, não tem nada. Antes que eu provoque qualquer desentendimento, já ressalvo que sim, Dom Odilo – cardeal e arcebispo metropolitano de São Paulo – pôde, legalmente, escolher a Anna Cintra. Isso porque a comunidade puquiana ainda está refém deste instrumento que mascara a democracia: a lista-tríplice. E por que a revolta, então, filhos de Deus? Porque ora, isso é anti-democrático, vamo combiná? Se você continua sem entender, retorne duas semanas e leia estas mal traçadas aqui.

Não preciso nem dizer que a atitude de Odilo revoltou a comunidade puquiana. Desde o dia 13 de novembro decretamos greve e, a partir de então, alunos, professores e funcionários têm promovido atividades extra-curriculares como aulas públicas, oficinas, atos e afins. E, por incrível que isso possa parecer aos de fora (ou mesmo a alguns de dentro), essas atividades têm sido muito enriquecedoras.

O cenário de ontem foi um exemplo disso. Zé Celso conduziu, com a sua turma (talentosíssima, diga-se de passagem), um espetáculo cheio de humor e crítica no Pátio da Cruz, ânima da nossa faculdade. Os alunos, dispostos num formato de “arena”, assistiram ao dramaturgo e seus atores desmembraram um padre de uns 4 metros que mais parecia um bonecão de Olinda, risos. Membro a membro foram cortados daquele bonecão, mas sempre com a autorização da platéia que ovacionava, com um quê sádico: Corta! Corta! Corta!

Nada mais natural, pensei com os meus botões. A psiquê humana é mesmo curiosa. A raiva que todos estão sentido de Dom Odilo e do que ele representa foi totalmente projetada naquele espetáculo, naquele bonecão de Olinda. Pontos para Zé Celso, que soube explorar essa raiva e aquela juventude. Me perguntei diversas vezes quando teria a oportunidade de ver algo parecido, novamente.

Como se não bastasse toda aquela zueira, manchas de sangue (falso gente, calma) por toda PUC, serra elétrica quase acertando os alunos, atores enfurecidos dançando na cruz (mesmo), risos, coros, enfim, uma tragédia grega, pede-se, ao fim do espetáculo, que todos dancem Gangnam Style, juntos, no próprio Pátio da Cruz.

Podem falar o que quiser mas o movimento, antes de unitário, é pra lá de bem humorado.

Cessar-fogo

por Luís H. Deutsch

Não precisamos ir até Gaza, Sderot ou até à Síria para nos depararmos com a violência. Não é necessário viver nas periferias perigosas de São Paulo, de Florianópolis, ou do Rio de Janeiro para ver de perto a truculência. A violência vive perto de nós, e mais perto do que imaginamos.

Viver em um mundo que preza pela meritocracia acima de tudo, quando oferece mesmas metas a pessoas que não têm os mesmos poderes já é uma violência. Uma violência aos desfavorecidos.

Transitar em ruas que parecem vias expressas para o Inferno, onde o pedestre consegue ir para o outro lado apenas por misericórdia de motoristas que cada vez mais se assemelham a quimeras sem cérebro, incapazes de esperar e de ensinar, também é uma violência. Uma violência à civilidade e à educação. Sem esquecer o praticamente abuso sexual aos ouvidos que é escutar uma pessoa que não tem dó de enterrar sua mão na buzina quando algo a desagrada…

Desrespeitar a vontade da maioria e a escolha dos interessados e crivar atos de barbaridade autocrática em um ambiente que preza pela livre escolha, pelo pensamento sem fronteiras e pela qualidade de formação humana e altamente reconhecida é outra face da já tão falada violência. Uma violência à democracia.

Para viver essa violência toda, realmente não precisamos estar naqueles prédios sempre esfumaçados do Oriente Médio, nem presos em uma selva na Colômbia ou morando em uma favela brasileira vendo um busão pegar fogo dia sim, dia não.

Dentro de nossos condomínios, dentro de nossas escolas, dentro de nossa sociedade, dentro dos nossos Facebooks… Nas nossas avenidas, alamedas arborizadas e pacatas vilas… Na nossa Universidade e no nosso trabalho. Há violência onde quer que nossos olhos possam alcançar. Essa infelizmente é a verdade por trás de tanta hipocrisia dos defensores da paz, que esquecem qualquer pomba branca na hora de serem atendidos no super-mercado e mandar a velha da fila preferencial tomar no coelhinho, se eu fosse como tu…

Para essas violências, cadê o cessar-fogo? Quem vai mediar isso? Quem vai anunciar isso?

Espero que não estejamos esperando ninguém fazer isso por nós, né? Ao contrário da violência que gera violência… A gentileza gera gentileza por sua vez… E parte das nossas pessoinhas pensar isso.

Nunca quis ser doutrinador, muito menos utópico. Acho que só basta ser plausível. Verossímil e possível… Assim quem sabe, essas várias guerras diárias terminam em vários e mais que necessários armistícios.

Padrão Príncipe

Texto de Isadora Perlatto, enviado ao Esparrela como participação especial.

Era uma vez uma francesa (que poderia ser muito bem brasileira, angolana, peruana ou inglesa) que se apaixonou perdidamente por um homem incrível. Depois de perceber que ele era o certo, largou tudo e deu adeus à sua vida inteira por ele, mudando-se para o Brasil, já que de tão especial, não houve espaço para dúvidas. E eles viveram felizes para sempre….Hum, nem tanto. Depois de um breve final feliz, ele a trocou por outra e ela ficou no Brasil mesmo, dando aulas de francês. E sozinha.

Ouvi essa história, verídica por sinal e bastante resumida, de uma mulher sensata e moderna do século XXI, acoplada do seguinte comentário: “Morro de medo de largar tudo por um filho da puta e errar.” Frase que eu assinei em baixo e reconheceria firma, se fosse preciso. Mas depois de alguns segundos, me deparei com uma linha de raciocínio que pode soar um verdadeiro pecado para as feministas em questão. E o fato é, com raras exceções (e nessas raras existe uma tremenda e profunda desconstrução de criação), ainda somos educadas a pensar no que eu chamo de “padrão príncipe”.

Racionalmente não esperamos pelo príncipe Felipe surgindo no cavalo branco, com um beijo tão bom que nos acorda para vida. Não, não esperamos. Mas esperamos o The One – que mulher que não usou ou ouviu alguma amiga usando essa expressão ou derivada dela, que ponha o dedo aqui -, aquele que vai combinar com a gente a tal ponto que os babacas de plantão vão ser esquecidos e vamos ter nosso final feliz (com contas, filhos, babás e tentativas de promoção, porém com uma escolha acertada de um homem que vai nos apoiar ao longo de tudo isso).

Quando ouvimos a história da francesa, portanto, nosso ideal subconsciente entra em choque. E a ideia de uma escolha errada da parte dela é a primeira que vem, seguida do fato de que o homem era definitivamente um babaca. E a francesa, pobre mulher, desperdiçou a chance dela do final feliz. Todo mundo olha com pena, disfarçada ou não, consciente ou não, para essa mulher largada. Será? Por que eu posso reescrever a história dela em dois segundos:

“Era um vez uma francesa que se apaixonou por um cara muito especial e resolveu se mudar para o Brasil com ele. Chegando lá, percebeu que eles não eram feitos um para o outro. Eles recomeçaram a vida – ele com uma outra excelente mulher, ela vivendo em país novo, o que fez com que sua vida se enchesse de coisas novas e de escolhas absurdamente mais excitantes.”

Soa como um final feliz, não? Pelo menos um momentâneo. Fomos criadas para acreditar nesse pretenso final feliz. A Disney diz isso tão bem que todas temos uma princesa preferida. Com uma sociedade que se aproxima dos 50% de casamentos se transformando em divórcio, porque temos dificuldade em lidar com isso? Porque o reconhecimento do recomeço é tão complexo? Talvez seja a vez da nossa geração começar a quebrar esse paradigma que ainda é um eco tão forte nas nossas cabeças e que gera tanta pressão nos relacionamentos a partir de determinado ponto. A pressa pra casar, para se certificar que o fulano não é um certo potencial, é o the one em si.

Pensando nisso, acabei vendo uma cena da Bela Adormecida, em que a cintura irreal da Aurora (a divisão dos órgãos dela realmente não se aplica aos moldes humanos) está dançando com a coruja que bem poderia ser as amigas na balada, se encontra com o príncipe Felipe, sim, o mesmo lá de cima, que dá um chega para lá na coruja/amiga, que fica com uma cara de ‘poutz, já foi’. E eles haviam sonhado um com o outro, se conhecido em sonho e tals, mas Aurora tenta ir embora. Felipe se desculpa por não querer assustá-la e ela, vira em toda a sua “inocência” e diz:

“Não é isso, mas é que você é um estranho.”

“Um estranho? Mas não se lembra, nós já nos vimos antes, em um sonho”.

E eles começam, claro, a cantar e decidem que se amam a partir desse grande diálogo, terminando a cena indo para um canto escuro. E com as devidas diferenças, afinal o desenho foi feito na década de 50, se a Aurora estivesse com uma saia bandage e Felipe com uma blusa da Abercrombie na balada, e não no bosque, esse tipo de diálogo ainda faria sentido. Pode não ser do seu estilo, pode não ser com você, mas o padrão está aí.

De forma que a pobre francesa, que foi largada pelo derivado do Felipe, é tida como coitada, mesmo que ela esteja feliz da vida no Brasil, pegando uma praia, dando suas aulas, talvez curtindo os derivados mesmo, e, quem sabe, quero acreditar nisso, mais liberta que a maioria das mulheres que espera seu príncipe inexistente chegar chegando e solapando todas as idiossincrasias dos homens verdadeiros que, por não serem príncipes, são muitos mais reais e, logo, bem mais parecidos com a gente.

A difícil vida de um fascistinha no século XXI

Por Fernando Rinaldi

Não era a primeira vez um fascistinha. Ele pode ser qualquer um e é, muitas vezes, alguém que vive muito próximo de nós: nosso amigo, nosso parente, nosso conhecido de longa data. O que importa é ele é um fascistinha e que ele vive no século XXI.

O fascistinha pode até ser uma pessoa aparentemente bacana, engraçada, bem instruída… Mas é um fascistinha. E uma hora ou outra ele é descoberto. Numa conversa casual, descontraída, o fascistinha fala: “Lá é um lugar horrível, tem muito povinho”. No trânsito, o fascistinha xinga como um fascistinha: “Baiano do caralho, volta para sua terra!”. Aliás, segundo um fascistinha, cada um tem que ficar na sua terra mesmo. Os imigrantes que vivem na Europa, por exemplo, só serviram para estragar as cidades que o fascistinha visita nas férias: “Paris é a cidade mais linda do mundo. Pena que agora está cheia de africanos, de árabes…”, lamenta-se o fascistinha.

Se o fascistinha fica sabendo que várias pessoas foram retiradas impetuosamente do lugar onde moravam porque estavam vivendo lá ilegalmente, o fascistinha enche a boca para falar de justiça: “Tem mais é que tirar mesmo. Lei é lei. O que é certo é certo, o que é justo é justo”. Sobre os desabamentos que acontecem quando cai uma pancada de chuva, ele apenas comenta: “Não era para menos. Construir essas casas desordenadamente em áreas de risco é pedir para que aconteça uma tragédia”. Isso não significa que o fascistinha tenha necessariamente coração de pedra – ele pode até ficar com os olhos marejados quando ele assiste a essas tragédias no Jornal Nacional.

Quando vê uma passeata, qualquer que seja, o fascistinha não hesita em chamar todos de vagabundos. Quando vê que os estudantes de alguma universidade pública estão em greve, simplifica a questão dizendo que quem não está feliz deveria sair para dar espaço a quem realmente quer estudar, que o imposto dele não serve para bancar gente que faz bagunça.

Índio? Tem mais é que trabalhar, bando de folgados que vive à custa dos nossos impostos. Bolsa Família? Obviamente é um instrumento de um governo populista para angariar votos da população ignorante – só não vê quem não quer. Cotas raciais? Idem. Um fascistinha pode até ser a favor do direito dos trabalhadores, desde que ele não precise registrar a empregada que trabalha na casa dele.

O único filme brasileiro que o fascistinha gosta é o Tropa de elite porque o fascistinha vibra vendo os traficantes apanhando. Bandido tem de morrer, seja pelas armas da polícia, seja por pena de morte. Sim, o fascistinha é a favor da pena de morte para aumentar a segurança no país, a despeito de ele ser a favor da vida quando se trata de aborto. E em torno da favela, é claro, tem que construir muro. “Imagina na Copa e nas Olimpíadas! Como o Brasil vai fazer para esconder todos os mendigos quando os gringos chegarem?”

Então o fascistinha é necessariamente um preconceituoso? Vejam, o fascistinha não tem preconceito contra homossexual desde que ele não haja muita aproximação física, desde que o homossexual não chegue muito perto. Aliás, não se deve combater a homofobia nas escolas, pois isso pode incentivar o filho do fascistinha a virar um homossexual. Para o fascistinha, essa história de homofobia é uma palhaçada; o que deve ser combatido mesmo é a heterofobia.

Mas, ai, como é dura a vida do fascistinha no século XXI! Ele nem pode manifestar sua opinião que vêm aqueles malas defensores dos direitos humanos para encher o seu saco. Onde foi parar a liberdade de expressão? “O mundo de hoje anda muito chato com essa coisa de politicamente correto para lá, politicamente correto para cá”, filosofa o fascistinha. Para o fascistinha, o mundo tinha graça quando se podia discriminar indiscriminadamente: “Hoje, fazer piada sobre negro e gay não pode mais. O mundo de está ficando muito sem graça…”

Na Internet, a situação do fascistinha é pior ainda. Se o fascistinha faz um comentário de fascistinha num vídeo do Youtube, o comentário irá receber votos negativos demais e irá sumir. Se ele disser o que está pensando no Facebook, seu status será bombardeado de comentários e críticas. O fascistinha pode até ser bloqueado, perder amigos… No Twitter, se ele for um fascistinha em 140 caracteres, com certeza perderá alguns seguidores. Em casos mais graves, alguém poderá até dar um print screen na frase do fascistinha e publicar em alguma rede social. A partir daí, o tal fascistinha não terá mais paz.

E o que acontece quando o fascistinha ganha um espaço num jornal ou numa revista de grande circulação? Quando ele manifesta sua opinião de fascistinha não demora muito a aparecer milhares de revoltados para criticá-lo nas redes sociais: compartilham textos, escrevem comentários, manifestam sua opinião, mandam e-mails avacalhando o fascistinha, muitas vezes um “intelectual renomado” que, do dia para a noite, perde sua credibilidade. São vários os blogs como este em que se escrevem textos para desmoralizar os fascistinhas. E o que faz um fascistinha quando isso acontece? Das duas uma: ou o fascistinha diz que não foi compreendido ou ele nem liga. Afinal, existem vários outros fascistinhas para apoiá-lo, para dizer que finalmente alguém teve coragem de dizer o que eles sempre pensaram e nunca puderam manifestar.

Pois é, nós somos obrigados a dividir o mundo com os fascistinhas porque eles continuam existindo aos montes. Eles estão por aí, em todos os lugares, respaldados por outros fascistinhas. Mas – e neste ponto eu sou otimista – cada vez mais eles têm de deixar de manifestar suas intolerâncias para não serem apedrejados, criticados, ridicularizados, excluídos.

Como está ficando difícil a vida de um fascistinha no século XXI… Ainda bem!

Reflexões acerca de um foguete disparado de Gaza

Por Leonardo Calderoni

Em meados de 2007, eu estava em Israel em um programa de intercâmbio. Em dado momento, fui a um seminário em um Kibutz. “O que é um Kibutz?”, você provavelmente se perguntará. Posso explicar melhor o que foi e o que é um Kibutz com muito prazer. Mas o farei em outra oportunidade: aqui basta que saibam que é uma pequena comunidade agroindustrial.

O Kibutz no qual se realizou esse seminário se chama Holit (que em hebraico significa “areia”) e lá vivem menos de 150 pessoas, em uma vida bastante pacata, com um pouco de luxo e nenhuma pobreza. Holit também fica pertíssimo da Faixa de Gaza e da fronteira com o Egito. Poucos quilômetros os separam, embora sejam, sem sombra de dúvidas, mundos totalmente diferentes.

Em 2007, pouco tempo depois de Israel ter desocupado a Faixa de Gaza unilateralmente, foi o ano em que o Hamas tomou o poder naquele território em detrimento do Fatah (que hoje em dia controla a Cisjordânia e do qual faz parte o presidente da Autoridade Palestina). Nesse ano, o lançamento de foguetes disparados a partir daquele território pelos palestinos aumentou bastante, caindo em lugares de Israel que todos outrora diziam “não haver perigo”. Holit foi um desses lugares. E o primeiro dos foguetes inesperados caiu exatamente quando eu estava lá no meio do seminário.

O foguete que atingiu Holit naquela ocasião era um Kassam, uma arma extremamente precária usada pelos palestinos que tem pouco poder de destruição. É preciso ter muito azar para se ferir gravemente ou morrer por causa de um Kassam. A menos que ele te atinja praticamente em cheio ao ar livre ou ele estilhace uma janela em que você esteja próximo, é muito difícil que algo te aconteça.

Não que seja impossível: as vítimas israelenses por causa desses foguetes são poucas ao longo dos anos, mas existem. E é isto que faz com que o medo psicológico que os Kassams causam seja infinitamente maior do que o seu perigo real. Eles funcionam como uma espécie de “loteria às avessas”. Numa loteria, a possibilidade de ganhar é ínfima, mas sempre há aquela ponta de esperança até que saia o resultado. No caso do Kassam, a lógica se inverte e a esperança é substituída pelo medo. Puro e simples.

O que acontece quando um Kassam cai? Primeiro, soa um alarme, que já sabemos de antemão o que significa: há a iminente possibilidade de um foguete cair onde estamos. Depois de escutá-lo, há alguns segundos para, conforme as instruções que nos haviam dado, sair de perto de janelas e tentar nos esconder debaixo de alguma coisa (no meu caso, me escondi embaixo de uma escada). Quando estava debaixo daquela escada, vendo as distintas reações de medo dos que estavam à minha volta, experimentei a sensação de “loteria às avessas”. E nesse momento eu só quis uma coisa: que aquilo acabasse logo e que a vida pudesse voltar ao seu rumo normal.

Não pensei no direito internacional. Não pensei em uma solução normativa e pacifista para a solução do conflito árabe-israelense. Não pensei como os bombardeios de Israel em Gaza são desproporcionalmente piores e nefastos em relação aos danos de um Kassam. Não havia espaço para a racionalidade ou para a ponderação, só para o medo e para um desejo tão profundo quanto passageiro para que aquilo passasse de uma vez. Não importava como, só tinha que passar. E passou. O Kassam caiu em uma plantação e ninguém sofreu nada. E a minha vida, afinal, voltou ao normal.

Ter essa vivência pode ter sido difícil. Mas ainda mais difíceis são as reflexões subsequentes. É impossível não pensar que se um foguete precário como o Kassam é capaz de causar tanto medo e emperrar a vida das pessoas que moram em Holit, como deve se sentir a população civil de Gaza quando Israel a bombardeia com seu poderio militar, incomportavelmente superior ao de um Kassam? Tão superior que mata, em poucos dias, muito mais do que inúmeros Kassams mataram em uma década. A única coisa que consigo imaginar é a mesma sensação de “loteria às avessas”. Só que com a consciência de que as chances de algo sério acontecer não são tão ínfimas assim. Para os palestinos de Gaza, a loteria às avessas passa a ser uma verdadeira roleta russa.

O que quero dizer ou provar com tudo isso? Absolutamente nada; cada um que tire suas próprias conclusões e faça seus próprios juízos de valor. Não estou afim de julgar e nem ser julgado, como as pessoas adoram fazer em discussões polêmicas como essa. Motivado pelos recentes episódios e discussões sobre Israel e Gaza, quis apenas compartilhar a experiência de alguém que pôde, de maneira bastante tangencial, viver um drama humano e concreto do conflito. Não há nenhuma lição a ser dada ou tese a ser provada. O que descrevi e escrevi são apenas fatos e os meus pensamentos e e as minhas reações espontâneas a estes fatos. Fatos que tornam impossível para mim, hoje em dia, ver e discutir o conflito somente através de discussões abstratas recheadas de frias estatísticas e análises históricas, políticas ou jurídicas. Como não pensar simplesmente nas pacatas pessoas de Holit e de Gaza?

Termino dizendo que realmente não tenho nenhuma receita de bolo para solucionar o conflito. Aliás, cada vez tenho mais dúvidas em relação a todas as alternativas apresentadas. Correndo o risco de parecer ingênuo ou inapropriado em um momento como esse, no qual Gaza pode ser invadida com forças terrestres e o conflito ganhar outras proporções, posso apenas dizer o que eu gostaria que acontecesse. Se eu tivesse a onipotência que atribuem a Deus por um dia, provavelmente transformaria todo o Oriente Médio (e o mundo inteiro, por que não?) em um pacífico ambiente multicultural de coexistência. Livre de fanatismos, exploração e opressão.

Jerusalém seria o símbolo do encontro de culturas, não de seu confronto. Gaza não viveria bloqueada e sufocada. A paz com o Egito não seria desconfiada e o Sinai não seria uma zona desocupada por causa de um acordo militar: seria amplamente habitada e teria seu potencial econômico explorado. Pensar na possibilidade de uma invasão terrestre na região seria tão absurda quanto pensar no Brasil enviando tanques à Argentina hoje em dia. Holit viveria sem o medo de foguetes e Gaza sem o medo de bombas. Ninguém mais, afinal, teria de novo aquela maldita e avessa sensação de estar vivendo sempre em uma loteria. Às avessas.