Dois mil e doce.

Por Leonardo, Maria, Maíra, Fernando, Luís Henrique Artur e Paula

A chegada do fim do ano sempre mexe com a gente. Alguns ficam mais felizes, outros melancólicos… a verdade é que todos nós paramos pra olhar por cima do ombro e pensar no ano que passou. E aqui no Esparrela não é diferente…

Para nossa tristeza, em 2012 tivemos grandes perdas com a morte de alguns gênios: gênios do humor, como Millôr Fernandes, o também maior filósofo brasileiro, e o Chico Anysio; um gênio das ciências humanas, o historiador dos historiadores Eric Hobsbawm; um gênio da literatura, o poeta Décio Pignatari; e, por último mas não menos importante, o gênio da arquitetura Oscar Niemeyer. Talvez os maias estivessem certos: o dia 21 de dezembro marca o fim de uma era, que, a despeito do fim, nos deixa o legado desses gênios, sem o qual a nova era teria menos graça, seria menos leve; sem o qual uma nova era seria impossível.

Mas 2012 não foi somente lágrimas;
Para a nossa alegria, foi um ano de Olimpíadas com direito a show da Spice Girls, pense você. Para a alegria de 30 milhões de loucos, o Corinthians ganhou os campeonatos mais significativos para um torcedor: a libertadores e o mundial. Para nossa alegria e para nossa integridade, Obama ganhou as eleições norte-americanas, o que provavelmente significa que ninguem entrará em guerra (nuclear) com o Irã. Para a nossa (ou a minha, pelo menos) alegria, a Palestina teve seu status na ONU elevado, simbolizando uma certa mudança na ordem internacional vigente. Para a nossa alegria, 2012 foi um ano de ruptura, de mudanças, de quebras de paradigmas (quer dizer, como assim o Corinthians ganhou a Libertadores?). Talvez fosse isso que os famigerados maias estivessem tentando nos mostrar

Mostrar o que nem todo mundo parecer querer ver. E a terra que mais representa o sentimento “acontece, mas eu finjo que não vejo” é nosso querido Brasil sil sil. Que em 2012 também viu milhares de coisas consideradas impossíveis surgirem. Foi prédio caindo no Rio, foi Lula e Maluf de mãos dadas, foi Dilmão na capa da Forbes, foram as cachoeiras de denúncias (que só não afogaram “mensalão”). Nossa mídia salve-salve, continuou a mesma. Ou melhor… PIOROU. Mostrou o que quis, e escondeu muita palhaçada deixando nos arquivos dos “melhores” jornais e revistas nacionais, importantíssimos casos a serem analisados. No mais, entre Barbosas e Lewandowskis, Carminhas e Ninas… Nosso varonil país cresceu e mudou nesse profético e simbólico dois mil e doze. E isso não é só otimismo não. Todos sabem disso e sentem isso! Quer dizer… Menos a nossa direita política caquética e burra, a VEJA (RIP), o Tufão… E a Luísa, que ficou PARA SEMPRE no Canadá.

2012, enfim, era para ser o derradeiro ano da humanidade. Mas apesar de todos os fatos importantes, inusitados, bons ou ruins que aconteceram neste ano, no fundo ele não deixa de ser só mais um ano de nossas vidas. E assim será enquanto o mundo realmente não acabar com a humanidade ou esta acabar com o mundo (e é com isto que nos devemos realmente nos preocupar). De resto, só nos resta o correr da vida e uma boa descrição-conselho de Guimarães Rosa sobre ela:

“A vida é assim: esquenta e esfria, 

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem”

Fica aqui então nosso desejo para vocês, queridos leitores.

Que a Fortuna sempre sorria para vocês, e, caso ela fique amarga, que vocês tenham muita Virtú para lidar com as pedras no caminho.

Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou

Esta semana fui à colação de grau do 3o ano do Colégio Oswald. Havia combinado de encontrar a querida amiga Lúcia Lima, que é repórter e fotógrafa do colégio e que, como eu, se formou ali em 2008. Mas ela me ludibriou e, enganada com o horário, fui obrigada a assistir toda a cerimônia.

Por mais que não pareça um programão, eu achei muito bacana. Estudei naquele colégio, me formei naquele mesmo palco do Estudio Emme, na minha época Bar Avenida (hahaha, falando assim parece que uso fraldas geriátricas). Tive quase os mesmos professores e ocupei aquela cadeira, da primeira fila, no dia da minha colação.

4 anos se passaram e me peguei relembrando dessa transição para o mundo “adulto”, como gostam de ressaltar os pais e pedagogos. Ouvindo ao discurso dos oradores da “turma de 2012″, me identifiquei enquanto a Maria que fui aos 17 anos. Ansiosa para viver o mundo acadêmico, angustiada por deixar aquele colégio e, ao mesmo tempo, aliviada por ter concluído aquela etapa. Hoje parece ingênuo e infantil reclamar da semana de provas, ou da monografia que produzimos no 2o ano, ou dos métodos avaliativos da “instituição escola” como um todo. E é mesmo. Mas é natural, e é importante para se perceber que a vida há de ser muito, mas muito mais complicada.

Post nostálgico, né. Mas é inevitável. Fim de ano, natal, musiquinha da Globo no loop e as famigeradas promessas para o ano que vem. Eu ainda terminei a faculdade e to no status: e agora? Mentira, eu ainda tenho o TCC pra fazer, mas enfim.

E agora?

Agora eu vou é curtir minhas férias e ir pra Buenos Aires comer um monte de bife de Chorizo. Hahaha, mas só um mês né. Depois as coisas voltam ao normal e, quando o carnaval passar, a gente começa a trabalhar, a fazer o TCC, a batalhar pra morar sozinha. A longo prazo se pensa em ir pra fora, se possível ficar 6 meses em Moscou, fazer um mestrado, conhecer a Tailândia, se der Cuba, começar a ganhar dinheiro, quem sabe casar, ter alguns filhos, ser bem sucedida…

O ser humano é mesmo curioso. No fim do ano passa sempre por esse sentimento dúbio de tristeza e melancolia, ao mesmo tempo em que fica angustiado com o futuro, pensando na pós-graduação, no sudeste asiático, nos filhos que não tem. Ê ansiedade. Ou será só sede de viver? Talvez Freud diagnosticasse como uma neurose. Para uns é até mesmo histeria.

Mas aí quem me diz são os psicólogos de plantão, que eu preciso pensar em São Petersburgo, no pós-doc que eu hei de fazer, nos meus três filhos, João, Ana e um nome a definir….

Questão de ordem

por Luís H. Deutsch

Nunca assisti a TV Câmara, Senado, Assembléia, Justiça etc. Nunca mesmo. Sempre achei chato, desinteressante, chato² e inútil. Pode até ser uma prática civilizada… Mas até aí, civilizado e divertido às vezes não figuram o mesmo significado.

Por essas e outras, eu só passava por esses canais porque tenho a estranha mania (lê-se transtorno, doença, tique) de zapear TODOS os canais da TV a cabo para “passar o tempo” e encontrar alguma coisa interessante. Quando digo TODOS, são todos. Do 1 ao 899. E que apenas Deus nos julgue, né? (parágrafo inútil)

Acontece que eu estou de mudança. Vou morar com amigos agora! E assim, emancipo-me da minha casa com quarto arrumado, comidinha feita, bife cortado, toalha dobrada e roupa passada e com cheiro de amaciante bom. Emancipo-me provisoriamente da televisão por assinatura, pois fazer QUALQUER serviço por telefone (como contratar a NET, por exemplo) é um martírio que demora mais que a leitura do Novo Testamento feita pelo Cid Moreira.

Sendo assim, ontem… No momento em que instalei a TV na sala, a antena do prédio apenas sintonizou os canais políticos. Nem a Globo, que pega em qualquer coisa que tenha tela,antena e bom-bril, pegou. Logo, ficou mesmo naquele canal (Tv Senado), bem no meio da discussão dos royalties. No meio do barraco e da bagunça.

E o que vi, foi a zona. Não porque minha nova sala virou um depósito de centenas de coisas, com uma quase de decoração de estar e uma árvore de Natal improvisada… Mas sim, porque os excelentíssimos representantes legislativos federais são quase que uns animais.

E se o rolê é por dinheiro… Mano do céu! Que putaria.

A “sessão” era um amontado de pessoas em torno do senador Lindberg Farias (PT-RJ) que tentava falar alguma coisa para a presidente de sessão, senadora xis com roupa amarela. Bom, o que parecia a estação Sé do metrô era o local da discussão de um valor ípslon de grana. QUE NEM EXISTE AINDA!!!!!!!

Os senadores, em peso, estavam lá… Gritando, fazendo musiquinhas (sim… Musiquinhas) e TIRANDO a presidente/presidenta da sessão. Até um momento que ela levantou da cadeira e lançou um: “QUER SENTAR AQUI E RESOLVER?” para o outro senador / assessor velho que estava enchendo o saco dela.

“Questão de ordem!”. Bradou o senador alfa da plenária.

Aí, Pão! Tá aí o título do seu post amanhã no Esparrela“, disse minha grande amiga Eugênia, que está me ajudando na mudança.

E voilà. Questão de ordem, né? Sei que discussões e política não se definem de modo fácil, com todos elegantemente sentados e educadamente tomando um chá. Tem que ter briga, idas e vindas. Mas bagunça daquele jeito que vi já é um pouco demais.

Fica bem evidente o interesse dos Estados pelo uso do dinheiro obtido através da exploração do petróleo. São reivindicações e reivindicações… E por mais que eu ache que tudo deveria ser aplicado na educação, é importante o debate em torno de quanto os locais onde acontecerão os serviços e que sofrerão impactos e blá blá blá vão receber. Mas o que parece que fica BEM mais evidente é a ganância desses representantes do povo.

Tem hora que dá até pra ver chifrinhos em alguns, viu?

“Senhores, não esqueçam que isso aqui é o Congresso Nacional” – tentou, em vão, a presidente da sessão acalmar os ânimos da galera.

… né?

escatologia musical

por Artur Lascala

Imagine, caro leitor do Esparrela, que a profecia maia se realize e o fim do mundo esteja próximo. Eu perguntaria a você que música desejaria ouvir no clamor do fim. Qual a trilha sonora do seu grand finale, da tão temida experiência escatológica?

Antes disso, eu gostaria de entender que qualidades você esperaria dessa música. Uma melodia singela, que acalmasse o espírito e o preparasse para os portais do Paraíso? Um ritmo violento, que condissesse com a violência da experiência humana e um fim tão sem sentido? Uma canção romântica, que lhe lembrasse das experiências amorosas transcendentes, porque, afinal, esse é o sentido da vida? Música nenhuma, pois o que importa a vida, “ó sombra fútil chamada gente”?

Cada resposta poderia corresponder a uma opção ética e uma escolha de encarar a experiência existencial, não fosse a inequívoca complexidade humana, que foge a qualquer enquadramento óbvio. No concerto derradeiro, veremos crentes aguardando a graça divina ao som de trash metal e ateus desmanchando-se ao som de uma missa de Bach. Por que não?

Se eu pudesse escolher somente uma música pro fim do mundo, acho que escolheria a Grande Fuga, opus 133 de Beethoven. Já adianto que não é porque acho que morrer ao som de música clássica seja mais nobre, ou qualquer coisa assim. Longe de mim com eruditismos! É que essa música tem algo de especial, que me toca muito, por sua energia e precisão.

Há algum tempo, a rádio cultura saiu na rua com alguns trechos de música que ele tocava pras pessoas na rua, e perguntava “qual desses que não é música?” Estava lá a Grande Fuga, mas também música eletrônica, dodecafônica e atonalismos afins. Surpreendentemente, a Grande Fuga foi a mais avaliada como não sendo música! E olhe que ela é do século XIX, de um dos grandes compositores do cânone.

Eu entendo essa estonteante “não-música” como uma defesa da vida heroica, digna de uma experiência humana sem sentido aparente, mas que rejeita o pessimismo ou fatalismo. É música que não se entrega. Se eu pudesse ouvi-la assim que os deuses maias descerem à Terra para cumprir sua profecia, o fim do mundo teria mais graça!

E você, que música escolheria?

Comemoremos

Por Fernando Rinaldi

Especialistas garantem que as férias coletivas já se aproximam, que as luzes de Natal já piscam, que as lojas já estão abarrotadas de gente, que a nossa avó já prepara a ceia e que a viagem de réveillon para a praia já está reservada. Veremos fogos, pularemos sete ondinhas, faremos um balanço das vitórias e derrotas e desejaremos bem mesmo àquela pessoa a quem sempre desejamos mal. Está certo que agora o Papa tem conta no Twitter, e bem que o governador de Rhode Island tentou mudar o nome da árvore de Natal de Christmas tree para holiday tree, mas a verdade é que os finais de ano se repetem, sem nada de novo sob os fogos de artifício, salvo a promessa de que o novo virá no ano seguinte. Não há nada a fazer, pois, senão comemorar. Ou melhor: comemorar de novo. Mas comemorar o quê? A união familiar? O fim de mais um ano? Os vinte momentos mais importantes que aparecem no nosso perfil do Facebook? Talvez mais.

Clarice Lispector faria noventa e dois anos nessa última segunda-feira, dia 10 de dezembro de 2012. Morreu há trinta e cinco anos, um dia antes de completar cinquenta e sete anos. Isso significa que nenhum de nós, escritores deste blog, tinha nascido à época de sua morte. Mas é impossível não conhecê-la. Mesmo quem não leu um livro seu sequer já deve ter lido alguma de suas frases que se espalham pela Internet na mesma velocidade dos memes. Fica o aviso: a maioria das frases atribuída a ela não foram escritas por Clarice e, mesmo quando são, desnecessário dizer que a mais celebrada das escritoras brasileiras vai muito além de suas frases fora de contexto: ela é um mundo interior movimentado, experimentação da linguagem, experiência caótica, busca da escrita; Clarice é o ritmo da procura e o encontro com o outro, com o grotesco; Clarice é, em suma, o enfrentamento radical da existência. Lispectoremos.

Em 2012, Nelson Rodrigues, dramaturgo, cronista, escritor e jornalista, teria feito cem anos se estivesse vivo. Certamente todos já fomos assistir pelo menos a uma remontagem de seus espetáculos, já lemos pelo menos uma de suas crônicas ou já repetimos pelo menos uma de suas máximas, como aquela: “na vida, o importante é fracassar”; ou aquela: “toda unanimidade é burra”. Nelson Rodrigues fez de alguns fracassos e traumas de sua vida pessoal o sucesso de suas peças teatrais. Ele não fazia parte da unanimidade e talvez por isso tenha conseguido retratar tão bem a realidade daquele período, que acabava sendo também uma realidade universal e atemporal. Nelsonrodriguemos.

Em 31 de outubro de 1902, há cento e dez anos, vinha ao mundo Carlos Drummond de Andrade, o gauche, o socialista comprometido com a ordem histórica e política, o homem “inteligentíssimo, sensibilíssimo e timidíssimo” (como disse Mário de Andrade), talvez o maior poeta brasileiro, cuja poesia foi livre de qualquer convenção, e que, numa determinada etapa da vida, achou chato ser moderno e resolveu ser eterno. O dia 31 de outubro virou o nosso dia D. Drummondemos.

No dia 27 de outubro 2012 faria cento e vinte anos Graciliano Ramos, o escritor que criou ficções da maior complexidade e com alta expressividade a despeito (ou por causa) da sua concisão estilística. Problematizou a literatura e a sociedade, combinando estética e ética e criticando as mazelas da sociedade brasileira com “as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol”, como diz o poema de João Cabral. Gracilianorremos.

E em 2012 também fez noventa anos a Semana de 22, semana que foi o grande marco do Modernismo, o conjunto de produções culturais engajadas que criticou as várias formas de repressão sexual e política e de exclusão social, além de todos os tipos de confinamento promovidos pelo Estado e pela modernização. O Modernismo não foi apenas um estilo ou um período literário, e sim um ataque aos costumes habituais da sociedade brasileira. Mário de Andrade e Manuel Bandeira, vaiados na ocasião pela elite conservadora, merecem sempre nossos aplausos, assim como todos os artistas fizeram parte desse movimento. Aplaudamos.

Alguns podem estar se perguntando: comemorar a literatura para quê? Sim, é verdade que dizem por aí que a literatura é inútil, assim como dizem também que a arte é inútil. Muitos dos que dizem isso não sabem o que é literatura nem arte, porém outros, acredito eu, sabem perfeitamente: a literatura pode não ter utilidade como tem, por exemplo, um ventilador, que é feito para ventilar. Ela expõe de forma crítica as mazelas do mundo em que vivemos e, em vez de repetir clichês, preconceitos e ideias prontas, ela acaba por expandir, sem a pretensão de fazê-lo, os limites de nossa linguagem limitada, de nossas emoções limitadas, de nossos pensamentos limitados. No fundo, sua finalidade é a sua própria existência e, justamente porque não tem um ponto de chegada, o melhor destino da literatura – e da arte – é a eternidade.

“Não se ama os poetas. O que se ama é a obra deixada para especulação literária”, escreveu Lúcio Cardoso, outro escritor que completaria cem anos neste ano. As comemorações literárias de 2012 sevem, portanto, para nos mostrar que, por algum motivo, alguns textos perduram e que alguns autores continuam vivos no sentido de que suas obras não serão esquecidas tão cedo. Embora não se possa dizer que Brasil seja um país de muitos leitores, estamos avançando nesse quesito: multiplicam-se as editoras, as livrarias, as feiras literárias, os festivais, as bienais, as reedições comemorativas, os filmes e os programas televisivos baseados em obras literárias (o centenário do Jorge Amado neste ano até rendeu um remake da série Gabriela pela Globo). Se a qualidade não acompanha o ritmo da quantidade, o fato de comemorarmos esses “aniversários” mostra que, sim, nós valorizamos a nossa memória literária e cultural.

Comemoremos, então. E que em 2013, e nos próximos anos que virão, nós continuemos a incorporar esse espírito modernista que está de algum modo presente em todos os autores aqui citados: uma atitude de inconformismo e de não aceitação do presente e do estado das coisas no Brasil e no mundo – eis a melhor maneira de ter motivos para comemorar.

 

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Coronel Telhada, o defensor dos Direitos Humanos

Por Leonardo Calderoni

Durante a campanha para a prefeitura, José Serra afirmou que Coronel Telhada, candidato que viria a ser eleito vereador com uma expressiva votação pelo PSDB, era um “defensor dos direitos humanos”. Ontem, fomos agraciados com uma alegre notícia. E não é que o Partido da Social Democracia Brasileira aparentemente concorda com o seu ex-candidato a prefeito? Segundo informações do Estadão, o partido provavelmente indicará seu votadíssimo coronel para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Uma comovente coerência de nosso grande representante partidário da “social democracia”.

Se pensarmos bem, o causo até que é engraçado. Porque é mais ou menos como alguém indicar o Silas Malafaia para compor a Frente Pelos Direitos LGBT. Ao que me consta, os milhares de admiradores de Telhada, quase todos eles portadores do que poderíamos chamar de “complexo de Capitão Nascimento”, são justamente aqueles que odeiam a “turma dos direitos humanos” que “adoram defender bandidos” e são os grandes culpados pela falta de segurança na sociedade.

Essas mesmas pessoas são aquelas que entoam velhos e não obstante atuais jargões como “bandido bom é bandido morto”, que acham uma tremenda frescura crer que a criminalidade tem causas sociais e assim por diante. Ou seja: as pessoas votam nele e apoiam-no justamente porque ele desrespeita os direitos humanos! Mas em nome, é claro, da nobre causa que tudo justifica na paulistolândia: “matar os bandidos”. E, nesse quesito, ninguém pode questionar a competência de Telhada. Para quem não sabe, o sujeito foi comandante da ROTA e matou nada menos do que 36 suspeitos durante a sua carreira de policial. É um fenômeno.

Claro que, para fins de formalidade jurídica, Telhada já disse que todas estas mortes foram “dentro da lei”. Difícil de acreditar quando o mesmo sujeito incita a violência no Facebook e publica, sem pudor, coisas como “que chore a mãe do bandido, porque hoje o bote é certo” e “esses meliantes acham que mandam. Tá na hora de por o fuzil pra cantar, eu tô muito indignado!”. Mas o mais revelador foi quando alguém o questionou quanto às provas que o levavam a acusar sumariamente algumas pessoas de terem cometido um delito e ele respondeu: “Você acha que um PM da Rota vai postar alguma mentira?” (ou seja, policiais da ROTA não precisam explicitar suas provas impessoais; sua palavra basta). Realmente, tendo a sua palavra como prova de culpabilidade e com a facilidade com que policiais podem alegar “resistência seguida de morte” hoje em dia, é fácil matar 3 dúzias de pessoas “dentro da lei”.

O triste é que não vejo no horizonte uma mudança de mentalidade nessa sociedade que permite que pessoas como Telhada existam e sejam premiadas politicamente por discursos e ações que deveriam colocá-lo na cadeia. Acho que as “pessoas de bem” continuarão a legitimar nossos Capitães Nascimentos, seja por desinformação, medo ou por serem deliberadamente fascistas. Ou talvez um dia, se o Coronel Telhada declarar-se favorável à legalização do aborto, muitas dessas mesmas pessoas não hesitem em chamá-lo, por uma motivação turva, pelo que realmente ele é: um assassino.

Historietas Paulistanas

Por Paula Elias

Um amigo esloveno há um tempo reclamou que desde que ele se mudou para São Paulo tudo deu errado: seu trabalho não andava, seu visto vivia dando problema, seu relacionamento desmoronou, ele não conseguia um apartamento para alugar. Enfim. Nada ia pra frente.

Depois de 4 meses levando baile atrás de baile ele resolveu fazer as malas e passar uns tempos no Peru. Na última vez que nos vimos ele me perguntou como eu conseguia viver em São Paulo e gostar. Eu sorri um sorriso a la gato de Chesire e respondi:

– Depois de morar em São Paulo por quase 25 anos, nada que qualquer outra cidade aprontar vai me assustar.

Em 2008 fiz um curso de francês em Paris, onde fiquei por uns dois meses. Um dia na aula a professora comentou que a capital francesa era uma cidade grande: eu e outro aluno, visivelmente oriental, não contivemos o riso. Ele me perguntou “de onde você é?” eu respondi e perguntei de onde ele era… Pequim.

Compartilhamos o sorriso cúmplice de forasteiros da cidade grande e nos pusemos a aterrorizar os europeus (que compunham a maior parte da sala, sem contar a professora) com histórias trevosas sobre engarrafamentos, enchentes e concreto a perder de vista.

Essa semana já escutei 3 histórias de amores que azedaram. Todas no trem, no meu caminho casa-trabalho-casa, todas protagonizadas por jovens moços desiludidos, que choravam as mágoas no celular para quem queria ouvir, e acabavam dividindo-as com os outros passageiros- ouvintes menos voluntários.

No percurso Hebraica-Rebouças- Granja Julieta, Granja Julieta – Hebraica Rebouças, fiquei sabendo de traições, términos drásticos, partilha de bens. A vida continua anônima, mas os celulares a deixaram menos privada; acompanhei a história dos três rapazes me pendurando nas suas palavras e na barra do vagão – afinal, só faltava levar um tombo de tão absorta na vida alheia.

Conheci no trabalho uma gaúcha que acabou de se mudar para sampa. Com uns minutos de conversa  descobrimos que moramos na mesma rua, e naquele mesmo dia fizemos o percurso de volta juntas. Entrando no famigerado trem, ela exclamou:

-Nossa, guria, tanta gente até parece gado!

Eu dei um riso meio sem jeito e concordei: parece mesmo. Mas a assegurei que, para o bem o para o mal, logo logo ela se misturaria sem reticências à multidão.

São Paulo é uma cidade difícil de amar. É dura, cruel, apressada e impiedosa. Deixa seus filhos com uma casca grossa e preparados para quase qualquer coisa.

Ainda sim consigo achar beleza e amá-la.

Meu amigo esloveno depois reparou na cor do pôr do sol. Pediu uma cerveja e brindou comigo a sua partida, numa esquina qualquer.

Ele ainda não perdoou a cidade, mas me prometeu que vai lembrar de mim na primeira vez que se meter em alguma encrenca peruana e pensar:

– Não há nada que Lima possa fazer que São Paulo já não tenha feito comigo.