Devagar com esse andor…

Participação especial de Marina Rodrigues

 

Casamento é muito caro, já dizia Itamar Assunção. Sem dúvida! Casamento é muito caro, não só pelos comes e bebes, decoração e lembrancinhas; mas também, e principalmente, pelo depois. Porque depois, meu amigo, que os noivos dizem o “sim”, os convidados enchem a lata aproveitam a festa e o casal de pombinhos passa uma semana mágica em lua-de-mel, é preciso voltar à realidade. E a realidade traz contas, parcelas, supermercado, faxina e outras desagradáveis, porém, necessárias tarefas; tirar o pó dos móveis por exemplo.

E para que haja móveis e pó e faxina e contas e tal, é preciso haver um lar. E quantos são os obstáculos para que esse lar possa existir! Se se tratasse apenas da necessidade de morar! Morar sai caro, ainda mais em São Paulo, onde um apartamentozinho com um dormitório e cuja cozinha/lavanderia comporta ou a geladeira ou a máquina de lavar (mas pode colocar a máquina de lavar no banheiro, diz o porteiro simpático), custa dois terço do salário de um jovem casal, apenas o aluguel, sem contas, sem condomínio, sem nada!

Mas não é só isso. O amor que leva os casais ao altar só é valido e socialmente aceito se tratando de um homem e uma mulher, do contrário…

No Brasil, depois de jovens serem atacados com lâmpadas em plena Avenida Paulista e pai e filho serem atacados por estarem se abraçando, surgiu no site do Senado a seguinte questão: “Você é a favor da criminalização da homofobia?”. E, na seqüência, passeatas, atos e mobilizações diversas para que o PLC-122, que trata, entre outras coisas, da criminalização de atos de violência contra homossexuais, fosse aprovado.

(Ainda) Não aconteceu, contudo, o temor de que estive em curso o início de uma “ditadura gay” fez com que senhoras religiosas e alguns parlamentares mais conservadores (beijo do Estado Laico!) iniciassem uma verdadeira cruzada contra a tolerância, a diversidade e a igualdade.

Felizmente, no Brasil, os ventos da Justiça têm soprado a favor. O Supremo concedeu aos homossexuais o direito à união estável e, em alguns estados, criaram-se normas que obrigam aos cartórios realizarem o casamento civil homoafetivo.

Um absurdo, para os Almeidinhas de plantão. Isso e, em breve, as bee sairíam da The Week para tomar o poder, a bandeira do arco-íris seria hasteada em todas as escolas pela manhã enquanto as crianças cantariam Cher e aprenderiam pajubá. Ou seja lá o que for essa tal ditadura.

E Deus? E a Bíblia? Indagam-se. E a família?

Começando de trás para frente e parafraseando Elisabeth Roudinesco, em seu discurso recentemente proferido no Parlamento francês: “O que assistimos hoje, no Brasil, na França e tantas partes do mundo, não é uma revolução ou o início de uma ‘ditadura’ que conduziria ao desaparecimento da família, mas a uma evolução que, ao contrario a pereniza. Afinal, o que desejamos (sim, eu me incluo no grupo) quando lutamos pelo direito ao casamento civil é, justamente, entrar na ordem procriativa, na ordem familiar da qual fomos e ainda somos excluídos. É um desejo de vida, de transmissão, de normatividade e a diversidade de culturas mostra-nos que são possíveis muitas modalidades de família.”

O que, então, tanto os incomoda? Talvez seja justamente esta aspiração à normatividade. Porque no fundo, ainda que não homofóbicos, o que esses grupos conservadores gostariam de manter hoje em dia a imagem do homossexual maldito encarnado por Proust ou Oscar Wilde. Moralismos anacrônicos.

E, enquanto isso, no Uruguai, Mujica sancionou a Lei que permite o casamento civil homoafetivo. Os homossexuais não tomaram o poder e a família não foi destruída. Incrível, não?

 

 

 

Reflexões Porteñas – Última Parte

por Maria Shirts

“Não Vitor, vamos virar aqui, vai” disse eu, hoje, enquanto procurava um restaurante para almoçar com o meu amigo pelas ruas de Buenos Aires. Para quem não sabe, estou fazendo um curso de espanhol na terra da empanada e, enquanto isso, aproveito para apreciar a vida porteña, visitar alguns museusobservar a cultura local.

Hoje, atrás de mais um bife de chorizo, caminhávamos para onde a vida quisesse nos levar. E a vida nos fez dar de cara com um lugar fantástico: o Museu Borges.  Apesar de não me importar com a piração “coincidência ou destino?”, de não estar nem aí para o makhtub e me ligar mais em viver a vida mesmo, senti que aquele museu nos atraiu até ele, tipo efeito magnético. Uhm…esotérico, né?

Como estava em horário de funcionamento, tocamos a campanhia — o ‘intimismo’ mais meigo da cultura porteña. Quem abriu a porta foi Sarah, uma senhorinha igualmente meiga que cuida desse reduto borgiano. E eis que entramos na caixa de Pandora…

Logo na entrada há um pedestal feito por uns belgas malucos com dois objetos inspirados nos contos de Borges: o Aleph (!!!) e as moedas de Tlön. Depois há duas saletas com várias prateleiras que abrigam presentes, livros, as suas bengalas , fotos de infância, parte de sua biblioteca pessoal, objetos (os mais loucos) que decoravam sua casa e, pasmem, o seu mapa astral: leonino com ascendente em câncer.

Por um momento, compartilhei da vida de um dos meus escritores preferidos, me perdi nas suas anotaçoes e me emocionei com vários de seus manuscritos (que mal se podia ler, tao miúda era sua letrinha).

Depois de já uma hora lá dentro, com o privilégio da visita guiada por Sarah (de graça!!), sentamos no chão e ficamos olhando os livros que estavam à venda, tentando escolher quais levar. “¿Cuanto cuesta, Sarah?” “Ah, porque son estudiantes, 30 pesos cada un”. Mágico.

Ao sair, olhamos para os lados para ver se ainda estávamos em Buenos Aires. Afinal, aquele museu podia muito bem ser uma espécie de portal.

Qual nao foi a nossa surpresa, estávamos sim na capital porteña e, melhor ainda, na nossa rua. Parece lorota, mas  o Museu fica realmente na nossa rua, apenas 5 quadras para baixo. Aliás, essa nossa Calle Anchorena me parece as vezes um wormhole, com direito a Museu Borges, casa de swing (sim, aqui na frente!!!!) e até o Escrúpulos, restaurante que eu decobri esses dias que de escrúpulos nao tem nada — parece que é um “erotic restaurant” (?).

Mas essa história eu conto outro dia…

 

image2

Meu pai não é sócio da Light, mas…

por Luís H. Deutsch

A nossa conta de luz ficará mais barata. Para os que ainda moram com os pais, isso pouco importa, não é? Mas, para quem já tem que arcar sozinho com uma casa, a prometida redução de 18% nas tarifas de energia elétrica são um alívio. Nem que seja para sobrar mais dinheiro pro rolê.

Quando pequenos, nossas mães já diziam quando a gente ficava horas no banheiro brincando de “Naufrágio dos Bonequinhos /Banho de Piscina das Barbies”… “Moleque / menina… Desliga esse chuveiro! Nem seu pai, muito menos eu somos sócios da Light.”. Bom, ninguém entendia muito bem isso, porque a Light já era uma empresa das antigas. Mas o sentido da frase a gente entendia bem. Ao ver um papelzinho com um valor absurdo e nossos queridos progenitores putos da vida, nós também entendíamos. 

Não era para pouco. Conta de luz aqui no Brasil é caro pra porra. Vendo isso, o governo agiu em sua política energética inédita. Dilmão avisou em rede nacional: Nossas contas vão cair. Êba! Vamo gastar!!

É… Não só isso. Residencias terão esse benefício, mas indústrias também. E a redução para eles será de 22%. Bom, ao ver leigo… Isso já é um incentivo e tanto para a produtividade e para todos os bla bla blas econômicos capazes de melhorar a situação do nosso país perante uma crise mundial.

Ótimo passo, hein? Claro, se o texto acabasse por aqui. Mas, infelizmente ele não acaba.

A questão é que tem gente contra isso. Gente graúda. Empresas que controlam a energia elétrica em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Só isso. Gente pobre, né? Sem poder.

Após o anúncio, ainda em setembro passado… Um risco de apagão foi forjado aqui. Revistas, jornais e a opinião pública (sic) morreram de medo de ficar nas trevas novamente, igual em 2001… Nos tempos do elegante FHC. As concessionárias de energia recusaram e estão brigando agora para manter a segunda tarifa de luz mais cara do mundo. E achando isso completamente normal e cabível.

Bom. Não era de se esperar menos, não é? Mesmo assim, já fomos assegurados que o benefício nos será dado.

O que cabe a nós e não ficar em silêncio. Pagar caro assim é anormal. Basta pesquisar aí pela internê. Devemos batalhar por cada conquista que nos é dada e criticar posturas gananciosas e conservadoras como essa faz falta. Acreditem, isso NÃO é gasto de energia!

Vale a pena, para que não fiquemos enchendo o saco de nossos filhos quando eles estiverem enfiados no banho, no computador, no video-game (e, CLARO, para o bem de um Brasil mais competitivo e justo).

Luto.

Como seria melhor não ter sabido, nesse domingo de manhã, que 233 pessoas, jovens como nós do Esparrela, morreram asfixiadas, carbonizadas e pisoteadas em Santa Maria.

Bem que eu não queria ter lido e ouvido seus amigos relatarem o terror por que passaram, as portas que não se abriam, as saídas que não puderam libertá-los para o ar fresco.

Seria bom não ter visto a presidente chorando após ter de abandonar às pressas uma reunião com outros Chefes de Estado.

Passaria bem se não tivesse de assistir José Luiz Datena & Cia. esquadrinhando cada mínimo detalhe, relevante ou não, do que aconteceu na madrugada de sábado para domingo.

Os meus sentimentos agora, porém, importam muito pouco.

O que eu penso e sinto neste momento não é nada, absolutamente nada perto do que os milhares de amigos e familiares das vítimas estão sofrendo agora. A eles, que passarão noites em pânico e estão pra sempre amputados, as nossas mais sinceras condolências.

Ainda não se sabe de quem é a culpa e não cabe a nós, ao menos neste momento, apontar dedos. Mas ao que parece foi uma mistura muitíssimo infeliz de irresponsabilidade dos proprietários e negligência da administração pública, mas esperemos mais informações.

São dias de reflexão. Todas as nossas forças com Santa Maria.

Mulheres de branco

Por Fernando Rinaldi

As mulheres de branco são aquelas que carregam as crianças dos outros no colo, vão com elas à escola, ao clube, às atividades extracurriculares, vão à praça ou ao parquinho passear. E ficam em casa e cuidam e brincam e dão bronca também. As mulheres de branco são uma mão na roda para pais de uma classe social elevada que tiveram um ou mais filhos e não têm tempo de cuidar dele(s). Será? Às vezes, nos shoppings, enquanto as outras mulheres olham as vitrines e gastam ostensivamente seu dinheiro, as mulheres de branco andam atrás, cuidando dos filhos que não são seus. Nos restaurantes, as mulheres de branco dão comida à criança enquanto a mãe e o pai aproveitam o momento do casal. A profissão das mulheres de branco é esta: viver a vida de uma família que não é a dela. Para fazer isso, no entanto, elas ganham muito mal e é exigida delas dedicação exclusiva.

Todos reconhecem as mulheres de branco por causa da roupa branca, todinha branca, que são obrigadas a usar. Se a roupa branca tiver um detalhe que não for branco, das mulheres de branco a atenção é chamada. Sandália também não pode. As mulheres de branco precisam usar tênis fechado. E branco. A polêmica recente envolvendo a obrigatoriedade do uso da roupa branca para que as babás sejam autorizadas a entrar nos clubes paulistanos e cariocas virou notícia. Se virou notícia e gerou polêmica, talvez as pessoas estejam finalmente percebendo o que significa usar branco.

babás

O branco é mais do que um uniforme. É um distintivo, uma marca, um sinal, que serve para diferenciá-las e que as acaba discriminando. É como se o branco que elas usam dissesse ao mundo: eu não pertenço a essa família, eu não faço parte desse núcleo social, eu não sou daqui. Não se sabe muito bem por que elas devem usar branco. Já se estabeleceu que é obrigatório e ponto final. Para fazer parte dessa família que não é a delas e para circular por esse mundo que não é o delas é preciso vestir branco, que as coloca como subordinada e as inferioriza, portanto.

Mas os patrões e as patroas das mulheres de branco nem se não conta disso. Para eles, as mulheres de branco são “úteis”, como se elas fossem mais um eletrodoméstico da casa. Uma tal de Valéria Rios disse no seu blog “Viajando com a família” (hoje fora do ar) o seguinte: “acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre vão representar um novo integrante à família, porque pra mim família é pai, mãe e filhos e acho no mínimo estranho aqueles que tratam a babá como parte da família (desculpe-me quem pensa o contrário).” E continua: “Em outras oportunidades em que vc quer que ela coma antes porque o restaurante é caro ou porque vão outros casais vc pode dizer problemas, tipo assim, ‘hj vamos a um restaurante com a comidas muito diferentes que vai demorar ou muito caro e etc, então vamos passar pra vc comer em algum lugar, vc prefere pizza ou Mc Donals’ (sic), porque, lembre-se ela está trabalhando.” E termina dando suas dicas assim:  “Então , mais uma vez fica a dica: deixe tudo claro, pra não se arrepender depois, por exemplo, como ela vai pra praia, dê todas as roupas que ela vai usar, inclusive o maiô da praia, pq ela não é obrigada a ter todas as roupas e vc ainda gostar do gosto dela.”

Prezada Valéria Rios e outros milhares de pais e mães iguais a ela: eu penso, sim, o contrário, e não, não desculpo quem tem esse mesmo tipo de raciocínio. Quando eu vejo uma mulher de branco, penso na vida dela fora do seu ambiente de trabalho. Quando eu vejo uma mulher de branco, penso em como ela se sente ao ver todo o conforto financeiro em que as crianças de que cuida são criadas comparativamente aos filhos que ela tem ou pode ter. Quando eu vejo uma mulher de branco, eu me pergunto se ela tem filhos e quanto tempo ela consegue passar com eles.

As mulheres de branco não são mulheres de branco. Elas apenas estão de branco porque essa foi a fantasia que colocaram nelas. Que fique claro, pois, que eu não tenho nada contra a profissão de babá, e sim contra o tratamento que elas recebem. Obrigá-las a usar roupa branca é, a meu ver, uma atitude discriminatória e um sintoma de uma sociedade com uma série de preconceitos que se manifestam, nesse caso, simultaneamente. No ano passado, saiu uma notícia com esta declaração de uma mãe: “O nível cultural delas melhorou demais, e a informação corre muito rápido. Elas agora são politizadas, descobriram o que é ter vida pessoal. Isso para nós, patroas, é pior”. Ou seja, alguns patrões e algumas patroas acham um absurdo o salário que as babás estão exigindo hoje, acham um absurdo que elas tenham uma vida própria, acham um absurdo que elas reivindiquem certos direitos e acham um absurdo que elas não queiram mais usar branco.

Para essas pessoas que ainda acham que podem ter uma escrava de branco em suas casas, deixo aqui minha dica: encontrem uma máquina do tempo e sejam felizes em outro século.

Especialmente indivíduos de cor parda e negra

Por Leonardo Calderoni

E eis que no país da “democracia racial” consolidada, no qual para muita gente o racismo só existe como invenção de militantes pró-cotas raciais, a Polícia Militar paulista se envolve em uma polêmica racista em Campinas.  Em uma ordem de serviço, ordena-se que os PMs de determinada região campineira foquem as suas abordagens aos “transeuntes e veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra”.

A ordem de serviço chegou à mídia e, com ampla repercussão, suscitou reações de repúdio pelo seu teor racista. A PM negou que se tratasse de discriminação: a questão era que teria havido roubos naquela região e os suspeitos foram descritos pelas vítimas dessa maneira. Até o governador Geraldo Alckmin se mobilizou para negar qualquer teor racista ao dizer que “a ordem da PM poderia descrever suspeitos loiros ou asiáticos”. Em outras palavras: segundo o governo e a PM, se trata de um grupo específico de criminosos que está sendo procurado e que por coincidência tem as características de serem “indivíduos de cor parda e negra”, assim como poderiam ser “loiros”, “amarelos”, “asiáticos” ou “brancos” (gostaria de saber se há alguma ordem de serviço da corporação que fale “especialmente indivíduos loiros e brancos”).

A justificava dada pelo governador e pela PM pode ser muito mais do que o suficiente para aqueles que gostam de negar ou relativizar o racismo em nosso país por qualquer motivo. Mas está um pouco difícil de acreditar nela. Se a ordem de serviço se referisse apenas a um caso específico na busca de criminosos específicos, não se emitiria uma ordem mandando abordar todos os “transeuntes e veículos em atitudes suspeita” e sim e tão somente os ladrões daquele caso, tais como descritos pelas vítimas.

Se a minha casa é roubada e eu digo para a Polícia que foi um japonês com uma tatuagem na cara, tem algum sentido a PM emitir uma ordem para abordar todos os “transeuntes suspeitos” e não apenas procurar um japonês com a tatuagem na cara? Ou então porque não emitir uma ordem que diga algo como: “parem todos os veículos suspeitos; os procurados têm características X, Y e Z”. Ou será que na verdade não se tem realmente certeza que foi um grupo de pardos e negros, mas a priori eles são mais suspeitos?

Enfim, na melhor das hipóteses, a ordem de serviço foi um grande deslize textual. Tenhamos boa vontade e aceitemos que foi mais um deslize do que qualquer outra coisa. Não muda o fato de que um deslize desses em uma realidade racista como a nossa, com uma Polícia que possui uma prática sabidamente racista nas abordagens como a nossa, é totalmente inaceitável e temerário. Não se pode acreditar que ordens oficiais escritas dessa maneira não tenham nefastas consequências simbólicas e práticas no dia-a-dia policial.

De resto, apesar dos Coronéis Telhadas de plantão, continuarei acreditando que a melhor maneira de combater a criminalidade estrutural de nossa sociedade será combatendo suas estruturais mazelas sociais. Em um dos países (ainda) mais desiguais do mundo, faz-se urgente a retirada da marginalidade dessa quantidade inaceitável de seres humanos que lá ainda se encontram. Especialmente indivíduos de cor parda e negra.

cor parda e negra

459

Por Paula Elias

Eu francamente não sabia se ia sair um texto hoje.

No aniversário de São Paulo, acordei em Porto Alegre, com restos de mala para fazer, estômago vazio e cabeça cheia. Trabalhei até a hora de ir para o aeroporto, levei um baile da minha própria desorganização no check-in, saí esbaforida para o portão de embarque.

Fila. Paulistano curte uma fila, né? Essa era para entrar no avião, a funcionária da Gol mal tinha terminado de chamar os passageiros e já estávamos lá, bufando. Impacientes.

Ai, agora deu turbulência. Aeromoça, como faz para digitar na turbulência? Preciso escrever pro blog, quero chegar em casa. Eu disse que estou escrevendo durante o vôo? Pois é.

O adolescente na minha frente reclinou a cadeira e me deixou com um mini espacinho para abrir meu computador e tentar juntar umas frases sobre São Paulo. Hoje é o aniversário de 459 da minha cidade, minha loucura favorita, e até agora todas as minhas tentativas de escrever sobre ela foram frustradas. Coincidentemente por um avião cheio de paulistanos.

Um lendo jornal – e eu com a minha alergia. Ô, moço, fecha esse Valor Econômico, vai?

O mini escarcéu das crianças atrás de mim, contando para a única gaúcha ao meu redor suas aventuras pelos pampas. Tudo muito lindo, mas não consigo ouvir meus pensamentos.

Ê, tô muito mal humorada. 24 anos e ranzinza, só podia ser filha de São Paulo mesmo.

Vou descer em Congonhas, fico pensando no trânsito. Será que o feriado-aniversário me salva da hora do rush? Minha paulistana interna deu uma risada sarcástica: lógico que não, você vai pegar o táxi às seis e meia. Vou tentar ser otimista e rezar para as divindades do tráfego sorrirem para mim.

Eu quero chegar em casa, estou cansada e mal humorada. E até agora não escrevi uma linha sobre os 459 anos de SP. Pensei em fazer um texto a la guia turístico, indicando as melhores coisas pra fazer no feriado. Um texto mais político, analisando o jovem governo do nosso prefeito?

Ai, o comandante acabou de anunciar mais turbulência. E eu tentando escrever.

O senhor ao meu lado dormiu com um livro do Nelson Rodrigues na mão: A vida Como Ela É.

Não vou conseguir escrever o texto de feliz aniversário. Mas deixo esse mini retrato de uma paulistana cansada, a minha vida como ela é – ou está.Enquanto conitnuo contando os minutos para o avião por as rodinhas na sua cidade (48 minutos).