Bandido bom é bandido morto

Por Maíra Souza

Essa semana li um texto que me provocou um inicio de úlcera. Compartilhado por mais de 40 mil pessoas e com quase 10 mil curtidas, o texto de suposta autoria do Arnaldo Jabor (duvido que seja mesmo dele) discorre as razões pelas quais o Brasil “não vai pra frente”, como se fosse aquele MITO ou VERDADE do Fantástico.

Em alguns parágrafos, o autor afirma que o brasileiro é babaca por pagar uma fortuna de impostos e ainda dar esmola para pobres na rua, e por “aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade”. Em seguida, o texto afirma que a maioria das pessoas que moram em favelas não são honestas e trabalhadoras, pois “muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal”, e que se a maioria da população da favela fosse honesta, não haveria bandidos lá, pois os moradores não seriam coniventes com os criminosos. Além disso, o texto diz que não há da democracia no Brasil porque a maioria da população acha que bandido bom é bandido morto, e que quem é contra a execução de um bandido não passa de uma “minoria barulhenta e hipócrita” que sucumbe o inteligente povo brasileiro, transformando o Brasil numa anarquia (oi?).

Posso soar arrogante e ser muito xingada no Twitter, mas não encontro nenhum sinal de lógica, inteligência ou efetividade na promoção de um genocídio prisional ou algo que o valha, ao invés de enxergar o problema um pouco mais além do que passa no Cidade Alerta. Da mesma forma, não vejo coerência em ser a favor dos direitos humanos para apenas uma parcela da população – aquela do bem, defensora dos valores da família, da moral e pagadora de impostos: os guerreiros da classe média conservadora.

Como o Pão comentou na semana passada, quem defende essas opiniões usa sempre aquela frase de efeito: “queria ver com seu filho, com seu pai, ou com um de seus irmãos… O que você faria?”. Sugiro um olhar um pouco menos raso antes de criticar a galera que “defende bandido” e menos obtuso para a questão da criminalidade e do sistema prisional antes de propor um incêndio na cadeia. Acredito que enquanto houver esta mentalidade, não haverá nenhuma mudança na segurança urbana, no sistema penal e, tampouco, justiça social.

A inadmissibilidade dos direitos humanos para alguns está de acordo com a doutrina do ídolo nacional Capitão Nascimento, das ditaduras, ou da sociedade escravocrata de outrora. Poucas pessoas se preocupam em ver e em entender o por que determinado individuo “desumanizou-se”, por que o pivete não se comporta como uma criança normal, por que o ladrão roubou, por que o delinquente transgrediu-se, e por que o marginal não sai das margens da sociedade. Não creio que a haja uma homogeneidade de histórias de vida e de caminhos que os indivíduos possam traçar, mas as opções de fuga se reduzem quando não há educação; quando a violência e a agressão foram os valores que o adulto de hoje recebeu desde o berço; e quando não há meios de inserção econômico-social para todos.

Gostaria de deixar claro que não defendo a ideia de que as camadas menos favorecidas da sociedade sejam forçadas a entrar para o crime, assim como não acredito que a figura do bandido não exista no rico, pois penso que o ser humano por si só é capaz de cometer atrocidades e crueldades – independentemente da classe social. Também não penso que todo criminoso seja um órfão das Chiquititas e que deva receber diariamente chocolate quente na cama.

Porém, sou consciente da existência de um círculo vicioso, de desigualdade de oportunidades e da privação de liberdades – de escolha, de propriedade, de adquirir bens, de ir e vir etc. -, e que não se pode usufruí-las sem a grande força motriz do sistema capitalista: o dinheiro. Quando essas possibilidades são comprimidas e/ou suprimidas, qualquer um pode optar por caminhos mais curtos, como o crime organizado, narcotráfico, roubo, furto, jogos ilegais, pirataria, e uma série de outras vias de acesso que não estão legitimadas na lei.

O sistema penitenciário, por sua vez, não está imune à primazia do dinheiro nas relações  sociais, pois ele é reflexo dos demais âmbitos da sociedade brasileira: um ambiente muito fácil de ser corrompido, com subornos, hierarquias, trocas de favores e, inclusive, execuções em prol da incessante luta pelo poder. Embora haja a tendência em encarar a prisão como um ambiente delimitado e excluído do “mundo real”, ela não está alheia a nenhum de nós. A prisão acaba sendo um “não-lugar”, um canal e um meio em que se dão diversas relações de poder, onde quem manda está dentro ou fora das celas. Prender ou matar não elimina a criminalidade, mas a alimenta.

Enfim, ninguém tem o direito de negar ao outro o direito de sobreviver, de lutar por sua liberdade, de não ser preso sem provas, de ter torturado etc. O tratamento indigno e as condições de superlotação, por exemplo, são punições que levam qualquer um a desvalorizar a vida, e que também refletem a falência e o fracasso dos modelos de “tolerância zero”, do “tapa na cara pra aprender” e do pagamento na mesma moeda. O índice de 60% de reincidência de ex-dententos prova que a experiência adquirida na prisão não desvincula o indivíduo das atividades criminais e não incentiva a um caminho alternativo. É preciso um sistema penitenciário que não tente empurrar os criminosos para baixo do tapete, que dialogue e que promova programas de educação e profissionalização eficientes, a fim de fomentar novas oportunidades.

Fecho o texto com um trecho de uma música do Racionais Mc’s: “Miséria traz tristeza, e vice-versa. (…) Não importa, dinheiro é puta, e abre as portas. E em São Paulo, Deus é uma nota de 100.”

carandiru

E o Oscar vai para…

por Maria Shirts

…Django Livre!

Sei que o assunto já está um pouco fora dos tablóides. Afinal, você já assistiu ao Oscar, já viu os críticos comentando, a resenha do New York Times, da revista Tititi, do raio que o parta e todos os comentários dos looks mais fabulosos (ou não) do tapete vermelho.

Não pude, entretanto, deixar de pensar nisso ao sair do cinema, ontem. Fui assistir ao filme A Hora mais Escura, da já premiada Kathryn Bigelow, que conta a história da captura do então inimigo número 1 dos EUA, o Osama Bin Laden. Discutindo o filme com o meu namorado, depois das incansáveis 3 horas de película (mesmo), cheguei à conclusão de que Bigelow devia ter levado a melhor direção. Não que eu ache que ela tenha, de fato, sido a melhor diretora. Eu adoro o ganhador desse ano, Ang Lee, e gostei muito de seu filme, as Aventuras de Pi (quem costuma ler estas mal traçadas já ficou sabendo). Mas não entendi porque a Academia preferiu o simpático chinês à californiana (que eu não acho tão simpática assim, mas isso é questão de gosto).

A Hora mais Escura tinha tudo para ganhar o Oscar: exaltação da CIA, a queridinha Jessica Chastain (apesar de achá-la insuportável, estava boa no filme), capturas de terroristas, bombas, militares americanos. E se isso não for suficiente complemento: direção impecável, sonoplastia bem feita, roteiro muito bem estruturado… Enfim, o filme de Bigelow é tão bem construído que faz o público esquecer da pior característica (ao meu ver) dos americanos: o caráter imperialista, invasor. Ao fim, você já nem recorda que milhares de pessoas foram vilmente torturadas e mortas para a captura de Bin Laden (essa discussão moral deixo para Safatle); você só quer que ele seja capturado. Em suma, um prato cheio para Hollywood, aos yankees e, principalmente, ao Oscar.

De qualquer forma, como disse lá em cima, o meu Oscar vai para Django, do Tarantino. Não que eu ache esse filme melhor do que qualquer outro, que foi indicado, em termos técnicos. Mas foi o filme que eu mais gostei mesmo.

Pra quem não sabe, Django conta a história de um matador de aluguel, o doutor King Schultz (encenado pelo brilhante Cristoph Waltz), que liberta um escravo (no caso o protagonista, que leva o nome do filme) para, com a sua ajuda, achar uma de suas caças. Claro que esse pretexto nos leva a uma interpretação tarantinesca da sociedade escravocrata nos Estados Unidos do século XIX, bem como a uma experimentação de vingança (evidentemente violenta) das vítimas dessa sociedade na personificação de um dos melhores heróis de Quentin (a íntima). Interpretado por Jamie Foxx, que está tão bem neste filme quanto em Ray, Django é a representação do oprimido que dá a volta por cima e, melhor que isso, que acaba com todos que o colocaram por baixo.

Fosse só isso, já tava bom; para melhorar, o filme conta com umas das melhores trilhas sonoras da “antologia” de Tarantino (acho que só perde pra Pulp Fiction) e, ainda, com Samuel Jackson, que arrasa (como sempre) — dessa vez de velhinho carrancudo e rabugento. Tudo isso com aquela estética moderna e atraente (especialidade do diretor, diga-se de passagem), própria de “faroeste encontra mangá”, que só ele sabe fazer. Em suma: recomendo.

Para os que ainda não viram, mas ficaram curiosos, deixo aqui o trailer:

Além do xixi na cama

por Luís Henrique Deutsch

A profética frase de nossos momentos de pirralhagem e non-sense infantil já dizia: “Gente que brinca com fogo, faz xixi na cama”. Sem muito entender o que isto significava, mas de prontidão, parávamos de brincar com velas, fósforos, fogueiras ou acendedores automáticos de fogão. 

De fato, não há nenhuma relação científica ligando FOGO a XIXI. De fato, se formos analisar psicologicamente a ameaça da mãe, pai, avó… Vemos que eles jogavam conosco. Diziam que ao brincar com fogo, mijaríamos em nossas camas e assim acordaríamos com a maior vergonha que alguém na faixa dos 5 – 10 anos pode passar. Tudo isso para dizer uma coisa que parece muito óbvia. FOGO É PERIGOSO. Sempre foi e sempre será.

Todos os anos, aqui e no mundo vemos estragos absurdos que este elemento natural causa. Inclusive sendo a maioria dele causados por absurdos seres humanos que ainda não mediram o poder de destruição que uma simples brasa pode gerar. Balões, queimadas… Se tornaram rotina.

Porém, dois ocorridos especialmente ( e drasticamente) nos evidenciaram isso neste recente ano de 2013. O primeiro foi o maior incêndio no Brasil em 50 anos, a tragédia em Santa Maria (RS) que acaba de completar um doloroso mês. No segundo e mais novo caso, a confusão do Corinthians em um estádio na Bolívia envolvendo uma torcida organizada, um sinalizador acidentalmente disparado e um jovem morto.

A máxima repetida por nossos familiares deveria ser mais aplicada, não? Nos dois infelizes acontecimentos vimos que coisas que pensamos ser simples como uma “só uma fagulha de fogos de artifício”, ou um “simples sinalizador” podem causar danos enormes e confusões inclusive diplomáticas.

Para o caso do sul do país, há uma centena de culpados e uma outra centena de equívocos e ingerências públicas. Temos corrupção na fiscalização de ambientes públicos, temos a má informação, a má fé, a má imprensa também entra nessa leva… Temos a falta de noção número um de esquecer que fogo e lugar fechado não combinam.

Para o caso do Corinthians, ainda tenho minhas dúvidas. Não vou entrar no mérito de detetive particular desconfiado) e ficar sustentando minha opinião de que é conveniente demais a Gaviões da Fiel apresentar em uma história muito da mal contada, um menor de idade que não vai responder por homicídio (nem aqui, nem na Bolívia e nem na China). Os culpados ainda são também aqueles que ainda não definiram leis rígidas contra a violência nos estádios sejam eles brasileiros, ingleses, bolivianos. Culpados os que relevam todo o histórico de absurdos e tragédias que aconteceram em jogos de futebol, que aconteceram enquanto só esporte deveria ser celebrado. Fica aí, mais uma falta de noção de esquecer que fogo e locais com multidão não combinam. 

Fica o nosso luto por vítimas que pagam um preço alto pela falta de boa vontade do nosso poder público e pela falta de responsabilidade de indivíduos (e de coletividades também) que confundem ser ignorância com inocência. Que o preço seja pago, na mais cara moeda possível.

Se não é a prefeitura, nem sua mãe, nem o governo, nem a televisão que vai te dizer… Eu deixo no recado final então. Brincar com fogo, meus amigos… Vai além de você acordar mijado no dia seguinte. Há consequências bem piores. Ser responsável pela morte de mais de 200 jovens, ou ficar enclausurado numa precária prisão boliviana estão neste grupo de coisas que podem acontecer.

A cidade e o não-trânsito – Parte I

por Artur Lascala

No dia 25 de fevereiro de 2011, Ricardo Neis estourou. Pisou fundo no acelerador de seu golf preto e, num rompante de violência e covardia, atropelou dezenas de ciclistas que faziam uma demonstração pacífica. Há precisos dois anos, essa cena, registrada em vídeo, chocou muitas pessoas, que passaram a se perguntar o que teria havido na mente desse indivíduo. Parece-me inútil repetir que algumas de suas faculdades mentais são particularmente perturbadas; sem esses distúrbios, não se tenta homicídio coletivo.

Para além da psique do homem específico, porém, a sociologia vem nos ensinando as maneiras pelas quais a sociedade constrange o leque de possibilidades da atuação individual. Ricardo Neis, ainda que exemplo do comportamento de exceção, do outlier, é um sinal visível de um conflito mais profundo. Uma exceção surge justamente para confirmar a existência de uma regra; e a regra vem sendo uma cada vez maior contradição entre o desejo/direito de locomoção com a falência político-tecnológica dos meios de trânsito.

O primeiro fundamento do modelo falido é a opção pelo transporte individual motorizado. Leia-se, claramente, que não se trata de um infortúnio do desenvolvimento desmedido, do qual a Porto Alegre de Neis e a minha São Paulo são exemplos destacados. Fico um tanto contrariado quando ouço que os congestionamentos infernais e a poluição da capital paulista são causados pela falta de planejamento da cidade. Muito pelo contrário, eles são fruto de políticas públicas conscientes que deliberadamente elegeram o carro como meio de transporte privilegiado, passando por cima, inclusive, da estrutura hidrográfica da cidade. O sonho desenvolvimentista da reconstrução da natureza pela técnica gerou resultados agônicos pela cidade, basta ver as enchentes no verão.

O segundo fundamento, estreitamente relacionado com o primeiro, é político. Quando o governo brasileiro fez a escolha pelo rodoviarismo, o sonho que inspirava os defensores do transporte individual era o de “um carro para cada família”; Brasília é a concretização, por excelência, dessa quimera (e até hoje, uma das capitais brasileiras com maiores déficits em transporte público). O progresso da nação faria com que os brasileiros pudessem, orgulhosamente, adquirir seus automóveis. Os pobres, porém, que se estrepassem; enquanto não pudessem se inserir no mercado, pouco direito teriam de deslocar seus corpos no espaço. Foi, afinal de contas, a lógica que regeu por muito tempo o Brasil, é a parte que te cabe, pobre diabo!

E assim foi por algum tempo. Quem tinha carro, por mais que pegasse um congestionamento aqui e ali, não tinha tantos problemas. Fugia do transporte público como o diabo foge da cruz, preferia não se misturar ao pessoal que sempre sofreu nos trens e ônibus lentos e apertados. Só que tem sempre um dia em que a casa cai, e os pilares da nossa já estão no limite da fragilidade. A fluidez — objetivo de curto prazo que orienta quase todas as ações dos órgãos de trânsito — virou exceção em dias úteis; não é necessário um olhar atento, basta abrir os olhos pra enxergar o elefante dentro da sala. Os motoristas veem-se cada vez mais presos nos aglomerados do não-trânsito e os que optam pelo transporte público são duplamente penalizados. Na minha opinião, não resta dúvidas, a tecnologia “carro”, embora utilíssima em muitos casos, não serve para a maioria deslocamentos diários em uma metrópole como São Paulo.

todos os anos, recordes de congestionamento são batidos

todos os anos, recordes de congestionamento são batidos

Alternativas existem, e não são poucas. Ao contrário do que pensa determinada apresentadora de televisão, elas podem ser mais antigas e simples do que se imagina. A ênfase sobre o transporte público, tão óbvia quanto necessária, aparentemente já entrou na ordem do dia, mas ainda amargaremos por muito tempo os equívocos do passado.

Amargaremos também por causa da resiliência de determinados padrões de comportamento, que são sempre muito difíceis de mudar. O ódio de Ricardo Neis, segundo o meu ponto de vista, pode ser interpretado como um indicativo da resistência de parte dos motoristas em reconhecer que a ideia da supremacia do automóvel não passa de uma ficção de mau gosto.

De todo modo, acredito que a maioria dos motoristas deixaria, de bom grado, seu veículo na garagem se fossem oferecidas condições competitivas para os demais modais. Na semana que vem pretendo abordar essas questões, escrevendo sobre maneiras de refundar o direito ao trânsito na cidade de São Paulo, em especial sobre a bicicleta.

Ps.: Este sábado (02/03/2013) é outra data que preferiria não ter que relembrar. Completa-se um ano da morte da ciclista Julie Dias, atropelada por um ônibus na Avenida Paulista. Haverá bicicletada e pedalada, em sua homenagem e em reivindicação por maior segurança para todas as pessoas no trânsito da cidade. O pessoal sairá às 18h da esquina da Paulista com a Consolação. Quem puder, compareça!

Ainda faz sentido falar “masculino” e “feminino”?

Por Fernando Rinaldi

Tenho reparado que discussões sobre sexo, gênero e sexualidade, que avançaram muito na segunda metade do século XX, continuam acontecendo com frequência, seja em artigos acadêmicos, em colunas de jornais ou revistas, nas redes sociais ou nas mesas de bar, como forma de ataque a pensamentos anacrônicos que ainda estão por aí, em toda parte. Como se o mundo patriarcal, machista, homofóbico, conservador etc., de que todos (em maior ou menor escala) somos vítimas, tivesse sofrido duros golpes, mas continuasse de pé, tentando ser reanimado e fortalecido por alguns a todo custo, porém felizmente sem sucesso. Teoricamente ultrapassado, ele ainda precisa ser contestado e criticado por aqueles que sabem que ele resiste.

O feminismo, por exemplo, se reinventa e ganha novas feições. Em algumas revistas voltadas a mulheres já se deixa de dar dicas sobre como ter o corpo perfeito e o passo-a-passo para que aconteçam as mil maravilhas na “hora H”. No lugar disso, começa-se a questionar por que a “mulher perfeita” é aquela que precisa ser sempre delicada e estar sempre limpinha, cheirosinha e depilada. Os homossexuais continuam lutando pelos seus direitos, expondo cada vez mais as angústias que sofrem para se posicionarem perante a sociedade e os preconceitos que (ainda) sofrem a partir dessa exposição. Quem acompanha este blog sabe que este é um tema recorrente em nossos posts, e só é recorrente porque ainda gays ainda são discriminados e agredidos, e porque uma grande parte das pessoas, por motivos religiosos ou não, tem dificuldade de entender que suas demandas são legítimas e, mais do que isso, de simplesmente conviver com quem tem uma orientação sexual diferente.

E eu poderia continuar dando mil exemplos de militâncias atuais, individuais ou coletivas, silenciosas ou não. O meu ponto é que, com as mudanças resultantes dessas lutas, às vezes mais rápidas, às vezes mais lentas, alguns conceitos carecem de revisão. Um deles é a ideia de gênero.

Sexo, gênero e orientação sexual são conceitos muito confundidos. O sexo é estabelecido pela biologia, pela nossa anatomia – apesar de quem hoje em dia também se troca de sexo quando não se sente confortável com o próprio corpo. O gênero, não; o gênero é o papel cultural/social que se atribui a cada um dos sexos. O problema é que nós a todo o momento associamos automaticamente essas duas categorias, como se gênero fosse determinado pelo sexo. Assim, se dizemos que uma mulher não é feminina, logo imaginamos uma mulher que não é delicada e sensível, como se ser mulher implicasse ter essas características. O contrário também ocorre: se um homem foge daquilo que se espera dele, dizemos que ele é feminino, e logo acrescentamos: “mas ele não é gay!”, relacionando o seu comportamento com uma categoria outra, independente das duas últimas: a da orientação sexual.

Não é segredo para ninguém que, desde que viemos a este mundo, ouvimos que existem cores masculinas e cores femininas, filmes masculinos e filmes femininos, músicas masculinas e músicas femininas, humor masculino e humor feminino, roupas masculinas e roupas femininas, modos de agir masculinos e modos de agir femininos, gostos tipicamente masculinos e gostos tipicamente femininos. É por isso que um homem que não gosta de carro nem de futebol, não cumprindo assim o que se define por ser homem, tem prontamente a sua sexualidade questionada. Acontece que neste mesmo mundo existe de tudo e mais um pouco: homens heterossexuais que cumprem o que se estabeleceu por “papel masculino”, homens heterossexuais que cumprem um “papel feminino”, homens homossexuais que cumprem um “papel masculino”, homens homossexuais que cumprem um “papel feminino”, mulheres heterossexuais que cumprem um “papel masculino”, mulheres heterossexuais que cumprem um “papel feminino”, mulheres homossexuais que cumprem um “papel masculino”, mulheres homossexuais que cumprem um “papel feminino”… Isso sem falar nos falar bissexuais, transgêneros, assexuais e naqueles que não se enquadram no binômio homem/mulher, como os “bigêneros” ou “agêneros”, em razão dos quais já se pensa em substituir a sigla LGBT por LGBTQIA (lesbian, gay, bisexual, transgender, questioning, intersex and assexual).

Volto, então, à pergunta do título: ainda faz sentido falar “masculino” e “feminino” quando se alude aos gêneros? O que significam essas palavras? O que sobram delas depois de descortinadas? Se a anatomia não define mais o que é “ser homem” e o que é “ser mulher”, e se isso claramente não tem ligação com a orientação sexual, ninguém precisa ser de Vênus ou de Marte – é possível ser de Júpiter, de Saturno ou mesmo de Plutão, que nem mais planeta é. Nós, homens, mulheres, heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuais, travestis, humanos, enfim, não precisamos mais nos limitar a essas categorias, e hoje nós temos – ou, pelo menos, estamos adquirindo – essa liberdade, como bem já nos mostrou o Laerte.

Termino o texto sem entrar na complexa discussão sobre as implicações biológicas no modo de agir dos homens e das mulheres, mas fique à vontade, leitor, para contrapor ao meu texto argumentos científicos. Eu continuo achando que mais interessante é pensar que a eliminação da ideia de gêneros fixos e determinados e a desconstrução desses tais “papéis cultuais/sociais” podem ser um golpe decisivo no conservadorismo.

No ano passado, um pai passou a usar saias para apoiar seu filho de cinco anos que gostava de usar vestidos.

No ano passado, um pai passou a usar saias para apoiar seu filho de cinco anos que gostava de usar vestidos.

A blogueira, a ilha e o maniqueísmo

Por Leonardo Calderoni

Até poucos dias atrás, pouco havia ouvido e lido sobre a blogueira cubana Yoani Sánchez. Os nervos se inflamaram e o debate político em torno dela se polarizou. Fazer o que? Comecei a pesquisar sobre ela. Primeiramente, li notícias contraditórias sobre suas opiniões. As primeiras que li davam conta de que Yoani era a favor do bloqueio econômico a Cuba. Depois, li declarações suas em sentido contrário. Respirei aliviado e continuei procurando mais coisas.

De todas as coisas que li sobre ela ou dela (incluindo seu famoso blog traduzido “voluntariamente” para 18 idiomas), uma das mais interessantes certamente foi uma longa entrevista que ela concedeu a um jornalista e acadêmico francês chamado Salim Lamrani*. Tal entrevista foi motivada pelo fato de Lamrani, como especialista nas relações Cuba-EUA, ter escrito textos críticos à blogueira. A entrevista é interessante porque o entrevistador obviamente discorda de Yoani e a quis confrontar e colocar dúvidas sobre a sua pessoa (o que ele conseguiu de maneira bastante inteligente, ainda que com algum eventual exagero). Sugiro fortemente a todos que leiam essa entrevista (disponível nas referências).

Depois de ler isso tudo, o que eu acho dessa blogueira? Em primeiro lugar, não acredito, definitivamente, que Yoani Sánchez seja uma agente da CIA ou qualquer coisa do gênero. Para mim Yoani Sánchez é uma pessoa comum que não gosta do governo do seu país (o que é legitimo), mas que foi abraçada e alçada a um determinado patamar de relevância pelo establishment midiático internacional anti-Cuba (e é legitimo que ela seja questionada por isso). Porque nada que não uma fortíssima motivação política explica o fato de que seu blog tenha conseguido em tempo récorde uma série de prêmios internacionais (dados por agentes sabidamente contra o regime cubano) e invejáveis empregos na grande mídia internacional.

Acredito também que Yoani Sanchéz não possui um projeto político alternativo claro para Cuba. Sinto muito, é impossível ver nela essa áurea de grande ativista política que tentam lhe dar. O que ela possui são descontentamentos diversos, mas quando bem questionada em questões mais profundas e gerais, patina para falar de economia, política e história. Por exemplo, sua visão sobre o período pré-revolucionário cubano (a terrível ditadura de Fulgencio Batista) é tão idealizado que chega a dar dó. Além disso, afirma que os sucessos de Cuba na saúde e educação públicas não se deveram à mudança de regime em 1959, mas a uma espécie de “indiciocrasia” do povo cubano, algo que nenhum analista minimamente sério, por menos simpatizante de Fidel Castro que seja, ousa sustentar**.

Outra coisa importante é que, ao contrário do que se pode ler em muitos lugares, como já disse, ela realmente é contra o bloqueio econômico à ilha, que para ela é algo nefasto porque serveria como mera justificativa governamental para os problemas pelos quais o país passa. Ela afirma, inclusive, que se o bloqueio fosse suspenso “provavelmente não se sentiriam os efeitos”, em função dos problemas internos de gerenciamento do governo cubano. Então apesar de ser contra o bloqueio, no fundo ela está dizendo que “meio que tanto faz” ele estar de pé ou não, já que seus efeitos são marginais e a culpa dos problemas no fim do dia é do próprio governo cubano. Obviamente, a tese de que o bloqueio econômico tem pouco e nenhum efeito sobre Cuba é uma piada que ignora, entre outras coisas, o repúdio de quase toda a comunidade internacional na ONU à sua manutenção. Se fosse verdade que o bloqueio econômico servisse meramente como um fator de legitimação do regime cubano, os EUA já o teriam suspendido faz muito tempo.

Assim, parece que Yoani Sánchez acaba exercendo o papel de um peão (muito bem pago) dentro de uma guerra político-ideológica que muito lhe sobrepõe. O fato é que mesmo depois do fim da Guerra Fria, Cuba ainda é aquele paradigma de incomodo para muita gente poderosa cujos sentimentos pelo bem-estar do povo cubano são bem questionáveis.

Apesar de ser de esquerda e saber que há enormes distorções midiáticas em relação ao que ocorre na ilha, sempre tive um pé atrás com as visões que idealizavam Cuba como um paraíso. O que não me impede de dizer que quanto mais estudei e ouvi sobre o país, mais ficou claro de que há muitas lições que podemos e devemos, sim, tirar dele, como o tratamento realmente público da saúde da educação. É difícil (e por isso mesmo extremamente necessário) tentar analisar Cuba e sua trajetória histórica de uma maneira não estigmatizada. Pergunto-me até que ponto tudo o que envolve Yoani Sánchez, dos financiamentos estrangeiros aos protestos no aeroporto, realmente contribuem para isso ou só reforçam o maniqueísmo nas análises sobre a ilha.

Enquanto isso, sinto muito, mas a única certeza que tenho para mim sobre Cuba é que o desumano bloqueio à ilha deveria tocar mais os corações alheios do que o apoio ou o rechaço automático que as pessoas têm por Yoani Sánchez. Ainda mais porque suspeito fortemente de que a enorme maioria dessas pessoas nunca deve ter aberto o seu famoso e multilinguístico blog.

* http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/02/o-bate-papo-que-desmascarou-a-blogueira-yoani-sanchez.html

** Ano passado fiz um pequeno trabalho sobre o sistema de saúde cubano que pode ser bastante esclarecedor, caso tenham paciência para lê-lo:

https://docs.google.com/file/d/0B4S9S1Ry_PtmbVB3LURRTFNvTDA/edit

Janela Indiscreta

Por Paula Elias

O filme Janela Indiscreta, dirigido por Hitchcock em 1954, conta a história do fotógrafo L.B. Jeffries. Com a perna quebrada, Jeffries resolve afastar o tédio espiando seus vizinhos, até que um dia observa uma cena que o convence que um homem assassinou a esposa e escondeu o corpo. A trama se desenvolve a partir do esforço do fotógrafo para provar que o crime aconteceu, auxiliado por sua noiva (protagonizada pela bela Grace Kelly).

Não sei se hoje Hitchcock teria se animado a filmar. O pessoal e o particular se misturam tanto nas redes sociais que para espiar alguém, basta clicar no perfil do Facebook. Em tempos em que redes sociais te informam onde uma pessoa mora, no que trabalha, com quem namora, onde ela está, e até o que ela comeu no almoço, toda janela é indiscreta. As janelas do browser, lógico.

Entro no twitter e consigo ver os assuntos mais comentados do dia antes que chegem aos jornais, reclamações sobre o trabalho, e os esportistas de plantão anunciando que acordaram cedo para malhar. O Instagram me provém um estoque quase infinito de foto de comida e gatos. Com um trilhão de filtros para dar aquele ar cool ao prato e deixar todos os amigos mor-ren-do de inveja. E quatro mil hastags por foto. #Restô #PF #ovofrito #farofa. O Facebook é uma avalanche de informações! Mil #Partiu para algum lugar, check-ins por todo quanto é canto, citações profundas que NUNCA são da Clarice Lispector. Os ativistas do mouse, clamando por justiça para Belo Monte, fins aos maus tratos aos animais e ameaçando a TIM de toda forma possível  – inclusive com a perda da virgindade.

A cereja no bolo é que espiar não é mais um verbo em uso. Hoje em dia se stalkeia: o namorado, o ex, a ex do atual, a ex do ex, a atual do ex (aquela feiosa), aquele ódio de estimação. Quer ver se aquela inimizade do colégio engordou, enfeiou ou se deu mal? Quer saber por onde aquele cara gatinho anda para esbarrar “sem querer”? Fácil!

Jeffries não precisaria de um binóculo. Um computador, um Ipad, pronto. Ia saber de tudo, até se o vizinho come o ovo frito com gema mole ou dura. Se ele tem uma fazendinha virtual. Sua perna engessada iria parar no Instagram com #Quebrei #ArtenoGesso #Tédio.

Confesso: eu não consigo desgrudar do meu “Face”. Todo tempo que sobra já vai para uma checadinha inocente. Até foto das minhas unhas feitas postei no Instagram ontem. Meu namorado, que não é muito de rede social nenhuma, me perguntou há um tempo: pra quê?! Por que raios o mundo todo precisava saber que eu jantei uma massa a la qualquer coisa? Ou que eu cheguei no trabalho ou que #parti pra happy hour?

Refleti e vi que ele tem razão: ficamos todos pavoneando nossas vidas incríveis, registrando os melhores momentos, como se tivéssemos a obrigação de ser fabulosos o tempo inteiro. No Facebook ninguém é feio, ninguém é infeliz, ninguém acorda com mau hálito, nem come pizza de ontem.

Agora que o carnaval passou e o ano começou eu resolvi mudar de hábitos e parar de clicar no facebook como se a minha  vida dependesse disso. Vou me preservar, parar de mostrar pro mundo onde eu vou, com quem e pra quê.

Logo depois que eu postar esste post na página do Esparrela, lógico.