Entrevista com a filha da Zuzu Angel a respeito da Comissão da Verdade

Por Fernando Rinaldi

No dia 31 de março de 1964, o Brasil sofreu um golpe militar. Passaram-se 49 anos e o Brasil ainda não sabe o que aconteceu com muitos que lutaram pela democracia. Por isso, decidi reproduzir aqui uma entrevista que eu fiz com Hildergard Angel, publicada no ano passado pelo site Carta Maior.

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“Sou esperançosa, vejo boas intenções, mas eu estou cansada”, diz Hildegard Angel

Em entrevista, Hildegard Angel, filha de Zuzu e irmã de Stuart, conta um pouco de sua luta para preservar e honrar a memória de sua família. Além disso, fala sobre a Lei da Anistia, a Comissão da Verdade, o papel das novas gerações na política e a imprensa brasileira. “Vivemos numa liberdade de imprensa muito relativa, mas não devido ao governo, e sim devido aos interesses capitalistas dos empresários da opinião deste país”.

Fernando Rinaldi – Especial para Carta Maior

“Quem é essa mulher?” é o verso ecoante da música de Chico Buarque feita em homenagem à estilista Zuzu Angel, que morreu num mal explicado acidente de carro depois de ela ter enfrentado com unhas, dentes e desfiles de moda de protesto o regime militar, almejando saber a todo custo alguma informação sobre o paradeiro de seu filho, o ativista político Stuart Angel Jones, torturado e assassinado à época dos “anos de chumbo” brasileiros. A música se tornou símbolo da luta das mães que nunca souberam o que realmente aconteceu com seus filhos nem puderam enterrá-los dignamente. É o símbolo também de uma época de muito sofrimento cuja memória Hildegard, filha de Zuzu e irmã de Stuart, faz questão de manter viva para que essa história não volte a se repetir.

Ela, que começou a sua carreira como atriz nos anos 1970, posteriormente se tornou jornalista e conquistou o posto de uma das maiores colunistas sociais do país. Hoje ela se dedica a um blog, cujos temas predominantes são moda e comportamento, e pretende inaugurar em breve um museu com vários documentos de sua família, guardados ao longo de anos.

Também fundadora do Instituto Zuzu Angel, Hildegard nunca foi militante como seu irmão. “As pessoas tiravam casquinha do heroísmo alheio. Eu sempre tive pudor disso”, explica quando questionada se nunca pensou em juntar-se ao movimento de oposição ao governo. “O que eu sempre fiz foi honrar a memória dos meus”, complementa, emocionando-se ao relembrar a história de combate de sua família.

Hilde, como é chamada pelos mais próximos, tira de sua trajetória posicionamentos precisos sobre a Lei da anistia, a Comissão da Verdade, o papel das novas gerações na política e a imprensa brasileira, fazendo jus à frase com que se descreve em seu Twitter: “Vocês me conhecem. Sou aquela que pode não ter a melhor opinião, pode não ter a sua opinião, mas tem opinião!”. A partir de suas falas, que desvelam alguns episódios importantes desse período ainda nebuloso da história do nosso país, é possível conhecer um pouco mais quem é essa mulher chamada Hildegard Angel.

Antes de se dedicar ao jornalismo, a senhora teve uma carreira como atriz. Numa outra entrevista, a senhora declarou que queria ser a Joana D’Arc dos palcos, enquanto que o seu irmão queria ser a Joana D’Arc da vida real. Como foi esse seu início profissional? Ser a Joana D’Arc dos palcos também implicava alguns riscos, alguma exposição?

E ele foi, né? Ele foi a Joana D’Arc da vida real (risos).

Mas acabou que nos anos 1970, com o teatro engajado, houve uma exposição, sim. Eu, por exemplo, fiz algum teatro engajado, com o Grupo Oficina. O último espetáculo deles, em 1973, chamado Gracias, Señor, dirigido pelo Zé Celso Marinez Corrêa, foi uma peça engajada importante da qual eu participei. Ela era assistida toda noite pelo DOPS. Era um espetáculo longo, muito improvisado também. Havia riscos naquela época, que era época da censura, né? Houve também um risco também para as pessoas de teatro que tinham uma militância. Eu não fui uma militante, né? Eu fiz a militância por acaso em alguns espetáculos como esse.

A senhora nunca pensou em se juntar ao movimento de oposição ao governo?

Eu não tinha a estrutura ideológica do meu irmão. Eu sempre respeitei muito o embasamento ideológico e intelectual do meu irmão. Seria muito fácil para mim e até muito honroso pegar, empunhar e desfraldar a bandeira da esquerda brasileira. E seria também muito proveitoso para mim naquela época se eu tivesse tomado essa iniciativa. Mas eu sempre encarei de uma maneira muito séria e com muita responsabilidade e respeito a luta do meu irmão. Eu ficava muito envergonhada de ver pessoas vestirem de uma maneira até festiva o uniforme, a roupa, as vestimentas da militância sem terem conteúdo ideológico, apenas pelas vantagens que poderiam advir dessa proximidade com os nossos heróis. As pessoas tiravam casquinha do heroísmo alheio. Eu sempre tive pudor disso. Eu sempre respeitei muito a luta legítima de quem fez por onde. Eu sempre considerei um atrevimento ver jornalistas, artistas, pessoas de comunicação sem conteúdo ideológico, mas com bom jogo de cintura, se aproveitarem do sangue, da luta, da ideologia, do conteúdo, da ingenuidade, da boa fé dos nossos jovens para tirar partido disso, para construir suas carreiras na base do oportunismo. Eu sempre tive esse pudor. Nunca quis.

O que eu sempre fiz foi honrar a memória dos meus. Foi, em todos os momentos da minha vida, jamais negar-lhes todas as homenagens, desde o primeiro momento. Meu irmão e minha mãe são e foram as personalidades daquele momento político brasileiro mais homenageadas até hoje. Até durante a ditadura foram inauguradas ruas, praças escolas, exposições com os nomes deles. As pessoas ficavam até boquiabertas de isso acontecer porque ninguém tinha peito de fazer isso. E com meu olhar até singelo, meu jeito ingênuo – podem considerar até sonso –, eu fazia isso. Talvez as pessoas achassem que eu fosse amorfa porque eu não oferecia perigo. E eu fazia isso. Eu mantive a memória dos meus viva, respeitada, homenageada, e essa foi a minha maneira de prestar a minha homenagem, de fazer o meu bom combate e de manter essa luta e essa memória vivas para que esses fatos não se repetissem.

E a senhora fundou também o Instituto Zuzu Angel, uma forma de preservar a história da sua mãe…

Foi a primeira ONG de moda no país, ou seja, uma sociedade civil sem fins lucrativos, lembrando a memória de Zuzu, lembrando a sua luta e a luta do Stuart. Eu lembro que naqueles anos em que todos rasgavam documentos, jogavam fora qualquer coisa que os comprometesse, eu guardei tudo, tudo o que se possa imaginar: na minha casa, nas minhas costas, nas minhas malas, nos meus baús, nas minhas gavetas. Nunca tive medo. E hoje nós temos um conteúdo sensacional de documentos. Hoje nós estamos tentando levantar um museu aqui no Rio de Janeiro com a Secretaria de Estado. Se Deus quiser nós conseguiremos. Porque, você sabe, essas coisas de governo a gente nunca sabe, né? Várias promessas, vários governos sucessivamente… Nunca sabemos se será levado adiante. Uma hora dizem uma coisa, noutra hora outra. Eu quero ver pronto! Já estou cansada de promessas!

Mas eu tive a coragem de manter esse acervo sob as minhas asas numa época em que as pessoas tinham medo. Eu nunca me vangloriei da luta do meu irmão, da minha mãe e da minha cunhada porque é essa luta pertenceu a eles.

Que imagem a senhora acredita que o Brasil tenha da luta deles?

Acho que o Brasil tem a imagem de que os nossos jovens lutaram e de que os nossos políticos da época se omitiram. Os políticos da época, que podiam estar lá fora falando sobre isso, se omitiram.

Não me esqueço quando minha mãe, que era uma juscelinista de boa cepa, convicta, encontrou-se com o Juscelino numa festa onde estava toda a high society do Rio de Janeiro e lhe disse: “Você poderia ter denunciado as mortes, mas você se calou. Você teria recursos para falar na imprensa internacional das torturas. Eu não lhe perdoo, Juscelino Kubitschek!” E enfiou o dedo no nariz dele. Na ocasião, disseram: “Zuzu, você está louca! Fica calma!”.

Ela estava dizendo a verdade. No ano de 1976, foi aquela lavada geral, aquela limpeza diária: mataram a Zuzu, mataram o Juscelino, mataram o Carlos Lacerda, mataram o Jango. Porque ninguém me tira da cabeça que as mortes de Lacerda, Jango e Juscelino também fizeram parte dessa ação articulada. No Brasil, iniciava-se o processo de abertura e eles teriam que limpar a área para que tudo começasse zero-quilômetro, para que não ficasse resíduo, qualquer voz que pudesse se levantar para incomodá-los.

Mas, quando foi dada a voz às famílias desses antigos políticos para falar a respeito na época da Comissão dos Desaparecidos, elas não quiseram investigar. Elas negaram que os seus familiares tivessem sido mortos, talvez por receio, porque não acreditassem ou porque não tivessem a ideia de que elas estavam roubando a memória de seus familiares quando lhes sonegavam o direito do reconhecimento de um assassinato político.

A senhora apoiou a Dilma nas eleições presidenciais de 2010. Agora, no seu governo, finalmente foi instalada a Comissão da Verdade. O que a senhora espera dessa Comissão?

O assassinato da Zuzu foi reconhecido vinte e dois anos depois. Não foi no governo da Dilma, eu tenho que reconhecer. Foi no governo Fernando Henrique, quando o seu ministro, José Gregory, criou a Comissão dos Desparecidos Políticos. Foi feito um processo bem longo, em que houve recurso. O assassinato da mamãe foi reconhecido em segunda instância porque surgiram testemunhas oculares. Então não foi a presidenta Dilma. Mas eu acho que tudo anda muito vagarosamente.

Eu acho que a anistia foi a anistia que foi possível na época. Eu apoiei e o Brasil inteiro apoiou a anistia porque foi a anistia possível. Eu apoiei aquela abertura porque foi a abertura possível; aquele momento porque foi o momento possível, porque foi o momento em que não houve confronto, não houve novas vítimas, não houve sangue, não houve dor. Eu apoiei, sim, aquele momento porque foi um momento sem mortes. É muito importante que o Brasil lembre que nós tivemos uma passagem para a democracia sem mortes. Para quem já sofreu tantas mortes, como eu já havia sofrido, não queria mais em nome da política que houvesse mortes. Os nossos jovens, que já estavam velhos, retornaram ao Brasil, de todos os países, sequiosos para isso, sedentos para isso. E nós aqui esperançosos para isso. Então eu achava importante que a nossa passagem tivesse sido sem mortes.

E a senhora espera que seja feita a justiça com a Comissão da Verdade?

Eu espero que seja feita, mas eu acho tudo muito lento e eu fico muito cansada. Eu espero que sim. Sou esperançosa, vejo boas intenções, mas eu estou cansada. Você veja, esse livro (Memórias de uma guerra suja) em que é apontado o possível assassino da minha mãe… Por que eles não elucidam logo esse assassinato, quem foi o assassino? Que ela foi assassinada todos já sabemos. Por que eles não identificam logo, não abrem logo esse processo? Você vê que as famílias têm que ficar o tempo todo sofrendo esse martírio. Eu fico cansada.

Como a senhora acha que as novas gerações lidam com a política?

Se não forem as novas gerações, o que será de nós? As velhas gerações estão muito mais preocupadas com elas mesmas do que com o nosso passado. Graças a Deus temos as novas gerações.

A senhora acredita que o Brasil lide bem com o seu passado?

Eu acho que o Brasil lida bem com o passado na medida em que as novas gerações estão preocupadas com esse passado. Com a idade, as pessoas vão se acomodando, as pessoas vão perdendo seus postos de poder, a sua voz, a sua influência. E as pessoas também vão se revelando, né?

Pessoas que antes pareciam engajadas, preocupadas em esclarecer fatos, hoje se situam praticamente à direita e estão mais preocupadas em satisfazer seus patrões da mídia de direita do que esclarecer pontos importantes do nosso passado de esquerda.

Os filmes que falam sobre essa época da ditadura, como o filme do Sérgio Rezende que foi feito sobre a sua mãe, podem ajudar a resgatar esse passado?

A cultura está fazendo essa revolução. A cultura está fazendo essa denúncia. A cultura está prestando um grande serviço a essa luta brasileira, a esse resgate. Acho que há movimentos importantes também. O “Tortura Nunca Mais” de hoje é um movimento muito importante.

Hoje se discute e se faz com bastante frequência política na internet, em blogs e em redes sociais. O que a senhora pensa a esse respeito?

Redes sociais são importantes, mas eu vejo que há uma certa casta superior do jornalismo que se identifica como jornalismo de primeira linha, de primeiro grupo. É um jornalismo totalmente comprometido com seus patrões, que não está muito preocupado com nada, não…

A senhora acha que nós vivemos numa liberdade de expressão plena hoje?

Vivemos numa liberdade de imprensa muito relativa, mas não devido ao governo, e sim devido aos interesses capitalistas dos empresários da opinião deste país, que estão restritos a uma única opinião, refletindo os interesses de um pequeno grupo de empresários poderosos…

 

*Link da entrevista no site da Carta Maior: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20929

O lado bom de Marco Feliciano

Por Leonardo Calderoni

A insistência de Marco Feliciano em manter-se na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara tem dado o que falar. O fato causa intensa e justificada indignação na sociedade porque o sujeito é uma espécie de paradigma da intolerância concentrada em um único indivíduo. Sobra para todo mundo: negros, homossexuais e mulheres já foram alvos de declarações inacreditavelmente absurdas do pastor-deputado.  Contudo, penso que pode haver algo de bom nessa tragicomédia parlamentar: o escancaramento e o enfrentamento de algumas de nossas mazelas sociais – que Feliciano infelizmente realmente representa.

Embora o racismo, a homofobia e a misoginia estejam fortemente presentes em nosso cotidiano, existe uma tendência igualmente forte de negar ou relativizar esses problemas. Isto pode ser parte da explicação dos nossos persistentes, vergonhosos e acentuados problemas de direitos humanos, uma das (más) razões para o Brasil ser famoso internacionalmente.

Como Feliciano age de maneira caricata e explícita na exposição de sua intolerância, fica impossível cair nesses discursos relativistas ou de simples negação: ele está lá, pensa e diz esses absurdos, age em prol desses absurdos com todo destemor e não está sozinho. Não é aquela opressão disfarçada e sutil tão típica do brasileiro (por vezes até feita sem intenção), muito mais difícil de combater.

A retórica e as atitudes de Feliciano bem ou mal prestam o serviço de lançar uma luz forte sobre esses temas. Não quero dizer com isso que é bom ele se manter no cargo que está, mas acredito que se esses problemas não existissem como fatos sociais relevantes e Feliciano fosse uma voz louca e isolada, não seria necessária tanta indignação. Não precisaríamos afirmar que ele “não nos representa” – isto seria óbvio. Cabe aproveitar essa oportunidade para discutirmos esses problemas mais a sério, nos aprofundar nesses temas e refletirmos sobre as pequenas e grandes atitudes cotidianas que fazem a nossa sociedade ser muito mais parecida com Feliciano do que acredita ser.

Até hoje se pode perceber pessoas, na maior inocência e boa intenção, falando em “opção sexual” (como se a pessoa escolhesse por quem é atraída da mesma maneira como se escolhe uma refeição num cardápio). Ou então não vendo nenhum problema na maneira como a mulher é tratada na rua ou retratada pela publicidade (e quando questionado reclama da “ditadura do politicamente correto”). Ou, uma das mais tristes: acreditando piamente que vivemos numa sociedade sem um racismo arraigado. Há até pomposos jornalistas e intelectuais que dedicam a vida a tentar provar a tese de que “não somos racistas”.

Enquanto isso, uma pessoa é assassinada a cada 36 horas no país porque comete o “pecado” de gostar de pessoas do mesmo sexo. A cada 15 segundos, outro ser humano sofre algum tipo de violência porque supostamente nasceu da costela de Adão. E os detentores de melanina continuam na base da base da base da nossa “pirâmide social”, com índices sociais inferiores aos brancos em absolutamente todos os quesitos (mesmo entre os pobres há uma grande disparidade racial), para não falar do fato de serem alvos preferenciais de nossas polícias internacionalmente reconhecidas por seus abusos de direitos humanos.

Fico pensando nesse feio retrato que pintamos ao longo de nossa história e me questiono: será que mesmo as atitudes consideradas “pequenas” não ajudam a forjar um ambiente social onde as opressões são naturalizadas e reproduzidas? Acredito que sim, pelo meu próprio exemplo pessoal.

Lembro de uma vez que tive uma reação absolutamente injustificada e intensa de medo quando um negro me cutucou na rua para pedir uma informação. É claro que me senti terrivelmente mal por isso depois. Mas foi bom porque me caiu a ficha de como por mais que eu não seja um pastor fundamentalista e mesmo que me solidarize sinceramente com a luta das minorias, não estou imune a esse ambiente social que me educou a associar automaticamente negros com “pobreza”, “criminalidade” e “perigo”.

Também poderia falar como anos atrás eu também dizia “opção sexual” e não via grandes problemas em como as mulheres são mostradas em propagandas de cerveja, entre tantas outras coisas. Mas a questão não é se martirizar e ou se dar chibatadas por não ser uma bolha imune aos preconceitos da sociedade, o que também não leva a lugar nenhum.

É mais produtivo tentar perceber que a intolerância não começa e nem termina nos Felicianos, Malafaias e Bolsonaros que vemos por aí. Ou precisamos nos nivelar tão por baixo para começarmos a repensar as próprias atitudes e no que está ao nosso redor?

Filhos de Colombo

por Ivan Nisida

Um dia banal e três palavras importunas. O fato se deu numa sessão de cinema aqui em Paris, numa segunda-feira de frio cortante. Acompanhado de duas amigas, fui a um festival de filmes com temáticas ambientais. Vimos o documentário “Amazônia Eterna”, do diretor brasileiro Belisario Franca. Recomendo a obra e chamo atenção para o primor estético das imagens. Quanto ao conteúdo, o documentário aborda iniciativas de economia verde na Amazônia que funcionam, apesar de rarefeitas. Ou seja, amostras factuais de um desenvolvimento sustentável.

A fonte motivadora desta crônica não se deu ao longo do filme, mas logo ao final da sessão. Enquanto o realizador da obra respondia (valentemente e em francês) a críticas e observações dos espectadores, uma de minhas amigas, sentada a minha esquerda, ecoou com certo ar de revolta um comentário vindo da fila de trás. Um eminente senhor (desconheço sua origem exata, mas diria que era francês) parece ter soltado algo do gênero: “Ah, esses filhos de Colombo…”, muito provavelmente referindo-se desmatamento mostrado no documentário.

Geralmente comentários de pessoas desconhecidas não me afetam. Mas, dessa vez, preciso dizer que me subiu uma indignação pela garganta (o famoso nó). Foi algo instintivo e impulsivo. Depois de algum tempo, passou. Mas pude extrair algumas divagações daqueles intensos segundos…

Quem são esses filhos de Colombo, afinal de contas? Eu não sou filho de Colombo, tampouco bisneto. Tamanho comentário me fez pensar numa prole de desalmados destruidores de natureza, “deixados por Colombo” no Novo Mundo. Não deveria sentir-me atingido. “Só que não”. Porque, afinal de contas, sou brasileiro. E como brasileiro, senti-me atacado. Aliás, senti-me ofendido como brasileiro, como sul-americano e como latino-americano.

A expressão é curiosa. Ser “filho de Colombo” implica um laço de hereditariedade. É como a devastação dos recursos fosse uma simples continuidade predatória herdada de nossos “antepassados” voltando no tempo até chegar a Colombo.  Sim, há uma grande ponta de verdade. Não vou e nem posso negar as devastações na Amazônia e que muito falta a fazer na área ambiental. Mesmo assim, o que me incomodou de fato foi sentir no ar a velha (caduca) cisão do mundo entre civilizados e bárbaros… Como somos atrasados, não? E os civilizados, ficaram na Europa? Sim, é possível que mesmo no século XXI talvez alguns ainda vejam o Brasil e seus vizinhos como uma nação de “filhos de Colombo”, um reduto colonial, um amalgamo de pessoas “atrasadas” e algumas “semi civilizadas”, quem sabe. Azar deles.

Porém, é preciso fruir do lado bom das coisas que indignam. Aproveito então o ensejo para constatar algo inegável. Se não detemos a responsabilidades pelos “erros” de nossos antepassados, a responsabilidade do presente (e portanto do futuro) é inerentemente irrevogável. Eis a ponte para saltar brevemente para o tema do documentário, “Amazônia Eterna”.

Belisario Franca e sua equipe narram, através de um espetáculo imagético, exemplos aparentemente bem sucedidos de como crescer de maneira sustentável.

Entre as mensagens mais fortes, o documentário lembra de algo imperativo no debate ambiental: todo a reflexão e labor nesse assunto possui, como fim último e esperado, o bem-estar e o progresso da “humanidade” (um conceito abstrato, como declara um dos entrevistados do documentário). Afinal, quem não quer crescer, ganhar dinheiro, viajar, emancipar-se? Pode me “incluir dentro dessa”. Mas a questão é: a que preço? Vale perseguir a riqueza econômica a todo custo?

O documentário não oferece uma formula mágica e universal. Aliás, eu veria o conceito de desenvolvimento sustentável mais como uma lógica a aplicar do que uma fórmula. Na verdade, Franca narra exemplos de que como possível crescer gerando lucro sem destruir uma sociedade, sua cultura e, claro, sem devastar o meio ambiente circundante. Aliás, a própria preservação do meio ambiente pode acabar levando a benefícios socioeconômicos. Talvez o lucro imediato não seja tão polpudo no curto prazo, mas ele existe, pode se diluir no tempo e se perenizar.

Vê-se também que os desenvolvimentos econômico, social e ambiental não se conformam como categorias herméticas. Portanto, elas se influenciam, chegando a ser complementares em alguns casos. No documentário, uma ilustração é dada no caso de uma “agrofloresta” (sistema produtivo em que as plantações são curiosamente cultivadas em meio a uma floresta preservada). Nesse exemplo, a conservação da biodiversidade do local se coloca como processo vital para o próprio sucesso do negócio (polinização, manutenção de cadeia alimentar). Econômico, social e ambiental. Três variáveis na equação de sustentabilidade. Como uma balança de três braços. Como um cobertor curto demais para cobrir a cabeça, os pés e os braços.

De novo, crescer é preciso, mas como? Lucro e subida do PIB talvez não sejam mesmo os termômetros soberanos de desenvolvimento. Que o diga o “Arpocalipse” de Pequim…

Os casos citados em “Amazônia Eterna” provavelmente não se conformam como a regra na região. Pelo contrário, é mais provável que sejam exceções num mar de economia menos “verde”. Mas há outro sabor escamoteado nas palavras, embebendo as imagens. Há uma ponta de utopia.

Seria a rosa nascida no asfalto (com o perdão de Drummond para pegar a metáfora emprestada)? E se for de fato o aceno de uma utopia, para que essa serviria? Como poetizou o uruguaio Eduardo Galeano, plantando um broto de esperança em seus leitores,  “La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. ¿Entonces para que sirve la utopía? Para eso, sirve para caminar”.

Aproveito o tema da utopia para retomar uma poderosa idéia de “Amazônia Eterna”. Em certo momento do filme, um dos participantes fala em iniciar na Amazônia uma nova idéia de civilização (vinda dos indígenas?), em que o desenvolvimento econômico se funde ao social e ambiental, na medida do possível. Já pensou? Um genuíno modelo de civilização sustentável? Que devaneio. E que chique, pois assim seríamos civilizados, não? Poderíamos deixar para trás o fardo de ser “filhos de Colombo”? Um modelo de civilização que não existe para ser imposto, doutrinado e marcado a ferro e fogo, mas um modelo que clama pela cópia. Essa pode ser a marca de um país do futuro. Sim, a vereda é longa e tortuosa. Mas toda longa caminhada precisa de um primeiro passo, de um 14-bis, de um Tamagochi, de um Charles Miller…Quem sabe (permissão para devaneios)…

Enfim, temos o “azar” de ter começado um desenvolvimento socioeconômico com atraso. Porém, temos a sorte de poder obtê-lo com essa ambiental variável na equação. Pois o Brasil, com sua extensão, seus recursos naturais e sua população pode esboçar um modelo alternativo de desenvolvimento. Claro, isso está longe, depende de muita coisa. Mas quem sabe não esteja ali, depois do horizonte…

Acredito que preocupação com o meio ambiente não pode ser um luxo de uma pós-modernidade. Teremos que ser suecos para chegar a reciclar 99% do lixo (estamos na casa do 1% em São Paulo)? Ao mesmo tempo, não pode ser um bloqueio para inovar e crescer. Talvez como em tudo nessa vida, ai vai o clichê, exista um meio termo. O tempo dirá. O debate persistirá com Belo Monte, com o Código Florestal…

Nunca imaginei que o comentário de um eminente senhor fosse render essa prosa. Mas o fato é despertou toda uma indignação e felizmente, toda uma reflexão. Vale dizer, nunca me senti tão brasileiro quanto naquele momento.

 

Ivan Nisida é estudante do mestrado em Relações Internacionais e Política Ambiental no Instituto de Estudos Políticos de Paris – Sciences Po. 

Tarja preta sobre os índios

Por Fernando Rinaldi

 

Ouvi no rádio essa semana uma notícia que me chamou a atenção: uma foto do filme As Hiper Mulheres, que mostrava índias do Alto Xingu, no Mato Grosso, foi retirada do ar no Facebook por violar a “a declaração de direitos e responsabilidades” do site. Para que elas pudessem postadas novamente na rede social, a produtora precisou colocar tarjas pretas sobre os seios e os órgãos genitais das índias.

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O leitor do Esparrela há de lembrar que não é a primeira vez que fotos são bloqueadas por violarem os termos de uso do Facebook. Em 2008, uma mulher chamada Heather Farley teve uma foto sua amamentando removida e foi ameaçada de ser banida da rede social se postasse novamente a imagem. Em 2010, o Facebook eliminou fotos estampando uma boneca de porcelana sem roupas que servia como modelo da linha de produtos de uma designer de joias. Em 2011, a foto do CD Nevermind (aquele cuja capa tem a imagem de um bebê nadando pelado), do Nirvana, também foi retirada do ar. Já foram bloqueadas também fotos de mulheres nuas protestando na “Marcha das Vadias”, de mulheres fazendo campanha contra o câncer de mama e de artistas que queriam somente expor suas obras. E não raro vejo usuários do Facebook reclamando de terem postado uma foto tirada por um fotógrafo famoso e de ter essa foto bloqueada por conta de seu “conteúdo inadequado”.

É no mínimo curioso que toda a imagem ou foto contendo nudez seja categoricamente classificada como pornográfica. Parece haver um excesso de puritanismo nas ações de proibição empreendidas para fazer valer os termos de uso do Facebook. Chegam a ser a um só tempo tristes e risíveis as tentativas de controlar a qualquer custo o conteúdo compartilhado, pois, na medida em que não se faz distinção entre um conteúdo erótico e qualquer outro conteúdo, tudo pode ser visto como pornográfico: obras de arte, manifestações, campanhas e até uma imagem de índios.

Contra a proibição de fotos e imagens que o Facebook julga serem de conteúdo pornográfico até já foi redigido um abaixo-assinado no www.causes.com, do qual reproduzo um trecho: “(…) o Facebook favorece, encoraja e pratica sistematicamente a CENSURA de todo tipo de conteúdo erótico ou associado à nudez e ao sexo, o que inclui a exclusão de uma miríade de obras de arte dos mais variados períodos e regiões da história humana, nos mais diversos tipos de suportes (escultura, pintura, desenho, gravura, vídeo, filme, fotografia, textos, inscrições, graffiti, misto, etc, etc), que são parte do patrimônio cultural da humanidade e compõem junto com outras razões alguns dos motivos específicos pelos quais milhões de pessoas visitam museus e espaços culturais dentro ou fora da WWW, hoje e sempre. Associado a isso, o Facebook demonstra ser adepto da prática da INTOLERÂNCIA CULTURAL, ao censurar conteúdos que registram práticas de outras culturas diferentes da cultura ocidental dominante como a nudez de membros de etnias nativas que sempre viveram assim e tem sua própria razão de ser.”

Embora eu ache complicado falar em censura, ainda mais num país como o nosso, em que essa palavra tem um peso histórico considerável, ninguém poderá negar que, no espetáculo de Mark Zuckenberg, toda nudez é castigada. Quanto à intolerância cultural, o episódio da tarja preta só serviu para escancarar a completa ignorância a respeito dessa outra cultura em que a nudez tem outro significado. É espantoso que essa imagem, que tem como objetivo divulgar um filme, só possa circular pela nossa cultura, em que a nudez é encarada por um viés outro, se as “vergonhas” das índias forem escondidas com uma tarja preta.

Como se não bastasse, outra notícia dessa semana que passou conseguiu me deixar ainda mais abismado: a retirada dos índios da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, foi marcada por truculência, uso de bombas de efeito moral e gás de pimenta pelos policiais do Batalhão de Choque da PM. O governador Cabral queria que a área do antigo Museu do Índio fosse transformada num estacionamento para a Copa do Mundo de 2014. Depois da reação de artistas, mudou de ideia: agora será transformado num Museu Olímpico. E, para isso, decidiu tirar os índios de lá à força nessa última sexta-feira.

Houve violência e tumulto, houve abuso de poder e de força. Ao que tudo indica, os índios haviam feito um acordo com o governo que não foi cumprido. “Já estávamos retirando os idosos, as mulheres e as crianças para serem levados para um terreno em Jacarepaguá, oferecido pelo governo. Pedimos aos policiais para esperarem mais dez minutos, mas isso não aconteceu e o comandante determinou a invasão do Batalhão de Choque. Isso não precisava ter terminado desta forma. Muitas pessoas foram atingidas por balas de borracha e spray de pimenta. Estamos estudando a possibilidade de entrar com uma representação contra o comandante por crime de abuso de autoridade”, declarou o defensor público Daniel Macedo.

Não é também a primeira vez que os índios são tratados dessa maneira – lembremo-nos do episódio do Guaranis-Kaiowás no fim do ano passado. Pouco aprendemos com séculos e séculos de extermínio. Mais uma vez, o Brasil não se importou em tapar sua memória e sua história com uma tarja preta. Mais uma vez, o governo brasileiro tapou com uma tarja preta os Direitos Humanos, na tentativa de deixar visível somente o “progresso” que suas ações supostamente trarão. Não deu certo: o despejo repercutiu mundialmente e gerou polêmica na supracitada rede social.

Tanto na proibição da foto quanto na ação do despejo, passou-se por cima das particularidades de uma cultura para fazer valer a lógica arbitrária de termos, leis e ordens tão absurdos como os de um texto kafkiano; em ambos os ocorridos, a tarja preta, seja a real ou a simbólica, esta relacionada à antiga violência e descaso direcionados a um grupo específico, revelou mais do que ocultou. E o que ela revelou é, nesses casos sim, indecente e tenebroso.

Gente Estúpida

 

 

 

 

 

Por Marcelo Rubens Paiva

 

Quando a estupidez vira tendência

Giorgios Katidis, jogador do AEK Atenas, faz um gol contra o Veria, corre pra galera, para e… faz a saudação NAZISTA?!

Espera lá!

Ele está diante de filhos, herdeiros e talvez de sobreviventes partisans que lutaram ferozmente contra a invasão alemã na Segunda Guerra, num dos cenários mais sangrentos da ocupação do Mediterrâneo.

Tá maluco?!

O meia pediu desculpas depois. O gesto lhe custou uma suspensão da seleção de país por toda vida, imposta pela Federação Grega de Futebol.

“Foi um ato de estupidez. Eu cometi o erro e sou o único culpado que deve ser punido por isso”, admitiu.

Katidis, de 20 anos, tem um irmão adotado de Porto Rico e toda a minha família é do Mar Negro, “onde as experiências racistas foram as piores possíveis”, diz.

De estupidez, desconhecimento da História e caso de internação.

Assim como estudantes da POLI-USP que, em trote neste ano, cometeram abusos sexuais.

Ou da UNESP, que invadiram um cemitério e roubaram e violaram sepulturas.

Dois estudantes, Juan Takehiko Kumagai Mendes, de 19 anos, e Raphael Sussumu Mizu Koshi, de 18 anos, foram presos em flagrantes por guardas municipais saindo do Cemitério São Bento.

Calouros dos cursos de economia e química, culparam os veteranos que teriam obrigado a pegarem o objeto como parte de um trote.

Trote que humilhou em Minas.

 

 

Estudantes da faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pintaram uma caloura de preto e a fotografaram acorrentada junto a uma placa com a inscrição “caloura Chica da Silva”.

Em outra foto, estudantes, um deles com um bigode do Hitler, também fazem saudações nazistas, ao lado de um calouro amarrado com fita adesiva uma pilastra.

Sem contar que na semana anterior 3 estudantes da USP de São Carlos foram acusados pelo crime de atos obscenos.

Hostilizaram feministas durante um trote em fevereiro: 2 ficaram pelados no campus e outro simulou fazer sexo com uma boneca inflável.

A confusão rolou num protesto contra desfile de calouras conhecido como “Miss Bixete”.

A garotada enlouqueceu de vez?

E pensar que sou num tempo em que num trote não humilhávamos as garotas.

Dávamos as boas-vindas. Com gentileza.

Mostrávamos o funcionamento da máquina de copiar, dicas da biblioteca, indicávamos o melhor lugar para almoçar e convidávamos para uma batida à noite. Mais esperto, não?

Louquinhos de Biblioteca

Dedico esse post a todos os ratos de biblioteca. Louquinhos, ou não.

por Maria Shirts

Essa semana fui à biblioteca da PUC procurar uns livros para o meu TCC. Sim, estou neste momento tabu da vida que, em matéria de “assuntos acadêmicos”, só perde para aquele fim de 3º [colegial] em que a sua família, amigos, professores e o Lula querem saber “o que você vai prestar no vestibular”.

Em todo o caso, estou aproveitando este momento para continuar estudando [cof cof], apesar de já ter cumprido com toda a minha carga obrigatória na faculdade. Além disso, é sempre bom ter uma desculpa para visitar os amigos, a PUC e a biblioteca.

Quem conhece a biblioteca da PUC sabe que ela é horrível. É fria, com um quê opressor, tem poucos livros e lugares. Quem chega no horário errado, ainda, tem que sentar no setor das mesas do meio que, coletivas, agrupam um monte de calouros que não sabem se portar naquele ambiente (desconfio que não sejam só calouros). Neste caso, você se pega quase gritando “Shiiiiiiu” e, quando vê, não leu nada, não grifou nada, não-nada e opta por ir comer um pão de queijo.

Por essas e outras, durante toda minha “vida puquiana”, chegava à biblioteca por volta das 15h. Privilegiada que sou, cursei a faculdade toda com estágios de meio-período que me permitiam a visita [quase] diária à biblioteca. Este sempre foi o meu momento do dia. Quem frequenta esse tipo de “ambience” deve entender o feeling (metida).

Mesmo ruim e com aquela iluminação de luz fluorescente (socorro!), a biblioteca da PUC era o meu esconderijo, no qual eu me omitia do mundo através dos diversos textos de Schlesinger, Stoessinger e lalalasinger. Metódica que sou (sou?), gostava de sentar naquela mesma mesinha de um só lugar, do lado direito, encostada na parede e do lado da janela, que dava pra quadra e ajudava a me situar no tempo, na medida em que o sol baixava. Quando eu me cansava de tentar entender a teoria dos pêndulos, ou a paz de Vestfália, ou como funciona o mecanismo de solução de controvérsias da OMC, mirava paisagem afora, invejando os “bon vivants” [da janela lateral].

Quando chovia, entretanto, não havia bon vivants para olhar. Nem um graberzinho pra dar aquela espiada. A quadra ficava deserta (ou molhada), e eu tinha que voltar a minha[des]atenção pra dentro da biblioteca.

Foi em uma dessas ocasiões que eu comecei a reparar nas pessoas que dividiam aquele espaço comigo. Tendiam a ser sempre as mesmas. Vez ou outra mudava — sexta-feira ninguém ia — mas eram quase sempre as mesmas.

Numa dessas observações, comecei a reparar em um cara que chamava muito a minha atenção. Calma, gente. Explico: ele chegava todo dia no mesmo horário com um bocado de livros e uma sacolinha de plástico duro (tipo da Livraria Cultura) na mão direita. Apoiava os livros na mesa, a sacola, e saía. Toda vez. Aí, quando ele voltava, tirava um recipiente com álcool gel da sacola, abria os livros, e ficava passando o álcool gel nas unhas e soprando, pra conseguir secar a tempo de virar a página do livro. Logo entendi que o rapaz devia ter TOC (ou alguma coisa mais grave), porque ele repetia essa mesma ação de dois em dois minutos. Ai, que angústia! E ele não conseguia virar a página, e quando conseguia tinha que por o álcool gel de novo. Se não fosse uma biblioteca (ou a vida real) eu me ofereceria para ajudá-lo.

Mas ele não era o único “louquinho de biblioteca”, não. Nunca vou me esquecer de um garoto que, com aparentes 30 anos, ia na biblioteca todo dia olhar uns livros de arte. Eram tantos que ele juntava duas mesas individuais [para o desespero dos bibliotecários] e ia empilhando verdadeiras bíblias com gravuras enormes. Acho que eram renascentistas. O mais curioso é que ele nunca parava para observá-las, de fato. Ele só ia atrás, voltava com uns cinco novos exemplares, deixava na mesa, e sumia nos corredores de novo. Exótico.

Vai entender. Cada louco com a sua mania, né?