Uma opinião perfilada sobre o perfil da opinião

por Caio Simi

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem [ter] mais do que o que têm”.

Embora eu não seja um grande adepto do cartesianismo, a frase com que Descartes inicia o “Discurso do método” me veio bem a calhar. A reflexão sobre o que é certo ou errado a uma determinada escolha vai muito mais além do que se assiste ou lê. Sou dos que pensam que só podemos nos aproximar da razão quando nos postarmos neutros a interpretar os reais sentimentos e desejos de todos os atores envolvidos no caso em que analisamos. Por vezes, em nosso egocentrismo, a constante busca pela razão absoluta faz com que certas certezas nos ceguem, e nossa busca pelo bem comum as vezes se esbarra com a incerteza daquele bem não ser tão comum assim.

Antes de tudo, como sou novo aqui, devo me apresentar. Meu nome é Caio, nasci na Freguesia do Ó, bairro simpático da zona norte de São Paulo. Morei os últimos 6 anos da minha vida em Pirituba, onde meus pais vivem até hoje. Concluí meu Ensino Médio na rede pública, e recentemente me formei em Relações Internacionais pela PUC-SP, berço de muitos deste blog. Na PUC-SP o curso de Relações Internacionais nasceu e ainda faz parte da faculdade de Ciências Sociais, o que proporciona uma interessante experiência de estudar uma dose contida de filosofia, sociologia, teologia e antropologia já nos primeiros semestres de graduação, além de 12 políticas e diversas opções de disciplinas optativas que compõem uma grade curricular mais versátil do que o padrão brasileiro. R.I., como todo curso abrangente de graduação, também deixa muitas lacunas, nem sempre tão interessantes a ponto de se preenchê-las com certa especialização ao longo da vida. Uma delas preencho com interesse maior, até por crer estar intimamente ligada à ciência política. Sou mestrando em “Economia do Desenvolvimento e da Mundialização”, em um curso ministrado por um convênio da própria PUC-SP com a Paris 1 Pantheon-Sorbonne, e vejo nesta ciência um eventual desencantador nem sempre ponderado das ciências sociais.

Sou apaixonado pela ideia de ver nossa geração criando mais espaços democráticos de debates de opiniões, e considero este blog um deles. Mas antes de me meter a participar, me aproveitarei do caráter introdutório para uma opinião sobre a própria opinião. Sinto que não há modo melhor a começar, até por crer na concepção existencialista de que eu, como todos os outros, sou um produto do meio, e que evolução das gerações se dá quando vencemos o ego e compartilhamos para o meio todos os aprendizados que absorvemos dele. Voltando à introdução de Descartes, sinto que nem sempre gastamos o tempo refletindo sobre o que é o bom senso. Sabemos que, como Tim Maia, nós também o atingimos, desconsiderando provavelmente a variável da ressaca moral de um domingo de manhã. Mas acreditamos atingí-lo porque, convenhamos, o homem se julga apto a interpretar da melhor forma possível os problemas que o cerca, e não cabe a nós criticarmos esta escolha, pois é desta autonomia, baseada em suas experiências pessoais, que se forma a opinião. O que sempre me pergunto antes de estudar qualquer vertente das ciências sociais é o quanto podemos contribuir para a composição de um ambiente verdadeiramente saudável onde as experiências pessoais possam construir opiniões, de fato, próprias e reais? É por isso que valorizo tanto todas as fontes de informações e os espaços de debates.

Isso parte de uma concepção existencialista bem pessoal, e quando Sartre afirma que “a existência precede e governa a essência”, eu pego gancho pra me perguntar “o que seria de nós?” das mais diversas formas; O que seria de nós se não estivéssemos aqui? Ou se não tivéssemos tempo para estar aqui? Se tivéssemos recebido outra educação, convivido com outras experiências? Nos temas mais atuais, perderíamos tempo discutindo a influência da religião na política se fossemos criados em uma sociedade que não tem a bíblia como livro sagrado predominante? E se nem livro sagrado tivéssemos, quais seriam os primeiros preceitos sobre o “certo” e o “errado” que aprenderíamos, provavelmente a partir das experiências de nossos pais ou de quaisquer outras pessoas que nos amam? De pronto, só tenho a certeza de que eles seriam construídos com menos instrumentos demagógicos do que os que nos são impostos há séculos.

Sem mais delongas, sinto que a evolução do homem é pautada na reflexão, e a reflexão depende necessariamente do aprendizado. A opinião é fruto desta reflexão, e só nos aproximaremos da razão enquanto mantivermos a cabeça aberta para a absorção de todas as informações que nos cercam. Daí, certos instrumentos de análise se tornarão vergonhosamente obsoletos; A posição da revista não importará mais que os interesses políticos envolvidos; O pessimismo do reacionário não determinará mais os limites da mudança; A fala do populista não será mais convincente que a realidade às costas dele; A teoria eloquente não determinará o rumo de vítimas menos convincentes; Enfim, o livro religioso não será mais importante que a liberdade e a felicidade individual.

Nietzsche, no topo de sua genialidade, se orgulhou em “Além do bem e do mal” de ter reconhecido a incerteza como parte da vida, e classificou o pensamento que a reconheceria como uma filosofia “além do bem e do mal”. Antes de qualquer opinião, além do meu bem e do meu mal, a única certeza que tenho é que a certeza é um limite, e limitar o pensamento é o maior crime que podemos cometer a nós mesmos.

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inspiração: Borges

por Artur Lascala

O exercício semanal de escrever um texto para um blog coletivo, como o Esparrela, é instigante e recompensador; mas, às vezes, acaba sendo muito difícil. Todos nós do blog já nos encontramos algum dia com dificuldade para encontrar um assunto que valha alguns parágrafos, ou pra acertar o ponto da prosa, pra que o leitor não desista no meio do caminho.

Nesses dias em que a luz não vem e as palavras permanecem agarradas umas às outras, numa massa disforme, convém ler alguns dos caras que sabem escrever. Sublinho porque, especialmente nesse ambiente de cursos universitários de humanas, lemos muito de gente que não escreve bem, que se perde em mares de todavias, contudos e  com efeitos, que transforma o texto em aglutinação de ideias parcamente intermediada por operadores lógicos repetidos à exaustão.

Essa semana, por fortuita ocasião de descontos generosos nos livros de uma casa editorial, adquiri um livro daquele que, se não é o meu escritor favorito, acho que é o que mais me impressiona a cada vez que eu leio alguma coisa nova dele. O exemplar em questão é o Outras Inquisições, do Jorge Luis Borges.

O autor já foi, durante um bocado de tempo, excluído do cânone da literatura latino-americana pelo establishment acadêmico. Não se encontrava em Borges muito daquele traço melancólico da literatura de nosso continente atravessado pela miséria e desigualdade social. Diferentemente de García Márquez e outros gênios da literatura, Borges não chegou a eleger o excluído como assunto de sua poesia e sua prosa. Ele definia-se como um liberal, no sentido clássico do termo, e, ocasionalmente, escreveu sobre política; o que mais lhe cativava, no entanto, eram coisas como o tempo, o espaço, o mito e a memória. Felizmente para todos nós, sua obra foi revisitada e toda sua genialidade, finalmente reconhecida.

Voltando ao livro que comprei, decidi falar dele aqui porque, no fundo, tem um pouco daquilo que a gente sonha em fazer num blog como o Esparrela. O volume é uma coleção de pequenos artigos e crônicas que o Borges publicou em diversos meios. O mais fascinante é o seu repertório intelectual e a capacidade de relacionar temas aparentemente distantes; a sua prosa transforma o coincidente em intencional, e a memória milenar matéria viva do presente. Borges é curioso como um jornalista e rigoroso como um cientista. Seu texto leva o leitor a imaginar os desejos secretos de um antigo imperador chinês e faz vislumbrar o infinito e o universal.

Encantador ainda é o fato de que, muitas vezes, seu ponto de partida é trivial, algo como notícia cotidiana que conduz à uma investigação intelectual dos sentidos da história humana. Para nós, que nos aventuramos um pouco nessa aventura de escrever crônicas, de pensar o tempo presente, ter contato com a imensidão da inteligência de Borges é um deleite e um aprendizado.

Deixo uma pergunta aos leitores, quais são os autores a que vocês recorrem quando precisam de inspiração na hora de escrever algo?

borges

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Dilma e o Capitalismo

Por Lucas Fontelles

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Muitos artigos na imprensa brasileira vem falando com um tom de pesar sobre a economia. Analistas econômicos afirmam que a atual administração está destruindo os fundamentos macroeconômicos do país, e que estaríamos voltando aos tempos dos PNDs dos tecnocratas da Ditadura Militar. Já alguns colunistas políticos na grande imprensa apontam a economia como um “ponto fraco” do presente governo, um dos poucos fatores que poderiam ameaçar sua reeleição. Acredito sinceramente que as duas visões estão bastante equivocadas.

Primeiro falarei sobre o risco político, que é a questão mais simples. Falando no português claro: é difícil acreditar que a economia nas condições atuais prejudique as chances da atual presidente de reeleger-se. O motivo é simples. A esmagadora maioria da população não acompanha a economia pelos jornais e revistas especializadas (menos ainda pelas internacionais) e, portanto, é impossível que compartilhem do mesmo pessimismo da imprensa, até em razão de um ceticismo que há com ela (pode não parecer, mas os cidadãos comuns são mais críticos do que parecem e sabem que a imprensa brasileira tem lado). O eleitor brasileiro, assim como o de todos os países, acompanha a economia por apenas um fator: o poder aquisitivo (vulgarmente conhecido como “o bolso”). O bolso quer dizer na verdade 4 indicadores centrais: nível de emprego, renda, o crédito e a inflação.

Creio que agora a questão fica mais óbvia. Observando esses indicadores, é fácil entender porque a popularidade da presidenta é tão alta. O nível de desemprego nunca esteve tão baixo em toda sua série histórica (ficou em 2012 em 5,5%). A renda continua crescendo todos os anos, até como consequência desse desemprego baixo (quando a demanda por mão de obra é alta é lógico que os salários aumentam). O crédito continua alto, seja em razão do aumento da renda dos cidadãos, seja em razão da disponibilidade de capital nos bancos. Então vem a inflação, ah a inflação. A inflação, a despeito de previsões catastróficas ano após ano desde o início da administração passada ficou controlada durante esses 10 anos, nunca saindo das margens da meta. O resultado desses quatro indicadores juntos é o aumento progressivo do poder aquisitivo todos os anos, com a renda sempre acima da inflação. É por essas razões o brasileiro nunca esteve tão feliz, o que pode chocar ou provocar tristeza em muitos colunistas.

Mas é claro, o desempenho econômico não depende exclusivamente da sensação de bem estar da população (embora este deva sim ser um fator de extrema relevância na análise de uma política econômica). Partindo dessa premissa, os grandes arautos da imprensa alardeiam que os fundamentos macroeconômicos do Brasil estão ruindo. Afirmam que a inflação está voltando (ela parece aquele parente que nos diz que vem mas nunca aparece nas festas da família). O crescimento do PIB está baixo e assim deverá continuar nos próximos muitos anos. A razão para este mal desempenho é um intervencionismo estatal terrível, não visto desde os tempos de ditadura militar. É curioso, pois todos os anos os alarmes e as razões parecem ser rigorosamente os mesmos, com a exceção do crescimento baixo, que agora vem adornar o discurso. Porém, atualmente está de fato ocorrendo uma mudança fundamental na macroeconomia. Só que não é no sentido que os analistas estão apontando mas sim no oposto.

A verdade é que, gostem ou não setores à direita e à esquerda, há que se reconhecer que o país está se tornando de mais em mais capitalista. Veja-se alguns dados importantes nisso. O primeiro dado fundamental é o corte de gastos feito por essa administração. Sim, você leu corretamente, corte de gastos. A despeito das reclamações frequentes dos analistas na grande imprensa, o fato concreto é que a gestão atual cortou enormemente os gastos públicos nos últimos dois anos. Em 2011 os cortes foram de R$ 50 bi. Os mesmos analistas apontavam que essa era apenas uma medida pontual, e não uma política de governo. A “surpresa” foi que em 2012 os cortes continuaram, e meta foi para R$ 55 bi. O superávit primário (que é a economia feita para pagar os juros) foi atingido nos dois anos, mesmo que em 2012 o governo tenha sacado recursos do Fundo Soberano para cumpri-la. Fundo aliás, que existe exatamente para isso: cumprir a meta em anos de crise e não assustar os mercados (apesar da imprensa ter colaborado exatamente para o oposto).

É importante perceber a magnitude desses cortes e os impactos deles na economia. A arrecadação federal ficou em R$ 1,02 tri em 2012. Isso pode levar o leitor a pensar “uau, 50 bi de 1 tri não é muita coisa”. Porém não é exatamente assim que se faz a conta. Na verdade, desses 1 tri aproximadamente 70% vão para gastos da máquina, que são estruturais, travados e muito difíceis de reduzir. Isso significa que a administração tem de fato R$ 300 bi de margem para fazer todas suas políticas de governo. Programas sociais, investimentos, contratações de funcionários, reajustes… Percebe-se portanto, que 50 bi é um valor extremamente alto perto dessa margem (significa 16% dela). Os amigos concurseiros já devem ter percebido na pele o que esses cortes significaram para a contratação de servidores públicos, e as grandes greves de 2011 dos professores federais e auditores fiscais e da polícia federal mostram o quanto eles afetaram o reajuste de salários.

É óbvio que um impacto assim tem um efeito enorme sobre o crescimento, em especial em uma economia viciada em estado como é a brasileira. Vale lembrar-se aqui da equação fundamental da macroeconomia que diz que o crescimento é igual ao consumo da população, mais investimentos e gastos governamentais (ou em matematiquês: Y = C + I + G). O consumo é um fator de crescimento mais complexo pois uma parte do que a população tem ela gasta e outra parte ela economiza. Por isso, os fatores de crescimento de impacto mais direto são o investimento e os gastos governamentais. Num período de crise é óbvio que o investimento privado cai pois a expectativa dos atores econômicos (leia-se empresários e bancos) não é boa e a boa administração financeira ensina que em tempos de crise deve-se economizar em investimentos e aumentar o caixa em prevenção a qualquer problema. A responsabilidade pelo crescimento cai, portanto, toda em cima dos gastos públicos. Isso é o que explica o baixo crescimento econômico de 2011 e 2012.

A solução mais simples seria afrouxar o controle dos gastos, como o país fez em 2010 e obteve 7,5% de crescimento. É o caminho que seguiram nossos vizinhos como Argentina ou Venezuela, citado pelos mesmos economistas como países que tiveram crescimento superior ao nosso, sem problematizar o porquê disso. É também o caso da China e da India, países onde além de estar ocorrendo uma industrialização já realizada pelo Brasil nos anos 60, os gastos governamentais como fator de empuxe da economia são elevadadíssimos. Essa não é, no entanto, a estratégia perseguida pelo governo.

A estratégia perseguida é um Estado menor e que participe menos da economia, que gaste menos e arrecade menos. Mas como isso ocorrerá? O fundamental é reduzir o gasto público, cujo essencial (42% em 2012) é o pagamento de juros da dívida. Em outras palavras, reduzir gasto público significa reduzir a taxa de juros Selic e o tamanho da dívida pública. Os dois objetivos foram alcançados. Hoje a dívida está em 35% do PIB (bem abaixo dos níveis de outros países desenvolvidos e emergentes) e a taxa de juros foi reduzida para 7,25%. É óbvio que para se analisar a taxa de juros real deve-se descontar a inflação (que é ao mesmo tempo o aumento de preços e a perda de valor do dinheiro) que foi de 5,84%, o que dá 1,5% aproximadamente de juros reais. É uma taxa de juros baixa para um país emergente, e a mais baixa da história do Brasil moderno. Estas são grandes conquistas macroeconômicas. Se as taxas forem mantidas nesses níveis, a médio prazo o país poderá reduzir muito seus gastos, e com isso reduzir impostos e aumentar a competitividade do país, afinal, menos impostos significam preços menores dos produtos nacionais em relação aos estrangeiros.

O problema é que reduzir a taxa de juros implica em aumentar a quantidade de dinheiro na economia. O raciocínio é simples: quando os agentes financeiros ganham menos com títulos do governo e ações financeiras em geral (já que a taxa de juros é também a taxa de rendimento mínima de qualquer aplicativo) sobra mais dinheiro para o crédito às empresas e à população em geral. Somado com o aumento na renda, esse aumento de quantidade de moeda circulando gera inflação. É aí que se estabelece o centro da discussão. Para reduzir os juros, aumentar salários e manter a inflação estável, o Estado obrigatoriamente deve reduzir seus gastos. Não há escolha, aumentar o dinheiro de todos os lados e não ter aumento de preços é uma conta que não fecha. É por isso que a redução de gastos e o superávit fiscal tem sido metas tão perseguidas pela administração. Sem elas é impossível reduzir os juros e reduzir os gastos com dívida, para finalmente sobrar dinheiro para o crédito e aumentar os salários sem inflação.

O que se vê é que há, portanto, duas alternativas políticas. A primeira é um Estado grande que participa muito da economia, com juros altos para bancar seus gastos e impostos altos para pagar esses juros. A segunda é um Estado menor que participa menos da economia, com juros pequenos e impostos menores. O governo parece ter optado claramente pela segunda opção, e as concessões na área de infraestrutura à iniciativa privada só confirmam essa hipótese.

A economia de gastos já possibilitou a redução da carga tributária no Brasil, com insenções fiscais em muitos setores (em especial a indústria) e incentivos à produção como a insenção na folha de pagamentos. Embora o Brasil ainda tenha uma dificuldade enorme com a tributação (e isso vem mais pela complexidade dela que do valor em si), a direção tomada parece clara. Não à toa, apesar do investimento total no país ser menor (há menos dólares entrando), o Investimento Estrangeiro Direto (que é o investimento de longo prazo de estrangeiros nas economia produtiva do país) só seguiu aumentando, chegando a 65 bilhões de dólares em 2012. É um aporte de investimentos que só perde para a China nos BRICS. Vale observar que o Chile, vedete da maioria desses especialistas, está entre os 10 maiores investidores do Brasil. Ao contrário do que dizem os analistas na grande imprensa, o estratégia real do governo é de um Estado menor e um país mais capitalista, e a transição do primeiro modelo de Estado para o segundo parece ser uma determinação fixa. O período de crescimento baixo é uma fase de transição entre uma economia dirigida pelo Estado para uma economia dirigida pelo investimento privado. Resta ver as consequências desta opção política e o que elas gerarão de impacto no bem estar da população.

Wanderlust

 

Por Paula Elias

Há alguns meses embarquei numa aventura. Um projeto de trabalho virou minha vida de cabeça para baixo. Não posso entrar em detalhes, o que importa é que me tornei uma viajante constante.

Toda segunda feira eu pego um vôo para algum lugar do Brasil e volto para casa toda sexta. Às vezes vou para o mesmo lugar algumas semanas, outras passo apenas dois ou três dias. De Roraima até o Rio Grande do Sul, meu destino é sempre uma surpresa.

Sempre me orgulhei de gostar de viajar. Estufava o peito e dizia que sentia um comichão nos pés e saudade do peso de uma mochila nas costas – atitude bem típica do estudante de relações internacionais, que pensa que páginas de passaporte carimbadas são medida de algum tipo de experiência, estilo de vida, enfim.

E não é que quando eu recebi a notícia que iria realmente ser uma viajante eu fiquei aterrorizada?

Como me despedir da minha rotina? Reduzir meu guarda-roupa à uma malinha? E a saudade da família, do namorado, dos amigos, onde eu ponho? Pode despachar ou tem de levar como bagagem de mão?

Com medo e tudo fui em frente: mala no braço, cartão de embarque em punho.

Ah, se eu soubesse no que estava me metendo.

Nada é melhor para colocar as próprias neuroses em perspectiva do que ficar a uns milhares de metros do chão algumas vezes por semana.

Nada faz você valorizar sua casa como um chuveiro gelado e um cobertor que pinica.

Nada te enriquece mais do que ouvir sotaques e sotaques, se deliciando com cada expressão regional. (A minha favorita até agora é a mato-grossense para “vamos embora”: “vamos capar o gato”).

Me senti caipira perdida nos aeroportos, me senti uma menina mimada da cidade toda vez que precisva me cobrir de sundown e repelente para sobreviver ao dia.

Me senti vivida e experiente às vezes, mas, em geral, me senti ignorante para tudo além daquela bolha tão pequena onde eu levava minha vida paulistana.

Aprendi que há vida além de uma cidade grande, que ter uma vida interiorana pode ser bom, e, principalmente, que São Paulo não é o centro do mundo.

Numa experiência contrária à de Caetano Veloso em “Sampa”, me vi longe das minhas referências paulistanas, onde meu sotaque, minhas expressões e meu ritmo é que eram alienígenas.

Passei por momentos difíceis, momentos de solidão, muita solidão. Poucas vezes me senti mais sozinha do que à noite num quarto de hotel: bege, genérico. Fiquei doente, fiquei triste, sem família, sem amigos, sem amparo.

E fui feliz. Me encontrei longe de casa, me vi em estranhos, aprendi a amar outros lugares, outros temperos, outros sotaques.

Devo continuar nessa vida cigana por mais um tempo. Ainda sinto um frio na barriga, mas mal posso esperar pelas próximas jornadas nessa aventura.

Guantanamo Bay: Criando os Taliban de Amanhã

Agora é oficial: Desde domingo (21) mais da metade das pessoas detidas em Guantanamo Bay estão em greve de fome (84 grevistas de um total de 166 detidos). O curioso é que, destes 166 detidos, 86 já tiveram sua libertação autorizada e 46 estão sendo detidos sem que existam provas suficientes para que sejam denunciados ou acusados formalmente. Além disto, somente 6 pessoas foram formalmente acusadas de algum crime e estão em vias de serem julgadas. Ou seja, somente 3.6% dos detidos em Guantánamo poderiam eventualmente ser considerados criminosos; 96.4% dos detidos em Guantánamo não estão ligados a quaisquer crimes e foram encarcerados tão somente por terem a fisionomia “errada” e estarem no lugar errado.

Mas por que, no seio da autodenominada ‘maior democracia de todos os tempos’, 140 pessoas continuam detidas sem terem visto ao menos resquícios do chamado due process of law (o ‘devido processo legal’)?

Em primeiro lugar vem o Ato de Autorização de Defesa Nacional (NDAA – 2013), assinado por Obama em janeiro deste ano. O Ato, na Seção 1028, autoriza a detenção de quaisquer pessoas estrangeiras por períodos ilimitados quando o país ao qual esta pessoa seria enviada for considerado ‘instável’ ou o governo do país não tiver a capacidade de garantir que o indivíduo não poderá ameaçar futuramente os Estados Unidos ou seus aliados. Muitos detidos encontram-se neste limbo: não vão ser julgados mas também não vão ser libertos pois o governo estadunidense considera seus países de origem instáveis.

Outros detidos, entre 50 e 60 deles, têm medo de serem torturados ou mortos ao retornarem aos seus países de origem (Argélia, China, Líbia, Rússia, Síria, Tajiquistão, Tunísia, Uzbequistão e o não-estado da Palestina) – em geral são pessoas que já haviam fugido de seus países de origem e viviam em asilo em outros países do mundo (muitos na Europa) até serem sequestrados pelos EUA. Estes detidos pedem para serem reassentados em outros países, tudo de acordo com o Artigo 3 da Convenção Contra Tortura da Organização das Nações Unidas. Mas a tarefa de achar outros países que os aceitem é difícil, principalmente depois de terem sido brandeados ‘terroristas’, e a iniciativa tem sido tomada com considerável parcimônia.

Assim, uma grande parte dos detidos autorizados a serem libertos tem sua transferência negada, e o centro de detenção ilegal mais famoso do mundo (competindo com Abu Ghraib, é claro) continua repleto de pessoas e acobertado por um manto de segredos e ilegalidades.

Tudo isto é uma grande tragédia humanitária que indubitavelmente ajudará a definir o tom de hipocrisia para a valsa do século XXI, mas a lição que deve ser aprendida destes fatos é muito maior do que a mera ciência sobre as flagrantes ilegalidades que permeiam nosso mundo contemporâneo.

Para que entendamos esta lição, porém, é necessário que deixemos de lado a pequena baía cubana de Guantánamo e foquemos brevemente no subcontinente Indiano. Nossa história começa na virada do século XIX, quando a Companhia Britânica das Índias Orientais estava expandindo significativamente seus domínios para as terras além das costas do subcontinente Indiano. Nesta trajetória os britânicos se depararam com as fronteiras do império Mogol, que compreendia o que hoje seria o norte da Índia, o Paquistão, o Afeganistão e Bangladesh.

Há 300 anos estes longínquos descendentes de Ghengis Khan haviam reinado sobre centenas de milhares de súditos com relativa estabilidade; não se trata de dizer que eram imperadores justos ou honestos, mas vale considerar um fator curioso sobre os mogóis: eles eram Muçulmanos enquanto a grande maioria dos seus súditos não eram.

Por praticarem uma versão incrivelmente aberta e inclusiva do Islamismo, o Sufismo, as questões religiosas dentro do império eram tratadas com extrema liberalidade; até mesmo aos britânicos fora dado o direito de construírem templos para os seus deuses – eis que a construção da St. James Cathedral foi autorizada sem maiores complicações, bem no centro da capital Mogol de Delhi.

Assim, e em parte porque a Companhia das Índias Orientais proibia a presença de missionários católicos nas regiões em que operava, um duradouro intercâmbio de produtos e ideias foi possível entre as elites britânicas e as elites mogóis durante quase 50 anos. Na década de 1850, porém, diversos padres britânicos começaram a clamar pela conversão dos indianos – denominados bárbaros e obscurantistas – à ‘verdadeira’ fé católica.

As populações Muçulmanas e Hindus, que progressivamente caíram no ostracismo econômico depois de quase 100 anos de influência britânica, agora viam suas crenças religiosas e sociais ameaçadas. Sentindo esta crescente pressão externa, muitos Muçulmanos Sufistas começaram a procurar outras doutrinas para reagirem contra os invasores.

Foi neste contexto que os ensinamentos de Muhammad ibn Abd al-Wahhab tornaram-se mais influentes na região. O Wahhabismo pregava uma volta completa aos ensinamentos mais antigos do Islã e clamava por uma remoção total de quaisquer traços estrangeiros na tradição Muçulmana. Diversos indianos que foram a Meca realizar o Hajj encontraram uma solução para suas angústias nos ensinamentos de al-Wahhab e, ao voltarem à Índia, começaram a se organizar em celas revolucionárias para eventualmente se rebelarem contra os britânicos.

Este sentimento de angústia revolucionária culminaria na Revolta dos Sipais, de 1857. Esta Revolta é muito complexa para ser estudada a fundo aqui, mas é importante notar que ela teve a participação de múltiplos segmentos da sociedade Indiana (no início, 85% dos revoltosos eram Hindus). Mesmo assim, os Wahhabis figuravam como parte significativa dos revoltos e, com o intuito de declararem uma Jihad contra o poder imperialista britânico, os Wahhabis fundaram o Campo dos Muhajadeen nas montanhas do que hoje é o Afeganistão.

Mesmo tendo conseguido ganhos impressionantes nos primeiros meses, a Revolta seria combatida duramente pelos britânicos, que assassinaram quase toda a elite Muçulmana da Índia e destruíram todas as mesquitas de Delhi; após pouco mais de um ano de luta o imperador Mogol seria exilado em Burma, acabando com um império de 332 anos.

Porém este não seria o fim dos Wahhabis; eles fundariam uma escola em Deoband, Dehli, prometendo dar educação e comida para os filhos dos pobres da Índia que haviam sido marginalizados pelo domínio britânico. Os estudantes desta escola seriam conhecidos como os ‘Buscadores da Verdade’, ou Taliban, e manteriam fortes vínculos com o maior campo dos Wahhabis, o Campo dos Muhajadeen, nas montanhas do Afeganistão. Durante mais de 100 anos este campo esteve em constante atividade, combatendo os britânicos por toda a região até que eles se retirassem após a Segunda Guerra Mundial. Os Muhajadeen também contariam com o apoio financeiro dos EUA para combaterem os soviéticos após a invasão do Afeganistão em 1979 e voltariam a combater os britânicos e americanos durante a Guerra do Afeganistão – iniciada em 2001 e sem fim até hoje.

Assim, a intolerância britânica do século XIX acabou forçando uma das sociedades Islâmicas mais tolerantes e abertas do mundo a se radicalizar. Os antigos Sufistas se converteram ao Wahhabismo, fundaram o Campo dos Muhajadeen e os Taliban, diretamente em reação à invasão britânica do subcontinente Indiano. Novamente a intolerância opressiva de um Estado gerava uma reação tão ou mais intolerante por parte da sociedade civil, com efeitos sentidos claramente até hoje.

A grande questão que nos resta fazer é: quais serão as futuras reações contra as ilegalidades e opressões atualmente promovidas pelo governo dos Estados Unidos da América em seu campo de detenção na Baía de Guantánamo?

Termino com uma tradução livre das palavras do General (e ex-diretor da C.I.A.) David Patraeus:

“Eu me proferi oficialmente sobre isto há mais de um ano dizendo que [Guantánamo] deve ser fechada. . . . E eu acho que sempre que tivemos que tomar medidas expeditas elas se viraram contra nós e nos morderam no traseiro. . . . Abu Ghraib e outras situações como esta são não-biodegradáveis. Eles não vão embora. O inimigo continua a te bater com elas como se fossem uma vara.”

Para quem tiver mais interesse no tema eu recomendo a Parte 1 (Mutiny) do documentário Clash of the Worlds:

Para quem eu mando um abraçaço?

Por Fernando Rinaldi

Abraçaço: abraço grande, muitos abraços, abraços intermináveis, múltiplos. Até o fim, até cansar, só abraços. Um abraço que é passado adiante, de novo e de novo, como se ele de repente ganhasse autonomia e continuasse se repetindo em outros braços. Senhor Veloso, Caetano, Caê, braços abertos sobre a plateia espremida. Abraçou-me, eu senti. Recebi um abraçaço do senhor Veloso no sábado passado e achei que pudesse dar continuidade a ele.

Eis que abro o jornal e descubro com grande espanto que mais de 90% dos paulistanos são a favor da redução da maioridade penal. Boquiaberto, de braços fechados, dou-me conta de que quase todos ao meu redor acreditam que é assim que se resolve o problema da violência no Brasil – amontoemos jovens infratores em cadeias superlotadas, retiremos da sociedade esses delinquentes que sabem muito bem o que estão fazendo, vamos viver nossa vida aqui em paz, deixemos os bandidos apodrecerem, padecerem, morrerem. Eles não são iguais a nós. Eles são do mal, nós somos gente de bem.

Quase todos ao meu redor passaram a pensar nessa questão recentemente. É que um jovem de dezessete anos matou um jovem universitário de dezenove. Passou no jornal, nós vimos. Eles foram filmados pela câmera do prédio. Só vai ficar três anos na cadeia? Merecia muito mais. Pelo menos o nosso governador quer aumentar para oito. Ainda assim não é o suficiente. Trinta é a pena máxima para maiores de dezoito, não é? Vamos nos mobilizar, nós, da sociedade civil, que estamos cansados de impunidade. Com dezesseis anos já temos consciência dos nossos atos. Se tem idade para ser bandido, tem idade para ser preso. Criminoso é criminoso, não importa a idade.

Quase todos ao meu redor não sabem muito bem o que pensar da reinserção na sociedade desses sujeitos que, em sua opinião, escolheram de bom grado o caminho da criminalidade. É cada um por si, Deus por quase todos. Vamos combater esses indivíduos que escolheram o caminho errado. Depois da pena, aprenderão a lição. E se não aprenderem? Sigamos o exemplo dos EUA. Lá existe prisão perpétua e pena de morte.

Quase todos ao meu redor desejam o confinamento daqueles que se constituem como ameaça, daqueles de quem têm medo. Com medo, alguns confinam-se em casas ou prédios monitorados, com muros altos e protegidos por câmeras e seguranças particulares. Para sair, carros blindados, empresas de segurança para observar quem entra e quem sai. Se o governo não nos protege, vamos nos proteger a nós mesmos. Nós podemos fazê-lo.

Quase todos ao meu redor preferiram o caminho mais fácil, a solução que estava ali, disponível sem que fosse necessário fazer nenhum esforço mental. Quase todos reduziram a solução do problema ao castigo. Quase todos endossaram a exclusão social dos desajustados – as párias, os bodes expiatórios. Quase todos ao meu redor cruzaram os braços para os problemas da violência, do sistema penitenciário e da educação no Brasil.

Quer essa mudança prospere ou não no Congresso, não dá, não consigo mais mandar um abraçaço, aquele abraço ou mesmo um abracinho. Desculpe-me, Caê, não fui capaz de ser elo dessa corrente. Pode ser que eu esteja ficando descrente deste mundo antes dos trinta, pessimista antes dos quarenta e ranzinza antes dos cinquenta. Pode ser. Mas o esforço seria demais.

Por outro lado, sei que não posso, não quero segurá-lo por muito mais tempo. Temo que perca o alento, a potência. O que fazer? Só me restou escrever este texto para que você recebesse, leitor, o abraçaço de Caetano Veloso que não poderia simplesmente morrer em meus braços.

Passe adiante, por favor. Ou não.

Show “Abraçaço” (13/04/13) Foto: Jéssica Rezende

Show “Abraçaço” (13/04/13)
Foto: Jéssica Rezende

Recuperar o ódio

por Emiliano Augusto

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Das muitas coisas singelas que podem ser observadas com tristeza, uma que tem me incomodado é a mudança na palavra de ordem das pichações por aí. Refiro-me à substituição do assertivo “o amor é importante, porra” pelo cauteloso “mais amor, por favor”. Há um diluição do conteúdo, e é justamente o tipo de diluição que deveria ser rechaçada. A primeira formulação tem uma urgência que precisa ser mantida à vista, e há algo nela que precisa ser preservado e trazido à tona. Esse algo é o ódio.

É preciso de dentro do amor extrair novamente o ódio. O amor que pode ser separado do ódio é um amor meia-bomba, porque estático. Só a moeda que tem como uma face o amor e outra o ódio mantém-se em movimento. É preciso recuperar o ódio produtivo, o ódio-ação. O ódio que transborda para as ruas construirá um amor que toque fogo no mundo.

Nesses tempos de paz-e-amor cínicos, é fundamental recuperar o ódio. Por favor, não ame seu inimigo. Odiar o inimigo é importante, porra! Estamos de mãos dadas? Desenlacemos as mãos. Ódio que recupere a sensatez, e nos lembre que algumas coisas são inconciliáveis. Ódio-memória, para lembrar que algumas coisas têm nomes e por eles devem ser chamadas. Como elas chamam mesmo? Interesses. Ódio-didático, para aprender que somos inimigos porque temos interesses diametralmente opostos. Ódio-percepção, para ver qual o interesse favorecido pela conciliação construída no falso amor.

Que adianta amar o meio termo, quando é o meio termo entra a catástrofe e o desastre? Que adianta amar cegamente a modernização, se a modernização é a dos mecanismos de despejar sobre nós o ódio que vem de cima? Que adianta amar a migalha, quando a migalha é dada para evitar que tomemos a cozinha em que o banquete é preparado? Faz falta o saudável ódio que vem de baixo, o ódio grande das multidões, das massas, das revoltas.

Existe um ódio que prepara o terreno para o amor. Falo desse ódio que nos faz sair de casa para comemorar a morte do inimigo. Em festa, comemoramos e nos amamos como iguais, como irmãos, exercemos o amor há tanto tempo reprimido. Mas o amor só pode vazar porque antes, o ódio arrombou as portas.

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