Os Dois Caminhos da Reforma Política

Por Lucas Fontelles
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Parece que finalmente é chegado o momento de se discutir a Reforma Política. Nas últimas semanas, em virtude de manifestações populares há muito não vistas no país, e da sensibilidade e senso de oportunidade da presidenta da República, parece que muito em breve sairemos da inércia do sistema político atual. A questão que se fará mais e mais a partir de agora é: para onde ir? No início desse mandato o Congresso começou uma discussão sobre o tema, mas o medo e o interesse dos parlamentares em manter tudo como está naufragou os debates e as propostas para a Reforma Política. Embora haja muitas possibilidades em aberto, os observadores políticos podem enxergar que há principalmente dois caminhos a ser seguidos: o do individualismo e o dos programas.

O primeiro caminho é o dos que acreditam que o fortalecimento dos indivíduos melhora a democracia. Medidas como o voto distrital, candidaturas independentes, financiamento privado, vão nesse sentido. Falemos em primeiro lugar do voto distrital. Como ele funciona? Da seguinte forma: dividem-se os territórios políticos em distritos eleitorais, e em cada distrito elege-se o candidato mais votado pelos habitantes. Falando de forma mais simples, a nível municipal é como se cada bairro de São Paulo tivesse seu vereador, cuja única função é representar e conseguir benefícios para seu bairro. Ao contrário do que ocorre hoje, é provável que todos no bairro conheçam o nome do vereador em que votaram e também o nome do vereador atual do bairro, pois ele se torna um “mini-prefeito” cuja única função é conseguir benefícios para o seu distrito. O vínculo político fundamental que se estabelece é entre o vereador e o votante da sua região, e não entre o vereador e seu partido. Esse é o sistema usado nos países anglo-saxões, como a Inglaterra e os Estados Unidos.

As candidaturas independentes e o financiamento privado vão no mesmo sentido. Elas partem da percepção de que se um indivíduo sente que pode fazer a diferença, ele deve ter condições de fazê-lo sem a interferência dos partidos. Ele mesmo sai em busca de seus votos e seu financiamento para fazer campanha, e no final fará um mandato vinculado aos seus votantes e financiadores, e não aos partidos políticos assim como no sistema distrital. Não à toa, na maioria dos países onde há candidaturas independentes também há voto distrital, os dois instrumentos vão no mesmo sentido.

O segundo caminho é o dos que acreditam que o fortalecimento dos programas melhora a democracia. Medidas como voto em lista partidária, financiamento público de campanha, prévias partidárias e cotas de todo tipo vão nesse sentido. Novamente, comecemos pelo sistema eleitoral: o voto em lista partidária. No voto em lista partidária os partidos elaboram uma lista de candidatos e elegem suas bancadas de acordo sua votação, com a população votando em cada partido e não mais em candidatos individuais. Por exemplo, se um partido ganha 30% dos votos ele elege 30% de sua lista. Igualmente ao que ocorre no distrital, é provável que os eleitores se lembrem de quem votaram e saibam o partido que ganhou a maioria dos votos nas últimas eleições, ao contrário do que ocorre hoje. Porém, o vínculo político fundamental que se estabelece é o político e seu partido, e não entre o político e a população. Quem deve prestar contas à sociedade são os partidos, que devem mostrar como eles cumpriram o que estava prescrito em seus programas.

O financiamento público de campanha, as cotas e as prévias partidárias também vão nesse sentido. Com o financiamento público retiram-se do jogo eleitoral os interesses de atores privados, os partidos vendem suas ideias para a sociedade a partir de verbas públicas. Com as cotas e as prévias (disputas eleitorais para definir as listas dentro dos partidos), a tendência é que mais setores da população participem da vida dos partidos, tornando-os atores essenciais e ainda mais importantes das democracias.

Nessa primeira parte eu tentei apresentar os dois caminhos de maneira mais clara e isenta, para que o leitor possa se conscientizar da disputa em jogo. A partir de agora construirei minha análise política e apresentarei qual dos caminhos é o melhor para mim, levando em conta primeiro as experiências internacionais e depois as características essenciais da política brasileira.

Primeiro, observemos o caminho que foca na participação individual. Na teoria parece ser bastante interessante, pois os parlamentares passam a ser muito mais conhecidos pela população e tem grande independência dos “partidos políticos tradicionais”. Quando se pensa no voto distrital pensa-se (como disse Alckmin em uma entrevista à Fernando Rodrigues da Folha) em candidatos andando de bicicleta e batendo de porta em porta para se apresentar e pedir os votos no seu distrito. Mais ou menos como a eleição para xerife em uma cidade do Velho Oeste americano. Na prática, porém, o que se observa é radicalmente diferente. As campanhas eleitorais em países de voto distrital são as mais caras do mundo. Por que isso ocorre? Porque no voto distrital ganha apenas aquele que detém o máximo número de votos. Isso implica que as campanhas devem ser o maior, mais abrangentes e consequentemente as mais caras possíveis. Para comparação, a eleição para deputado federal em São Paulo custa atualmente de 2 a 5 milhões de reais em média. Já a eleição para senador de São Paulo, que é feita de forma distrital, custa entre 9 e 12 milhões de reais. A eleição para prefeito de São Paulo, que também é feita de forma distrital, chega a quantias ainda mais altas como 50 milhões de reais.

É óbvio que quando as somas de dinheiro se tornam tão altas e o financiamento não é público (afinal seria impossível financiar e controlar individualmente as dezenas de candidatos das centenas de distritos eleitorais de um estado) os candidatos se tornam extremamente dependentes do financiamento privado e em especial de grandes grupos como bancos, multinacionais, empreiteiras. O que ocorre é que o setor privado “sequestra” os políticos da população. É como se observa deprimentemente em países como os EUA ou a Inglaterra, onde o voto é distrital. A política externa dos EUA para o Oriente Médio, por exemplo, é rigorosamente idêntica em governos republicanos ou democratas, pois é o lobby financeiro-israelense que financia as duas campanhas eleitorais, e ambos os lados dependem dele para se elegerem. Seria suicídio político abrir mão desse dinheiro, pois o outro candidato teria muito mais recursos para pagar bons marqueteiros, fazer panfletos coloridos, grandes e bonitos cartazes de plástico, entre muitos outros instrumentos que são fundamentais para conseguir um grande número de votos.

As candidaturas avulsas são praticamente a mesma coisa. Quando se pensa em candidaturas avulsas se imagina o líder de um movimento social, um professor universitário, líderes comunitários e de ONGs se candidatando a cargos políticos sem o intermédio dos partidos políticos. Porém, observe-se o que ocorre em países onde essa medida realmente existe. O ministro do STF Joaquim Barbosa se referiu a Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque, para mostrar a efetividade do mecanismo. Ora, a citação de Joaquim Barbosa foi extremamente feliz, pois mostra exatamente que tipo de político tem mais chance com as candidaturas avulsas. Michael Bloomberg é bilionário, dono de um conglomerado de mídia, e o 10º homem mais rico dos Estados Unidos. As candidaturas avulsas tem exatamente esse efeito. Ao invés de votarmos nos políticos que serão chantageados pelos empresários iríamos votar diretamente nos empresários e em seus lobistas, que não teriam nenhuma restrição de entrar na política. Ou alguém acha que o simpático diretor da ONG teria alguma chance contra o candidato da família Marinho?

Vejamos por outro lado o outro sentido, o do fortalecimento dos partidos e dos programas. Na teoria parece algo nefasto, pois aumenta a força dos velhos partidos políticos que já conhecemos. Porém, veja-se o que ocorre de fato em países onde essa medida existe. Na França discute-se pouco a vida de político A ou B, discute-se se a política aplicada por esses partidos é eficiente ou boa para a população. Se um escândalo de corrupção acontece com um parlamentar, a população não responsabiliza esse parlamentar sozinho, mas sim o partido inteiro, pois é da responsabilidade dos partidos definir quem participa das suas listas.

Há quem acredite que as listas partidárias aumente o coronelismo nos partidos. O pensamento é óbvio: se são os partidos que definem as listas partidárias, são os dirigentes dos partidos que tem o privilégio de compor essas listas. De fato, se olharmos de novo o que ocorre na França, o Partido Socialista (de esquerda) define suas listas a partir de prévias, mas a UMP (de direita) define essa lista de cima para baixo, com os chefões do partido preenchendo as vagas. Porém, existe algo que impede mais os cidadãos normais do que as quantias exorbitantes exigidas para que uma campanha eleitoral seja competitiva? Os líderes de movimentos sociais, professores universitários e presidentes de ONGs terão muito mais chances em disputar eleições partidárias, onde as ideias são o que contam, do que eleições gerais, onde dinheiro é o que conta. Aqui está um belo artigo do professor de Ciência Política da FGV Cláudio Gonçalvez Couto falando sobre o assunto.

O mesmo se estende para as cotas. Veja os números. Na Argentina as mulheres são 37,4% da Câmara e 38,9% do Senado. No Brasil, apenas 8,6% da Camara e 16% do Senado é composto por mulheres. E nos EUA, que falamos antes? Nos EUA os números são de respectivamente 17,8% e 20%, abaixo da média mundial que já é baixíssima, de 20,9%. Por que isso ocorre? O que também se deve pensar é que quando o voto na pessoa (seja distrital ou proporcional aberto, como é hoje no Brasil) todos os preconceitos sociais aparecem, o machismo, o racismo, o regionalismo, o preconceito de classe. Quando o voto é nas ideias e nos programas partidários o importante é que os partidos cumpram o que prometeram, e não se quem está cumprindo o mandato são homens, mulheres, homossexuais, negros, ou qualquer outra categoria de pessoas. Apenas o voto em lista é capaz de corrigir essas injustiças de gênero, raça e classe social presentes nos sistemas políticos. Forçando os partidos políticos a serem mais democráticos conseguimos com que toda a política seja mais democrática como um todo.

Como isso tudo se insere na discussão sobre o Brasil? Algumas das reclamações mais comuns sobre o Brasil são que “há um excesso de partidos políticos”, “os políticos só agem de acordos com os seus interesses”, “não faz diferença votar em PT ou PSDB, os grandes empresários continuam ganhando”, “não importa quem vença o PMDB sempre é governo” ou “os velhos coronéis são sempre eleitos”. Todos esses pensamentos estão na verdade se referindo a um mesmo fato: há um alto grau de personalismo na política brasileira. Há muitos partidos, pois há pouquíssimos partidos de verdade. Os que temos na grande maioria são coletivos de coronéis. Nos partidos tipicamente fisiológicos como o PMDB, o PR, o PP e o PSD cada deputado é eleito individualmente nas regiões onde tem poder, e em conjunto fazem bancadas enormes. A vantagem deles está justamente em não ter que defender programa partidário nenhum e em terem pessoalmente muita influência em suas regiões, o que faz com que eles sempre sejam eleitos e sempre sejam capazes de entrar em qualquer governo. O eleitor nem é capaz de puni-los por isso pois o sistema não obriga o político a cumprir o que está no programa partidário.

O voto distrital, por reforçar as relações entre eleito e região e enfraquecer os laços entre políticos e programas partidários, favorece imensamente a existência desses partidos. Já com o voto em lista esses partidos teriam de assumir uma “cara”, teriam que convencer os eleitores a votar neles e não em partidos mais ideológicos como PT e o PSDB, o que seria um desafio enorme. Os velhos coronéis não seriam sempre eleitos, teriam no mínimo que disputar as vagas nas listas partidárias dos partidos competitivos, o que seria uma dificuldade que eles não tem hoje em dia. Os grandes banqueiros, empreiteiros, pastores evangélicos e ruralistas teriam que criar seus próprios partidos e convencer os eleitores a votar em seus programas, e não mais poderiam se esconder nas bancadas de vários partidos e formar bancadas “supra-partidárias” depois no Congresso para defender apenas seus interesses particulares. Vale lembrar, o Brasil já usou o voto distrital até 1930. Esse período é conhecido na história por nomes como “república do Café com Leite”, “república dos Coronéis” e afins…

Se olharmos no mundo inteiro, os sistemas baseados no fortalecimento dos partidos e das democracias partidárias em geral levam ligeira vantagem em relação àqueles baseados no individualismo e no regionalismo. Perguntar “como aproximar os eleitos dos eleitores?” é uma má pergunta, pois em todo o mundo hoje os Congressos estão distantes da população (à exceção, talvez, dos regimes populistas). Essa pergunta se refere a limitações naturais da Democracia Representativa, e são mais bem respondidas com medidas como Orçamento Participativo, Conselhos e Representantes Locais do que debatendo o sistema eleitoral. A pergunta correta deve ser “como tornar o Congresso mais responsivo e acessível à população”. Isto é, como trocar os políticos eleitos quando eles não atendem às nossas expectativas, e como fazer com que “pessoas normais” entrem na política. Se olharmos ao redor do mundo, o sistema de listas partidárias tem se saído melhor do que o sistema distrital. Se olharmos para o Brasil, esse sistema faria mais sentido ainda para combater mazelas arraigadas na nossa política. Outras medidas que vão no mesmo sentido como o financiamento público, cotas partidárias e prévias poderiam oferecer um grande salto na qualidade da democracia do país e seria interessante que pudessem ser discutidas nos próximos dias que estão a vir.

É importante que se diga, em qualquer um dos dois caminhos a tendência seria que os partidos que hoje disputam a hegemonia no país crescecem. PT e PSDB são partidos com máquinas partidárias fortes, que cresceriam seja disputando os distritos (com o PT ganhando nas periferias e o PSDB ganhando nas áreas centrais, como já ocorre hoje), seja disputando marcas eleitorais (com o PT representando o programa social-democrata e o PSDB representando o programa liberal). A diferença seria em cima de quem cresceriam. Com o voto distrital a tendência ia ser o crescimento em cima de partidos pequenos, mas programáticos, como o PSOL, o PC do B, aumentando a influência do empresariado. Com a lista fechada  a tendência seria o crescimento em cima das dezenas de partidos puramente fisiológicos, que só conseguem existir graças ao sistema personalista que ainda temos hoje.

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As manifestações e os partidos políticos

Por Guilherme Andrade

Embora o motivo inicial que levou os brasileiros às ruas para protestarem nas últimas três semanas tenha sido o aumento das passagens do transporte público, logo se percebeu que “não é só por 20 centavos” – no caso de São Paulo – que milhares de cidadãos aderiram e continuam aderindo às passeatas país afora. O povo saiu às ruas para demonstrar sua imensa insatisfação com o sistema político representativo atual e suas instituições, exigindo a volta do diálogo aberto com a sociedade para a definição de políticas que afetam a todos, e recusando o papel de mero expectador do teatro protagonizado por políticos, servidores e funcionários dos três poderes e das empresas a eles relacionadas.

Por outro lado, o modo de exigir isso nas ruas muitas vezes apontou uma falta de qualificação no debate, causando deturpações de ordem preocupante. Um exemplo claro disso foram as ações anti partidárias que tomaram parte da pauta em diversos casos, desencadeando muitas vezes conflitos violentos entre manifestantes e militantes de partidos políticos presentes nas manifestações. Ao meu ver, além de esse ser um claro golpe à própria democracia e um cerceamento pesado da liberdade de expressão política, presenciamos uma injustiça descabida com muitos desses movimentos.

Esse preconceito contra partidos é compreensível, ainda que não seja justificado. É compreensível porque muitos dos que criticam a participação de partidos nos protestos estão expressando sua insatisfação com o modelo representativo atual, no qual os partidos e seus políticos são os principais atores e não poucas vezes os maiores usurpadores. Porém, não é justificado por conta participação histórica que muitos deles tem nas lutas pelas próprias causas sociais defendidas nas manifestações.

Muitos partidos políticos no Brasil, se não a totalidade, possuem em sua estrutura algum tipo de organização jovem. Esses movimentos são importantes mecanismos de oxigenação intrapartidária e, principalmente no caso de partidos declarados de esquerda, são mais próximos de movimentos sociais de base, como as lutas por moradia, reforma agrária, educação, meio ambiente, direitos dos excluídos, respeito às minorias, dentre uma infinidade de outras causas da sociedade. Com a causa do transporte gratuito organizado pelo Movimento Passe Livre não foi diferente. Como apontado pelo próprio MPL (“Nota nº11: sobre o ato do dia 20.06”), muitos desses grupos ajudaram na construção do movimento e não se trata de oportunismo participarem das manifestações sobre temas que eles defendem já há tempos. Oportunismo seria querer tirá-los, como forma de enfraquecer o movimento, jogando manifestantes desatentos ou que buscavam pautas diversas contra seus militantes, como se pôde ver de forma mais explicita no ato do dia 20 de junho na Av. Paulista, em São Paulo.

Muitos manifestantes contrários à participação de bandeiras partidárias nos protestos sequer notaram que seus “alvos” estavam gritando as mesmas palavras de ordem do movimento, estavam andando na mesma direção de toda a multidão e sofreram a mesma repressão desproporcional que todos foram vítimas nos casos de confronto com a polícia. Já não bastasse a enorme dificuldade de se manterem, junto aos movimentos sociais, na luta a favor de causas cada vez mais renegadas pelas políticas públicas, muitos militantes tiveram que convencer outros manifestantes – embora sem muito sucesso – de que eles estavam ali para somar, e não desviar ou tomar o movimento. E ainda que estivessem promovendo sua “marca”, estavam fazendo de modo legítimo, legal, a favor da causa e, principalmente, de forma pacífica. Assim, nada justifica a violência com que muitos militantes foram tratados.

A necessidade agora é de juntar o trabalho desses ativistas e militantes com o desejo de transformação social dos manifestantes para alterar essa realidade falida da política nacional. Para isso, a qualificação dos debates nas ruas é fundamental para a evolução do movimento e para que se evite iniciativas que mais enfraquecem do que fortalecem a sua luta. A volta do tema da reforma política é um ótimo direcionamento da pauta contra o atual performance negativa dos partidos na política nacional buscando, dentre outras medidas, reaproximar seus líderes dessas “categorias de base” ligadas aos movimentos sociais e às necessidades mais básicas da sociedade.

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O corrompido debate sobre corrupção

Por Leonardo Calderoni

O debate sobre corrupção no Brasil está corrompido. As discussões que ocorrem sobre o tema – na enorme maioria dos casos – são despolitizadas e despolitizantes. Elas oscilam entre a inocência, a hipocrisia e o maniqueísmo, servindo pouco ou nada para tratar da problemática que tanto aflige a tantas pessoas. E, pior ainda, servem frequentemente para desviar o foco de outros problemas tão ou mais sérios que temos no país. É imperativo, portanto, que se discuta prioritariamente a corrupção do debate sobre corrupção. Tentarei aqui começar a fazê-lo.

SELETIVIDADES

Em minha visão, o maior problema do debate é que ele se dá em geral de maneira muito parcial e seletiva. Que a mídia utiliza bastante deste expediente – mostrando ou escondendo casos de corrupção conforme seus próprios interesses políticos – muitos já sabem e exemplos não faltam por aí. Mas existem outras seletividades tão ou mais nefastas nesse debate. Ele é seletivo antes de tudo porque se enfoca demais em quem é corrompido e pouco em quem corrompe e porque as atenções se centram demasiadamente na esfera política quando a corrupção é, antes de qualquer coisa, um fenômeno social.

De onde saem as grandes quantias que corrompem políticos por aí? Certamente não aparecem como o ouro no fim do arco-íris a partir da mágica dos duendes. Ora, elas surgem, sobretudo, do setor privado – o corruptor por excelência da esfera pública. Por que tanto se fala sobre os corrompidos e tão pouco sobre os corruptores quando pensamos em punições pelo crime de corrupção? Por que o Ministério Público no processo do mensalão, para citar o caso que tanto comove as famílias brasileiras, deixou de incluir uma quantidade considerável de corruptores suspeitos do setor privado, que sequer viraram réus? A quem interessa esse tipo de enfoque? A consequência prática da seletividade é a de que enquanto se brada bonitas frases sobre a “justiça sendo feita”, muita gente que deveria chega a ser sequer tratado como corrupto. E assim não se percebe (ou se omite) que o debate e o tratamento parcial nos casos de corrupção subtrai o próprio sentido de justiça. Não é razoável essa (não) divisão de responsabilidades que frequentemente ocorre.

Além disso, não adianta achar que a corrupção é algo que só diz respeito ao mundo de políticos e empresários. A corrupção está disseminada por aí em nossa sociedade que  tanto tem dificuldade de entender o que é um bem público e separá-lo do que é privado. Nas maiores e pequenas coisas e atitudes. Dificilmente algum leitor não possa dar a si mesmo um exemplo próprio ou de alguém que conheça que já tenha ensejado um malfeito. Mesmo que seja algo “pequeno”, “sem importância” ou só um “jeitinho” como se costuma caracterizar eufemisticamente.

Li outro dia que o Estado de São Paulo perde nada menos que 132 bilhões de reais por ano por sonegação de impostos. Isto dá mais ou menos o orçamento de 1,5 Ministério da Educação para se ter um parâmetro do absurdo que representa a quantia. Como todos sabem, a sociedade e o Estado travam um cabo de guerra por causa de uma estrutura tributária que certamente precisa ser rediscutida. Mas será que 132 bilhões reais/ano foram sonegados somente por pessoas e empresas que realmente precisavam e/ou por um questionamento ético-político sobre os impostos? Será que é tudo culpa do Estado a ponto de chegar a essa quantia? Tenho sérias dúvidas. O que sei é que nenhum debate sério sobre corrupção, onde todos estão pretensamente preocupados com o dinheiro público e seus desvios, poderia preterir esta temática.

SIMPLISMO, GENERALISMO E FALTA DE DEBATE

Não quero com nada do que expus até agora justificar os malfeitos alheios de qualquer político ou os problemas de nosso Estado, mas não está claro como um pujante dia de sol que o debate não pode se encerrar em leituras simplistas sobre as causas da corrupção? Este simplismo, aliás, tem sido uma marca registrada na maneira como se tem lidado com a temática nos recentes protestos.

Primeiramente pelo fato de que se protesta genericamente contra a “corrupção” ou “pelo fim da roubalheira”. O que não quer dizer absolutamente nada. É quase a mesma coisa que protestar “contra o mal”, “pelo fim dos terremotos” ou “por um mundo melhor”. Protestos sem nenhuma base propositiva e concreta podem servir para expressar uma indignação, mas são absolutamente ineficazes. O movimento educacional organizado não tem como bandeira de reivindicação “uma educação padrão FIFA”, mas sim, por exemplo, “10% do PIB para educação pública” porque eles acreditam que esse é um dos caminhos para melhorar, de fato, a educação. A mesma lógica vale para a corrupção, saúde ou quaisquer outras pautas: propostas genéricas simplesmente não dão em nada.

Em segundo lugar, mesmo as pautas correlatas à corrupção que possuem concretude foram entoadas de maneira absolutamente despolitizadas, sem uma reflexão maior sobre se elas realmente atacavam o problema. A PEC 37 é o grande exemplo desse fenômeno. Sabe-se lá porque, tornou-se um assustador senso comum, como se fosse tão óbvio quanto um com um são dois que a PEC 37 era a “PEC da impunidade”. Só que quase ninguém que saiu a protestar virulentamente contra ela parecia saber realmente do que se tratava a proposta.

Não pareciam saber os indignados manifestantes, por exemplo, que a classe jurídica estava muito dividida em relação a ela. Ou que havia várias questões subjacentes a uma falta de capacidade de fiscalizar o Ministério Público como um dos fortes argumentos a favor dela. A própria OAB se posicionou a favor da PEC 37 e não faltavam por aí artigos e argumentos bem consistentes por uma outra posição que mereciam, ao menos, um minuto da atenção da opinião pública. Eu pessoalmente li relativamente bastante sobre o tema e não cheguei a firmar uma posição taxativa, embora tendesse a, no final das contas, ser mais a favor do que contra a medida. Agora ela foi derrubada em função de uma ira irracional anticorrupção e eu nem sei de fato se isso foi bom. Torço para que para tenha sido, embora isso certamente não vã anular o fato de que o debate sério sobre a medida foi corrompido por uma assustadora certeza semirreligiosa de que a PEC 37 era uma causa do demônio da corrupção.

ENFIM: PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI SOBRE A CORRUPÇÃO

Não tenho respostas fáceis para as questões que apresentei. O que eu sei é que se essa discussão continuar preso aos vícios da seletividade, do generalismo e do (não) debate fácil de senso comum, ele vai servir mais para desviar o foco de outros problemas do que para realmente avançarmos de maneira substantiva no combate à corrupção propriamente dita. Isto para não entrar na questão de como o debate sobre corrupção pode ser manipulado em função de interesses políticos. Na melhor das hipóteses (e sendo bem otimista), pode haver um avanço pontual que siga aquela lógica de que “é preciso mudar, para que tudo continue igual”.

Então, vamos discutir corrupção a sério, por inteiro e aprofundar o debate ou vamos seguir infinitamente na zona de conforto dos lugares-comuns sobre o tema? Cabe a todos que realmente se afligem ou dizem se afligir tanto com a corrupção fazerem as suas escolhas. Particularmente não estou muito otimista. Contra alguns níveis de irracionalidade (ou mesmo hipocrisia) que tenho visto muito por aí, simplesmente não há argumentos.

De qualquer jeito, fica registrada essa exposição de ideias como contraprova para aqueles que eventualmente digam que não me preocupo deveras com a corrupção. O que eu gostaria mesmo era que o Brasil acordasse para qualificar esse e outros debates políticos. Agora e sempre.

Babylon by bus

por Maria Shirts

Esses dias, em uma conversa de bar, quando questionada pela enésima vez quando que tiraria carta de motorista, eu me assumi. Sai do armário sem medo e respondi: “Nunca. Sou anti carro”.

Aos 13 anos, quando estudava na Escola Waldorf São Paulo, aprendi a pegar ônibus sozinha porque não tinha mais carona pro colégio. A minha mãe, que trabalhava até muito tarde, não tinha como acordar cedo para me levar. Fora que o trânsito, na volta, era aquele das 7h30 da manhã da Vila Olímpia — vulgo se mata.

Desde então aprendi a me virar de ônibus, muito por causa do meu irmão, Lucas, e da minha melhor amiga, Lidia, que é agilizada nos transportes. Por isso, desde cedo, aprendi a usar o transporte público pra suprir as minhas necessidades, quer dizer, pra chegar onde eu queria. Ainda adolescente, minha mãe vendeu o carro. Em 2008, meu último ano de colégio, meu pai resolveu que era adepto do pedestrianismo e, apesar de ter carro, só andava a pé. Em 2011 uma pessoa muito, muito especial para mim (e pro mundo, também) foi assassinada por um carro, quando andava na calçada, voltando para casa. Acho que foi aí que eu decidi: não quero, nunca, operar uma máquina opressora como essa.

Por essas e outras eu nem tirei carta de habilitação, e fui levando assim mesmo. Afinal, estudava a 3 quilômetros de casa, de modo que eu ia a pé, e nunca trabalhei muito mais longe do que isso. Além do que, sempre trabalhei em lugares que são de fácil acesso via transporte público, então nunca me importei com o automóvel. Sim, como o leitor pode perceber, eu sou muito privilegiada — tudo o que faço é perto da minha casa e me permite optar por outros meios de transporte que não o carro. Mas muitas pessoas tão privilegiadas quanto eu não fazem essa escolha, porque vem no carro um conforto, um prazer, uma praticidade — que eu não consigo compreender.

De fato, tem coisas que só dá pra fazer (ou é muito melhor se fazer) de carro, tipo: viajar, fazer supermercado, levar os pets no veterinário, transportar coisas pesadas… mas também é possível se adaptar. Hoje em dia tem empresa que aluga carro só para essas funções. E, tá, eu costumo sair antes do que os outros de casa, porque nunca se sabe quando o ônibus vai passar (de metrô, realmente, é mais fácil e rápido, mas não é todo lugar que tem metrô). Mas quando ele chega, na maioria das vezes, eu consigo ir sentada, lendo, o que é demais, gente! Quando eu desço no ponto vou observando a cidade, os graffitis, um prédio muito bacana naquela esquina da Consolação, uma flor que apareceu no meio do asfalto (ai, que poético).

Ok, transporte público não é toda essa maravilha. É que eu faço um trajeto muito do tranquilo. Mas na verdade ele é quase sempre lotado, com motoristas que dirigem algo que eles pensam ser uma McLaren, pega-se muito, muito trânsito… Pode ser bem infernal.

Por isso, acredito, a mobilidade urbana como um todo tem que ser repensada. Não é só o preço da passagem que é absurdo, mas toda a lógica dos modais da cidade me parece invertida. Afinal, se o cidadão preza pela individualidade e um (falso) conforto, ajudando a gerar esse trânsito insustentável, é porque alguma coisa está muito errada. Isso pra não falar da emissão de poluentes…

Veja bem, eu não sou “anti-motoristas”. Afinal, cada um opta pelo que achar melhor. Mas me surpreende muito um indivíduo achar melhor ficar anos preso no trânsito, passando estresse, quando poderia desentupir as vias ao optar pelo coletivo. É claro que os trens, metrôs e ônibus precisam de melhorias, mas daí a dizer que “só ando de ônibus quando o transporte público melhorar” é muita sacanagem. Se o poder público não sentir pressão de todos – e, principalmente, daquela parcela influente da população (que tem carro) -, a (i)mobilidade urbana vai continuar assim: indivíduos sozinhos nos seus carros, entupindo as vias, passando estresse, dificultando o passeio…

Sinto alguns ares de mudança, por aí… to esperando eles se concretizarem.

Enquanto isso, deixo uma mensagem para os amigos motoristas: largue o carro, vá de busão/trem/metrô/bike/a pé!

De pé.

por Emiliano Augusto

A minha gente acordou hoje falando de lado e olhando para o chão, o que era de se esperar dados os acontecimentos de ontem especialmente no Rio e em São Paulo. Para quem não sabe, ou para quem lerá esse texto de algum lugar no futuro, fascistas atacaram partidos de esquerda, movimentos sociais organizados e até simplesmente quem usava camisa vermelha ontem na Av. Paulista durante a marcha chamada pelo Movimento Passe Livre em comemoração à redução da tarifa do transporte público na capital paulista de R$ 3,20 para R$ 3,00, e enquanto eu escrevo um camarada do PSTU do Rio de Janeiro está em coma após ter sofrido agressões de fascistas nas manifestações que por lá foram duramente reprimidas pela polícia. Este texto é para dizer que, embora a situação seja grave, ela ainda não é desesperadora.

Permitam-me começar com alguns relatos da minha experiência, bem particular e pessoal, admito, de dois momentos distintos de ontem. O primeiro deles começa assim: estou indo encontrar alguns dos meus amigos, quando passo por uma multidão curiosa. De um lado um bloco compacto segura bandeiras e faixas do PT, e de outro uma galera grande mas mais esparsa grita “fora, partidos!”. Eu olho curioso à minha volta, paro para conversar com um casal jovem, bem vestido e bem cuidado. Pergunto para eles se eles sabem como chama o regime em que não se permite expressão partidária. Eles me olham desconfiados, admitem que não sabem, ao que eu respondo: “Chama-se ditadura”. Conversamos mais um pouco, eles dizem que trata-se apenas de liberdade de expressão, eles criticam o oportunismo daquele partido. Eu digo que não tem problema criticar o oportunismo, mas friso que sou capaz de apostar com eles de que quando começa o “fora, partidos”, não demora muito e eu estou apanhando junto com a galera dos partidos. Eu não sou de me gabar muito, mas mais tarde, um dos meus fiozinhos de alegria foi perceber os tons de quase profecia da minha leitura daquela conjuntura: algumas horas depois, quando os fascistas pularam pro meio da multidão, alguém acabou errando um soco que mirava um camarada de algum partido, e esse soco acabou acertando um camarada que estava ao meu lado.

Nem tudo foram trevas, entretanto. Antes de as agressões acontecerem, foi possível conversar com bastante gente ali, que marchava na passeata. Estavam, e eu acredito que ainda estão, todos muito a fim de não só debater política, mas intervir politicamente. As mais diferentes pessoas vinham trocar opiniões, tirar dúvidas, perguntar o que gritávamos e porque gritávamos o que gritávamos, pediam nossos panfletos. Chamou minha atenção especialmente um pequeno grupo de estudantes de um cursinho. Umas das meninas leu o que escrevemos, perguntou da onde éramos, e, ao ouvir que éramos estudantes de um faculdade em que ela pretendia entrar, chamou as amigas. “Leiam isso aqui que é bom”, disse, “e eles são lá de onde a gente quer entrar, eles devem saber do que estão falando”, enquanto ela mesma avidamente tomava os panfletos da nossa mão e ia passando adiante, para as amigas e para desconhecidos.

Trago essas duas cenas pra tentar extrair uma lição do pior dos dias de manifestação até aqui. Agressões fascistas, carecas, integralistas e neonazistas correndo soltos em plena luz do dia é grave. É hora de desenterrar técnicas e estratégias de proteção e defesa, ou seja, mantenham-se seguros. Organizem-se para não ficarem sozinhos e para se protegerem mutuamente. Nos atos que vocês decidirem intervir, criem comissões de segurança e de primeiros socorros. Para os que estão interessados na intervenção política, e acreditam que a melhor maneira de conseguir o que queremos e debater e agir coletivamente, perdoem que eu abandone a linguagem mediada que costumo usar aqui e seja bem direto: é hora de frente de esquerda contra essa galera que taí pra botar fogo na gente (e, historicamente, é pra isso que eles são usados mesmo: destruir os instrumentos de organização coletiva da classe trabalhadora). É grave, mas não é a totalidade do que está nas ruas.

A massa que está nas ruas não é fascista. A massa que está nas ruas é muito semelhante (embora com intenções, vontades e interesses os mais variados) àquela garota ávida por se informar e por intervir, e até aquele casal doido pra gritar, embora não saiba muito bem o que significam os gritos que eles reproduzem. Isso ficou claro segunda e terça, assim como o grau de vitória da última ditadura por que passamos. Na segunda e na terça aqui em São Paulo, pessoas que nunca haviam ido à rua estavam lá, vivendo sua primeira grande participação política. Elas queriam gritar, queriam exigir, mas ainda não tinham, como ainda não têm, o repertório do que se grita nas ruas, e o que preencheu esse vácuo foi o que se grita e canta nas reuniões de massa a que elas estão acostumadas a ver: os gritos de torcida de futebol que aparecem mais na TV. “O campeão voltou” foi substituído por “o povo acordou”, e “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” apareceu assim do jeitinho que ele é. E eu aponto isso como vitória da ditadura: foi ela quem construiu o nosso atual sistema de telecomunicação, e foi ela quem abusou desse nacionalismo ufanista pra nos manter quietinhos. Isso foi aplicado com tanta eficiência que a ditadura acabou há mais tempo do que durou, e nós ainda colhemos os frutos dela.

Ontem, foi fácil para o fascismo manobrar o sentimento nacionalista contra os partidos e movimentos sociais organizados. Porém é isso: o fascismo manobrou o sentimento, mas ainda não o preencheu. Eu duvido que todos os que gritavam “fora, partido” ontem apoiassem um AI-5 hoje, porque eu, com a minha voz rouca e fraca ontem, apelei para a liberdade de expressão e contra a censura, e vi algumas pessoas mudarem de lado e cantarem comigo. Não vai ser fácil pra gente. A gente vai precisar descer da nossa arrogância de ter se politizado antes do pessoal que tá indo pras ruas pela primeira vez. A gente vai precisar desencanar do nosso nojinho e deixar dessa mania de higienizar protesto. A gente vai ter que olhar pra trás e ver o que fez errado, organizar o que e onde faltou organizar. Dar um tempo na picuinha fratricida autofágica. E grudar no que nos separa do fascismo: não arredar o pé nem um milímetro dos mínimos direitos democráticos de organização coletiva. É, camaradas, a luta só se constrói de um jeito: lutando. Igualmente, a defesa do direito de organização só se constrói se organizando. O bom é que dá pra começar aí na escola, na faculdade no local de trabalho, no bairro… E a situação pede que seja pra ontem.

Vem, vamos pra onde?

Por Maíra Souza

Há um grande problema em generalizações, e muita confusão/contradição nas definições de vandalismo, violência, esquerda, direita.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que acredito que SIM: o vandalismo está no SUS, na qualidade das escolas públicas, na redução do salário dos professores e nas desintegrações de posse. Acredito que os verdadeiros vândalos estão vestidos de terno e gravata, desviando o dinheiro público e vandalizando o maior patrimônio da população. Sim, concordo que o vandalismo contra pessoas deveria chocar mais do que aquele contra o objeto inanimado e irrelevante para a grande maioria da população no dia-a-dia – é que nem jogar lixo no chão, e em dias de manifestação reclamar que a rua está imunda.

Ainda nesse sentido, penso que o vandalismo está nas balas de borracha e nos cacetetes, que além de agredir (ou proteger kkk) manifestantes e jornalistas, atingem diariamente a população pobre e negra da periferia. Da mesma forma, o vandalismo está nas grandes mídias parciais, quando estas evitam mostrar os dois lados da moeda para formar a opinião pública. Enfim, vandalizada é a cidadania do brasileiro, tão historicamente desacostumada com mobilizações populares e em acreditar que a mudança de e para si é algo possível.

Defendo a necessidade de uma certa “subversão à ordem” para que determinado movimento ganhe visibilidade, assim como ela se faz necessária para se defender dos inúmeros atos de covardia da Policia Militar, afinal, cada um se defende como pode. “Call me coxinha” ou algo que o valha, mas nessa altura do campeonato e numa cidade como São Paulo, por exemplo, caminhar nas maiores avenidas da cidade de forma pacífica atrai mais gente, inclusive aqueles que são a favor da causa e não vão por medo de apanhar, ser preso ou ficar cego. Isso PARA a cidade do mesmo jeito que se a manifestação fosse pautada na depredação proposital, ou mesmo se chovesse numa sexta-feira com 3 acidentes na Marginal Pinheiros. Há formas e formas de tumultuar, e gente demais sempre incomoda, incomoda, incomoda, incomoda muito mais.

Concordo que não podemos esquecer da ENORME parcela do povo que ainda não é vista, que ainda sofre com a truculência policiar e suas armas não letais desde o cordão umbilical. Porém, não concordo com a generalização de que a voz da periferia se reflete necessariamente na forma de depredação, numa espécie de alívio ou vingança da opressão vivida. Generalizar nesse sentido seria o mesmo que falar que todos os pertencentes à classe média são contra o Bolsa Família, por exemplo. A violência, por si só – seja como uma forma de vingança, apatia ou desprezo não vai fazer com que a ordem econômica vigente mude, independentemente de quantas prefeituras sejam apedrejadas. Infelizmente.

Agora vai, vamos lá, descruze os braços no ombrinho, joga eles pra frente e pense bem devagarinho.

O povo brasileiro – e, por povo, não estou me referindo a nenhuma classe social especifica – é sempre insatisfeito e sempre muito incrédulo. Além de não haver uma identidade nacional definida, há relutância em acreditar no poder que a população tem fora das urnas, e na possibilidade de uma mudança efetiva sem ordens vindas de cima.  As filosofias do “deixar pra lá cansa menos” e do “não vai adiantar nada mesmo” são inerentes à grande maioria, e isso não é novidade para ninguém. Muita gente prefere culpar a Dilma, pois culpar o presidente ou o partido sempre foi o caminho mais fácil ao invés de enxergar que o problema do Brasil vai muito além dos tapas e beijos entre PT versus PSDB. O buraco é e sempre foi MUITO mais embaixo, e no fundo dele tem MUITA grana envolvida.

Bom, todos já sabem que a mudança de postura da mídia fez com que muita gente mudasse a opinião e a postura do “keep calm e assina no Avaaz” para, quem dia… fazer check-in nas vias públicas.

Os 5 mil se transformaram em 100 mil em menos de uma semana, e tal multiplicação tornou evidente a existência da heterogeneidade de opiniões, visões e posições políticas no meio da multidão, com direito a vários adendos aos 20 centavos. Será o medo de não haver outra oportunidade do mesmo porte?

Fato é que o pêndulo que vai dos coxinhas extremes e aos mais intelectuais dividiram o mesmo espaço, e, do alto, éramos todos farinha da mesma massa. Rolou um mix de pautas e, consequentemente, um incômodo daqueles que “viram primeiro” e dos “partido nenhum me representa, foda-se”.

Isso não deve enfraquecer o momento histórico que estamos vivendo, afinal não é todo dia em que há uma mobilização emocionante fora dos contextos do futebol, da novela, ou do open bar em fevereiro. Sei que ouvir o hino nacional numa passeata remete à ditadura militar e a comportamentos que ameaçam de diversas maneiras, e não nego que haja uma desorientação na euforia nacionalista que beira o ufanismo. Porém não julgo expressões como “o gigante/povo/Brasil acordou” de forma tão pejorativa, generalizando a ignorância e a preguiça de todos– e, muito menos, ignorando os movimentos sociais já existentes há anos e desapercebidos pela, novamente, maioria. Eu vejo como uma expressão de que a massa está finalmente se importando. Agora, se a massa em questão é de coxinha, risoles ou de kibe, ainda é uma vitória e tanto.

Prefiro acreditar que o que estamos vivendo não será uma história de amor de praia que não sobe a serra. Talvez agora que o debate político tem sido mais difundido, principalmente entre pessoas que não estavam acostumados a fazê-lo, seja mais recorrente, instrua e informe. Assim como a opinião pública é capaz de mudar em 01 semana, acredito que a conscientização coletiva é algo possível, seja por meio da educação, da mídia alternativa, dos debates, ou mesmo naqueles 5 minutos antes de dormir. Acredito que o significado de “vandalismo” e o sentido da palavra “violência” sejam repensados por muita gente, bem como uma desconstrução de argumentos elitistas e de preconceitos de classe. Acredito que possa haver um diálogo com empatia e tolerância na elaboração da ideia do que é tornar, de fato, um país melhor.

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(Não) Existe Amor em SP…?

Como assunto mais importante da semana até agora, falaremos de ontem, dia 18 de Junho, data do 6o Grande Ato Contra o Aumento das Passagens.  Por falta de saber como melhor abordar este intrigante tema, farei uma breve síntese da minha experiência nesta manifestação.

Saí ontem para o ato com um amigo meu, o Gustavo Canzian, com um intuito um pouco diferente; queríamos fazer um registro histórico do movimento e das pessoas na rua. Nós dois já tínhamos ido previamente às manifestações, sempre portando câmeras de filmagem para registramos a quantidade de pessoas presentes e para nos protegermos (por meio da divulgação) das violentas transgressões policiais. Neste 6o Ato, entretanto, o intuito era outro; começar a fazer um vídeo/filme/documentário sobre o que estava acontecendo em São Paulo – pela primeira vez na vida eu tinha o intuito de ser totalmente imparcial (ao menos da boca para fora).

Encontramos o ato na Sé lá pelas 17:40 e o número de manifestantes já era considerável. Entrevistamos umas duas pessoas no metrô – seguindo um ‘scriptzinho’ que tínhamos bolado com umas 6 perguntas – e saímos sentido Catedral. Lá entrevistamos mais algumas pessoas e decidimos fazer alguns ‘takes’ da galera na escadaria para ver a amplitude das reivindicações expostas nos cartazes que seguravam; pedia-se a redução da tarifa do transporte público, o ‘padrão FIFA’ para os hospitais, que o desvio de dinheiro público se tornasse crime hediondo e que o Valdívia saísse do Palmeiras porque, francamente, ele é um pipoca.

Em meio à multidão na escadaria, uma Travesti (a Tchaka) se destacava muito. Ela estava muito brilhante e reluzia a cada flash das fotos que diversas pessoas tiravam com ela. Rapidamente decidimos que tínhamos que a entrevistar; ainda bem que o fizemos, ela era extremamente ativa nos movimentos sociais e fez uma das falas mais emocionantes do vídeo-que-está-por-vir.

Depois de agradecer a Tchaka avistamos um homem mais velho, todo de branco, que acenava com uma bandeira gigante para a multidão. Fomos entrevistar: tinha nascido na década de 40 e se definia como ‘um dos jovens de 63’; era negro, pobre, velho e aposentado – se definiu como um oprimido ao cubo. O relato dele foi curto, mas bem interessante.

Depois de um tempo, quando já havíamos feito umas 10 entrevistas, a galera começou a se movimentar para sair da Sé. Decidimos seguir o fluxo quando nos deparamos com (o que parecia ser) dois casais mais velhos e alguns agregados segurando uma placa bastante diferente… algo neste sentido: ‘O Povo que Vota neste Governo não é Vítima, é Cumplice’. Tínhamos que entrevistar. Comecei perguntando para o ‘pai de família’ o porque dele ter vindo à manifestação: ele me respondeu falando da corrupção dos políticos, da falcatrua do governo, etc. Eu tentei fazer com que todos ali respondessem alguma coisa, mas rapidamente percebi que uma jovem do grupo se destacava mais, queria falar mais, e, assim, dei espaço para ela. Quando acabamos de filmar ela me perguntou se eu passaria o vídeo para ela depois. Respondi que ‘sim, claro, era só me passar o contato’. Ela então me perguntou se eu ia mesmo passar o filme para ela, de novo respondi que sim… Ela complementou: ‘é porque você falou que você fez PUC né? É que a galera da PUC geralmente não gosta muito de mim’. Eu não tinha percebido na hora quem era, mas o meu amigo Gustavo, que estava filmando, rapidamente me falou… era a Dani Schwery (pra quem não lembra ou não viu, assista aqui).

Dani, eu vou ter que te confessar uma coisa: já debati algumas vezes alguns temas com você na internet, por vezes de maneira um pouco acalorada, mas o meu propósito agora não é expor as minhas ideias e sim as dos outros… procuraremos ser tão fieis às suas visões e palavras quanto às visões e palavras dos outros.

Finda a entrevista, continuamos seguindo a multidão. Entrevistamos alguns homens que trabalhavam em reparos na calçada da Brigadeiro Luiz Antônio, conseguimos a opinião de dois CETs (que não queriam que filmássemos o rosto deles, mas nos deram uma entrevista ‘meio-corpo’), tentamos (sem sucesso) alguns guardas do Ministério Publico (que observavam a multidão passar), trocamos algumas palavras com um mendigo (que nos chocou por falar ‘não entendo, only English’ – ele era da África do Sul e, depois que eu expliquei sobre o que era a manifestação, se mostrou favorável ao movimento), filmamos algumas crianças e conseguimos as opiniões de mais dois jovens estudantes.

Neste momento percebemos que tinha um grupo que não estava indo para a Paulista, um grupo que tinha se deslocado para a frente da Prefeitura de São Paulo. Decidimos voltar, do meio da Brigadeiro, para ver qual era a situação lá. Ainda bem que voltamos.

Chegamos lá e o clima era totalmente diferente. Quando descíamos por uma rua curva já nos deparamos com dois jovens que corriam em direção a alguns policiais parados na frente de um prédio. “Estão quebrando tudo, queimaram um carro e estão quebrando uma agência do Itaú… vocês precisam fazer alguma coisa.” O Policial Militar respondeu: ‘Você já tentou ligar para o 190?’ O jovem retornou: ‘Mas vocês estão bem aqui!’… Já vi que era falcatrua, queria entrevistar os Policiais, me direcionaram ao Sargento de plantão ali.

Cheguei explicando que era formado em Direito, que meu amigo era estudante, que não éramos da mídia e queríamos tão somente registrar todos os lados deste conflito. Ele ficou surpreso, feliz, conversou muito comigo, falou que ele e o outro oficial ali também eram formados em Direito. Falou que apreciava o meu ‘trabalho’, nos incentivou a continuarmos, mas falou que ele não poderia falar nada para a câmera. ‘Nem se a gente não filmar a sua cara?’ ‘Não’. Este foi um dos momentos que eu mais me arrependi da noite inteira porque eu estava com um gravador na mão e poderia ter apertado play e ter gravado tudo só em áudio… era um pouco ‘antiético’ mas teria sido um achado e tanto…

O Sargento ainda me explicou que ele sabia que os vândalos eram .01% dos manifestantes e que 99.99% das pessoas eram boas, mas que a PM estava lá pelos .01%. Ele ainda disse: ‘Houve excesso policial? Houve, mas aqui a gente cuida de nos mesmos… todos os casos serão averiguados pela Corregedoria’ (que maneira falha de se averiguar excessos, meu deus).

O interessante é que estes policiais, no mínimo uns 15 deles, estavam a um quarteirão da agência do Itaú que queimava e da Prefeitura que era vandalizada. Se eles dessem 5 passos para o lado eles teriam uma visão plena da confusão que rolava a solto. Perguntei para ele sobre a não-interferência da PM e o Sargento explicou algo neste sentido: ‘A mídia e a população pediram para que a gente não interferisse, agora eu quero ver, vamos deixar os vândalos queimarem tudo e a gente vê o que todo mundo pensa amanha…’ É tudo um contínuo jogo de interesses.

Então descemos a rua e fomos ver a confusão. Chegamos bem na hora em que estavam quebrando as janelas do Itaú e invadindo a agência. Filmamos tudo e conseguimos entrevistar dois dos vândalos… ‘Posso entrevistar vocês dois segundos? A gente é PUC, não é jornal. Cobre o rosto que tudo bem.’ ‘A, vocês são PUC, legal, já queimei vários por lá.’ Conseguimos as entrevistas.

Então vimos que tinha um monge segurando umas bandeiras bem do lado do local onde o fogo rolava solto. Decidimos entrevistar ele e foi ótimo, ele expôs uma visão bem diferente e completa sobre os acontecimentos… uma das pessoas que melhor expôs um programa de reforma. No meio da entrevista com este monge e seus companheiros, a PM e os bombeiros chegaram para apagar o fogo e tivemos que cortar a entrevista por causa do corre-corre.

Decidimos que era hora de partir e seguimos em direção à rua pela qual viemos. Estávamos quase no fim da rua quando escutamos um som de metal sendo arrastado atrás de nós; nos viramos. Era um homem que arrastava uma mangueira de incêndio atrás dele. Não sei se era da Agência Itaú ou se era do caminhão dos bombeiros, mas tínhamos que entrevistar ele. Foi nessa hora que a perspectiva sobre tudo mudou um pouco para mim…

Se você acha que está revoltado, se você acha que não tem direitos, vou te falar uma coisa: só pelo fato de você ter acesso a este texto e ter a capacidade de discernir o que nele está escrito, eu vos digo que tu não estás revoltado. Aquele cara estava REVOLTADO. Ele era morador de rua, com olhos aflitos e cansados, e nos contou o porque de estar fazendo tudo aquilo enquanto estourava um saco de lixo para guardar a mangueira de incêndio. Sua fala era algo neste sentido: ‘Sou morador de rua, vivo aqui perto com a minha mulher e toda noite esses PMs filhos da puta me acordam com choque (de Taser). Eu estou cansado de viver assim.” (O filme mostrará muito melhor).

Eu não vou agora fazer uma apologia à violência e à depredação. Só quero falar duas coisa bem simples: Uma, que este cara não estava nem um pouco preocupado com as consequências de seus atos porque ele já sofre diariamente estas consequências sem ter que praticar ato nenhum. Duas, eu tenho dó do pequeno comerciante que terá que gastar 30 reais em tinta para consertar a porta da sua venda depois que ela foi pichada, eu tenho dó do vendedor da loja de informática que ficará amanha limpando os cacos de vidro da loja que foi depredada e saqueada, mas eu não tenho dó do Banco Itaú (meus amigos banqueiros e neoliberais que me perdoem). Os bancos ganham em cima de todo mundo (que não aquelas restritas mil pessoas no mundo que realmente são as banqueiras), em todas as transações feitas em todos os momentos em todos os lugares; não pode-se peidar sem que um banco lucre. Eles são o grande ‘middle-man’ do mundo e são comprovadamente contra-produtivos para qualquer economia (não vou entrar no mérito aqui, mas vocês podem ver este documentário ou este daqui); o sistema financeiro nacional e o sistema financeiro internacional são puras formas de exploração e criam um ambiente em que alguém sempre tem que perder (pois quem pagará o juro sendo que o juro nunca é emitido em forma de moeda? Emite-se 100 reais, mas cobra-se 105. Os 5 não foram emitidos em nenhum momento, por nenhum banco; logo, deve-se roubar os 5 de outrem para que eles possam ser devolvidos… Eu estou falando de escala macro; não quero respostas sobre microeconomia, por favor! Se alguém quiser debater este tema assista os documentários antes e a gente discute o quanto você quiser).

Enfim, continuamos subindo a rua quando olhei para o lado e vi que uma moça da imprensa estava andando conosco. Decidimos entrevistar ela, o que não foi fácil pois ela ainda estava muito confusa (depois vimos que temos excelentes imagens dela sendo muito mais valente que nós, tirando fotos no meio da invasão da Agência enquanto cacos de vidro voavam para todos os lados); acho que esta parte do filme vai ficar muito boa.

Depois disto decidimos voltar para a Sé e refazer nosso caminho inicial até a Brigadeiro e depois até a Paulista. Entrevistamos mais algumas pessoas no caminho, vimos gente carregando Playstation e TV de Plasma para casa e conseguimos entrevistar dois pichadores (que francamente eram os que menos sabiam o que e porque estavam fazendo aquilo…)

Na Paulista também conseguimos boas imagens e boas entrevistas, encontramos novamente o mendigo da África do Sul, que continuava a catar latinhas, e tentamos entrevistar alguns punks-anarquistas que disseram ‘sem mídia’. ‘Mas eu não sou mídia, sou estudante’. ‘Sem mídia’. (Queria muito ter conseguido incluir eles no filme).

A Paulista também foi o local onde as contradições ficaram mais evidentes. Tinha um grupo de centenas de pessoas na frente do prédio da FIESP (todo iluminado com uma suntuosa bandeira do Brasil) cantando o Hino Nacional e, duzentos metros depois, um grupo que queimava a bandeira do Brasil e gritava ‘Viva a Anarquia’. Foi lá que um entrevistado nos falou que ‘não deve ser a hora de revolução, mas sim de evolução’ enquanto o próximo clamou pela ‘verdadeira revolução’. Contradição.

Ou será que na verdade nada disto é contradição, que na escala macro todos nós estamos confusos – ignorantes das reais questões maiores da vida – e estamos tentando dar algum sentido ao que é existir temporalmente em uma rocha flutuante sobre o vácuo? Não sei, mas me parece que independentemente de corrente política e de visão de futuro, a situação atual é pouco agradável para muitos. Não acho que devemos desvirtuar o movimento: foquemos nos 20 centavos (!) mas debatamos todo o resto!

VIVA A (R)EVOLUÇÃO!?!

(Eu queria ter colocado uma palinha do filme aqui, mas ainda temos muita coisa para editar… se possível continuaremos pegando material nas próximas manifestações.)

(Agradecimentos especiais ao Gustavo Canzian [co-produtor do filme] e ao Mateo Marin, que me acompanharam durante as manifestações.)