A fábula das ratazanas e dos camundongos

Por Fernando Rinaldi

Era uma vez uma comunidade de ratos. Lá todos viviam em ordem e harmonia e tinham suas funções bem estabelecidas: as ratazanas saíam para buscar comida enquanto que os camundongos ficavam na comunidade para cuidar da limpeza e da organização do lar. Cada ratazana vivia com dez camundongos. Assim que a ratazana chegava com o pedaço de queijo, eles o dividiam da seguinte forma: metade do queijo ficava com a ratazana e a outra metade ficava com os dez camundongos.  À noite, os camundongos dormiam amontoados e só podiam relacionar-se ou sair da toca com a autorização da ratazana responsável; a ratazana, por sua vez, dormia num lugar limpo e confortável, e para ter relações ou passear bastava ela querer. E desse modo tudo funcionada maravilhosamente bem.

Foi então que uma ratazana resolveu mudar as regras da divisão do queijo. “Os pedaços de queijo que eu estou encontrando estão cada vez menores, e eu tenho fome, muita fome”, disse ela, “então vou passar a comer dois terços do queijo e vocês ficam com o resto.” Alguns camundongos, indignados com aquela asseveração, ameaçaram se pronunciar, porém logo foram calados pelos outros que achavam bastante justa a nova divisão: “A ratazana é maior e é ela que traz comida para cá. Se os pedaços de queijo são menores, a parte que nos cabe irá diminuir também”, comentavam.

Os dias se passaram e os camundongos se acostumaram a comer menos. Um dia, porém, um camundongo travesso e faminto resolveu se arriscar no mundo lá fora para encontrar seu próprio pedaço de queijo, mesmo sabendo que ele seria severamente punido se a ratazana descobrisse a sua infração. Perambulou por horas, mas nada de encontrar um mísero pedaço de queijo. Resolveu, então, voltar para casa de estômago vazio. No seu caminho de volta, o inesperado aconteceu: encontrou um pedaço de queijo diferente, esquisito, que tinha um gosto horrível e que refletia a imagem de todos aqueles que iriam comê-lo. O camundongo concluiu que aquilo não era queijo e nem era comestível, mas achou que era um objeto mágico e o levou para comunidade.

Conseguiu chegar a casa são e salvo, antes de a ratazana responsável chegar. Mostrou o queijo diferente aos nove colegas, que se riram ao verem-se duplicados, depois colocou o objeto mágico num lugar onde a ratazana nunca pudesse encontrá-lo. Algumas horas depois, a ratazana chegou com um pedaço de queijo ainda menor e disse: “A partir de hoje, eu fico com três quartos do queijo e vocês ficam com o resto.” Novamente, alguns camundongos quiseram protestar; a grande maioria lamentou, mas julgou correta a decisão da ratazana e reprimiu as reclamações dos outros.

À noite, quando todos estavam prestes a se deitar, o objeto mágico, posicionado numa posição que refletia a imagem de toda a toca, mostrou ao camundongo travesso o que estava na frente da sua fuça – ele é só um e nós somos vários; ele tudo pode e nós nada podemos. Assim que a ratazana se retirou para o seu aposento, o camundongo travesso exclamou aos seus: “Nós somos todos ratos!”. Como a princípio os outros camundongos, confusos, não entenderam muito bem, o camundongo travesso lhes explicou com perguntas: “por que só a ratazana pode sair e nós não?”; “por que só ela pode decidir quem entra e quem sai e o quanto podemos comer?”. Daí todos refletiram e entenderam e, mesmo aqueles que estavam do lado da ordem e dos bons costumes dos roedores, consentiram em apoiar a revolta arquitetada pelo camundongo arteiro, já que, afinal de contas, a fome estava falando mais alto do que as suas consciências.

Na manhã seguinte, assim que a ratazana saiu para procurar comida, os camundongos roeram suas roupas e pertences como mostra do descontentamento em relação à redução da parcela de queijo destinada a eles. Encontraram, em meio aos seus objetos, imensos pedaços de queijo escondidos, e um sentimento de fúria e uma vontade de fazer justiça se apoderou deles. “Traidor!”, gritaram alguns.

Foi aí que os camundongos daquele grupo tiveram a ideia de se comunicar com os camundongos de outros grupos para que, unidos, eles derrubassem aquele sistema desonesto imposto pelas ratazanas. Descobriram que as outras ratazanas também haviam diminuído a parcela de queijo destinada aos camundongos e que a condição de vida deles estava cada vez pior. Com a adesão de todos à rebelião, o movimento ganhou força e tomou proporções imprevistas. Quando as ratazanas voltaram, tudo estava dominado pelos camundongos. “Não é só pelo queijo”, bradavam, “é por uma vida mais digna e livre!”.

As ratazanas, sentindo que iriam perder seus privilégios se não reagissem àquela insurreição, resolveram contra-atacar, alegando que estava se dando a instalação de uma “ditadura de camundongos” e que aquela baderna acabaria de vez com a comunidade de ratos.

Embora as ratazanas fossem mais robustas, elas foram neutralizadas pela quantidade de camundongos que se colocaram contra elas. Muitos camundongos se machucaram, muitos camundongos morreram, mas no fim a vitória foi deles. E desde então tudo mudou na comunidade de ratos: todos passaram a ter permissão para sair para buscar seu próprio queijo, relacionar-se com quem entendessem (ratos, ratas, ratinhos, ratinhas, ratões e ratazanas). Todos tinham, enfim, os mesmos direitos e deveres.

De tempos em tempos, no entanto, as ratazanas conseguem tomar o poder de novo e subjugar os demais, daí as novas gerações são obrigadas se lembrar de um passado de iniquidades e abusos que elas já haviam esquecido.

Moral da história: não é só por vinte centavos.

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Um comentário sobre “A fábula das ratazanas e dos camundongos

  1. … e em breve, no feliz reino dos camundongos, um deles, de barba e voz grossa, irritado por não ter corta o que lutar, desenha uma estrelinha em um pedaço de pano e conclama outros camundongos a formar um novo mundo, onde todos são iguais…
    Aí ele e um grupo de camundongos começa a crescer e ficar mais forte, com condições de promover uma coalizão com as ratazanas.
    E na reunião entre eles, não se pode mais distinguir quem é camundongo e quem é ratazana…
    (apud G.Orwell-Animal Farm)

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