Entretanto, rumo ao Largo!

por Artur Lascala

No exato momento em que escrevo este texto, milhares de pessoas se dirigem ao Largo da Batata, em São Paulo, para aquilo que será a maior manifestação popular que toda a minha geração já participou.

Não faltam textos na Internet explicando os porquês de seus motivos não se limitarem aos 20 centavos no aumento da tarifa. É consensual que o desconforto com o estado de coisas já transbordou para diversas outras áreas, e que acontecerá hoje é, simultaneamente, difuso em suas causas e uníssono em espírito.

Ainda assim, sinto um desconforto, algo difícil de descrever, meio como um sabor amargo que se mistura à doçura que a esperança de ver um povo se levantar causa.

Acho que esse mal-estar tem a ver com a súbita transmutação do movimento, passando de um caráter de marginalidade para um quase consenso, ao qual as próprias forças da ordem já foram tragadas. O obtuso Alckmin prometeu flexibilizar e jurou abrir da mão da tropa de choque. O vacilante Haddad, mais cedo ou mais tarde deverá capitular, e algum malabarismo financeiro-orçamentário poderá conservar a tarifa no preço de R$3,00.

Vitória?

Tomara que sim! Mas será? Os empresários de ônibus conservarão seus monopólios quase-feudos? A Polícia Militar continuará barbarizando os excluídos e os invisíveis, bem longe da estação Faria Lima da Metrô? E tantos gargalos político-existenciais por aí…

O otimismo de muitos vem da aposta de que questões profundas como essa possam conservar o momentum de brilho e levante popular. Detesto confessar que sou um bocado cético.

Contudo, estou indo para lá.

E espero estar tão errado… redondamente errado…

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