(Não) Existe Amor em SP…?

Como assunto mais importante da semana até agora, falaremos de ontem, dia 18 de Junho, data do 6o Grande Ato Contra o Aumento das Passagens.  Por falta de saber como melhor abordar este intrigante tema, farei uma breve síntese da minha experiência nesta manifestação.

Saí ontem para o ato com um amigo meu, o Gustavo Canzian, com um intuito um pouco diferente; queríamos fazer um registro histórico do movimento e das pessoas na rua. Nós dois já tínhamos ido previamente às manifestações, sempre portando câmeras de filmagem para registramos a quantidade de pessoas presentes e para nos protegermos (por meio da divulgação) das violentas transgressões policiais. Neste 6o Ato, entretanto, o intuito era outro; começar a fazer um vídeo/filme/documentário sobre o que estava acontecendo em São Paulo – pela primeira vez na vida eu tinha o intuito de ser totalmente imparcial (ao menos da boca para fora).

Encontramos o ato na Sé lá pelas 17:40 e o número de manifestantes já era considerável. Entrevistamos umas duas pessoas no metrô – seguindo um ‘scriptzinho’ que tínhamos bolado com umas 6 perguntas – e saímos sentido Catedral. Lá entrevistamos mais algumas pessoas e decidimos fazer alguns ‘takes’ da galera na escadaria para ver a amplitude das reivindicações expostas nos cartazes que seguravam; pedia-se a redução da tarifa do transporte público, o ‘padrão FIFA’ para os hospitais, que o desvio de dinheiro público se tornasse crime hediondo e que o Valdívia saísse do Palmeiras porque, francamente, ele é um pipoca.

Em meio à multidão na escadaria, uma Travesti (a Tchaka) se destacava muito. Ela estava muito brilhante e reluzia a cada flash das fotos que diversas pessoas tiravam com ela. Rapidamente decidimos que tínhamos que a entrevistar; ainda bem que o fizemos, ela era extremamente ativa nos movimentos sociais e fez uma das falas mais emocionantes do vídeo-que-está-por-vir.

Depois de agradecer a Tchaka avistamos um homem mais velho, todo de branco, que acenava com uma bandeira gigante para a multidão. Fomos entrevistar: tinha nascido na década de 40 e se definia como ‘um dos jovens de 63’; era negro, pobre, velho e aposentado – se definiu como um oprimido ao cubo. O relato dele foi curto, mas bem interessante.

Depois de um tempo, quando já havíamos feito umas 10 entrevistas, a galera começou a se movimentar para sair da Sé. Decidimos seguir o fluxo quando nos deparamos com (o que parecia ser) dois casais mais velhos e alguns agregados segurando uma placa bastante diferente… algo neste sentido: ‘O Povo que Vota neste Governo não é Vítima, é Cumplice’. Tínhamos que entrevistar. Comecei perguntando para o ‘pai de família’ o porque dele ter vindo à manifestação: ele me respondeu falando da corrupção dos políticos, da falcatrua do governo, etc. Eu tentei fazer com que todos ali respondessem alguma coisa, mas rapidamente percebi que uma jovem do grupo se destacava mais, queria falar mais, e, assim, dei espaço para ela. Quando acabamos de filmar ela me perguntou se eu passaria o vídeo para ela depois. Respondi que ‘sim, claro, era só me passar o contato’. Ela então me perguntou se eu ia mesmo passar o filme para ela, de novo respondi que sim… Ela complementou: ‘é porque você falou que você fez PUC né? É que a galera da PUC geralmente não gosta muito de mim’. Eu não tinha percebido na hora quem era, mas o meu amigo Gustavo, que estava filmando, rapidamente me falou… era a Dani Schwery (pra quem não lembra ou não viu, assista aqui).

Dani, eu vou ter que te confessar uma coisa: já debati algumas vezes alguns temas com você na internet, por vezes de maneira um pouco acalorada, mas o meu propósito agora não é expor as minhas ideias e sim as dos outros… procuraremos ser tão fieis às suas visões e palavras quanto às visões e palavras dos outros.

Finda a entrevista, continuamos seguindo a multidão. Entrevistamos alguns homens que trabalhavam em reparos na calçada da Brigadeiro Luiz Antônio, conseguimos a opinião de dois CETs (que não queriam que filmássemos o rosto deles, mas nos deram uma entrevista ‘meio-corpo’), tentamos (sem sucesso) alguns guardas do Ministério Publico (que observavam a multidão passar), trocamos algumas palavras com um mendigo (que nos chocou por falar ‘não entendo, only English’ – ele era da África do Sul e, depois que eu expliquei sobre o que era a manifestação, se mostrou favorável ao movimento), filmamos algumas crianças e conseguimos as opiniões de mais dois jovens estudantes.

Neste momento percebemos que tinha um grupo que não estava indo para a Paulista, um grupo que tinha se deslocado para a frente da Prefeitura de São Paulo. Decidimos voltar, do meio da Brigadeiro, para ver qual era a situação lá. Ainda bem que voltamos.

Chegamos lá e o clima era totalmente diferente. Quando descíamos por uma rua curva já nos deparamos com dois jovens que corriam em direção a alguns policiais parados na frente de um prédio. “Estão quebrando tudo, queimaram um carro e estão quebrando uma agência do Itaú… vocês precisam fazer alguma coisa.” O Policial Militar respondeu: ‘Você já tentou ligar para o 190?’ O jovem retornou: ‘Mas vocês estão bem aqui!’… Já vi que era falcatrua, queria entrevistar os Policiais, me direcionaram ao Sargento de plantão ali.

Cheguei explicando que era formado em Direito, que meu amigo era estudante, que não éramos da mídia e queríamos tão somente registrar todos os lados deste conflito. Ele ficou surpreso, feliz, conversou muito comigo, falou que ele e o outro oficial ali também eram formados em Direito. Falou que apreciava o meu ‘trabalho’, nos incentivou a continuarmos, mas falou que ele não poderia falar nada para a câmera. ‘Nem se a gente não filmar a sua cara?’ ‘Não’. Este foi um dos momentos que eu mais me arrependi da noite inteira porque eu estava com um gravador na mão e poderia ter apertado play e ter gravado tudo só em áudio… era um pouco ‘antiético’ mas teria sido um achado e tanto…

O Sargento ainda me explicou que ele sabia que os vândalos eram .01% dos manifestantes e que 99.99% das pessoas eram boas, mas que a PM estava lá pelos .01%. Ele ainda disse: ‘Houve excesso policial? Houve, mas aqui a gente cuida de nos mesmos… todos os casos serão averiguados pela Corregedoria’ (que maneira falha de se averiguar excessos, meu deus).

O interessante é que estes policiais, no mínimo uns 15 deles, estavam a um quarteirão da agência do Itaú que queimava e da Prefeitura que era vandalizada. Se eles dessem 5 passos para o lado eles teriam uma visão plena da confusão que rolava a solto. Perguntei para ele sobre a não-interferência da PM e o Sargento explicou algo neste sentido: ‘A mídia e a população pediram para que a gente não interferisse, agora eu quero ver, vamos deixar os vândalos queimarem tudo e a gente vê o que todo mundo pensa amanha…’ É tudo um contínuo jogo de interesses.

Então descemos a rua e fomos ver a confusão. Chegamos bem na hora em que estavam quebrando as janelas do Itaú e invadindo a agência. Filmamos tudo e conseguimos entrevistar dois dos vândalos… ‘Posso entrevistar vocês dois segundos? A gente é PUC, não é jornal. Cobre o rosto que tudo bem.’ ‘A, vocês são PUC, legal, já queimei vários por lá.’ Conseguimos as entrevistas.

Então vimos que tinha um monge segurando umas bandeiras bem do lado do local onde o fogo rolava solto. Decidimos entrevistar ele e foi ótimo, ele expôs uma visão bem diferente e completa sobre os acontecimentos… uma das pessoas que melhor expôs um programa de reforma. No meio da entrevista com este monge e seus companheiros, a PM e os bombeiros chegaram para apagar o fogo e tivemos que cortar a entrevista por causa do corre-corre.

Decidimos que era hora de partir e seguimos em direção à rua pela qual viemos. Estávamos quase no fim da rua quando escutamos um som de metal sendo arrastado atrás de nós; nos viramos. Era um homem que arrastava uma mangueira de incêndio atrás dele. Não sei se era da Agência Itaú ou se era do caminhão dos bombeiros, mas tínhamos que entrevistar ele. Foi nessa hora que a perspectiva sobre tudo mudou um pouco para mim…

Se você acha que está revoltado, se você acha que não tem direitos, vou te falar uma coisa: só pelo fato de você ter acesso a este texto e ter a capacidade de discernir o que nele está escrito, eu vos digo que tu não estás revoltado. Aquele cara estava REVOLTADO. Ele era morador de rua, com olhos aflitos e cansados, e nos contou o porque de estar fazendo tudo aquilo enquanto estourava um saco de lixo para guardar a mangueira de incêndio. Sua fala era algo neste sentido: ‘Sou morador de rua, vivo aqui perto com a minha mulher e toda noite esses PMs filhos da puta me acordam com choque (de Taser). Eu estou cansado de viver assim.” (O filme mostrará muito melhor).

Eu não vou agora fazer uma apologia à violência e à depredação. Só quero falar duas coisa bem simples: Uma, que este cara não estava nem um pouco preocupado com as consequências de seus atos porque ele já sofre diariamente estas consequências sem ter que praticar ato nenhum. Duas, eu tenho dó do pequeno comerciante que terá que gastar 30 reais em tinta para consertar a porta da sua venda depois que ela foi pichada, eu tenho dó do vendedor da loja de informática que ficará amanha limpando os cacos de vidro da loja que foi depredada e saqueada, mas eu não tenho dó do Banco Itaú (meus amigos banqueiros e neoliberais que me perdoem). Os bancos ganham em cima de todo mundo (que não aquelas restritas mil pessoas no mundo que realmente são as banqueiras), em todas as transações feitas em todos os momentos em todos os lugares; não pode-se peidar sem que um banco lucre. Eles são o grande ‘middle-man’ do mundo e são comprovadamente contra-produtivos para qualquer economia (não vou entrar no mérito aqui, mas vocês podem ver este documentário ou este daqui); o sistema financeiro nacional e o sistema financeiro internacional são puras formas de exploração e criam um ambiente em que alguém sempre tem que perder (pois quem pagará o juro sendo que o juro nunca é emitido em forma de moeda? Emite-se 100 reais, mas cobra-se 105. Os 5 não foram emitidos em nenhum momento, por nenhum banco; logo, deve-se roubar os 5 de outrem para que eles possam ser devolvidos… Eu estou falando de escala macro; não quero respostas sobre microeconomia, por favor! Se alguém quiser debater este tema assista os documentários antes e a gente discute o quanto você quiser).

Enfim, continuamos subindo a rua quando olhei para o lado e vi que uma moça da imprensa estava andando conosco. Decidimos entrevistar ela, o que não foi fácil pois ela ainda estava muito confusa (depois vimos que temos excelentes imagens dela sendo muito mais valente que nós, tirando fotos no meio da invasão da Agência enquanto cacos de vidro voavam para todos os lados); acho que esta parte do filme vai ficar muito boa.

Depois disto decidimos voltar para a Sé e refazer nosso caminho inicial até a Brigadeiro e depois até a Paulista. Entrevistamos mais algumas pessoas no caminho, vimos gente carregando Playstation e TV de Plasma para casa e conseguimos entrevistar dois pichadores (que francamente eram os que menos sabiam o que e porque estavam fazendo aquilo…)

Na Paulista também conseguimos boas imagens e boas entrevistas, encontramos novamente o mendigo da África do Sul, que continuava a catar latinhas, e tentamos entrevistar alguns punks-anarquistas que disseram ‘sem mídia’. ‘Mas eu não sou mídia, sou estudante’. ‘Sem mídia’. (Queria muito ter conseguido incluir eles no filme).

A Paulista também foi o local onde as contradições ficaram mais evidentes. Tinha um grupo de centenas de pessoas na frente do prédio da FIESP (todo iluminado com uma suntuosa bandeira do Brasil) cantando o Hino Nacional e, duzentos metros depois, um grupo que queimava a bandeira do Brasil e gritava ‘Viva a Anarquia’. Foi lá que um entrevistado nos falou que ‘não deve ser a hora de revolução, mas sim de evolução’ enquanto o próximo clamou pela ‘verdadeira revolução’. Contradição.

Ou será que na verdade nada disto é contradição, que na escala macro todos nós estamos confusos – ignorantes das reais questões maiores da vida – e estamos tentando dar algum sentido ao que é existir temporalmente em uma rocha flutuante sobre o vácuo? Não sei, mas me parece que independentemente de corrente política e de visão de futuro, a situação atual é pouco agradável para muitos. Não acho que devemos desvirtuar o movimento: foquemos nos 20 centavos (!) mas debatamos todo o resto!

VIVA A (R)EVOLUÇÃO!?!

(Eu queria ter colocado uma palinha do filme aqui, mas ainda temos muita coisa para editar… se possível continuaremos pegando material nas próximas manifestações.)

(Agradecimentos especiais ao Gustavo Canzian [co-produtor do filme] e ao Mateo Marin, que me acompanharam durante as manifestações.)

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