De pé.

por Emiliano Augusto

A minha gente acordou hoje falando de lado e olhando para o chão, o que era de se esperar dados os acontecimentos de ontem especialmente no Rio e em São Paulo. Para quem não sabe, ou para quem lerá esse texto de algum lugar no futuro, fascistas atacaram partidos de esquerda, movimentos sociais organizados e até simplesmente quem usava camisa vermelha ontem na Av. Paulista durante a marcha chamada pelo Movimento Passe Livre em comemoração à redução da tarifa do transporte público na capital paulista de R$ 3,20 para R$ 3,00, e enquanto eu escrevo um camarada do PSTU do Rio de Janeiro está em coma após ter sofrido agressões de fascistas nas manifestações que por lá foram duramente reprimidas pela polícia. Este texto é para dizer que, embora a situação seja grave, ela ainda não é desesperadora.

Permitam-me começar com alguns relatos da minha experiência, bem particular e pessoal, admito, de dois momentos distintos de ontem. O primeiro deles começa assim: estou indo encontrar alguns dos meus amigos, quando passo por uma multidão curiosa. De um lado um bloco compacto segura bandeiras e faixas do PT, e de outro uma galera grande mas mais esparsa grita “fora, partidos!”. Eu olho curioso à minha volta, paro para conversar com um casal jovem, bem vestido e bem cuidado. Pergunto para eles se eles sabem como chama o regime em que não se permite expressão partidária. Eles me olham desconfiados, admitem que não sabem, ao que eu respondo: “Chama-se ditadura”. Conversamos mais um pouco, eles dizem que trata-se apenas de liberdade de expressão, eles criticam o oportunismo daquele partido. Eu digo que não tem problema criticar o oportunismo, mas friso que sou capaz de apostar com eles de que quando começa o “fora, partidos”, não demora muito e eu estou apanhando junto com a galera dos partidos. Eu não sou de me gabar muito, mas mais tarde, um dos meus fiozinhos de alegria foi perceber os tons de quase profecia da minha leitura daquela conjuntura: algumas horas depois, quando os fascistas pularam pro meio da multidão, alguém acabou errando um soco que mirava um camarada de algum partido, e esse soco acabou acertando um camarada que estava ao meu lado.

Nem tudo foram trevas, entretanto. Antes de as agressões acontecerem, foi possível conversar com bastante gente ali, que marchava na passeata. Estavam, e eu acredito que ainda estão, todos muito a fim de não só debater política, mas intervir politicamente. As mais diferentes pessoas vinham trocar opiniões, tirar dúvidas, perguntar o que gritávamos e porque gritávamos o que gritávamos, pediam nossos panfletos. Chamou minha atenção especialmente um pequeno grupo de estudantes de um cursinho. Umas das meninas leu o que escrevemos, perguntou da onde éramos, e, ao ouvir que éramos estudantes de um faculdade em que ela pretendia entrar, chamou as amigas. “Leiam isso aqui que é bom”, disse, “e eles são lá de onde a gente quer entrar, eles devem saber do que estão falando”, enquanto ela mesma avidamente tomava os panfletos da nossa mão e ia passando adiante, para as amigas e para desconhecidos.

Trago essas duas cenas pra tentar extrair uma lição do pior dos dias de manifestação até aqui. Agressões fascistas, carecas, integralistas e neonazistas correndo soltos em plena luz do dia é grave. É hora de desenterrar técnicas e estratégias de proteção e defesa, ou seja, mantenham-se seguros. Organizem-se para não ficarem sozinhos e para se protegerem mutuamente. Nos atos que vocês decidirem intervir, criem comissões de segurança e de primeiros socorros. Para os que estão interessados na intervenção política, e acreditam que a melhor maneira de conseguir o que queremos e debater e agir coletivamente, perdoem que eu abandone a linguagem mediada que costumo usar aqui e seja bem direto: é hora de frente de esquerda contra essa galera que taí pra botar fogo na gente (e, historicamente, é pra isso que eles são usados mesmo: destruir os instrumentos de organização coletiva da classe trabalhadora). É grave, mas não é a totalidade do que está nas ruas.

A massa que está nas ruas não é fascista. A massa que está nas ruas é muito semelhante (embora com intenções, vontades e interesses os mais variados) àquela garota ávida por se informar e por intervir, e até aquele casal doido pra gritar, embora não saiba muito bem o que significam os gritos que eles reproduzem. Isso ficou claro segunda e terça, assim como o grau de vitória da última ditadura por que passamos. Na segunda e na terça aqui em São Paulo, pessoas que nunca haviam ido à rua estavam lá, vivendo sua primeira grande participação política. Elas queriam gritar, queriam exigir, mas ainda não tinham, como ainda não têm, o repertório do que se grita nas ruas, e o que preencheu esse vácuo foi o que se grita e canta nas reuniões de massa a que elas estão acostumadas a ver: os gritos de torcida de futebol que aparecem mais na TV. “O campeão voltou” foi substituído por “o povo acordou”, e “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” apareceu assim do jeitinho que ele é. E eu aponto isso como vitória da ditadura: foi ela quem construiu o nosso atual sistema de telecomunicação, e foi ela quem abusou desse nacionalismo ufanista pra nos manter quietinhos. Isso foi aplicado com tanta eficiência que a ditadura acabou há mais tempo do que durou, e nós ainda colhemos os frutos dela.

Ontem, foi fácil para o fascismo manobrar o sentimento nacionalista contra os partidos e movimentos sociais organizados. Porém é isso: o fascismo manobrou o sentimento, mas ainda não o preencheu. Eu duvido que todos os que gritavam “fora, partido” ontem apoiassem um AI-5 hoje, porque eu, com a minha voz rouca e fraca ontem, apelei para a liberdade de expressão e contra a censura, e vi algumas pessoas mudarem de lado e cantarem comigo. Não vai ser fácil pra gente. A gente vai precisar descer da nossa arrogância de ter se politizado antes do pessoal que tá indo pras ruas pela primeira vez. A gente vai precisar desencanar do nosso nojinho e deixar dessa mania de higienizar protesto. A gente vai ter que olhar pra trás e ver o que fez errado, organizar o que e onde faltou organizar. Dar um tempo na picuinha fratricida autofágica. E grudar no que nos separa do fascismo: não arredar o pé nem um milímetro dos mínimos direitos democráticos de organização coletiva. É, camaradas, a luta só se constrói de um jeito: lutando. Igualmente, a defesa do direito de organização só se constrói se organizando. O bom é que dá pra começar aí na escola, na faculdade no local de trabalho, no bairro… E a situação pede que seja pra ontem.

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