Babylon by bus

por Maria Shirts

Esses dias, em uma conversa de bar, quando questionada pela enésima vez quando que tiraria carta de motorista, eu me assumi. Sai do armário sem medo e respondi: “Nunca. Sou anti carro”.

Aos 13 anos, quando estudava na Escola Waldorf São Paulo, aprendi a pegar ônibus sozinha porque não tinha mais carona pro colégio. A minha mãe, que trabalhava até muito tarde, não tinha como acordar cedo para me levar. Fora que o trânsito, na volta, era aquele das 7h30 da manhã da Vila Olímpia — vulgo se mata.

Desde então aprendi a me virar de ônibus, muito por causa do meu irmão, Lucas, e da minha melhor amiga, Lidia, que é agilizada nos transportes. Por isso, desde cedo, aprendi a usar o transporte público pra suprir as minhas necessidades, quer dizer, pra chegar onde eu queria. Ainda adolescente, minha mãe vendeu o carro. Em 2008, meu último ano de colégio, meu pai resolveu que era adepto do pedestrianismo e, apesar de ter carro, só andava a pé. Em 2011 uma pessoa muito, muito especial para mim (e pro mundo, também) foi assassinada por um carro, quando andava na calçada, voltando para casa. Acho que foi aí que eu decidi: não quero, nunca, operar uma máquina opressora como essa.

Por essas e outras eu nem tirei carta de habilitação, e fui levando assim mesmo. Afinal, estudava a 3 quilômetros de casa, de modo que eu ia a pé, e nunca trabalhei muito mais longe do que isso. Além do que, sempre trabalhei em lugares que são de fácil acesso via transporte público, então nunca me importei com o automóvel. Sim, como o leitor pode perceber, eu sou muito privilegiada — tudo o que faço é perto da minha casa e me permite optar por outros meios de transporte que não o carro. Mas muitas pessoas tão privilegiadas quanto eu não fazem essa escolha, porque vem no carro um conforto, um prazer, uma praticidade — que eu não consigo compreender.

De fato, tem coisas que só dá pra fazer (ou é muito melhor se fazer) de carro, tipo: viajar, fazer supermercado, levar os pets no veterinário, transportar coisas pesadas… mas também é possível se adaptar. Hoje em dia tem empresa que aluga carro só para essas funções. E, tá, eu costumo sair antes do que os outros de casa, porque nunca se sabe quando o ônibus vai passar (de metrô, realmente, é mais fácil e rápido, mas não é todo lugar que tem metrô). Mas quando ele chega, na maioria das vezes, eu consigo ir sentada, lendo, o que é demais, gente! Quando eu desço no ponto vou observando a cidade, os graffitis, um prédio muito bacana naquela esquina da Consolação, uma flor que apareceu no meio do asfalto (ai, que poético).

Ok, transporte público não é toda essa maravilha. É que eu faço um trajeto muito do tranquilo. Mas na verdade ele é quase sempre lotado, com motoristas que dirigem algo que eles pensam ser uma McLaren, pega-se muito, muito trânsito… Pode ser bem infernal.

Por isso, acredito, a mobilidade urbana como um todo tem que ser repensada. Não é só o preço da passagem que é absurdo, mas toda a lógica dos modais da cidade me parece invertida. Afinal, se o cidadão preza pela individualidade e um (falso) conforto, ajudando a gerar esse trânsito insustentável, é porque alguma coisa está muito errada. Isso pra não falar da emissão de poluentes…

Veja bem, eu não sou “anti-motoristas”. Afinal, cada um opta pelo que achar melhor. Mas me surpreende muito um indivíduo achar melhor ficar anos preso no trânsito, passando estresse, quando poderia desentupir as vias ao optar pelo coletivo. É claro que os trens, metrôs e ônibus precisam de melhorias, mas daí a dizer que “só ando de ônibus quando o transporte público melhorar” é muita sacanagem. Se o poder público não sentir pressão de todos – e, principalmente, daquela parcela influente da população (que tem carro) -, a (i)mobilidade urbana vai continuar assim: indivíduos sozinhos nos seus carros, entupindo as vias, passando estresse, dificultando o passeio…

Sinto alguns ares de mudança, por aí… to esperando eles se concretizarem.

Enquanto isso, deixo uma mensagem para os amigos motoristas: largue o carro, vá de busão/trem/metrô/bike/a pé!

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2 comentários sobre “Babylon by bus

  1. Muito legal você ter tudo perto de sua casa. É um privilégio que, infelizmente, poucas pessoas têm. Entenda-se como “poucas” levando-se em consideração o universo de uma cidade grande como São Paulo. Mas, realmente, seria muito bom que todos pudessem se utilizar do transporte público, ou mesmo. andar a pé. Dessa vez concordei com você em tudo. Beijos……….

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