As manifestações e os partidos políticos

Por Guilherme Andrade

Embora o motivo inicial que levou os brasileiros às ruas para protestarem nas últimas três semanas tenha sido o aumento das passagens do transporte público, logo se percebeu que “não é só por 20 centavos” – no caso de São Paulo – que milhares de cidadãos aderiram e continuam aderindo às passeatas país afora. O povo saiu às ruas para demonstrar sua imensa insatisfação com o sistema político representativo atual e suas instituições, exigindo a volta do diálogo aberto com a sociedade para a definição de políticas que afetam a todos, e recusando o papel de mero expectador do teatro protagonizado por políticos, servidores e funcionários dos três poderes e das empresas a eles relacionadas.

Por outro lado, o modo de exigir isso nas ruas muitas vezes apontou uma falta de qualificação no debate, causando deturpações de ordem preocupante. Um exemplo claro disso foram as ações anti partidárias que tomaram parte da pauta em diversos casos, desencadeando muitas vezes conflitos violentos entre manifestantes e militantes de partidos políticos presentes nas manifestações. Ao meu ver, além de esse ser um claro golpe à própria democracia e um cerceamento pesado da liberdade de expressão política, presenciamos uma injustiça descabida com muitos desses movimentos.

Esse preconceito contra partidos é compreensível, ainda que não seja justificado. É compreensível porque muitos dos que criticam a participação de partidos nos protestos estão expressando sua insatisfação com o modelo representativo atual, no qual os partidos e seus políticos são os principais atores e não poucas vezes os maiores usurpadores. Porém, não é justificado por conta participação histórica que muitos deles tem nas lutas pelas próprias causas sociais defendidas nas manifestações.

Muitos partidos políticos no Brasil, se não a totalidade, possuem em sua estrutura algum tipo de organização jovem. Esses movimentos são importantes mecanismos de oxigenação intrapartidária e, principalmente no caso de partidos declarados de esquerda, são mais próximos de movimentos sociais de base, como as lutas por moradia, reforma agrária, educação, meio ambiente, direitos dos excluídos, respeito às minorias, dentre uma infinidade de outras causas da sociedade. Com a causa do transporte gratuito organizado pelo Movimento Passe Livre não foi diferente. Como apontado pelo próprio MPL (“Nota nº11: sobre o ato do dia 20.06”), muitos desses grupos ajudaram na construção do movimento e não se trata de oportunismo participarem das manifestações sobre temas que eles defendem já há tempos. Oportunismo seria querer tirá-los, como forma de enfraquecer o movimento, jogando manifestantes desatentos ou que buscavam pautas diversas contra seus militantes, como se pôde ver de forma mais explicita no ato do dia 20 de junho na Av. Paulista, em São Paulo.

Muitos manifestantes contrários à participação de bandeiras partidárias nos protestos sequer notaram que seus “alvos” estavam gritando as mesmas palavras de ordem do movimento, estavam andando na mesma direção de toda a multidão e sofreram a mesma repressão desproporcional que todos foram vítimas nos casos de confronto com a polícia. Já não bastasse a enorme dificuldade de se manterem, junto aos movimentos sociais, na luta a favor de causas cada vez mais renegadas pelas políticas públicas, muitos militantes tiveram que convencer outros manifestantes – embora sem muito sucesso – de que eles estavam ali para somar, e não desviar ou tomar o movimento. E ainda que estivessem promovendo sua “marca”, estavam fazendo de modo legítimo, legal, a favor da causa e, principalmente, de forma pacífica. Assim, nada justifica a violência com que muitos militantes foram tratados.

A necessidade agora é de juntar o trabalho desses ativistas e militantes com o desejo de transformação social dos manifestantes para alterar essa realidade falida da política nacional. Para isso, a qualificação dos debates nas ruas é fundamental para a evolução do movimento e para que se evite iniciativas que mais enfraquecem do que fortalecem a sua luta. A volta do tema da reforma política é um ótimo direcionamento da pauta contra o atual performance negativa dos partidos na política nacional buscando, dentre outras medidas, reaproximar seus líderes dessas “categorias de base” ligadas aos movimentos sociais e às necessidades mais básicas da sociedade.

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