Papa ‘Che’ Francisco

Com suas roupagens medievais, seus aposentos no Palácio Apostólico e suas reuniões cerimoniais na suntuosa Basílica São Pedro, os residentes do pequeno país do Vaticano ocasionalmente se assemelham mais aos membros de uma monarquia do que aos líderes de uma comunidade espiritual baseada nos ideais de Jesus Christo. É por isso que a elevação de Jorge Mario Bergoglio ao Pontíficado, que escolheu o nome de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis, o santo da pobreza, foi tão importante; a sua ascensão fez mais pela imagem da Igreja Católica Apostólica Romana do que o que poderia ser esperado da melhor empresa de Relações Públicas ou dos melhores marqueteiros do mundo.

O Papa Francisco quebrou o protocolo desde o início: depois de eleito, cumprimentou seus irmãos Cardiais no mesmo nível e não em cima da tradicional plataforma; trocou os sapatos vermelhos da Prada por sapatos pretos simples; decidiu que residiria em uma pequena suíte no Hotel Vaticano e não nos Apartamentos Papais; trocou o majestoso trono dourado, representante do reino de deus na terra, por uma cadeira mais simples; retirou o tapete vermelho que adornava o seu acento terrestre; e decidiu optar por roupagens mais simples, sem o vermelho Romano, sem os detalhes dourados e sem a cruz de ouro com rubis. (Veja esta foto tosca para entender melhor visualmente).

É claro que todas estas mudanças são puramente simbólicas – a relação de poder entre o Papa e os seus irmãos Cardiais continua legalmente a mesma; os antigos sapatos Prada, as cruzes de ouro, o suntuoso trono e as roupas caríssimas ainda fazem parte do gigantesco acervo milionário do Vaticano – mas, ao que parece, o Papa Francisco tem o intuito de promover mudanças de conteúdo, não só de forma, dentro do Vaticano e na estrutura da Igreja Católica Apostólica Romana.

Ele até mesmo já abriu um inquérito oficial para apurar os casos de abusos sexuais que continuam sendo praticados por uma parte significativa do clero Católico: ‘[É necessário] agir de forma decisiva em relação aos casos de abuso sexual, promovendo, acima de tudo, medidas para proteger os menores, para ajudar aqueles que sofreram esse tipo de violência no passado (e) realizando os procedimentos necessários contra aqueles que são culpados.’ (Tradução Livre) –  Papa Francisco

Mesmo que pouco seja discutido sobre as características inerentes a esta Instituição que ajudam a propiciar este tipo de crime, como o considerável numero de membros do clero que são homossexuais mas que não tem o direito de exercer sua sexualidade livremente, ficando reclusos tão somente com jovens do mesmo sexo, criando situações de fato que ajudam a propiciar este tipo de delito, e a Crimen Sollicitationis, documento formal do Vaticano adotado em 1962 (e em vigor até hoje) que instrui os membros do clero a esconderem e ajudarem a abafar casos de pedofilia praticados pelos membros da Igreja Católica, parece que o Papa Francisco está ao menos tentando quebrar este ciclo de impunidade dentro da Igreja.

O Papa também insinuou que está disposto a trabalhar em conjunto com membros de outras fés e ateus pelo progresso da paz e pela cooperação mundial; lavou os pés de jovens e adolescentes reclusos em uma casa de reeducação em Roma, incluindo os de uma mulher muçulmana (este ato foi particularmente significativo para mim pois sempre achei que se o Papa realmente fosse o representante de Jesus Cristo na terra ele tinha que estar andando descalço pelas favelas de Roma conversando e ajudando os miseráveis); e ele não se calou frente às novas críticas e aos renovados escândalos envolvendo o IOR (Instituto per le Opere di Religione), o Banco do Vaticano, depois que o Monsignor Nunzio Scarano foi preso por organizar o contrabando de 20 milhões de Euros e dois diretores do Banco se demitiram.

Foi neste contexto de crise que a vinda do Papa ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, originalmente programada para ser presidida por Bento XVI, se mostrou mais relevante do que nunca. O numero de fieis da Igreja Católica, principalmente o numero de fieis praticantes, tem caído significativamente no Brasil; muitos  hoje se identificam com as vertentes Pentecostais e Evangélicas dos ensinamentos de Cristo, possivelmente em razão da perseguição dos aderentes à Teoria da Libertação pelo Papa João Paulo II.

‘Talvez a Igreja parecia estar muito fraca, talvez estava muito distante das necessidades [dos fiéis], talvez demasiado fraca para responder às preocupações [dos fiéis], talvez muito fria, talvez muito presa a si mesma, talvez uma prisioneira de suas próprias fórmulas rígidas. Talvez o mundo parece ter feito da Igreja uma relíquia do passado, imprópria para [se dirigir às] novas questões. Talvez a Igreja conseguia falar com as pessoas na infância, mas não com aquelas atingindo a maioridade.’ (Tradução Livre) – Papa Francisco

A franqueza do Papa ao analisar o passado recente da sua Igreja é uma brisa de ar fresco que não víamos há muito tempo nos corredores de uma Instituição que ainda usa o Latim Eclesiástico no Rito Romano e em alguns documentos e ocasiões oficiais, algo que qualquer leigo entende. Parece que este afrouxamento das formulas rígidas poderia fazer com que a fé parasse de ser medida exclusivamente em razão à obediência às doutrinas oficiais. Algo positivo, claro, pois o dogmatismo só ajuda a anestesiar a curiosidade intelectual dos seres humanos; curvar-se fielmente a um único livro, a um único conceito, a uma única pessoa, é fechar-se à experiência humana.

Possivelmente por isto Francisco será o Papa que precisávamos, e talvez ele mostrou um pouco disso quando deixou a mercedes-benz de lado e chegou com aquele carro-não-tão-popular-assim, quando ele visitou a favela da Varginha, Rio de Janeiro, e afirmou que ‘nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma’, ou quando ele se dirigiu aos jovens, dizendo: ‘a todos vocês repito: nunca se desanimem, não percam a confiança, não deixem que a esperança se apague […] Espero que haja agitação, não só aqui no Rio, mas na diocese […] Eu quero que vocês saiam às ruas, que a igreja vá para a rua […] Esta civilização mundial foi longe demais porque o culto que fazem ao deus do dinheiro é tão forte que estamos testemunhando uma filosofia e uma prática de excluir os dois polos da vida […] Amigos, a fé é revolucionária.’

Quando questionado mais sobre as manifestações, disse:

‘Com toda a franqueza lhe digo: não sei bem por que os jovens estão protestando. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto: um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é muito lindo! É preciso ouvir os jovens, dar-lhes lugares para se expressar, e cuidar para que não sejam manipulados.’ (Aqui)

É claro que estas palavras, como todas as palavras, são interpretadas de formas diferentes por cada um. Mas o Papa Francisco parece ser um homem de visão que está tentando transformar a Igreja e, talvez, posteriormente, o mundo. Ele não precisa convocar um grande Concílio ou escrever novos documentos; as doutrinas fundamentais de justiça social e de igualdade podem ser encontrados facilmente nos escritos de inúmeros teólogos, no Concílio Vaticano II, e naquele radical documento emancipatório, o New Testamento. Lá encontramos inúmeras declarações explícitas sobre a nossa humanidade compartilhada, sobre direitos universais, e sobre a necessidade de encontrar um terreno comum.

É claro que a eutanásia, o uso de métodos contraceptivos, o sexo antes do casamento, o divorcio, o aborto, o casamento homossexual e a poligamia continuam sendo considerados pecados pela Igreja, mas o ponto é exatamente este: são considerados pecados pela Igreja. A Igreja já considerou a venda de indulgências uma forma legítima de renda, já teve vastos feudos e servos, já guerreou, queimou e assassinou. Mas não há que se culpar unicamente a Igreja por isto; qualquer um que ler minimamente sobre a estrutura da Igreja no dito Medievo verá que ela era composta quase exclusivamente por membros das grandes famílias nobres de Roma e das outras cidades-estados da península itálica. Eram pessoas que viviam da ‘venda de segurança’ aos camponeses que oprimiam, pessoas que pensavam somente na preservação da própria família, eternamente lutando entre si por mais territórios e mais pessoas para oprimirem – verdadeiros mafiosos. A razão disto é mais complexa e passa pela institucionalização da Igreja no Império Romano, pelas invasões barbaras e pela subsequente desestruturação da Europa, temas que não serão abordados aqui mas que mostram que a Igreja, como todas as instituições, molda e é moldada por seus membros.

Desta forma, o Papa pode ajudar a moldar esta instituição para que ela signifique outra coisa perante o mundo. Se este Papa é um rebelde, ele parece  ter uma causa: aliviar o sofrimento dos que estão no degrau mais baixo da sociedade. E ele parece ser um homem de ação. Por isto, onde e quando ele ajudar a aliviar a dor da fome, da doença, da depravação, e dos abusos dos miseráveis ​​e oprimidos, devemos apoiá-lo. Dar aos pobres melhores condições de vida é um princípio fundamental da fé cristã, mas isso foi frequentemente esquecido frente aos sonhos de uma vida melhor depois da morte. O problema com estes sonhos é que a Religião, quando entendida somente como o caminho para salvação pós-morte, frequentemente ignora as necessidades imediatas e, ao invés de instigar e propor mudanças, nos ajuda a aceitar, a saber lidar com a nossa depravada situação.

A ideia de salvação extraterrena nos ajuda a superar a dor e o sofrimento relacionado às perderas, à miséria, às injustiças contínuas; a imagem do grande coração amoroso de Jesus Cristo ajuda a consolar neste mundo desolado e repleto de sofrimento. Mas ela raramente nos compele a quebrar nossas atarraxas e a preencher este mundo desolado com uma comunidade de amor na terra – aquilo que no catolicismo é conhecido como a Comunidade do Espírito Santo.

Isso não quer dizer que eu não considero que a mensagem de Jesus Cristo é profundamente emancipatória e revolucionária, apesar do embelezamento divino e das ​​contradições presentes nos escritos sobre ele. É só que esta mensagem perdeu o seu fervor quando os católicos e o clero deixaram de ser o inimigo interno número um do Império Romano e passaram a ser a personificação dele. Mas Constantino já se foi há muito tempo, mesmo que diversos aspectos do Conselho de Niceia ainda estejam de pé, e a Idade Média, o Risorgimento e os Estados Papais são águas passadas. O Banco do Vaticano, por outro lado, perdura, e os seus obscuros negócios internacionais, seus escândalos de lavagem de dinheiro e a lastimável atuação do seu Presidente ainda acontecem livremente em um clima de Banco ‘off-shore’, que não precisa cumprir com as regulamentações bancárias da Itália ou da UE.

‘Agora mesmo temos um escândalo de transferência de 10 ou 20 milhões de dólares por um Monsenhor. Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal, e a Igreja tem que dar a ele a punição que merece, pois agiu mal. No momento do conclave, antes temos o que chamamos congregações gerais – uma semana de reuniões dos cardeais. Naquela ocasião, falamos claramente dos problemas. Falamos de tudo. Porque estávamos sozinhos, e para saber qual era a realidade e traçar o perfil do novo Papa. E dali saíram problemas sérios, derivados em parte de tudo o que vocês conhecem: do Vatileaks e assim por diante. Havia problemas de escândalos. Mas também havia os santos. Esses homens que deram sua vida para trabalhar pela Igreja de maneira silenciosa no Conselho Apostólico.’ – Papa Francisco. (Aqui)

E, ainda:

‘Eu não sei o que será do banco. Alguns dizem que é melhor que seja um banco, outros que ele deve ser um fundo de caridade e outros dizem que o devo fechar. Temos que encontrar a solução, mas qualquer que seja a solução, ele deve ter transparência e honestidade. Essa é a maneira que deve ser.’ – Papa Francisco (Tradução Livre)

Infelizmente para o Papa Francisco, outro Papa já tentou enfrentar o Banco do Vaticano depois de um escândalo: o Papa João Paulo I, que morreu repentinamente no trigésimo terceiro dia de seu Pontificado. Naquela época o implicado no escândalo era Paul Marcinkus, Arcebispo Americano nascido em Chicago e então Presidente do Banco do Vaticano. Ele foi acusado de estar envolvido com casos de desvio de dinheiro depois que um furo de mais de um bilhão de dólares foi encontrado no Banco Ambrosiano (o Banco do Vaticano era dono de 15% do Banco Ambrosiano). Quando o Papa João Paulo I começou a se proferir contra as ações do Banco e de seus dirigentes ele foi encontrado morto em seus aposentos nos Apartamentos Papais; o Vaticano nunca autorizou que o seu corpo fosse submetido a uma autópsia.

Eu não acredito que o mesmo acontecerá com o Papa Franscico, até porque hoje existe uma Força de Segurança do Papa cujo esprit de corps é centradíssimo na proteção do Pontífice, algo que sequer existia na época de João Paulo I. Mas o precedente histórico existe e deve ser mais bem analisado para entendermos o quão multifacetado e complexo é o Vaticano e o quão difícil será mudá-lo. De toda forma, parece que o Papa Francisco está empenhado em promover (algumas) mudanças contra algumas das pessoas mais poderosas do mundo; resta esperar para ver.

Quem quiser entender um pouco mais sobre o Banco do Vaticano, eis um documentário plausível, se um pouco cansativo:

Sobre o Papa João Paulo I, este é curto e elucidativo:

E sobre o Banco, na época de João Paulo I e hoje em dia:  (Um pouco sensacionalista e, francamente, meio mal feito… mas é do History Chanel então talvez tenha – ou não  – uma mínima credibilidade)

Viva a Repressão! Ou, Como a Esquerda Criou a Sociedade do Consumo

Por Lucas Fontelles

Havia uma época em que a palavra “repressão” era utilizada apenas para se referir a um grande número de pessoas. Falava-se em “repressão das tropas”, ou “repressão da rebelião” ou “repressão do governo”. Porém, há mais ou menos um século atrás a palavra repressão ganhou usos revolucionários. O filósofo Nietzsche foi o primeiro a falar da existência de uma “moral repressora”, isto é, a existência de uma moral que oprime os indivíduos, reprime seus desejos e vontades. Nietzsche foi até mais longe e percebeu que boa parte dessa repressão vinha do culto à razão que existia há muito tempo no Ocidente, uma razão que enquadra, formata e oprime excessivamente os indivíduos. Pouco tempo depois alguns médico psiquiatra começou a se interessar profundamente pela mesma questão. Depois de examinar vários e vários pacientes, em especial mulheres histéricas, esses psiquiatras descobriram que de fato havia uma enorme repressão na sociedade da época, e que era a repressão racional aos desejos daquelas mulheres (em especial os sexuais) que fazia com que ficassem “loucas”.

Essa teoria foi criada por Josef Breuer e desenvolvida enormemente por Sigmund Freud. Ela fez bastante sentido para muitos. Mas, mais importante do que fazer sentido, gerou inúmeros resultados concretos. Isso porque como bons cientistas que eram, os psicanalistas não se contentaram como Nietzsche em apenas criar uma teoria. Eles criaram também o método para lidar com esse problema e curar seus pacientes, a psicanálise, que consistia em escutar o que os pacientes tinham guardado e ninguém poderia escutar, até finalmente identificar os desejos e ensinar os pacientes a entendê-los e a lidar com eles. Desse método nasceria depois uma nova classe de profissionais: os psicólogos. Mas o objetivo desse texto não é continuar a debater sobre a teoria freudiana, o método da psicanálise ou os psicólogos (que depois passaram a adotar muitos outros métodos além da psicanálise). O objetivo desse texto é entender um pouco mais os impactos que a teoria freudiana tiveram na sociedade, impactos que muitas vezes são ignorados pelos observadores.

O que ocorre é que depois das descobertas dos psicanalistas a mente humana passou a ser enxergada como um campo de batalha entre a Razão e os Desejos. Essa percepção teve muitos efeitos não só na psicologia, mas em diversas áreas do conhecimento. Uma área com efeitos revolucionários, por exemplo, é a do marketing e propaganda. Apesar das técnicas de venda de mercadorias sempre terem existido, foi a partir dessa nova compreensão do ser humano que elas adquiriram um alcance nunca antes vistos. Em geral, o que se fazia antes era vender produtos por suas características úteis, mostrando como eram sólidos, resistentes, flexíveis, duráveis, etc. O uso da psicanálise no marketing permitiu compreender que quando um comprador busca um produto ele busca não apenas um objeto para atender necessidades, mas também a realização de seus desejos, aspirações, sonhos, ideais… O mesmo pode ser dito de candidatos aos governos. Essa mudança de compreensão não aconteceu por acaso. Edward Bernays, que foi o responsável por essa revolução, era sobrinho de Freud e conhecia seus pensamentos e seus escritos. Ele usou vastamente as técnicas de psicanálise para auxiliar as grandes empresas a vender seus produtos e os governos a manter suas aprovações em alta.

E claro, se a mente humana tornou-se o cenário de uma guerra entre Razão e Desejos, logo surgiram soldados de ambos os lados para defender a prevalência de um lado sobre o outro. O próprio Freud, desenvolvedor da psicanálise, pareceu ter tomado um lado antes de morrer. Freud acompanhava com grande pesar os desenvolvimentos da humanidade como a Primeira Guerra Mundial, o fim das aristocracias, o nascimento da sociedade de massas e com elas o populismo, o socialismo, o fascismo e o nazismo. Apesar de ter criado uma teoria em muitos aspectos anti-repressiva e “libertadora”, Freud era um homem conservador com grande apreço pela antiga ordem. Ele via com decepção esses desenrolamentos da história e tinha sua explicação peculiar para eles. Freud acreditava que com a formação da sociedade de massas o ser humano estava abrindo mão da Razão e sucumbindo às forças primitivas da mente. As guerras, o nazismo, a violência, não passavam de expressões dessa irracionalidade vinda do inconsciente. Era necessário, portanto, reforçar esse lado racional para que os impulsos do inconsciente fossem contidos. É daí que vem uma de suas frases célebres: “sem repressão não há civilização”. Isto é, sem o esforço racional da repressão o ser humano está largado aos seus impulsos mais primitivos como a guerra, os estupros, os assassinatos. Esta análise está presente na obra “O mal-estar na civilização e outros trabalhos”.

Essa visão foi se tornando hegemonica para os teóricos da psicanálise. A filha de Freud, Anna Freud, que se tornou presidente da Associação Internacional de Psicanálise, era uma entusiasta dessa perspectiva, e expressou-a teoricamente na psicologia do Ego. De repente, a psicanálise se expandiu com força pelo mundo e a principal função dos psicólogos era tratar dos conflitos internos dos indivíduos para que eles pudessem se controlar seus Desejos e retornar às suas respectivas vidas. Política e socialmente, a psicanálise tornou-se uma técnica fundamental para a manutenção do Status Quo e o enquadramento racional dos indivíduos na sociedade.

Até o momento em que, num mundo em rápidas transformações econômicas e sociais, novos pensamentos começaram a surgir. Desde que a Psicologia do Ego tornava-se hegemonica pequenos grupos iam resistindo a esse avanço e dando enfoque às características danosas da repressão. Os adeptos da psicologia lancaniana, da fenomenologia e outras correntes iam por essa perspectiva. Novos tratamentos não buscavam o reforço da razão mas a libertação das amarras racionais. E à medida em que a psicanálise ia mostrando suas limitações, estes outros grupos também iam ganhando força e expressão na sociedade. E ganharam expressão particularmente nas esquerdas americanas e européias, no movimento que convencionou-se chamar de contra-cultura.

Em um mundo de Guerra Fria, o capitalismo pareceu instituir-se como o único regime possível para a direita ou a esquerda pragmática. Para um outro grupo de pessoas, porém, aquilo não bastava. Eram jovens que queriam tudo que não fosse aquele mundo instituído. Queriam acabar com a opressão das guerras (sendo a principal do momento a do Vietnã), dos Estados, das grandes corporações, das religiões. Era uma esquerda, pois eram contra o status quo existente, mas queriam muito mais do que os partidos de esquerda tradicionais podiam oferecer. Essa juventude foi a dos anos 60, criadora do rock’n roll, do movimento hippie e da contra-cultura. Ela teve expressões mais violentas como os Panteras Negras e movimentos marxistas radicais. Mas não tardaram a perceber que não poderiam mudar o mundo social como queriam. Mudaram o foco então para a libertação individual, com a crença de que se mudassem os indivíduos mudariam também a sociedade. O novo lema era “a revolução começa dentro de si mesmo”.

E foi então que as novas teorias da psicologia ganharam enorme força. Os jovens da contra-cultura lutavam pelo fim da repressão no sexo, nas drogas, no amor, nos Desejos de cada um. Eles foram os braços e mãos dessas novas teorias anti-repressivas, e começaram a destruir cada amarra moral e racional que aprisionavam aquela sociedade. Nasceu, ao final, um novo tipo de homem. O homem livre das amarras racionais, livre das repressões, disposto a saciar seus desejos, desenvolver suas potencialidades e “ser feliz”. A moral passou a ser “não siga as velhas morais, faça o que for necessário para ser feliz”.

Sem se dar conta, a contra-cultura criou o homem-consumidor. Sim, pois quando “libertou-se” completamente da racionalidade o homem tornou-se apenas uma máquina insaciável de saciar desejos e atender vontades. Um ser afundado em seu próprio egoísmo, despreocupado com as consequências sociais do atendimento de suas vontades. Não tardou para que o capitalismo e o marketing logo se mostrassem extremamente ágeis em responder a elas. O novo homem tornou-se ainda mais interessante para o Status Quo do que o antigo. Estava morta a sociedade dos grupos e da política, nascia a sociedade dos indivíduos e do consumo. Aos governos e às grandes empresas cabe a função de pensar os rumos da sociedade, aos indivíduos cabe apenas a função de saciarem seus desejos e ser permanentementes felizes. O homem entregue aos seus desejos tornou-se refém de seu próprio egocentrismo. Foram os mesmos ex-hippies dos anos 60 que votaram em Reagan para presidente e inauguraram a Era do Neoliberalismo no mundo.

A que um texto como esse serve nos dias de hoje? Talvez para achar outra explicação de como chegamos aqui. Mas nesse momento de grandes manifestações de massas, talvez valha uma reflexão. O que se viu foram milhares de pessoas nas ruas exprimindo seus sentimentos, seus desejos, suas indignações. Tudo isso sem se preocupar com a realidade ao seu redor ou com as possibilidades de mudança, ou seja, desprovendo-se ao máximo possível da razão. Frases curtas de internet tinham efeito muito mais vasto que textos mais profundos, que buscassem explicar a situação e apontar alternativas. Nossos movimentos são sem dúvida uma expressão desse novo-homem criado nos anos pós-60.

No final, parece que voltamos à questão levantada por Freud. Será que é seguro deixar os homens serem guiados por seus desejos e irracionalidades? Foram as massas emotivas dos anos 30 que culminaram na ascenção do nazismo e do fascismo. Talvez falte repressão à nossa sociedade. Não a repressão conservadora dos anos 50 mas um outro tipo de repressão. Sim, pois talvez já tenha passado da hora de se dizer “não” a muitas coisas. “Não” à vilipendiação do meio ambiente, “não” à exploração do homem para que sustentemos uma sociedade de consumismo infinito, “não” à destruição permanente de culturas para a criação de novos mercados e novos consumidores, não à elitização e ao distanciamento da política.

E talvez isso gere algumas frustrações. Sim, porque é fácil dizer não à exploração do homem, mas estamos dispostos abrir mão de nossos iPhones feitos em fábricas onde trabalhadores chineses se matam de tanto trabalhar? É fácil dizer não à usinas hidrelétricas, mas estamos dispostos a reduzir o consumo de energia e o número de bugigangas em nossas casa? É fácil dizer não ao consumismo, mas quem será o primeiro a abrir mão? E o mais difícil de todos: como tomar decisões que valham para TODOS, e não apenas para aqueles que acham bonito e “querem participar da idéia”? Será que para construir consensos não seremos obrigados a abrir mãos de alguns dos desejos e das vontades mais profundas? A repressão racional é indispensável ao convívio em sociedade, pois é impossível atender os desejos de todos ao mesmo tempo, e quando muitos querem coisas diferentes o único caminho é o diálogo e a elaboração de consensos. Mas ser adeptos da repressão racional significa ser em alguma medida favorável ao tolhimento dos indivíduos. Estamos preparados para discutir isso? No final talvez precisemos lembrar da frase de Freud “sem repressão não há civilização”.

*Grato às participações das psicólogas Andréa Corrêa Lagareiro, Alessandra Miziara e Juliany Aragão da Costa, sem as quais seria impossível ter finalizado esse texto.

Mini-crise-existencial-no-asfalto.

Por Paula Elias

Sátira. (.ti.ra) sf.

1. Liter. Composição poética jocosa de intuito crítico (sátira social)

2. Liter. Composição poética destinada a ridicularizar, por vezes com sarcasmo e agressividade, certos vícios e/ou atitudes reprováveis de homens comuns ou nobres: A sátira medieval em Portugal se divide em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.

3. Crítica rigorosa e contundente, feita de modo irônico e zombeteiro

4. Caçoada, chacota, ironia

Esses tempos eu estava andando na Paulista de calça social às voltas com a minha vida profissional. No cruzamento com a Bela Cintra eu tropiquei e caí de joelhos no chão.

A queda me fez questionar toda a minha existência. Me veio uma indignação geral com o meu joelho ralado, a calça rasgada, a humilhação. Naqueles momentos no chão, me passaram na cabeça possibilidades de vidas de luxo e preguiça. Vidas sem calças sociais e Excel.  Assim, segue lista de ambições profissionais pra uma vida futura.

1. Mulher fruta.

Todo dia eu quase choro pensando que tem gente que ganha mais que eu sendo uma fruta. Se eu tiver de ir em programas de auditório de gosto duvidoso pra melhorar o saldo no banco, é nóis.

[ps. acabei de descobrir que já existem mulher fruta do conde e mulher caqui. #help]

2. Celebridade da internet.

Ser paga pra ficar trollando os outros, reclamando no youtube e olhando fotos de gatinhos? Tô dentro. talvez eu pudesse ser uma mulher fruta com um vlog. Ia ser inovador. Revolucionário até. Eu ia finalmente me vingar do PC Siqueira. [sobre o meu ódio de estimação pelo PC, aguarde outros posts].

3. Jurada de reality show.

Ganhar dinheiro pra julgar os outros. Sério, tem como ficar melhor?! Se a demi lovato consegue, eu consigo. Eu sou o Simon Cowell de saia. Ops. Isso soou estranho. Bom, deixa pra lá.

4. Personal stylist da Lady Gaga.

Sério, precisa explicar? Eu ia encher ela de cola e rolar ela por cima de objetos variados. o que ficou colado, ficou. Sucesso. Se cair é desapego material, cabala, zen, budismo, essas religiões de gente rica e excêntrica.

5. Psicóloga de cachorros.

Quero ser a versão tupiniquim do Cesar Milan. Vou brilhar muito como a encantadora de cães. Vão me dar um programa no sbt. Eu vou sair na Contigo, ou na Caras, falando dos meus clientes RYCOS.

Fora que todo mundo sabe que esses treinadores sempre acabam ensinando os HUMANOS, não os cachorros. Falaê, quem quer me ver fazendo algum ex-bbb buscar bolinha pro poodle dele?

Eventualmente, um estranho me ajudou a me levantar.

Eu agradeci, tentei me recompor, e fui para o metrô imaginando se existem testadores de plástico bolha.

Sua Alteza Real George Alexander Louis de Cambridge

Por Maíra Souza

Quando crianças, as meninas são incentivadas de alguma forma a buscar pela figura do príncipe encantado. Ganhamos bonecas no formato de princesas da Disney, vestimos vestidos fofos em ocasiões especiais, e nos comportamos para sermos dignas da palavra “princesa”. Desta forma, mesmo que as adversidades da vida apareçam, quando atingirmos a idade adulta encontraremos um homem branco, alto e, de preferência, de olhos claros. Ele será muito bem educado e terá posses para garantir o nosso futuro e de nossos filhos, um verdadeiro moço de família.

Porém, nossos pais e avós nunca usaram uma coroa, e não temos aquele padrão de beleza que a nossa imaginação gostaria. Mas não importa, porque o príncipe encantado estará lá um dia, pronto para receber a sua plebéia e acolhê-la na família real. Afinal, nós passamos a infância esperando por um final feliz.

Nesta semana, notou-se que este sonho lúdico ainda importa para muita gente. Milhares de mulheres sonham em ser a Kate, pois ela tem todo um estilo “gente como a gente sqn”. Acredito que para grande parte da multidão que estava acampando em frente à maternidade e ao Palácio de Buckingham, ela representa a princesa possível, aquela mulher normal que acabou conhecendo o William – o sonho de consumo de qualquer mocinha nos anos 90-2000.

Como era de se esperar, Kate se casou (sim, eu também acompanhei trechos do casamento e também procurei algo feio no vestido, como um mero recalque natural da vida), e um tempo depois teve um filho. E nós, wannabe princesas com isso? Pois é… NADA. Absolutamente nada. Continuaremos sem encontrar nosso príncipe dando sopa por aí, continuaremos trabalhando, estudando, usando nossas roupas, tudo normal.

Ainda assim, na última semana, o nascimento do bebê real foi uma das noticias mais divulgadas do mundo, inclusive aqui no Brasil – terra proveniente de vários quilates do Palácio de Buckingham. A magnitude dada ao Prince George Alexander Louis comprova que, em pleno 2013 (aka século XXI), o nascimento do herdeiro de uma das fortunas mais valiosas do mundo ainda é um grande acontecimento, muito mais importante do que qualquer Zé que nasce mundo afora – principalmente onde os tiros de canhão não são de boas-vindas.

O baby George terá sua vida guiada, monitorada e assegurada, diferindo-se de todos os outros nenéns porque ele nasceu de um útero especial. Ainda sem saber, o baby George vai movimentar a economia de seu país e injetar muitas libras na economia inglesa somente pelas lembrancinhas que terão seu rosto estampado, por exemplo. Baby G já é uma celebridade, e mesmo antes de conseguir abrir os olhinhos, já tem até seu mapa astral pronto – que afirma que ele terá dificuldades de desenvolver seu lado afetivo.

A preocupação midiática com o nascimento de Sua Alteza confirma a permanência do sonho  príncipe-princesa, ressalta a importância da transmissão do espetáculo a qualquer custo, e reitera o fato de que, por muitos anos, ainda continuaremos vivendo em uma sociedade que cultua a monarquia e as formas de distinção entre as pessoas.

Em outras palavras, a cobertura massiva sobre o bebê real, por fim, nos dá apenas uma mensagem: ADMIREM AQUILO QUE VOCÊS NUNCA SERÃO.

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Eichmann, o mal banal

Por Maria Shirts

Me lembro como se fosse ontem das aulas optativas que tive sobre Genocídios, na PUC-SP. OK, não faz tantos anos assim, mas a recordação é viva por razão do conteúdo das aulas, dadas pela Marijane Lisboa, e não por uma questão de tempo. Lembro-me que era a aula a qual eu mais gostava, o que era muito ambíguo dadas as sensações horríveis que tive ao estudar o genocídio armênio, o soviético, o Holocausto, entre tantos outros. Em plenas segundas-feiras.

Me lembrei disso, recentemente, porque fui assistir Hannah no último domingo. O filme conta um pouco da vida da filósofa e teórica política Hannah Arendt que, pra quem não sabe, estudou e escreveu As Origens do Totalitarismo. A cinebiografia, de Margarethe Von Trotta, retrata mais a época em que Hannah cobriu o julgamento do nazista Adolf Eichmann para a revista New Yorker, em 1961.

Eichmann foi um administrador do plano de “Solução Final” nazista, programa que tinha como objetivo a eliminação do povo judeu através do genocídio sistemático hoje conhecido como Holocausto, que alimentou campos de concentração e resultou na execução de 6 milhões de judeus durante a II Guerra Mundial. Ao fim da guerra, Eichmann conseguiu fugir – mesmo depois de ter sido capturado por tropas americanas – e, com o passaporte falso que adquiriu com a ajuda da Cruz Vermelha Internacional, chegou na Argentina em 1950. Ali viveu, em Buenos Aires, até 1960, quando capturado pelo serviço secreto israelita, o Mossad, e levado a Jerusalém para ser julgado por seus crimes contra a humanidade. No Museu do Holocausto argentino há um painel que conta toda a investigação do Mossad e a forma como Eichmann foi raptado (isso até me rendeu um post). Vale a visita.

Hannah Arendt, que estudava as origens do mal desde jovem, quando aluna de Heidegger, pede para reportar o julgamento e, depois de cinco artigos publicados na New Yorker, ela escreve Eichmann em Jerusalém. Recomendo a leitura. Ali, Arendt explora o fato de que Eichmann não pode ser considerado propriamente um carrasco, mas tão somente um burocrata, um cumpridor de ordens pouco inteligente. Claro que sua mediocridade não o isenta dos crimes que cometeu, mas o seu funcionarismo pobre, submissivo, é parte do que Arendt chamou de “banalização do mal”.

Essa obtuosidade se agrava ainda mais com o avanço da burocracia, dirá Bauman. Em seu livro Modernidade e Holocausto o autor explica que um genocídio deste nível só foi possível de ser concretizado por causa de uma ordem sistemática, burocrática, cuidadosamente calculada e racional. Afinal, as instituições modernas, quando criadas para cumprir com essa finalidade, o extermínio, afastam a vítima do perpetrador, ao modo que fica difícil responsabilizar um indivíduo pela morte de milhões; o culpado é o sistema como um todo.
Por essas e outras, à época, levantou-se algumas questões do tipo: Eichmann foi o único culpado? É possível condenar alguém que só diz cumprir com a lei de seu país? Neste caso, deve-se culpar quem fez a lei? Ou quem aprovou?

Como se pode imaginar, a conceituação de Hannah Arendt perturbou – e muito – a comunidade judaica, que a acusou até de antissemitismo, apesar de sua origem judia e passado sionista. Você pode ver, no filme, como ela driblou as críticas, demonstrando mais uma vez sua genialidade e perspicácia enquanto observadora política e social. Mas melhor mesmo é ler o livro.

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Os jovens católicos

por Artur Lascala

Eis que chega a Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco vem ao Brasil, para participar de um evento que deverá reunir milhares de jovens católicos de todo o planeta. Quem circulou pelo centro de São Paulo, na última semana, pôde perceber muitos estrangeiros, quase todos com crachás que os identificavam como peregrinos. Eu me deparei com um grupo de franceses, todos muito jovens, cantando — parecia que era latim — em frente ao Mosteiro São Bento, coisa bem atípica, mesmo para quem vive no maior país católico do mundo.

Não deixa de ser interessante para alguém que, como eu, já passou pelo “ciclo padrão” do catolicismo brasileiro urbano de classe média, isto é, nascido em família católica, batismo e primeira comunhão “meio que por tradição”, seguido de um silencioso esvaimento da fé. À medida que a incongruência das prescrições eclesiásticas com a realidade contemporânea se soma ao conhecimento das atrocidades causadas pela religião organizada, acaba por não sobrar muito além de obrigações ritualísticas na ocasião de nascimentos, casamentos e mortes.

Vejo nesse jovens algo de melancólico, algo de quixotesco em sua determinação de oxigenar uma tradição cada vez mais declinante, o que me provoca certa admiração. Ressalte-se que não incluo nessa reflexão aqueles que defendem a agenda conservadora, que orienta a mente de alguns desses jovens, como a oposição ao casamento gay, consoante aos ditames de Roma.

Procuro, também, afastar-me, indisfarçadamente, do ateísmo militante, condição que acomete até mesmo mentes brilhantes como a de Richard Dawkins. Para essas pessoas, qualquer religião não passa de mero atavismo de tempos ancestrais; são categóricos ao afirmar: a humanidade viveria melhor sem o apelo ao transcendente. Essa atitude, excessivamente simplificadora, não necessariamente se verifica em todos os lugares; julgo, portanto, equivocado defendê-la com unhas e dentes. A agenda a ser cumprida, na minha opinião, é de total resguardo das instituições públicas em relação à influência de toda e qualquer religião, princípio que já é positivado na Constituição Brasileira, mas que precisa ser, constantemente, defendido.

É muito curioso observar como os jornais brasileiros dedicam uma atenção absolutamente desproporcional à Igreja Católica em alguns momentos. Quando da escolha de um novo papa, a cobertura é massiva, esquadrinham-se todos os detalhes que regem o misterioso procedimento e os possíveis papáveis. Com a visita do papa, ocorre a mesma coisa. Mas durante o restante do ano, não se encontram comentários às encíclicas papais ou notícias dos bastidores do Vaticano. As recomendações do papa, que, a rigor, deveriam ser obedecidas por todos os fiéis católicos, não ecoam por aqui.

A Igreja só ganha algum interesse generalizado quando revestida de espetáculo. Parece-me que, para boa parte da população brasileira, quiçá a mundial, a Igreja se tornou uma forma de divertimento ameno, uma curiosidade. Novamente, prefiro não avaliar esse fenômeno em termos valorativos; não sei dizer, sinceramente, o que é melhor. Para colocar as coisas em perspectiva, vale lembrar que parte da Igreja Católica atuou de maneira muito relevante na oposição ao regime militar e que, antes do expurgo promovido por Ratzinger e a Congregação para a Doutrina da Fé, a Teologia da Libertação (a despeito de todos seus problemas) representou uma das principais forças progressistas na América Latina.

Pois é, a Igreja inicia o século XXI esvaziada, quase que incapaz de convencimento e carente de legitimidade.  Devem ser tempos difíceis para os jovens católicos que agora cantam no Rio de Janeiro.

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Direitas já?

Por Fernando Rinaldi

No último dia 10, alguns manifestantes se reuniram na Avenida Paulista, pegando carona na onda extática de protestos do mês passado, para pedir a volta de um regime militar no país. Tendo como uma de suas principais características a aversão ao governo do PT, a “Marcha da família com Deus” queria chamar a atenção para o fato de que o Brasil vai em direção a um golpe comunista. Familiar, não?

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Não é de hoje que grupos de direita vêm-se formando e ganhando visibilidade. Um desses grupos é o “Direitas Já!”, criado para “as pessoas que acreditam na liberdade, para quem acredita que o ser humano deve ser livre para ir e vir, crer e descrer, falar, ouvir, pensar, ter e ser reconhecido pelos seus méritos.”

Outro desses grupos é o Instituto Endireita Brasil, que se diz “uma associação de direito privado, sem fins lucrativos, apartidária e sem filiação a nenhum partido político, mas que pretende difundir o ideário conservador e de direita”. Um dos textos mais visualizados do site se chama “10 soluções para melhorar o Brasil”, dentre as quais estão a pena de morte para crimes hediondos, alegando que “eliminando os bandidos mais perigosos, os demais terão mais receio em praticarem seus crimes”, e a menoridade penal e trabalhista a partir de 16 anos, com o argumento de que “[a lei] serve apenas para criar bandidos perigosos, que ao atingirem 18 anos, estão formados para o crime, já que não puderam trabalhar e buscaram apenas no crime sua formação”. Em abril deste ano, Ricardo Salles, fundador desse movimento e assessor de Geraldo Alckmin, afirmou: “não vamos ver generais e coronéis acima dos 80 anos presos por crimes de 64, se é que esses crimes ocorreram”, declaração que levou o escritor Marcelo Rubens Paiva a cobrar do governador de São Paulo um pedido de desculpas.

O senso comum tem o costume de alegar que as diferenças entre esquerda e direita não mais existem, sobretudo no Brasil, onde partidos de fachada são criados constantemente e o jogo político exige a construções de coalizões duvidosas entre partidos. Além de carregar certa confusão entre determinados conceitos, tal modo de pensar é perigoso, pois exime quem pensa assim de uma real tomada de posição e impede uma maior participação da população na política.

O nacionalismo tolo que acompanhou os protestos de junho, quando alguns, ingenuamente ou não, “vestiram-se com as cores do país” – como dizia Machado de Assis dos românticos –, foi somente uma pequena amostra do que podemos presenciar daqui para frente. O Brasil, país de interesses privados, acaba de descobrir a rua como espaço público e a consequência imediata disso é que a direita aprendeu a protestar. Esses protestos de direita são, no fundo, protestos contra os protestos, isto é, manifestações contra as reivindicações da população que sempre estiveram aí, latentes ou não. De um modo geral, não são questionados as injustiças e os privilégios que há anos resistem intactos, mas as pequenas mudanças que são pensadas para tornar o sistema atual um pouco menos injusto. No momento em que o governo cria uma solução para uma das demandas da população, mesmo que a curto prazo, a resposta reacionária invariavelmente é de condenar a solução encontrada, acusando os políticos de demagogos ou assistencialistas.

Penso que valha a pena destacar aqui um trecho de um artigo do Slavoj Žižek que fará parte do livro Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, a ser lançado em breve pela Editora Boitempo: “Os protestos e revoltas atuais são sustentados pela sobreposição de diferentes níveis, e é esta combinação de propostas que representa sua força: eles lutam pela democracia (‘normal’, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente contra o ódio dirigido a imigrantes e refugiados; pelo estado de bem-estar social contra o neoliberalismo; contra a corrupção na política e na economia (empresas que poluem o meio ambiente etc.); por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários (participação etc.); e, finalmente, questionando o sistema capitalista mundial como tal e tentando manter viva a ideia de uma sociedade não capitalista.” (leia o artigo completo aqui)

Žižek, que esteve recentemente no Brasil, gosta de repetir que as elites políticas e econômicas não sabem o que querem nem o que estão fazendo. Brinca também que é mais fácil descobrir o que as mulheres querem (a maior das dúvidas freudianas) do que descobrir o que quer um manifestante do terceiro milênio. Portanto, essa combinação de várias pautas representa não só a força das revoltas, mas também sua fraqueza.

Nesta sociedade sem um rumo claro, em que os donos do poder estão perdidos e onde o povo se revolta por vezes sem saber contra o quê, abre-se uma imensa brecha para o reacionarismo. Em outras palavras: já que não está bom do jeito que está e não sabemos para onde vamos, o melhor a fazer é voltar a um lugar seguro do passado. Provavelmente essa é uma razão pelas quais a Europa em crise assiste a grupos neonazistas ganharem força e o Brasil, país que não tem nem trinta anos de democracia, vê uma parcela de sua população apoiar o retorno da ditadura militar. Embora o número de pessoas que participaram da “Marcha da família com Deus” dez dias atrás seja quase ínfimo, não seria exagero dizer que uma parte considerável dos brasileiros a endossou.

Afinal de contas, como serão as caras da esquerda e da direita pós-junho de 2013? Difícil saber. Deleuze definiu neste vídeo que a esquerda é a minoria que é todo mundo e a direita é a maioria que não é ninguém. Será que ainda conseguimos reconhecer essa equação em nossa sociedade? Caso contrário, o que será que há de errado?