“Não tenho preconceito nenhum, mas…”

Por Leonardo Calderoni

As últimas semanas foram marcadas por tantas manifestações preconceituosas que poderíamos chafurdar nelas se quiséssemos. No entanto, é sempre melhor tentar refletir do que se deprimir por causa dessas coisas. Praticamente todas essas manifestações preconceituosas possuem algo em comum e que diz muito sobre o “jeitinho brasileiro” de ser preconceituoso. De maneira geral, os discursos dos envolvidos são marcados por uma retórica que por mais que seja evidentemente preconceituosa, ao mesmo tempo busca negar o preconceito. Tal mecanismo é perverso e torna os preconceitos menos aparentes e muito mais difíceis de serem combatidos.

No famoso caso do selinho de Emerson (o “Sheik”, jogador do Corinthians), um dirigente da Gaviões da Fiel negou motivações homofóbicas, mas que ele tinha que “dar satisfações para a torcida”. É interessante que mesmo em uma manifestação tão evidentemente machista e homofóbica, existe a preocupação de um dirigente em negar a todo o custo que tenha a ver com isso. Não é um caso isolado.

Enquanto isso, no Nordeste, médicos cubanos foram chamados de “escravos” e “incompetentes”, instados a “voltar para a sua senzala” e hostilizados de outras maneiras em protesto organizado pelo Conselho Regional de Medicina do Ceará. Depois o mesmo Conselho negou qualquer preconceito em relação aos cubanos e disse que as críticas e dirigiam aos “gestores dos Mais Médicos” (programa do governo federal que trouxe os médicos de Cuba) e que eles estavam “do lado dos cubanos”. Obviamente, não foi o que sentiram os cubanos na hora em que passaram literalmente por um corredor “humano” de jaleco branco.

De volta ao “desenvolvido” Sudeste, temos outro episódio de xenofobia que merece uma atenção especial. Maristela Basso, nada menos que uma renomada professora de Direito Internacional da USP e comentarista política da TV Cultura, disse, ao vivo e a cores e com uma espantosa naturalidade, a seguinte frase:

“A Bolívia é insignificante em todas as perspectivas, (…) nós não temos nenhuma relação estratégica com a Bolívia, nós não temos nenhum interesse comercial com a Bolívia, os brasileiros não querem ir pra Bolívia, os bolivianos que vêm de lá e vêm tentando uma vida melhor aqui não contribuem para o desenvolvimento tecnológico, cultural, social, desenvolvimentista do Brasil.

Não tenham dúvidas de que Maristela Basso jamais admitira ter sido preconceituosa ou xenófoba em “qualquer perspectiva” com o seu comentário. Tampouco se surpreendam se ao mostrar o comentário a uma outra pessoa, ela diga algo como: “não que eu concorde com o que ela disse, mas você não acha exagerado dizer que ela foi xenófoba e/ou preconceituosa?”. Quem nunca ouviu algo assim de alguém próximo? É mais um sintoma da extrema dificuldade que existe aqui de dar alguns necessários nomes aos bois.

Haveria muitos outros exemplos recentes para dar de manifestações similares. Algumas mais explícitas e outras mais sutis. Mas não é isso que importa: o que interessa é que passou da hora de enterrarmos o mito do povo generalizadamente alegre, receptivo, cordial e tolerante que tanto nos ensinaram a acreditar. Ele é falso como uma nota de 3 reais.

É preciso entender que não é necessário açoitar um negro para ser racista, matar imigrantes para ser xenófobo ou torturar um homossexual para ser homofóbico. Discursos e atitudes por vezes consideradas “menores” também contribuem para a reprodução das opressões. Não é à toa que é extremamente difícil caracterizar um crime como de motivação racista em uma delegacia. No Brasil, o opressor tem sempre o benefício da dúvida. Ainda mais quando essa opressão supostamente “não existe” ou só existe “nos outros”.

A má utopia inconsciente do preconceituoso brasileiro é conseguir viver em uma bolha na qual ele possa continuar sendo preconceituoso sem jamais ter que expressar o seu preconceito. Se não houver negros, homossexuais e imigrantes em um raio de 200 km de onde eu vivo, é fácil não ser racista, homofóbico ou xenófobo. Mas como utopias são sempre utopias, sendo elas boas ou más, tal anseio vai por água abaixo, como demonstraram as últimas semanas.

É preciso sempre tomar cuidado para não cometer injustiças e analisar cada caso particular, mas vamos combinar que é imperativo que o benefício da dúvida passe a ser mais do oprimido do que o do opressor. Para que isso ocorra, teremos que parar com esse negacionismo patológico, seja ele mais sutil ou explícito, de nossos preconceitos. O primeiro passo para nos curarmos de uma doença é admitir que estamos doentes. Para lidar com o racismo, homofobia e a xenofobia, entre outras intempéries da intolerância, cabe à sociedade adotar semelhante comportamento.

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A Universidade que queremos

por Emiliano Augusto

Faz algumas semanas, João Grandino Rodas, o reitor da USP que mais tratorou a comunidade acadêmica (sua gestão processou funcionários, intimou professores, expulsou estudantes, transformou o já muito burocrático e desproporcional conselho universitário num órgão que apenas referenda suas decisões nos assuntos mais importantes como o orçamento universitário, deu um golpe na comissão da verdade), acenou que talvez seja hora das eleições diretas na Universidade. Na PUC, durante a semana de aniversário daquela universidade, estudantes conseguiram pressionar o cardeal D. Odílio Scherer para que pelo menos dissesse algumas palavras (todas muito evasivas, é verdade) sobre a indicação de Anna Cintra, a candidata menos votada, à reitoria. Alguns dias antes, a justiça cancelava a nomeação de Cintra ao cargo. Enquanto isso a Unifesp tem como reitora a candidata do movimento. Mas também tem um número de processados que rivaliza com o número de formandos.

O debate sobre a forma de escolha do reitor de uma Universidade tem lá sua importância, ainda mais nesse momento em que os estudantes, banhados nas águas de junho, têm retomado gosto pelas ruas e pelas ações diretas, e quiçá começam a perceber que a estrutura de poder das universidades não diz respeito apenas a eles, mas também a um amplo setor de funcionários e professores (qual a necessidade dessa divisão mesmo) que também tem um espaço de intervenção e atuação limitado por esta mesma estrutura. Porém, o debate sobre a forma de escolha não deve se encerrar em si mesmo. Pelo contrário, ele pode ser a porta de entrada para o debate sobre a universidade que queremos. E é por estar porta que este texto passará a seguir.

Ele passará muito timidamente entretanto, porque exatamente qual é o destino ainda não está muito claro. É possível sempre dizer algumas coisas: não se trata de uma universidade melhor do que temos hoje, mas principalmente de uma universidade radicalmente diferente da que temos hoje. Radicalmente aberta, radicalmente inclusiva, radicalmente democrática, radicalmente envolvida com a sociedade a que pertence e com seus rumos. Entretanto, isso soa um tanto abstrato, e deveria soar mesmo, porque são abstrações sobre o que queremos. O que pode ser dito de maneira menos abstrata é como passaremos dessa forma de universidade para a universidade desejada.

Dificilmente a universidade que queremos emergirá de um resultado das urnas. Mesmo quando os resultados das urnas são plenamente satisfatórios e levam a grandes avanços, eles são o corolário de grandes mudanças e mobilizações já em curso, e não o estopim delas. A universidade que queremos começará muito mais provavelmente numa greve estudantil ou numa ocupação, ou numa greve com ocupação. Se reclamamos da falta de democracia no interior das nossas universidades, há que se criar mecanismos de democracia durante essas mobilizações que já sejam eles a democracia ausente na forma atual. Afinal, mesmo durante as mobilizações em que se pede a mesma coisa conjuntamente, há ideias diferentes, métodos diferentes, vontades diferentes e interesses diferentes em jogo, assim como uma enorme gama de tarefas a serem divididas, e de nada adiantaria usar a mesma metodologia que usamos no cotidiano para resolver todos esses conflitos. Além disso, para nossa sorte, é muito raro que os reitores, os governadores, os ministros da educação, os cardeais, os proprietários participem da mobilização do nosso lado, então de nada adiantaria decidir o que fazer com os provisões para a ocupação no conselho universitário, e submeter os resultados às instâncias superiores. Mas divago. O importante é criar organismos tão democráticos, que de tão democráticos queira abrir mão, uma vez que voltar atrás seria perder toda liberdade conquistada.

Claro, uma universidade assim não se muda sozinha. Essa mobilização no seu interior é resultado de um processo de mobilização igualmente massivo e espalhado fora de seus muros, e ambas dialogam o tempo todo. A universidade radicalmente aberta nasce quando, cansados de pedir uma universidade aberta aos reitores, diretores, chefes de departamento, os estudantes simplesmente tornam seus prédios e campi pontos para construção das mobilizações: o inexpugnável auditório no prédio de engenharia é agora um local de assembleia, o vão espaçoso da faculdade de arquitetura torna-se uma oficina de faixas e cartazes, a imprensa das humanas torna-se uma fábrica de panfletos e outros materiais de intervenção; as pessoas a quem aqueles ambientes sempre foram vedados acostumam-se a andar por ali, a participar do que acontece. Estudantes, funcionários, motoristas, empregadas, donas de casa, procuram os recém-criados comitês de ação, de agitação, de comunicação. Os muros são derrubados com marretadas conjuntas na parte interna e na parte externa.

Isso tudo pode parecer ainda muito distante agora. Talvez seja. Mas é sempre bom, saber o modelo de universidade que se tem na cabeça antes de sair lutando por ele. Ajuda na hora de escolher o caminho a ser percorrido.

Atelier populaire, mai 68

Atelier populaire, mai 68

A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

Você sabe o que são Black Blocs?

 

Ontem anoite escutei na radio um locutor utilizar as palavras ‘manifestantes’, ‘vândalos’, ‘extremistas’, ‘violentos’ e ‘black bloc’ alternadamente, como se fossem sinônimas. Um membro do Black Bloc, para ele, era todo mundo que não estava com a cara totalmente descoberta, com roupa clara e um belo cartaz denunciando a corrupção em letras de forma, com um toque de glitter. Quem usou bandana era membro do Black Bloc. Quem não estava de roupa branca era membro do Black Bloc. Será? Parece que eu precisava saber mais sobre esta organização, da qual eu era membro e nem sabia.

Então, depois de aprofundar o meu conhecimento um pouco mais, descobri que ‘black bloc’ não é um grupo ou uma organização, mas que existem diversos grupos e organizações que se constituem em forma de ‘black blocs’ e que até se chamam de Black Bloc; a palavra em si, porém, é uma referencia a uma tática de desobediência civil. Historicamente os grupos que se valem deste tipo de tática estavam mais presentes em grandes fóruns antiglobalização, em fóruns econômicos mundiais e em demonstrações de alto perfil no ‘mundo desenvolvido’; a presença deles nos grandes protestos de massa do ‘mundo em desenvolvimento’ ainda é algo muito recente. Isto não quer dizer que grupos operando com táticas ‘black bloc’ não estejam atuando hoje no Brasil, eles estão. Existem sites, paginas no Facebook e até Manifestos em Português; alguns grupos escrevem Bloc certo, outros escrevem ‘Block’ – errado. Mas eles estão ai, usando as táticas ‘black bloc’.

E quais seriam estas táticas? Basicamente cada participante de um Black Bloc deve usar uma espécie de uniforme; roupas pretas, sem logos, marcas ou identificações e alguma máscara ou bandana (preferivelmente preta) para cobrir a cara. A ideia por trás disto é que seria mais difícil para a polícia determinar qual indivíduo fez o que se as pessoas no Bloc estivessem vestidas da mesma forma. Com estas vestimentas os membros do grupo poderiam então atuar contra alvos específicos, que teriam sido (ou não) previamente definidos. Assim, se um participante de um Black Bloc jogar um tijolo na vitrine de uma loja e correr para o Bloc, ele facilmente desaparecerá em meio aos outros. No entanto, se uma pessoa vestindo roupas normais de rua jogar um tijolo e correr para o bloco, as chances dela ser filmada ou fotografada e depois pega pela polícia são maiores.

Além disso, aquela volátil fonte online explica que essa tática foi desenvolvida depois que a polícia da Alemanha Ocidental aumentou o uso da força contra manifestantes em demonstrações anti-nucleares, especialmente depois das demonstrações realizadas em Berkdorf em 1977. As cidades de Hamburgo e Berlim tiveram espaços sociais ocupados por dissidentes que preferiram criar suas próprias instituições sociais. Em 1980 a polícia alemã expulsou os manifestantes da República Livre de Wendland, um acampamento de protesto anti-nuclear em Gorleben, Wendland. Este ataque a aproximadamente 5.000 manifestantes pacíficos fez com que muitos ex-pacifistas rumassem para o uso métodos violentos. Em dezembro de 1980 o Governo da Cidade de Berlim ordenou que os manifestantes fossem presos em massa; autoridades locais de toda a Alemanha Ocidental seguiram o exemplo. Após a prisão de centenas de posseiros em Freiburg, manifestações foram realizadas em seu apoio em muitas cidades alemãs. No mesmo dia uma manifestação em Berlim reuniu entre 15.000 e 20.000 pessoas, que foram às ruas e destruíram uma área comercial de luxo; esse dia ficou conhecido como Black Friday. A tática de usar roupas pretas e máscaras idênticas mostrou que eles eram mais capazes de resistir à força policial e evitar que fossem identificação. A mídia alemã chamou-os de ‘der Schwarze Block’, ‘o Bloco Nego’, ‘the Black Block’. Mais recentemente, em 1988, a tática foi usada pela primeira vez nos Estados Unidos da América, no Pentágono, quando mais de mil manifestantes clamaram pelo fim do apoio dos EUA aos esquadrões de morte em El Salvador. Os Black Blocs ganharam ainda mais atenção da mídia quando danos foram causados às propriedades da GAP, Starbucks, Old Navy e outras lojas de varejo no centro de Seattle durante as manifestações anti-OMC de 1999. No G20 de 2010, em Toronto, algumas lojas da Urban Outfitters, American Apparel, Adidas, e Starbucks, além de muitos estabelecimentos bancários, foram alvos de Black Blocs.

O jornalista Jairo Costa, no artigo “A Tática Black Bloc” (citado aqui) explica que “o Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc não é um tipo de organização anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma ação de guerrilha urbana”. O autor Leo Vinicios, escritor do livro “Urgencia das Ruas – Black Block, Reclaim the Streets e os dias de Ação Global” complementa esta ideia ao explicar que é preciso mostrar que não “toda ação Black Bloc é feita por anarquistas e que [não] todos os anarquistas fazem Black Bloc. […] A história do Black Bloc tem uma ligação com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operação, pode ser utilizado até por movimentos da direita.”

Relacionando o tema com as manifestações em São Paulo, Vinicios disse acreditar que “só com faixas e cartazes a tarifa não teria caído. […] Quem tem o poder político nas mãos só cede a uma reivindicação pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado.”

Além disso, de acordo com uma entrevista da VICE, os anarquistas no Ocidente demonstram-se consideravelmente sensíveis quanto ao uso do termo Black Bloc. Enquanto a grande mídia tem usado o termo para definir um novo movimento de furiosos destruidores de bancos com claras visões anti-Estado, os anarquistas tem proclamado que o termo na verdade se refere tão somente à tática de usar preto para preservar o anonimato nas manifestações. No Egito, entretanto, os ativistas estão menos preocupados com a terminologia. Modelado nos ideais anti-establishment dos seus homólogos ocidentais, o ‘Black Bloc’ egípcio usa as mesmas táticas e uniformes, mas adotou o nome com letras maiúsculas: ‘Black Bloc’, um movimento anti-Islâmic Brotherhood e não simplesmente uma tática utilizada para evadir câmeras e a identificação individual dos manifestantes.

E parece que este fenômeno Egípcio é bastante similar ao Brasileiro: existem táticas ‘black bloc’ – que podem ser utilizadas por qualquer um, mas que geralmente são usadas por alguns grupos mais organizados (mormente anarquistas, com siglas próprias) – e existem também grupos que se denominam Black Blocs, utilizando a sigla e as táticas para definirem os rumos de suas atuações nas manifestações. Acho que deveríamos tentar fazer este tipo de distinção quando pretendemos abordar este tema complicado e ainda nebuloso.

(Quem quiser saber um pouco mais sobre as manifestações – embora o tema ‘black blocks’ não tenha sido abordado diretamente – saiu essa semana o documentário “Sob R$ 0,20 ”.) 

Como um viajante se sente quando…

Tem um passageiro folgado perto de você no avião…

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguém fura a fila. Qualquer fila no aeroporto….

Alguém não para de falar na viagem e você tentando dormir…

Você toma uns Dramins…

Pensando no momento em que chegará em casa depois de uma viagem longa….

Se sente sozinho e resolve assaltar o frigobar….

Seu vôo é cancelado…

Tomando olé de chuveiros desconhecidos…

Ou congela..

Ou frita!

Fica doente sozinho…

Experimentando comidas diferentes….

e às vezes…

Quando sua mala é a última a aparecer na esteira…

Aí ela finalmente aparece…

Vendo seus amigos e família quando volta…

Territórios ocupados

por Maria Shirts

Ontem fiz um programeta bem “universitário”: sai do trabalho, peguei a linha amarela do metrô (surpreendentemente vazia) às seis da tarde e fui assistir a uma exposição seguida de palestra na FNAC Pinheiros sobre “movimentos sociais e políticos na globalização”, como sugere a descrição do evento Exposição Fotográfica – Atenas, território ocupado no Facebook. Uma filha legítima da PUC, pode dizer. Não precisa nem teste de DNA.

Piadinhas desoxirribonucleicas à parte, deixo a dica para quem se interessa pelo assunto: a exposição de fotos sobre as manifestações atenienses continuará em cartaz na PUC, no Museu da Cultura, a partir do dia 30 de setembro, com fotos emocionantes clicadas com a 7d de Paulo Viard e Marcelo Camera (sim, este é realmente o nome dele!).

Ontem, no encerramento da exposição, na FNAC, assistimos a um documentário da revista VICE (Teenage Riot: Atenas) sobre as manifestações gregas e a situação política local, que ainda é muito frágil, instável. Depois, os professores José Arbex e Reginaldo Nasser, ambos da PUC (Jornalismo e Relações Internacionais, respectivamente), explanaram um pouco sobre o tema que, como todos sabemos, não se restringe a Atenas.

Segundo Arbex, que introduziu sua fala citando Rosa Luxemburgo, a resposta para as manifestações atenienses, paulistas, cairotas, cariocas, londrinas e novaiorquinas está na conjuntura na qual estão inseridas essas sociedades. É importante frisar, aqui, que a análise deve ter (e teve, no caso de ontem) uma ressalva mutatis mutandis. Isto é, as manifestações não são iguais, mas tem algumas semelhanças que podem ser analisadas em conjunto. Tendo isso posto, Arbex afirmou que o sentimento de “basta” presente em diversas cidades não aconteceu por causa de um partido, ou por convocação de um coletivo em particular, mas por uma situação  de insatisfação com o sistema (econômico e até mesmo moral). Além disso, o Estado está, nessa conjuntura, com uma capacidade de repressão diminuta. Não é a toa. Afinal, a polícia está totalmente desmoralizada.

O professor Reginaldo Nasser disse concordar inteiramente com a fala de Arbex, e adicionou um elemento importante à discussão quando usou o conceito de “revoltas urbanas”. Sim, porque as manifestações não podem ser vistas pela ótica do país na sua totalidade, mas das cidades enquanto pólo e abrigo dessas insatisfações. Um analista político e social não mais falará em “revolta grega”, ou “egípcia”, mas ateniense ou cairota. Afinal, as semelhanças entre as cidades ficam cada vez mais evidentes porque elas se tornaram um espaço de reprodução das relações capitalistas. Dividem características comuns como um fluxo de pessoas, de recursos e de ideias. E o Estado, ao mesmo tempo em que demonstra sua competência a partir da força, expõe uma série de debilidades quando não consegue, por exemplo, reprimir “de uma vez por todas” as manifestações. Tivesse o Estado atingido seu objetivo, a população não voltaria às ruas nos dias seguintes.

Por fim, fiquei pensando na conclusão do Reginaldo, que nos disse que as cidades são o palco dessas e d’outras ambiguidades e que, enquanto observadores (sociais, políticos e demais curiosos), devemos nos pautar nessa característica para usá-la enquanto instrumento de análise. Fica a dica. Quem sabe assim conseguiremos entender alguma coisa.

Golaço

por Luís H. Deutsch

Olha, mano. Nunca gostei do Emerson Sheik. Deveria estar figurando na lista das últimas pessoas que defenderiam o cara. Por quê?

Primeiro porque ele meteu um puta golaço no Santos na semi-final da Copa Libertadores de 2012. Isso ajudou e muito o meu time a ser eliminado da competição naquele ano. Depois, ele meteu 2 no Boca na final do torneio intercontinental o que acabou de vez com a maior piada do futebol mundial e levou o Corinthians ao título o qual achei que eles nunca iriam ganhar (e o qual eu torci contra desde sempre).

Aliado a isso, achava o cara sem graça e que fazia o que fazia para aparecer. E era mesmo.

Jogadores de futebol, em sua ampla maioria, fazem coisas para aparecer. Nisso envolve:

Casamento relâmpago

Problemas com pensão alimentícia

Ter quadro no Fantástico para perder peso

Posar pelado

Ou ter uma macaca de estimação, como o próprio Emerson.

Muitas vezes, eles chamam a atenção para coisas bem fúteis. Fica a risada, foge a discussão. Só que dessa vez o Sheik marcou um gol de placa. Fez piada para aparecer, apareceu e deu o que falar. Colocou uma ingênua foto no Instagram dele dando um selinho em um brother e isso já foi o suficiente para a polêmica de programa da tarde e para os programas esportivos do almoço terem ampla pauta de fofoca inútil notícia.

“Foi uma brincadeira, qual o problema?”.

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Qualquer sociedade minimamente civilizada falaria isso. “Olha que legal! kkkk Uma foto dele com o amigo / namorado / irmão… Vou dar um like.” 

Mas… A hipocrisia vence. Faz falta dura, perto da área… Daquelas de deixar a gente nervoso. Não toma cartão amarelo, nem vermelho. Faz gracinha e ainda vence o jogo. Sai de campo tranquila e ainda joga na semana que vem.

O feito do Sheik é uma tentativa de calar a boca da parcela acéfala de profissionais e amantes do futebol. Aqueles que dizem que não são homofóbicos, mas no clube deles / na família deles / dentre os amigos deles NÃO pode ter “viado”. Aqueles que acreditam realmente que entre milhões de homens que jogam ou trabalham com esse esporte não tem nenhum homossexual e que todos são machos alfa exemplares, que constituem uma família casando com a oficial e comendo toda piriguete que der sopa. Aqueles que concordam que futebol é coisa de menino… Que gay não sabe jogar porque é uma boneca e vai se apaixonar pelas coxas do jogador adversário… Que mulher que joga bola é “sapatona” e a bandeirinha gostosa que está trabalhando no jogo tem a obrigação de sair com algum jogador (ou jogadores) depois dos 90 minutos.

A idiotice deste meio é mais difícil de se vencer do que o Barcelona (ô time desgraçado). Não vem só de trogloditas que ocupam o CT do Corinthians com faixas homofóbicas mandando um dos ídolos do Timão ir beijar a PQP. Vem também de jornalistas, dirigentes, técnicos e juízes… Pessoas das quais a gente esperaria atitudes mais civilizadas e não vistas grossas ou declarações infelizes. Realmente, alguns estão mais perto de criar grupos de extermínio

Sheik fazendo o que a Hebe fazia, marca um gol daqueles que a gente pede replay, acha legal e comenta no dia seguinte. Tivéssemos já vencido o tradicionalismo idiota e esse selinho (que nem BEIJO de verdade é) passaria completamente despercebido. Mas está aí um título que o Brasil ainda não garantiu. Nem dentro, nem fora dos campos.