Bagunce seu quarto

Por Ivan Nisida

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–       Ed, o que é criatividade ?, perguntou P.

Ed ruminou dois ou três pensamentos, temperou com silêncio e respondeu:

–       Imagine. Imagine um quarto extremamente organizado, dotado de móveis precisamente desenhados para deixar o espaço dominado: armários, gavetas, estantes e caixas. Cada objeto que habita esse quarto possui seu lugar determinado. Livros na prateleira, em soberana ordem alfabética. As camisas empilhadas no armário, no devido degrade do arco-íris. As tintas para a pintura no armário, alinhadas e simetricamente dispostas.

Tudo sóbrio, apolíneo.

(…)

Agora imagine uma pequena revolução neste ambiente, corporificada num tornado de pequenas proporções que brota no centro desse quarto. Um rebuliço aéreo que não seja devastador, mas que possa romper com a suprema ordem organizacional do nosso quarto imaginado. Vendaval. Desordem. Caos.

Livros ejetados com suas páginas abertas, rasgadas, espalhadas na sinfonia do outono. A cama  soerguida e atravessada, fazendo uma ponte entre o chão e o teto. O lençol, antes tão retilíneo e alvo, agora cobre uma cadeira, todo manchado pelas tintas, que saíram da gaveta para vivificar o ambiente. As camisas dançaram no ar, numa roda-viva de roupas.

Bagunça. Tudo fora do lugar. Novos lugares para cada objeto. Novas combinações.

P. franziu as sobrancelhas em sinal de dúvida. Ed percebeu a falta de clareza e completou:

– Isso é criatividade.

(….)

Por que raios escrever sobre criatividade num blog assinado por internacionalistas? Explico-me.

Antes apenas leitor do Esparrela, eu via em cada post um denominador comum. Uma mensagem engajada implícita, que clamava por um bairro, uma cidade, um país, uma sociedade e (cuidado que aí vem o clichê) um “mundo melhor”. Desatei a pensar sobre essa história de “mudar o mundo”. Do que é preciso para tal? Algumas pistas vieram: conhecimento, estudo, espírito crítico, humildade, abertura de espírito, tolerância de idéias, entre outras… Mas eu ousaria adicionar outro elemento como algo fundamental: a criatividade.

Trata-se, para mim, de uma aptidão fulcral, não somente para artistas, publicitários e outras profissões que naturalmente evocam um certo “senso artístico”. A criatividade é inata ao ser humano e deve servir a todas às fornalhas mentais que se levantam cedo para trazer, cotidianamente, sua migalha de um “mundo melhor”.

Líderes de governos, de ONGs, de empresas. Engenheiros, ambientalistas, geneticistas. Para aqueles que vão repensar as finanças, para aqueles que vão se engajar apaixonadamente em partidos políticos, para aqueles que vão cuidar com zelo da segurança pública do Brasil. Criatividade, que você seja uma companheira fiel para todos eles.

Perguntei-me também como ser mais criativo. Assim aproveito para tornar (enfim) a anedota acima mais significativa: eu diria que é imprescindível “bagunçar o quarto”. Imagine que a visão de mundo de cada ser humano  seja o quarto bem arrumado, com cada idéia fincada rigidamente no seu lugar ao longo dos anos “Isso é bom, aquilo é ruim, o sol é uma bola de fogo e o céu não tem fim”.

Agora imagine o pequeno furacão bagunçando tudo isso. Toda ordem inicial questionada e reconfigurada. Da aparente desordem, sai o novo, sai a reinvenção. Basta ousar.

Por que Leonardo Da Vinci foi quem foi? Talvez porque ele dominava  múltiplos campos do conhecimento e podia cruzá-los indefinidamente, podendo roubar um conceito de um campo e transplantá-lo  em outro, numa visão quase holística do mundo. Ver nas asas de uma gaivota a inspiração para pensar nas máquinas que nos fazem cruzar o mundo hoje.

No fundo, o ato de criar remete ao ato de re-associar idéias, redefinir a relação entre elas. Pegar uma que já existe e grudar em outra. Embaralhar e recompor.

Alguém lembra das aulas de química do colégio? Lembra das hidrólises (decomposição química de uma molécula, pela ação da água dando origem a novas moléculas)? Eu cito esse caso não por ser aficionado em química (longe disso!), mas pela sublime metáfora contida na misteriosa mecânica das moléculas. Ou seja, decompor algo sólido (a molécula inicial), colher e reordenar os fragmentos (átomos) e finalmente reassociar para criar algo novo.

Pense nos filmes de ficção científica. O que são criaturas notáveis como Chewbacca senão uma fusão controlada de elementos das que já existem (no caso, um yorkshire e um troglodita)? Pense na quimera, celebridade da mitologia grega, que não é nada mais que a junção de partes de alguns animais para criar o novo.

Aliás, para exercitar a criatividade e criar algo inédito, nada como um: “E se…?”.

E se eu combinasse a perfeição do vôo de um colibri numa máquina voadora”? Assim talvez tenha nascido o helicóptero… “E se eu fundisse a Torre Eiffel a uma girafa?”…

A criatividade ou “Bagunçar o quarto” nos serve para questionar o mundo, praticando assim de certa maneira um ato político. Tirar cada coisa de seu lugar para ver se ela não rende mais frutos melhor em outro lugar.

Acho que as crianças são tão boas nisso (na arte de criar) pois talvez elas possuem uma cabeça mais fluida, idéias mais soltas e o “quarto bagunçado”.

É curioso pensar que vamos à escola para aprender como funciona o mundo e, no final, acabamos justamente inserindo cada idéia no seu lugar. O céu é azul, ponto. Brincar com fogo é perigoso, ponto. Uma boa profissão e o sucesso são assim e assado. Cada idéia na sua gaveta. Nossos pais completam o périplo pela organização: “Arrume seu quarto, filho”!

Alto lá! Para que tanto TOC com a arrumação das idéias? Se a ignorância é mãe da felicidade, a bagunça das idéias talvez seja uma das mães da criatividade.

 Tudo isso é muito abstrato, eu assumo. Mas peço permissão para viajar um pouco nesse meu primeiro post, tão bagunçado e aéreo quanto o pequeno tornado da anedota.

E que todos possam “bagunçar seu quarto” de vez em quando para ver o que sai. Porque, às vezes, uma pequena dose de bagunça cai bem.

PS. Meu nome é Ivan Nisida e sou o novo integrante do Esparrela. Escreverei aos domingos, de quinze em quinze dias.

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Pepe Mujica e a necessidade pragmática de sonhar

Por Leonardo Calderoni

Faltam bons adjetivos no dicionário para definir o discurso que Pepe Mujica, presidente do Uruguai, fez na Assembleia Geral da ONU. Em cerca de 40 minutos, ele conseguiu tocar com profundidade e simplicidade ímpares nas grandes questões do mundo e da humanidade. Antes de tudo, recomendo que tire um tempinho para ler e/ou escutar esse discurso, clicando aqui. Se não quiser ler o que tenho a dizer depois disso, para mim está muito bem. Mas, por favor, se faça esse favor. Não será um tempo perdido.

Poderíamos partir para diversas reflexões a partir do que disse Mujica. Mas agora o que mais estou pensando é como a nossa geração perdeu a capacidade de sonhar. Como nos tornamos muito mais “pragmáticos” e “realistas” para lidar com a nossa vida e de alguma maneira extremamente cínicos ao mesmo tempo. Tão pragmáticos em nossa esfera individual que acabamos sendo incapazes de pensar pragmaticamente em nosso futuro coletivo.

Penso nos inúmeros jovens que já com seus 18 anos ou menos adotam um discurso ultrapragmático e conformado em relação à vida. Ou em todos que, mesmo quando tentam desviar-se um pouco desse caminho, enxergam esse desvio como algo absolutamente temporário, “coisa de jovem”. E aí chega o Pepe, com seus 78 anos e tudo que já passou na vida e consegue, sem perder por isso a lucidez, idealizar sobre um mundo melhor e a necessidade de sonhar e lutar por ele. Coletiva e politicamente.

Quando converso com pessoas mais velhas e estudo sobre a geração do Maio de 68, me dou conta de que talvez naquela época os jovens pecassem pelo excesso de idealismo. Talvez tenha lhes faltado pragmatismo para ir mais longe. Hoje mal damos um passo adiante porque somos tão “realistas” que acabamos nos conformando. De alguma forma sonhamos porque sonhar é uma necessidade humana, mas nossos sonhos são em geral de realização individual. Ter um “bom” diploma, um “bom” emprego, um “bom” status etc. E temos uma brutal dificuldade de sonhar e agir coletiva ou politicamente, mesmo quando tentamos sinceramente fazê-lo. O problema é que as grandes mudanças, as que mais importam, para além de “se dar bem na vida”, demandam a força coletiva e não presunçosas individualidades.

Quais são as soluções para reverter isso? Será que a partir dos últimos acontecimentos de mobilização, abre-se uma brecha para romper essa inércia individualista? Não sei. E tampouco estou aqui julgando moralmente as pessoas: de certa forma é até natural que em geral elas ajam assim pela maneira que foram criadas e educadas e por não sentirem que haverá alguém ao lado delas se realmente precisarem. Sejam quais forem os caminhos de reverter esse quadro, eles também não surgirão de uma cabeça apenas ou da ação de uma pessoa, por mais capaz que ela seja.

De qualquer forma, as palavras de Mujica podem nos servir para, ao menos, percebermos a dimensão da armadilha em que nós estamos. Independente das divergências que tenhamos, Mujica deixa claro com sólidos argumentos que as consequências de pensarmos e agirmos tanto individualmente é muito clara para nós enquanto humanidade: não teremos futuro. Nosso modelo de sociedade de consumo é perverso sob diversos aspectos e ecologicamente insustentável. O maior e mais nefasto idealismo será a crença de que poderemos viver como vivemos para sempre. Nesse cenário, sonhar com outro mundo torna-se, irônica e poeticamente, uma questão de pragmatismo.

Ora, sem medo sonhemos, portanto.

Pepe Mujica

5 motivos para não escrever

não escrito por Emiliano Augusto

Durante a semana, Richard Dawkins foi um dos convidados do The Daily Show Global Edition with Jon Stewart. Comecei a escrever um post pensando em mostrar como a retórica do neo-ateísmo tem sido um dos instrumentos de justificativa das ações de intervenção do ocidente no oriente. Talvez eu recuperasse uma fala bastante problemática de Dawkins, que beirava o racismo, sobre muçulmanos e o nobel para demonstrar esse ponto, e imaginava concluir dizendo que quase sempre que algo que não tem importância central torna-se o centro de atuação, pode-se esperar os desvios mais terríveis. Mas quem liga para os ateus de internet?

Ontem, foi o caso de o CEO de uma companhia de massa falar alguma bobagem homofóbica. Poderia falar alguma coisa sobre isso, mas achei mais prudente deixar a quem tivesse uma experiência vivida mais forte sobre o assunto, eu não sou o sujeito dessa discussão. A única informação relevante que eu poderia oferecer é que, segundo minhas fontes me informam, a tal marca é vendida a um preço cara aqui, mas na sua terra de origem, é considerada porcaria e, há alguns anos, estava quase falindo. Ou seja, quase nada.

Hoje à tarde, a rede social que importa entrou em polvorosa porque o perfil oficial da presidenta Dilma foi reativado depois de quase três anos de silêncio e sua ação foi interagir com o fake mais famoso da presidenta, o Dilma Bolada. Pensei em escrever um post sobre as formas mais ilusórias da política, de como as campanhas eleitorais são geralmente a anti-política, mas no fim das contas, não achei que fosse assunto digno de um post. Quer dizer que oficialmente o 2014 eleitoral começou; mas já não havia começado em junho também?

Ainda hoje, o assunto tornou-se a impossibilidade de legalização da Rede de Marina Silva a tempo da próxima corrida eleitoral. É um desdobramento do assunto anterior, e traz alguns dados novos para a discussão sobre o nosso sistema político institucional. Mas vale a pena embrenhar-se no sistema político institucional até correr o risco de perder-se lá dentro? Nah, seria como jogar fora a última lição que aprendi: enquanto o grito era claro, “não aos vinte centavos, se virem”, alguém teve que se virar. A hora que ele virou “por uma CPI”, ganhamos CPIs abafadas. Talvez seria melhor começar a pensar algo fora dela…

Alguns dias, parar e pensar é o ato mais revolucionário que pode ser feito: entender onde estamos, para onde vamos, e para onde queremos ir. A maioria dos dias, porém, é dia de dar subsídio ao pensamento fazendo, agindo, aprendendo também, na prática. O ruim é quando é um dia desses últimos, e os materiais de agir estão todos distantes, só há papel e caneta à mão.

O Presidente do Irã e o Discurso Mais Importante na ONU

Ontem a Presidente Dilma fez o primeiro discurso da 68ª Assembleia Geral da ONU, seguindo a tradição iniciada pelo primeiro representante Brasileiro à organização (Osvaldo Aranha). Em tom rigoroso, ela criticou veementemente os abusos de poder e as ilegalidades perpetradas pela National Security Agency dos Estados Unidos por meio de seus programas internacionais de espionagem. O discurso ganhou tanta visibilidade que poucos mencionaram outra importante fala do dia: o discurso do novo Presidente do Irâ, Hassan Rouhani. Por abordar o conflito na Síria, o programa nuclear do Irã e o combate ao extremismo, este discurso indubitavelmente foi o mais relevante do dia e é o que deve ser mais bem analisado para entendermos o futuro da região e do globo. Segue uma tradução livre e deliberadamente picotada do discurso de Rouhani (até onde sei, a primeira a aparecer em português):

“O atual discurso político internacional retrata um ‘centro’ civilizado cercado por ‘periferias’ não-civilizadas. Neste quadro, a relação entre o centro do poder mundial e as periferias é hegemônica. A criação de distinções de identidade ilusórias e as atuais formas de violência predominantes de xenofobia são o resultado inevitável destes discursos propagandísticos e injustificadamente fé-fóbicos (sic), islamo-fóbicos, Shia-fóbicos e Irano-fóbicos. Estes discursos de fato representam graves ameaças contra a paz mundial e a segurança humana. E esse discurso propagandístico é perigoso, pois promove ameaças imaginárias. Uma tal ameaça imaginária é o chamado “Iranian threat” (‘ameaça iraniana’), que tem sido utilizado como uma desculpa para justificar um extenso catálogo de crimes e práticas catastróficos ao longo das últimas três décadas. O armamento do regime de Saddam Hussein com armas químicas e o apoio ao Taliban e à Al-Qaeda são apenas dois exemplos de tais catástrofes.

Em nenhum lugar do mundo a violência foi tão mortal e destrutiva como no Norte de África e na Ásia Ocidental. Intervenções militares no Afeganistão, a guerra de Saddam Hussein contra o Irã, a ocupação do Kuwait, as intervenções militares contra o Iraque, a repressão brutal do povo palestino, o assassinato de pessoas comuns e figuras políticas no Irã, e os atentados terroristas em países como o Iraque, o Afeganistão e o Líbano são exemplos de violência nesta região nas últimas três décadas. […] Em tal ambiente, a violência governamental, não-governamental, religiosa, étnica, e até racial tem aumentado, e não há nenhuma garantia de que a era de calma entre as grandes potências permanecerá imune a tais discursos, práticas e ações violentas. Os impactos catastróficos destas narrativas violentas e extremistas não deveriam – não devem – ser subestimados.

O terrorismo e o assassinato de pessoas inocentes representam a desumanidade final do extremismo e da violência. O terrorismo é uma praga violenta que não se restringe a certos países ou fronteiras nacionais. Mas a violência e as ações extremas em nome do combate ao terrorismo também devem ser condenado, tais como o uso de drones contra pessoas inocentes. Aqui eu também gostaria de dizer uma palavra sobre o assassinato criminoso de cientistas nucleares iranianos. Por que crimes eles foram assassinado?

O que tem sido – e continua a ser – praticado contra o povo inocente da Palestina não é nada menos do que a violência estrutural. A Palestina está sob ocupação, os direitos básicos dos palestinos são tragicamente violados e eles foram privados do direito de retorno e acesso às suas casas, terras natais e pátria. ‘Apartheid’, como conceito, dificilmente descreve os crimes e a agressão institucionalizada contra o inocente povo palestino.

A tragédia humana na Síria também representa um exemplo doloroso de propagação catastrófica de violência e extremismo em nossa região. Desde o início da crise, quando alguns atores regionais e internacionais ajudaram a militarizar a situação através de infusão de armas e de inteligência no país e apoiando ativamente grupos extremistas, nós enfatizamos que não há uma solução militar para a crise síria. […] O objetivo comum da comunidade internacional deve ser um rápido fim à matança dos inocentes. Embora condenando qualquer uso de armas químicas, congratulamos a aceitação da Convenção sobre Armas Químicas por parte da Síria e acreditamos que o acesso de grupos terroristas extremistas a tais armas é o maior perigo para a região, o que deve ser considerado em qualquer plano de desarmamento. Ao mesmo tempo, devo ressaltar que ameaças ilegítimas e ineficazes do uso de força só irão exacerbar a violência e a crise na região.

Sanções injustas [como as aplicadas contra o Irã] são uma manifestação da violência estrutural e são intrinsecamente desumanas e contra a paz. E, ao contrário das alegações daqueles que buscam impô-las, não são os estados e as elites políticas que são os alvos destas ações; pessoas comuns que são vitimadas por essas sanções. Não nos esqueçamos dos milhões de iraquianos que sofreram e perderam suas vidas como resultado de sanções amplamente acobertadas pelo jargão jurídico internacional. Estas sanções, pura e simplesmente, são violentas independentemente de serem chamadas de inteligentes ou não, unilaterais ou multilaterais. Estas sanções violam direitos humanos inalienáveis: o direito à paz, ao desenvolvimento, de acesso à saúde e à educação e, acima de tudo, o direito à vida. Sanções, além de toda e qualquer retórica, causam beligerância, belicosidade e sofrimento humano. Deve-se ter em mente, contudo, que o impacto negativo não se limita às vítimas destinatárias das sanções, mas também afeta a economia e subsistência de outros países e sociedades, incluindo de países que impõem sanções.

A violência e o extremismo não deixam espaço para a compreensão e a moderação serem as bases necessárias da vida coletiva dos seres humanos e da sociedade moderna. A intolerância é a situação de nosso tempo. Precisamos promover e reforçar a tolerância à luz dos ensinamentos religiosos e abordagens culturais e políticas apropriadas. A sociedade humana deve ser elevada de um estado de mera tolerância para que atinjamos a colaboração coletiva. Não devemos apenas tolerar os outros. Devemos superar a mera tolerância e atrever trabalhar juntos. Pessoas de todo o mundo estão cansadas de guerra, violência e extremismo. Eles esperam uma mudança no status quo. E esta é uma oportunidade única – para todos nós. A República Islâmica do Irã acredita que todos os desafios podem ser gerenciados – com sucesso – por meio de uma inteligente mistura de esperança e de moderação. Belicistas estão empenhados em extinguir toda a esperança. Mas a esperança de mudança para melhor é um conceito amplo, universal, inato, religioso.

O povo iraniano, em uma escolha judiciosamente sóbria, nas recentes eleições, votou a favor do discurso de esperança, da previdência e da moderação prudente – tanto em casa como no exterior. Na política externa, a combinação desses elementos significa que a República Islâmica do Irã, como uma potência regional, irá agir de forma responsável no que diz respeito à segurança regional e internacional, e está disposta e preparada para cooperar nessas áreas, a nível bilateral e multilateral, com outros atores que sejam responsáveis. Defendemos a paz baseada na democracia e na urna em todos os lugares, inclusive na Síria, no Bahrein [algo que os E.U.A. não fez] e outros países da região; e acredito que não há soluções violentas para crises mundiais. […] A garantia à paz, à democracia e aos direitos legítimos de todos os países do mundo, inclusive no Oriente Médio, não pode – e não vai – ser realizada através do militarismo.

O Irã quer resolver problemas, não criá-los. Não há nenhum problema ou dossiê que não possa ser resolvido através da esperança, da moderação prudente, do respeito mútuo, da rejeição da violência e do extremismo. O dossiê nuclear do Irã é um destes casos. Como claramente indicado pelo Líder da Revolução Islâmica, a aceitação do direito inalienável do Irã constitui o melhor e mais fácil meio de resolver este problema. Isso não é retórica política. Pelo contrário, ela é baseada em um profundo reconhecimento do estado da tecnologia no Irã, do ambiente político global, do fim da era dos jogos de soma zero, e do imperativo de buscar objetivos e interesses comuns no sentido de alcançar um entendimento mútuo e a segurança comum. Em outras palavras, o Irã e os outros atores devem perseguir dois objetivos comuns, duas partes mutuamente inseparáveis de uma solução política para o dossiê nuclear do Irã:
1 – O programa nuclear do Irã – e, até ai, o de todos os outros países – deve ter objetivos exclusivamente pacíficos. Eu declaro aqui, abertamente e de forma inequívoca, que, não obstante as posições dos outros, este tem sido, e sempre será, o objetivo da República Islâmica do Iran. Armas nucleares e outras armas de destruição em massa não têm lugar na segurança e na doutrina de defesa do Irã, e contradizem as nossas convicções religiosas e éticas fundamentais. Nossos interesses nacionais fazem com que seja imperativo que nós removamos todas e quaisquer preocupações razoáveis sobre o programa nuclear pacífico do Iran.
2 – O segundo objetivo, a aceitação do direito de enriquecimento [de urânio e plutônio] dentro do Irã e do gozo de outros direitos nucleares relacionados, é o único caminho para alcançarmos o primeiro objetivo. O conhecimento nuclear, no Irã, foi domesticado e agora a tecnologia nuclear, inclusive de enriquecimento, já atingiu uma escala industrial. É, portanto, uma ilusão presumir que a natureza pacífica do programa nuclear do Irã pode ser assegurada através de pressões ilegítimas que procuram impedir a continuação do programa.

Neste contexto, a República Islâmica do Irã, insistindo na implementação de seus direitos e no respeito e cooperação internacional, está preparado para iniciar imediatamente negociações, com prazos e metas, para construir a confiança mútua e remover incertezas mútuas por meio da transparência completa.

O Irã procura o engajamento construtivo com outros países, com base no respeito mútuo e interesse comum, e, dentro deste quadro, não pretende aumentar as tensões com os Estados Unidos. Eu escutei atentamente a declaração feita pelo presidente Obama hoje na Assembleia Geral. Com o auxílio da vontade política da liderança dos Estados Unidos, e na esperança de que eles vão se abster de seguir o interesse míope de belicismo grupos de pressão, podemos achar um meio de gerir as nossas diferenças. Para este fim devemos estar em pé de igualdade, ter respeito mútuo e reconhecer os princípios de direito internacional que devem governar as interações. Claro, esperamos ouvir uma voz consistente [com estes ideais] vindo de Washington.

Nos últimos anos, [entretanto,] uma voz dominante tem sido repetidamente ouvida: “A opção militar está na mesa”. Contra o pano de fundo desta alegação ilegal e ineficaz, deixe-me dizer em alto e bom som que “a paz está ao nosso alcance.” Então, em nome da República Islâmica do Irã, proponho, como um passo inicial, a consideração, pelas Nações Unidas, do projeto “World Against Violence and Extremism” (WAVE, ou “Mundo Contra a Violência e o Extremismo”). Vamos todos aderir a esta “onda”. Eu convido todos os Estados, organizações internacionais e instituições civis a realizarem um novo esforço para guiar o mundo neste sentido. Devemos começar a pensar em uma ‘Coalizão pela Paz Duradoura’ em todo o mundo em vez das ineficientes ‘Coligações para a Guerra’ que existem em várias partes do mundo.

Não obstante todas as dificuldades e desafios, sou profundamente otimistas sobre o futuro. Eu não tenho nenhuma dúvida de que o futuro será brilhante, com o mundo inteiro solidamente rejeitando a violência e o extremismo. A moderação prudente irá garantir um futuro brilhante para o mundo. Minha esperança, além da experiência pessoal e nacional, emana da crença compartilhada por todas as religiões divinas que um futuro bom e brilhante aguarda o mundo. Como se afirma no Alcorão: “E Nós [Alá] proclamamos nos Salmos depois que Nós [Alá] proclamamos na Torá, que os meus servos virtuosos herdarão a terra.” (21:105)”

Segue um curto clip de uma banda Iraniana, que canta em Inglês e aborda alguns destes temas:

O losango de Merkel

por Artur Lascala

merkel rhombus

Angela Merkel, chanceler da Alemanha, notabilizou-se por um gesto, semelhante  a um losango, que faz com as mãos quase sempre que fala em público. Com os resultados das eleições federais, os alemães e os europeus souberam que a democracia cristã de Merkel obteve a maior votação e que Merkel continuará desfilando seus losangos por aí.

A vitória de Merkel é significativa do respaldo que a direita alemã vem tendo com o eleitorado. Ainda assim, a vitória de ontem veio junto com a aniquilação do FDP, partido de posições associadas ao liberalismo clássico e membro da coalizão de Merkel, que não atingiu o 5% da cláusula de barreira do sistema político alemão. Isso significa que a democracia cristã terá de buscar aliados na oposição para que se forme um governo de coalizão. Essa aliança poderia ser com os Verdes, mas a maioria dos analistas aposta que Merkel penderá por dar as mãos com a Social-Democracia, a qual tentará extrair o máximo da barganha.

De toda maneira, o atual modelo do capitalismo alemão e as posições de defesa da austeridade em relação à periferia do sistema do euro parece ganhar ainda mais legitimidade. De fato, o risco de derretimento da moeda única parece atenuado e a Alemanha mantém os melhores indicadores de crescimento econômico da Europa.

Mas a recente vitória de Merkel oculta alguns problemas da atual sociedade alemã. Note-se o baixo comparecimento eleitoral, o que denota certa perda de crença na capacidade dos governantes de superarem os atuais desafios alemães e europeus. A atual competitividade alemã construiu-se a partir de um grande aumento na distância entre capital e trabalho. Encurralados pela emergência de novos centros exportadores nos países periféricos, os trabalhadores alemães foram  obrigados a aceitar que ganhos de produtividade não fossem proporcionais aos aumentos de salários, gerando uma queda sensível no poder de compra relativo e um aumento da concentração de renda nas mãos dos empresários.

Não saberia dizer sob quais condições os trabalhadores alemães poderiam ter saído dessa sinuca sem amargar perdas tão significativas. Talvez houvesse saída, talvez não. O fato é que o descontentamento é latente e o eleitorado reluta em aderir à Social-Democracia, uma vez que foi ela própria uma das articuladoras desse grande pacto.

Resta saber até quando as políticas de Merkel resultarão em contradições aceitáveis pelo conjunto da sociedade alemã. A falta de alternativas viáveis à esquerda do espectro político faz com que, porém, o losango de Merkel ainda seja visto por muito tempo na política da Alemanha.

 

Para saber mais: http://thenextrecession.wordpress.com/2013/09/22/german-capitalism-a-success-story/

O comentarista de portal de notícias

Por Emiliano Augusto

Na internet, existe uma profundeza de abismo que fica logo à superfície do primeiro clique. O nome dessa porta para o desespero é caixa de comentários. A caixa de comentário é habitada por um ser abismal, imune à argumentação, impermeável ao bom senso, que nomeamos de comentarista (ou comentador) de portal de notícias. O nome se dá por causa dos espécimes mais chamativos, mas eles não habitam apenas as caixas de comentários dos portais de notícias: basta um “comentários” com um hiperlink para que observemos seu processo de abiogênese. Geralmente causam comoção pela sua capacidade de ameaça à inteligência, à paciência e às noções mais básicas de humanidade, mas parece que eles estão se tornando uma ameaça sutil (embora sutileza não seja sua praia. Talvez o efeito seja completamente inintencional) ao debate, porque o estão corroendo por dentro.

Não leia os comentários

O comentarista de portal é especialmente perigoso quando passa a ser nosso oponente presumido no debate porque perde sua concretude específica em cada comentário na caixa e ganha onipresença genérica. Essa onipresença inibe qualquer possibilidade real de diálogo ou mesmo de debate: as posições do comentador são por demais monstruosas para que sejam sequer respeitadas como possibilidade, devem ser imediatamente rechaçadas. O problema reside na substituição da monstruosidade por toda posição que não seja coincidente com a nossa, e a onipresença do comentador realiza justamente essa operação no debate.

Não é difícil entender a tentação de escolher o comentarista de portal como oponente presumido. Quem está acostumado a debater(-se) nos fóruns da internet certamente já se deparou com a falácia argumentativa do espantalho, que consiste em apresentar uma versão distorcida dos argumentos do oponente e então passar a se dirigir a essa versão distorcida e não mais aos argumentos. O comentarista nos poupa do trabalho de distorção, ele mesmo nos oferece o pior tipo de argumento movido pelos interesses mais mesquinhos e pensados pelas mentes mais distorcidas. É o anti-cotas com argumentos racistas, o anti-feminista dizendo que o feminismo é igual ao machismo, o anti-comunista dizendo que Hitler era socialista, o defensor da polícia gritando que bandido bom é bandido morto…

Diante do comentarista de portal, não importa o argumento ou a causa que defendemos, estamos automaticamente certos. É sempre bom e é sempre necessário lutar contra o inumano, contra o absurdo tornado normal, contra o massacre diário e total à vida. O comentarista de portal nos dá segurança em saber que estamos no caminho certo: vendo o inimigo, temos conforto em saber que abraçamos a boa causa. Mas diante dele muitas vezes no escusamos de analisar as nossas próprias inconsistências, de observar os problemas nos nossos próprios argumentos (e de lembrar que o nosso lado, seja ele qual for, também tem seus comentaristas de portal. O quanto será que não os estamos repetindo?).

Entretanto, nem toda crítica que nos é endereçada parte de posições exteriores às nossas. Nem sempre dureza é falta de humanidade, nem sempre puxão de orelha é desejo de jogar tudo que conquistamos até agora na lata do lixo. Muitas vezes, é exatamente o contrário de tudo isso: parte do desejo de maiores avanços, de analisar porque ainda não ganhamos, onde estamos perdendo e como não perder tanto. Porém, o comentador, neste momento, está posicionado no espaço em que este diálogo poderia ocorrer. É uma posição estratégica para quem deseja impedir qualquer tipo de mudança, mas ele parou nessa posição um pouco por acidente, um pouco porque, por inexperiência, permitimos. A dificuldade de retirá-lo daí nós mesmos, se desejarmos conversar, decidiremos.

Mensalão: crônica de uma indignação seletiva e de um (não) debate sobre a corrupção

Por Leonardo Calderoni

Vira e mexe, vem gente querer discutir comigo o ingrato assunto: mensalão. Minha timeline no Facebook, bombardeada de posts sobre os embargos infringentes (muito deles com uma abordagem nada moderada sobre o assunto). Não entro mais em discussões sobre o caso e busco evitar o assunto porque grande parte das pessoas perdeu faz tempo o senso da razão para discutir a questão com alguma civilidade e racionalidade. Claro, por trás disso, há paixões políticas e é normal que isto ocorra até certa medida. O que mais me irrita, no entanto, é como o debate é recheado de dois pesos e duas medidas e como se discute o mensalão como se este caso em si e por si só e seu desfecho fossem supostamente os definidores de um futuro Brasil mais corrupto ou não.

Diferentemente de Celso de Mello, resolvi ceder à pressão e vou escrever o que eu penso sobre os embargos infringentes, que é o assunto da hora e do mensalão em geral, tentando trazer alguma racionalidade para o debate e tentando dele tirar algumas lições. Doravante, toda vez que me perguntarem sobre o mensalão e afins, passarei este texto. Minha vida melhorará substancialmente.

E eis que a República está supostamente em polvorosa (pelo menos se a medida disso fosse a grande mídia) porque o STF, afinal, acatou a admissibilidade dos embargos infringentes. O que são embargos infringentes (muitos parecem condená-los sem saber bem do que se tratam exatamente)? Configuram eles o direito a um novo julgamento para alguns crimes que tiveram pelo menos 4 votos contrários no primeiro julgamento (como o de formação de quadrilha para o José Dirceu). Com isso, os réus podem ter algumas reduções de pena ou ser absolvidos por parte dos crimes pelos quais foram originalmente acusados. Na prática, o que está em jogo é se Dirceu e alguns outros réus terão que começar a cumprir suas penas em regime fechado ou não e se a tese do Mensalão-quadrilha seguirá tendo respaldo jurídico (talvez isso cause deixe os ânimos mais a flor da pele do que qualquer outra coisa). Ao contrário do que disse o ex-presidente FHC, se o STF passar a desconsiderar que houve formação de quadrilha, muda-se, sim, a “essência” política do julgamento, porque a imagem da quadrilha é fundamental para quem retrata o Mensalão como uma espécie esquema maquiavélico-demoníaco diferente de todas as outras corrupções que o país já teve.

Ok. Então o circo foi armado. Até colegas de STF foram coagir o ministro Celso de Mello (que não cedeu) a mudar de posição sobre os embargos. Escreveram até colunas em grandes jornais (jogando no lixo a Lei Orgânica da Magistratura, diga-se de passagem, ao tomar tal atitude), para não falar dos inúmeros colunistas falando em “pizza” e tudo mais. Celso de Mello, outrora herói de destaque na GloboNews por ter feito um voto muito duro e incisivo pela condenação dos réus, agora torna-se uma semi-persona non grata para os mesmos setores. Estão meio chateados com o decano.

Ocorre que diga-se o que quiser de Celso de Mello, ele manteve uma posição coerente ao aceitar os embargos infringentes. Lá atrás, em 2012, no começo do julgamento, a defesa dos réus solicitou o desmembramento do julgamento (ou seja, que os réus fossem julgados individualmente e começassem a ser julgados em instâncias inferiores quando não coubesse privilégio de foro), o mesmo ministro citou a possibilidade de embargos infringentes para justificar o não-desmembramento. Se o julgamento fosse desmembrado e fosse para instâncias inferiores, os réus poderiam apelar várias vezes de suas eventuais condenações, até que o caso chegasse às instâncias superiores novamente. Certo ou errado (eu acho que está errado do jeito que está), é assim que a Justiça brasileira funciona e não é de hoje. Mas aí o Celso de Mello disse, em seu voto, basicamente o seguinte: ok, não vamos desmembrar, vocês vão começar já no STF essa ação e não ter as possibilidades de recursos e apelação (afinal não há tribunal acima do STF), mas não se preocupem, há possibilidade de recursos porque existem os embargos infringentes para condenações apertadas.

Minha pergunta sincera, então, é: por que esse nível de escândalo com a posição do ministro e dos outros que, por motivos similares ou outros, o acompanharam nessa posição?

Vamos lembrar de um “detalhe” importante: o mensalão mineiro, do PSDB, teve o pedido de desmembramento aceito pelo STF. Sim, a despeito das inequívocas similaridades, neste caso o STF o aceitou! Então, se a lógica que motiva o escândalo é que o STF está impedindo um julgamento célere e de que fato não implique em impunidade, o caso do PSDB deveria causar tanto ou mais escândalo. Primeiro porque começou antes do caso petista (muito antes) e ainda não foi julgado. Segundo porque ao aceitar o seu desmembramento, corrijam-me se estou errado, possibilita-se muito mais manobras e recursos por parte da defesa.

Então, sinceramente, essa conversa toda ultra-recheada de indignação seletiva não tira o meu sono. É mais de um dos capítulos dessa farsa que querem fazer-nos engolir de que a corrupção começa e termina no PT. O PT não inventou (e também não terminou, como advogava que faria tempos atrás e agora está pagando o pato) com a corrupção no Brasil. O PT não é o partido que redimiu a ética da República e nem aquele que criou os seus vícios éticos e muito menos uma fonte única e exclusiva desse mal. Entendam isso. Tampouco adianta falar que “todos os políticos são corruptos”, mas só vociferar energicamente a indignação quando quem está na berlinda é o PT.

Esse “dois pesos e duas medidas”, evidente a qualquer um que acompanhe minimamente os fatos e não os obscureça por conveniência política, cegueira ideológica ou quaisquer outros motivos, do qual a postura da grande mídia é a grande representante, é o que não contribui para que a gente combata corrupção de verdade no Brasil.

A melhor maneira de julgar eticamente um ator político (seja ele um parlamentar, um órgão de imprensa, uma setor de sociedade, o que seja) não é observar o seu comportamento em relação aos seus adversários, mas ver como ele age consigo mesmo e com seus aliados. Falar das feridas alheias, principalmente em relação a quem não gosto, é extremamente fácil. Difícil mesmo é falar das próprias feridas, das feridas daqueles a quem temos apreço. O mensalão mineiro, o caso do metrô de São Paulo (que está circulando há anos em meios mais alternativos e só veio à tona na grande mídia quando ficou muito evidente), provam isso de maneira cabal. O benefício da dúvida aos aliados é proporcional ao ímpeto de condenar antecipadamente os adversários. Grande lição de ética e republicanismo, não é mesmo?

Estou esperando, sem muito otimismo, que os tempos mudem e chegue um dia diferente, um dia no qual possamos qualificar muito mais nossos debates políticos. Não custa sonhar que eventualmente vamos discutir não tanto o corrupto da vez, mas reformas políticas, eleitorais, judiciárias e outras tantas mais que, de verdade, podem coibir vícios como a corrupção. Seja ela azul ou vermelha.Calderoni luto

Meu luto é pelo nível desse debate