It’s faaaashion week

por Maria Shirts

Nessa semana estou cobrindo a temporada de outono-inverno 2014 do São Paulo Fashion Week para o site Lilian Pacce. Apesar de não trabalhar com moda, sempre que é preciso eu dou uma mão aos amigos do ramo. Essa é a minha terceira cobertura e, talvez, a mais tranquila (até agora).

Quem diria… Nunca me interessei por moda e já cheguei até a proferir discursos sobre o seu elitismo horrendo — sem conhecê-lo. É claro que cobrir Fashion Weeks não faz de mim uma fashionista e muito menos conhecedora do assunto. Mas, pelo menos, me abriu os olhos para análises menos preconceituosas.

Primeiro de tudo, entendi que a moda é uma produção social, tal como a arte e a música. Veja bem, não quero aqui julgar a importância de cada uma, ou “rankeá-las” a partir da sua significância. Mas tão somente demonstrar que é uma manifestação da sociedade. No caso, de um grupo de pessoas  da elite (como, por exemplo, o pessoal da semana de 22). E, como toda, transmite valores e percepções sociais. Ou seja, não é à toa que a década de 80, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, foi permeada de roupas com ombreiras, coturnos e couro. São todos indicativos de poder.

Segundo, aprendi que ali se trabalha muito. Muito mesmo. Até cobrir uma semana de moda, achava que Fashion Week era sinônimo de glamour e champagne. Mas é quase o oposto: todos estão ali para produzir e cobrir um evento de exposição comercial. As roupas, a maquiagem, o cabelo, a assessoria e as matérias têm que acontecer, rapidamente. Ou seja: todos devem ser eficientes e se ajudar.

E é aí que entra o meu terceiro aprendizado: as pessoas são muito mais colaborativas do que o estereótipo sugere. Maquiadores, cabelereiros, estilistas e colegas jornalistas se ajudam. Claro que passa-se por muitos momentos de tensão e stress. Mas há também bom humor e descontração. Ontem mesmo, no backstage de um dos desfiles do dia, o maquiador principal olhou para uma das jornalistas e falou: “Mas gente, esse batom não combina com você. Senta aqui, vamos passar esse outro”.

E é claro que tem gente arrogante e muito pouco prestativa por aí, mas… isso não existe em qualquer meio, de qualquer profissão?

Entendo e compartilho da crítica à moda, ao seu mundo fantástico e recluso ao elitismo, que se insere não só no público comprador como nos estilistas. E, posso dizer, depois que conheci um pouquinho (que seja) disso tudo, a minha impressão sobre esse mundo não mudou para pior, ou melhor. Mas me deu visões diferentes e melhor fundamentadas para julgar.

Independente do que o “mundo da moda” represente e do que eu acho, me considero uma pessoa de sorte. Afinal, entrei nesse ambiente e descobri colegas de redação muito companheiros e pacientes. Verdadeiros amigos, que me ensinaram muito do que carrego pra vida desde que os conheci. Seja de moda, jornalismo, companheirismo e amizade.

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Lou Reed vive

Por Hannah Maruci Aflalo

Na minha casa sempre se ouviu música boa. Meus pais estampavam camisetas de rock e sempre foram fãs de David Bowie, Lou Reed, The Cure, Iggy Pop, The Doors, etc. Além das músicas que aprendia na escola, a que mais tenho presente e que hoje mais me lembra minha infância é “The Laughing Gnome”, do David Bowie. Nada melhor pra uma criança do que um música com um gnomo rindo.

Apesar dessa influência, que eu considero muito boa, dos meus pais, eu sempre fui meio do contra e lá pelos oito anos de idade desenvolvi um amor incondicional pela duplinha mais famosa do Brasil. Sim, como tantas outras meninas, eu amei Sandyjúnior.

Isso até o dia que decidi entrar em uma loja de CDs e comprar o Transformer. Não vou dizer que Lou Reed me salvou de Sandyjúnior, isso seria forte demais. É difícil admitir, mas ainda lembro com carinho de Dig Dig Joy tocando milhares de vezes nos meu disc-man.

Mas Lou Reed soube dizer as coisas certas na hora certa, ou melhor, soube me dizer o que eu queria ouvir. E com ele eu tive dias que me pareceram perfeitos, cheios de séralairólove, no meu inglês macarrônico de doze anos de idade. Não tinha problema, eu não precisava entender. Lou Reed e Velvet Underground fizeram parte da minha formação musical e os carrego comigo desde muito cedo.

Nesse domingo fiquei sabendo que o homem das mãos grandes morreu. Foi um dia estranho. Já que nunca o vi, resolvi fingir que ele não morreu.

E não morreu mesmo.

Lou reed vive. Vive toda vez que uma agulha encosta em um disco seu. Vive nos quadros de Andy Warhol. Vive nas fotografias de Mick Rock. Vive nas palavras de David Bowie e Iggy Pop. Vive em todas as JanesSuzannesStephaniesCarolines, e Lisas. Vive em qualquer um que já tenha tido um sonho, que já tenha desempenhado um papel, que vá viver solitário, que já tenha ficado distante.

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Para crescer é preciso… decrescer?

Por Ivan Nisida

Momento de desabafo. Estudar políticas meio-ambiente é uma coisa complicada. Logo percebe-se que há muito discurso vazio flutuando pelas mídias e que poucas decisões estruturais serão tomadas a nível nacional e internacional. Mas as soluções paliativas não faltam: “Crescimento verde”, “responsabilidade social e ambiental” e o famoso “desenvolvimento sustentável” (oxímoro, pois desenvolvimento da forma que ele é concebido hoje é intrinsecamente insustentável). Tudo isso pode ter efeitos benéficos, contudo, diante da magnitude das crises ambientais constatadas, é como tapar represa rachada com peneira.

Os resultados estão à disposição. As conferências climáticas pouco puderam (e poderão?) na empreitada de despejar menos carbono na atmosfera e a extinção massiva de espécies, juntamente com seus complexos e fascinantes ecossistemas, caminha a passos largos. As conseqüências para os humanos, independentemente do nível de alarmismo, são consideráveis (eventos climáticos mais catastróficos, erosão da biodiversidade, crises de poluição, migrações em massa)…

Assim, nota-se que crises ecológicas não serão sanadas apenas com a “boa vontade” de governos em joviais conferências climáticas e algumas medidas de “responsabilidade empresarial”.

O buraco é mais embaixo. A questão é sistêmica.

Como mudar? Eis uma alternativa que irrompe no meio intelectual: para crescer, é preciso… decrescer. (?)

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Decrescimento

Decrescimento, termo forjado pelo economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-94). Trata-se de um conceito que vem ecoando, e não é de hoje, com certa relevância na Europa. Confesso que meu conhecimento sobre o tema é raso, porém, depois de um ano estudando políticas de meio-ambiente, é o que mais me chamou a atenção. Não é solução milagrosa, mas talvez uma fértil fonte de alternativas.

Alto lá. Antes de se execrar o conceito, tachando-o de túnel para um retorno ao campo e à luz de vela, é preciso entendê-lo.

Primeiro, o conceito de decrescimento (“degrowth” em inglês, “décroissance” em francês) parte do princípio evidente de que os recursos naturais à disposição são finitos (incompatível com um sistema econômico que visa crescimento ilimitado). Assim, uma vez que as necessidades materiais da população de um certo país tenham sido atingidas, a idéia seria de reduzir o ritmo de consumo (de energia, de matérias-prima) e de produção. Existe portanto, uma rejeição de um sistema econômico que busque expandir-se e consumir ad infinitum. Nesse sentido, a crítica soa justa.

Segundo, cabe-se entender que essa idéia (ainda) não se consolidou como um termo consistente do arcabouço científico-acadêmico da economia. O decrescimento por enquanto “federa aqueles que desejam uma redução do tamanho físico do sistema econômico (menos capacidade de extração de recursos naturais, menos despejo de poluentes” (“La Décroissance, 10 Questions”, Bayon, Flipo e Schneider). Pelo visto, ainda lhe falta um pouco de substância e de coesão (afinal, são algumas as correntes internas). Mas o decrescimento vem ganhando campo no meio intelectual (sobretudo com a crise financeira), fazendo com que até a Assembléia Nacional francesa se interesse pelo assunto, com a revista Entropia, lançada em 2006, cujo objetivo é justamente de atribuir coerência teórica ao tema.

Com isso dito, algumas ressalvas devem ser fincadas. Como é de se esperar, o decrescimento suscitou (e suscita) inúmeras e inflamadas críticas de todos os lados, seja de correntes capitalistas, seja de correntes socialistas. Afinal, como conceber a implantação de decrescimento no sistema em que vivemos (capitalista, produtivista, onde o lucro é divindade e a acumulação indefinida é um objetivo)? Não seria utópico demais? Como abordar decrescimento em países que ainda conhecem fome e as mais básicas carências materiais? Seria o decrescimento apenas um luxo dos países desenvolvidos? Muitas perguntas pipocam, isso é fato.

Apesar dos apesares, o conceito de decrescimento se revela útil por seu poder de interpelar o indivíduo e de questionar o sistema social e econômico em que vivemos. Sua força reside em parte no questionamento dos motores desse imenso maquinário produtivo (e imensamente destrutivo): a idolatria do dinheiro, o consumo desenfreado, a publicidade (essa fábrica de felicidade)…

Em suma, o decrescimento tenta atacar a raiz dos problemas ecológicos, saindo de um esboço de “capitalismo verde” (ele é ao menos viável?) . Mais que do isso, a crítica tecida pelo decrescimento se projeta além da causa ecológica, e atinge a esfera social e econômica. É um conceito que, por exemplo, clama por redistribuição de renda mais igualitária, visando essa mazela que assombra curiosos países com grande riqueza material e pobreza persistente (e vai Brasil).

O decrescimento sugere uma crítica sistêmica, mas não só, pois ele chega a interpelar o próprio indivíduo e sua cultura, seus valores. Eis novamente o poder de seu questionamento, com perguntas simples, mas essenciais: de quanto eu preciso para satisfazer-me? Qual o limite das minhas ambições materiais? Será que eu poderia abrir mão de ganhar muito mais do que já possuo por uma sociedade mais justa? No final das contas, trabalhamos para quem? Servimos a quem, a que causa?

Pois afinal, “vivemos para trabalhar, ou trabalhamos para viver?” (Pierre Rabhi, defensor do decrescimento).

A idéia de decrescimento pode não resolver todos os problemas ambientais, mas certamente pode oferecer chaves de análise para rever e reestruturar a forma como produzimos, consumimos e concebemos a nossa relação com a natureza. Com isso, poderemos atingir um equilíbrio e modelar a caminhada humana rumo a um modo de vida efetivamente ecológico. O debate entorno do decrescimento é longo e polêmico e o espaço aqui é curto para tamanha discussão (pretendo continuá-la em outros posts). Mas o conceito está aí, a porta está aberta.

Viva o Moçambique!

por Gabriel Walmory

Recentemente temos visto matérias falando sobre a possível volta dos conflitos em Moçambique, país que foi colônia de Portugal até 1975 e que, logo após a conquista da independência, naufragou em uma guerra sangrenta por quase 20 anos.

Após sua independência, Moçambique acabou se voltou ao comunismo, ficando próximo da URSS. Por se alinhar de forma contrária aos interesses da África do Sul na região, a África do Sul financiou um exército para combater os comunistas no Moçambique; suas principais táticas eram atear fogo em escolas e hospitais, destruir estradas e causar terror. A guerra, que durou até 1992, devastou um país com povo alegre e uma beleza natural única.

Anos depois, o exército que havia sido criado para desestabilizar o país tornou-se um partido político legítimo, chamado RENAMO.

12 anos após os conflitos, Moçambique é o antepenúltimo país no ranking de IDH global, na frente apenas do Níger e Congo (a Somália não está no ranking). O país é democrático, mas o mesmo partido, FRELIMO, está no governo desde sua independência. O maior partido de oposição é a RENAMO.

A RENAMO está concentrada na região central de Moçambique, perto do Parque Nacional da Gorongosa. Estive lá em setembro deste ano, algumas semanas após combatentes da RENAMO matarem cerca de 30 soldados do governo.

Com exceção de ter que esperar durante 4 horas por um comboio do exército que acompanharia o transporte de civis pela dita zona de risco, tudo estava normal. Inclusive, enquanto esperava, filmei um pequeno grupo que cantava pela paz.

Porém não havia ninguém no parque, um dos mais bonitos da África. Países emitiram notas de risco aos cidadãos, recomendando-os evitar aquela região. Minha sorte: Fiquei apenas com os locais no parque, uma experiência sensacional. Fiz um safari sozinho, eu e o guia.

Conversando com alguns locais numa Vila próxima, me confidenciaram o quanto estes “alarmes sensacionalistas” estavam alterando a rotina: Nada mudou, exceto a ausência de turistas, por causa do medo.

Esta viagem abriu minha cabeça de uma forma única.

É impressionante o quanto o preconceito pode desencorajar pessoas. Ser um país da África Subsaariana é isto. Só aparece quando começam “conflitos” ou quando um fotógrafo consegue tirar fotos de uma criança desnutrida.

Visando comprovar o quanto nossa percepção pode ser deturpada em função do que chega até nós, resolvi elaborar uma breve pesquisa utilizando dados da United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC)[1]. Comparei os dados de homicídios intencionais por 100 mil habitantes entre 50 países de toda África Subsaariana e constatei que somente 8 países da região têm níveis desta tipologia de mortalidade superiores ao do Brasil (22.4). São eles, respectivamente: Costa do Marfin (56.9), Malawi (36.0), Lesoto (32.9), Congo (30.8), África do Sul (30.9), República Centro Africana (29.3), Etiópia (25.5) e Tanzânia (24.5).  Mitos sobre a alta periculosidade da região, como na Nigéria (12.2) e Moçambique (3.3), são desmentidos com esta análise.

Enquanto isso, temos na América Central casos como o de Honduras (91.6) e Jamaica (61.6) – citando apenas os 2 mais elevados.  Entre nossos hermanos sul-americanos, considerando os 12 países da região, temos Venezuela (52.0) e Colômbia (34.6) como campeões. Brasil está em terceiro. O México (22.7) é o líder na América do Norte.

E a fome? Boa parte de nosso imaginário sobre esta parte do mundo é preenchida por criancinhas famintas e pessoas somente “pele e osso”. Sim, isso é um problema. Mas principalmente, se não somente, onde a agricultura de subsistência não é possível, como desertos e regiões áridas africanas.

Grande parte da população moçambicana (cerca de 80%) se alimenta daquilo que cultivam. Mandiocas, galinhas, bananas. Comercializam o excedente com aqueles que estão de passagem, durante as paradas das viagens terrestres. Utilizam o dinheiro para comprar coisas básicas, como sal e óleo.

Não vi fome em Moçambique. O que vi foi um momento de êxodo rural latente, impulsionado pelo alto crescimento econômico do país nos últimos anos (cerca de 12% ao ano desde 2009). E isso começa a ser preocupante em um país onde indústrias são praticamente inexistentes e a oferta residencial nas cidades é baixíssima. O preço para se comer nas cidades moçambicanas é parecido com o do Brasil. O m² de prédios residenciais na região central de cidades como Maputo (capital) é mais caro que nos jardins, mesmo levando em conta que o prédio foi construído na época colonial, estando praticamente em ruínas.

Pobreza, violência, sujeira, desgraças. Na cidade as encontrei. Migrantes têm um novo paradigma: aquilo que produziam no campo agora é obtido via capital. O acesso gratuito aos tetos de palha, paredes de bambu e alimento próprio se transformam em barracos de feitos de placas de publicidades e plástico e comida escassa. A alegria fácil das crianças no campo se converte em uma valorização consumista, pela música mais alta e celular mais interessante. Nas cidades, o álcool mata mais do que HIV e malária.

Foi muito fácil viajar por Moçambique sendo brasileiro. Incrível o imaginário do moçambicano quanto ao Brasil: Um dos canais mais assistidos é a Record e uma TV local transmite as novelas da Globo. O que isso significa? Significa que a imagem do Brasil é a seguinte:  Um país onde ninguém pode sair de casa por causa da violência (Cidade Alerta é um dos programas mais assistidos) e ao mesmo tempo todos são maravilhosos e vivem bem (Novelas da Globo). Além disso, o fato de termos sido colonizados por Portugal, como eles, era um grande diferencial para a simpatia – esqueçam a contradição…

Quando perguntavam para mim se realmente era assim, se São Paulo é muito violento, se eu podia morrer ao sair na rua, respondia: “Meu amigo! Não pense que o Brasil é somente isto. Você sabe qual é a imagem que nos chega da África através da TV? Conflitos e fome! Só isso. É como se a África inteira se resumisse nisto. E é assim? Não vi nada disso aqui. Pelo contrário.”

Sabe o que é o mais engraçado? Eu sentia vergonha, pois era clara a decepção das pessoas quando eu confidenciava-os a imagem da África que chegava até nós.

Me perguntavam se os brasileiros conheciam Moçambique. Eu pensava: Quantas pessoas já ouviram falar de Moçambique? Quantas pessoas no Brasil sabem onde fica Moçambique?

Eu Mentia. Falava que alguns conheciam.

– Duvido que saibam sobre nós melhor que Angola!

E aqui estamos nós, mais uma vez.

Xingamos aqueles que acham que nossa língua é o espanhol enquanto nunca tivemos a curiosidade de olhar quais são os países da África cuja língua oficial é o português.

África Subsaariana, esquecida, marginalizada. Linda.

Aproveitem para conhecê-la enquanto a felicidade ali continua autêntica e abundante…!


[1]Os anos para coleta de dados diferem entre os países, 2008 – 2011. Para baixar a tabela: http://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/statistics/crime/Homicide_statistics2013.xls

Como eu matei um congolês hoje!

O Congo é o maior país da África subsaariana e um dos mais ricos do mundo, ao menos no papel. Com uma incrível quantidade de diamantes, ouro, cobalto, cobre, estanho e tântalo, os recursos naturais do Congo equivalem a alguns trilhões de dólares (estima-se 24 trilhões, o equivalente ao Produto Interno Bruto combinado da Europa e dos Estados Unidos). As suas minas produzem quase metade da oferta mundial de tântalo, bem como uma grande porcentagem do estanho, tungstênio, ouro e coltan do mundo; as operações de mineração empregam no mínimo um quinto da população, aproximadamente 12,5 milhões de pessoas.

Com toda esta riqueza, esperaríamos que o Congo fosse um dos mais importantes países emergentes hoje, mas, por causa de guerras aparentemente intermináveis, o Congo é uma das nações mais pobres e mais traumatizadas do mundo. Para entender como o Congo chegou a este ponto, precisamos dar um passo atrás, retrocedendo mais de 100 anos, para quando o rei Leopoldo II da Bélgica tomou para si este espaço enorme no meio da África, tornando-o sua colônia pessoal (e não uma colônia belga). Leopoldo queria borracha e marfim, e ele começou a sua busca por meio de assaltos vorazes aos recursos do “Estado Livre do Congo”, uma prática que se arrasta até hoje. Curiosamente, ele criou um sistema de “dividir para conquistar” bastante eficiente: os membros de uma certa etnia, mais acostumada com a guerra, recebiam armas e balas a credito das forças particulares do Leopoldo, e eram pagos por cada pessoa que eles matassem. Para comprovar as mortes, os guerreiros cortavam as mãos das pessoas que haviam matado e as devolviam aos belgas, que pagavam um valor pré-estabelecido por inimigo morto. Como as balas custavam caro e eram vendidas a crédito aos congoleses do grupo mais guerreiro, eles não podiam errar um tiro sequer; quando erravam, cortavam fora as mãos de pessoas vivas para não perderem dinheiro. Esta prática eventualmente se disseminou por toda a África; cada vez que você vê uma foto de um Africano sem uma (ou duas) mãos, saiba que isso é um reflexo direto de uma política colonialista fomentada pelo rei Belga dois séculos atrás, utilizada atualmente por centenas dos grupos armados que existem no continente e que preferem vender balas a crédito às tropas, pagando por ser humano morto.

Em 1960 os belgas concederam a independência ao Congo, abruptamente fugindo da região e criando um vácuo de poder que apenas aumentou as rivalidades étnicas; insurreições irromperam imediatamente, abrindo o caminho para que um jovem militar ambicioso, Mobutu Sese Seko, tomasse o poder, e nunca o deixasse. Mobutu governou por mais de 30 anos, enchendo-se de frescos bolos Parisienses, que lhes eram entregues por avião, e vivendo confortavelmente em um dos seus múltiplos palácios na selva enquanto milhares de crianças congolesas morriam de fome.

Em 1994, o Ruanda, país vizinho ao Congo, implodiu em uma devastadora guerra civil; as tensões étnicas e o genocídio deixaram mais de um milhão de mortos. Muitos dos assassinos fugiram para o leste do Congo, que se tornou uma base para operações que visavam desestabilizar o Ruanda. Ruanda então formou uma parceria com o Uganda e, em 1997, estes dois países invadiram o Congo para derrubar Mobutu e instalar outro chefe de estado, o Sr. Laurent Kabila. Eles logo se irritaram com Kabila e invadiram novamente. Esta segunda fase da guerra do Congo sugaria o Chade, a Namíbia, a Angola, o Burundi, o Sudão e o Zimbabwe para dentro do conflito. Enquanto as estratégias iniciais da invasão ainda estavam sendo elaboradas, os comandantes militares já estavam fazendo negócios com empresas estrangeiras para venderem as vastas reservas minerais do Congo. Depois da bem sucedida invasão do leste e sudeste da República Democrática do Congo por parte do Ruanda, do Uganda e do Burundi, o que a ONU chamou de “saques em massa” se iniciaram; tropas estrangeiras e grupos rebeldes apreenderam centenas de minas, vilas e armazéns.

E assim, depois de décadas de guerras, saques e chacinas, a República Democrática do Congo deve ter se tornado um deserto estéril, onde nada é produzido ou desenvolvido, completamente isolado da economia global e evitado por empresas multinacionais, certo? Bom, é bem verdade que o Congo tem exportado poucos minérios desde a invasão, mas o Ruanda e o Uganda, que não têm grandes reservas de minérios, tornaram-se alguns dos maiores exportadores de matérias-primas no mercado internacional. O Fundo Monetário Internacional (FMI) também afirma que Burundi não tem ouro, diamantes, coltan, cobre, cobalto ou operações básicas de mineração de metais, mas exporta-os desde 1998; grande parte do ouro do Congo, mais de US $ 600 milhões por ano, é contrabandeada pelas fronteiras do Burundi. Coltan, um metal utilizado essencialmente em quase todos os tipos de aparelhos eletrônicos, é extraído ilegalmente do Congo e vendido via o Burundi desde 1995. A grande maioria das empresas multinacionais e dos países ocidentais que compram coltan do Ruanda, do Uganda, e do Burundi está ciente da origem destes minérios; os valores pagos por estas matérias primas são canalizados diretamente para os exércitos destes países e para os rebeldes locais que controlam as minas.

E como será que estes metais, essenciais para a maioria das indústrias, utilizados em grande parte dos produtos que compramos e presentes em todos os aspectos da vida moderna, são extraídos? Marcus Bleasdale, fotógrafo da National Geographic, descreve uma das cenas mais corriqueiras do país: “A montanha estava cheia de homens jovens e fortes vestindo trapos e portando lanternas nas cabeças; martelando, escavando, raspando e carregando todas as possíveis partículas de rocha amarelada (cassiterita), ou de minério de estanho; suas bochechas inchadas com pedaços de cana de açúcar para produzir energia. Era um exército de formigas gastando milhões de calorias e litros de suor para alimentar uma vasta e distante economia global. […] Dentro de um túnel, chamado Maternidade, o túnel mãe, as paredes eram úmidas e viscosas e mais estreitas a cada etapa. Na escuridão espessa era impossível ter algum senso de cima/baixo; apenas o pinga, pinga, pinga da água e o distante som de homens cantando do fundo das entranhas da Terra [eram perceptíveis].” (Tradução Livre)

Além disso, o preço do ouro quadruplicou nos últimos dez anos, mas não há nenhum sinal de desenvolvimento ou de prosperidade para o Congo. Mais de 3 milhões de civis morreram durante a Segunda Guerra do Congo, em grande parte devido à desnutrição ou às doenças – outros 3 milhões foram deslocados internamente; a destruição de terrenos agrícolas e dos gados, assim como o roubo dos proveitos da mineração, levaram a uma drástica diminuição do acesso aos alimentos, aumentando a desnutrição; civis desnutridos têm sido regularmente forçados a trabalhar como mineradores ou soldados; trabalhadores infantis compõem 30% da força de trabalho do setor de mineração; mortes e violência nas minas são comuns; muitos mineradores se tornam escravos quando eles não conseguem pagar suas dívidas para com seus empregadores; grupos rebeldes e milícias cometem abusos generalizados aos direitos humanos – estupros, escravizações, torturas, desaparecimentos e assassinatos de civis – enquanto competem pelos recursos advindos da mineração ilegal; a violência sexual é generalizada e entre 1,69 e 1,80 MILHÕES de mulheres congolesas relataram serem vítimas de estupros; a prostituição para a sobrevivência, a escravidão sexual e a prostituição infantil forçada têm sido amplamente documentadas; o HIV e a AIDS tornaram-se epidemias generalizadas na região. Poucas pessoas na nossa história recente sofreram tanto, durante tanto tempo e em uma escala tão horrível.

Em 2011, de acordo com a Datamonitor 360, pelo menos vinte e cinco empresas internacionais estavam envolvidas em atividades de mineração na República Democrática do Congo: nove empresas do Canada, seis da Austrália, três da África do Sul, duas do Reino Unido, duas dos Estados Unidos, uma da China, uma do Japão, uma do Marrocos e uma da Suíça.

Hoje, especialistas estimam que mais da metade das minas do Congo ainda estão sob o controle dos grupos rebeldes, e a realidade da situação permanece obscura; apenas cerca de 10 por cento das minas no leste – 55 no total – são considerados “conflict-free”, ou livres-de-conflito. E são essas mesmas minas no leste do Congo, controladas por milícias e rebeldes, que providenciam matérias-primas para as maiores empresas eletrônicas e de joias do mundo, alimentando o caos, a guerra e a violência. Acontece que o seu (e o meu) computador, câmera, celular, relógio, colar de ouro e videogame provavelmente têm algum metal extraído do Congo. E, quando adquirimos estes metais, adquirimos também um pouco da dor do Congo, um pouco do sangue, dos estupros, das mortes. A nossa conscientização, a indignação dos consumidores que alimentam esse comércio, é certamente um começo que poderia forçar as empresas a procurarem outros parceiros estratégicos locais que não assassinos sanguinários, mas o processo de reforma a longo prazo provavelmente é algo muito mais complicado.

“Nós estávamos confusos. Sabíamos que [a mina de] Bavi era controlada por rebeldes. Tínhamos visto todas as crianças-soldados rebeldes com os nossos próprios olhos. Então, por que um oficial de inteligência do governo estava nos prendendo? Não era o governo que deveria estar lutando contra os rebeldes? Quando fomos liberados, os agentes nos seguiram e dormiram em um carro na frente do nosso hotel. ‘Vocês deram de cara com um grande jogo’, explicou um oficial das Nações Unidas, com anos de experiência no Congo. ‘Eles estão todos compartilhando os frutos das operações ilegais. É uma corrida. É um “agarre o quanto puder”.’ Ele apontou para o recente escândalo do general Gabriel Amisi, o comandante das forças terrestres no Congo, que foi suspenso depois que investigadores da ONU revelaram que ele estava armando grupos rebeldes brutais, vendendo armas e munições que ajudavam eles a caçarem elefantes e venderem o marfim. Tudo isso se passava enquanto ele aparentemente estava lutando contra esses mesmos rebeldes. É um jogo, de fato.” – Marcus Bleasdale (Tradução Livre)

(Para quem quiser, um documentário sobre o passado colonial do Congo:)

Recalque Social

por Luís H. Deutsch

Nesses últimos dias, as redes elegeram o ativista é a coisa mais chata do mundo. Superou o tédio do Domingo, aquele bonequinho-clips do Word 2000 (sim, as pessoas ainda lembram-se dele), os testemunhas de Jeová e, pasmem… O Galvão Bueno.

Tem gente disseminando o ódio contra esse tipo de gente. “Ativista é chato demais” Só posta as merdas que acontecem no mundo… AFF”. “Meu, ativista é tudo hipócrita. Onde já se viu ser anti-EUA e ter iphone kkkk”. Entre essas e outras frases, a razão para tanta implicância, está o Recalque Social.

Ora… O que é recalque social? Um bando de gente mal amada invejando foto de gente bonita no Instagram? Indiretas para ex em 140 caracteres no Twitter? Compartilhamento de foto-filosofia barata no Facebook? Não. Quer dizer… TAMBÉM.

O Recalque Social é mais profundo. Atinge nossa sociedade e nossa realidade em um âmbito mais psicológico, mais político. Para não dizer mais sério, pois tem gente que vive de espezinhar os outros na Internet. Mas cada um com seu cada qual, né?

Toda vez. TODA VEZ que acontece alguma coisa “boa” nesse mundo aí, a discussão quando migra para o mundo virtual, adquire sempre dois polos. Um francamente a favor e outro 1000% contra. É normal isso, acontece nas melhores mesas de bar.

Porém, na rede a coisa toma proporção maior. Você fica obrigado a participar de todas as conversas de mesa de bar. Mesmo aquelas mais insuportáveis.

Comecemos pelos Beagles. Lindos cachorros. Inteligentes, bonitos, fofinhos. Todo mundo quer ter um. Inclusive os laboratórios de teste de cosméticos / medicamentos. Uma crueldade. Ponto. Na semana passa, um grupo de ativistas heroicamente invadiu uma propriedade privada e salvou a vida dos cães. Por mais que a batalha para a adoção seja difícil agora, não serão mais submetidos a coisas que só Deus sabe – e que eu nem quero desenvolver nesse texto.

Acontece que tem gente que não saber ver felicidade. O recalcad@ social vê isso e logo dispara. “AH! Queria ver é salvar os frangos que comemos todo dia.” “Adotar TODOS os cachorros de rua vira-lata.” “Quero só ver esse povo parar de comer McDonald’s.”

Segundo essa infeliz e reducionista pessoa. Ativistas pró-animais DEVEM ser vegetarianos e ter uma mansão de 200 milhões de metros quadrados.

Voltemos às revoluções do ônibus em Junho. Um aumento nas passagens de busão de todo o Brasil gerou o histórico momento de manifestação que botou muita gente pela primeira vez na rua para tentar mudar alguma coisa. Obviamente isso gerou inconformismo de muitos no começo da luta. “O que essa bando de gente desocupada tá fazendo atrapalhando o trânsito?!” “São tudo playboy na maioria, sabia? Nem pegam ônibus. Papai paga tudo. O pobre mesmo… Ah, esse tá sofrendo calado”. Essas eram as frases dos pensadores digitais no momento. Bom… Deu no que deu após…

Mas essas pessoas não mudam. Segundo as mesmas, os ativistas pelos direitos do transporte mais barato devem ser Pobres com p maiúsculo e morar na Vila Não-sei-o-que-lá que fica 2h ao sul do Terminal Santo Amaro. Vixe.

Viajemos um pouco mais para um último exemplo. Lembram daquele AUÊ na USP em 2011? Então… Lembra que tinha um moleque invadindo a reitoria com casaco da GAP? Então… Apesar de toda a crise democrática que a Universidade vivia no momento (e ainda vive), a mídia e a opinião recalcada socialmente resolveu minimizar toda a discussão nas posses do moleque. De UM moleque. E dane-se o resto.  “É uma revolução de mimadinhos”, diziam.

Para estes, o ativista tinha que respeitar o ponto crucial da luta social: ser completamente desprendido de bens materiais. ” Tem que ser  é ‘bixo-grilo com piolho’! Celular, só se for o mesmo Nokia tijolo de 2006. O resto, deve só se conformar que é um vendido ao sistema como todos. Vamos ser feliz assim e aceitar!”

Por que tanto incômodo?  Tanto Recalque Social?

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Ativistas incomodam porque tocam na ferida ainda aberta por uma sociedade que vê o que quer, mas realmente não enxerga muita coisa além de final de novela e bola no gol. Ativistas levantam-se do sofás em feriados chuvosos para ocupar a Paulista por temas que nem sabemos que realmente são problemas. Porque estamos “ocupados demais”… Saem de casa à noite para salvar cachorrinhos. Invadem navios da Rússia. Ajudam baleias no Japão. Denunciam as espionagens dos EUA no mundo… Coisa que nem metade de uma “timeline padrão” faz.

No mais, os ativistas ousam. Duvidam do senso burro e comum. E daquela velha opinião formada sobre tudo.

Então, amiguinhos. Sem regrinhas de comportamento dos ativistas. Por um mundo com menos recalque social. Perdão pelo clichê, mais por um mundo com mais gente feliz fazendo a sua parte. Valeu?