o tal do Lulu.

 

Por Paula Elias

Aviso aos navegantes: se você não sabe o que é o tal do Lulu, sugiro que dê um Google rapidinho.

Usei o Lulu por uma semana.

Até decidir fazer o experimento, deletei e baixei o aplicativo duzentas vezes. A curiosidade e a mini-Mafalda dentro de mim se degladiavam. Por fim, baixei e lá deixei, pensando que, se não desse em mais nada, daria um post.

Depois de uma semana, eis um breve relato da minha experiência.

O Lulu é super machista, e é a primeira coisa que salta aos olhos. Desde a infantilização da sexualidade feminina (“encontre um garoto” ), até as hashtags assustadoras: #PagaAConta, #BemCriado, #BomPartido.

Alou, Lulu, 1950 ligou e quer suas birras patriarcais de volta!

A segunda coisa que chama a atenção é a completa violação de privacidade. Ao contrário da maioria das redes, os homens já estão lá, e tem de pedir para sair. Ninguém pergunta se ele quer ser avaliado minuciosamente por mulheres, porque pressupõe-se que tudo que um macho (sempre alfa) quer é atenção feminina ininterrupta. Mais um ponto pra turma machista.

Aliás, o Lulu confunde as esferas pública e privada o tempo todo. Qualquer amiga, ex, atual, parente, qualquer uma pode expôr a intimidade (real ou fictícia)  de um homem. Boa, mulherada, tá certinho. Sabem o que isto ajuda as muitas mulheres vítimas de “pornô de revanchismo”? Nada. Elas continuam circulando pelo WhatsApp.

A pergunta de um milhão de dólares é: mas, Paula, é legal?

Sim. 

Nos primeiros quinze minutos.

Depois que se tira do sistema todo o potencial perverso de julgar os outros com as pontas dos dedos, vem uma culpa, uma vergonha. Cheguei a ensaiar duas avaliações, mas não tive coragem de salvar.

Não salvei por motivos muito meus. Não foi porque eu sou uma mega feminista exemplar. Foi porque eu tenho dois irmãos. Nenhum deles cabe em hashtag alguma.

 

No fim das contas, eu só abri o Lulu nos primeiros 3 dias. Depois, me forçava a entrar uma vez por dia para ver se apareciam mais ou menos avaliações.

 

 

Sobre o Lulu, roubo as palavras da querida Pat Cam: ah, internet, essa eterna sexta série…

O espertão do trânsito

Por Maíra Souza

São Paulo é assim mesmo, um combo de pressa, tensão, emoção e atenção. Na capital paulista, há 25 milhões de veículos, sendo aproximadamente 5 milhões de carros, acumulando não sei quantas milhões de horas vividas no trânsito. Dessa galera toda, há quem passe esse tempo se entretendo num smartphone, se maquiando, lendo o Metro, ou só curtindo um som de buenas. Tem gente que masca chiclete e abre os vidros para não pegar no sono, gente que liga o Waze quando o trânsito para, e se enfia na primeira viela que vê para fugir do inevitável. Tem gente irritada, gente de bem com a vida, gente #chatida. Além disso, no meio dessa galera, tem muita gente esperta.

De alguma forma, todo dia você interage com os espertos.  Mas como identificá-los?

Em primeiro lugar, o espertão tem sempre prioridade nas ruas. Ele é aquele que buzina assim que o farol abre, porque a pressa dele vem sempre em primeiro lugar e ele desconhece o conceito de paciência. Ele não nasceu para esperar, mas sim para passar na frente dos outros – e ele, de fato, acredita que tem esse direito. Portanto, aqueles que ficam numa faixa para conversão, por exemplo, são trouxas, burros ou desocupados que não tem mais o que fazer da vida. E ai de quem cortar o espertão, viu?!

O espertão acredita no poder mágico e sobrenatural da buzina. Sua crença consiste na convicção de que tal dispositivo é capaz de gerar hélices ao amiguinho da frente, de modo que o veículo transforma-se num helicóptero, dando, portanto, livre passagem ao espertão. Se não funcionar de primeira, ele insiste mais uma vez, e mais uma e mais uma… até reger uma sinfonia!

O espertão tem um tempo diferente dos demais. Ele para na vaga de deficiente e de idosos, mas com ele é tudo rapidinho, é só ali, só 10 minutinhos. Mas daí tem dias que não tem jeito… a Marginal tá travada e ele vai se atrasar de qualquer jeito. Porém, o espertão é bastante apegado ao metro quadrado de asfalto. Logo, ele se mantém o mais próximo possível do carro da frente, de modo a impossibilitar até a passagem de um pernilongo. Imagina só se alguém rouba aquele pedacinho de chão que é só dele?!

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O espertão é muito macho. Ele é tão, mas tããão foda que canta pneu quando sai do farol, reafirmando a sua masculinidade e virilidade até atingir os 60 km/hr. Ah, ele também tem fobia de seta, porque dar seta ou qualquer sinalização é coisa de veado. Daí ele já chega embicando com tudo, não agradece, não gesticula. Gentileza gera gentileza é o c*ralho!

O espertão muito é valente também. Ele sente prazer ao xingar alguém no trânsito, pois esta é a melhor forma que ele encontra em aliviar toda a sua frustração fora das 4 portas. Desta forma, ele mentaliza sua infelicidade e/ou stress na vida profissional, pessoal e amorosa por meio de agressões gratuitas – sejam estas verbais ou físicas. Ele desce do carro mesmo, e se for para uma mulher então… aí que ele não se esconde por trás do insulfilm e se sente realizado como homem! Com sua carinha de marrento, ele profana as palavras “puta”, “vagabunda” e “vadia”… tinha que ser mulher mesmo!

O espertão odeia. Odeia sempre e muito. Odeia motoboys, embora sempre reclame quando o boy da firma se atrasa. Odeia ônibus porque atrapalha o trânsito e a sua capacidade de mobilidade urbana. Odeia o PTralha do prefeito que colocou mais faixas ~inúteis~, mas também odeia quando alguém chega atrasado porque veio de transporte público. Odeia também quando a CET o flagra arrasando nas faixas exclusivas. Pô, puta sacanagem isso… ele é quem nasceu para ser exclusivo!

O espertão é super sortudo. Ele confia cegamente na sorte que tem, pois desde pequeno a sua mãe diz que ele é muito iluminado. Ou seja, ele pode beber o quanto quiser e dirigir, porque além de dirigir melhor quando bêbado, os acidentes só acontecem com os outros – e os outros, são sempre os outros e só. Despreocupado, o espertão para na faixa de pedestres e passa no sinal vermelho sempre que possível, não tá nem ai. O povo desvia, o povo para, ~ISSO É BRASIL~.

O espertão, por fim, compõe a estatística de pessoas com transtornos mentais na maior cidade do Brasil. Se você, querido smartão, estiver lendo esse texto, deixo apenas uma dica: você NÃO é nem um pouco esperto, campeão.

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Reflexões de um filme B

por Maria Shirts

No último domingo, chuvoso e modorrento, procurava um filme bem B pra assistir com o meu pai e meu irmãozinho Sammy. Gostamos desse programa – domingo, Giggio e NET Now. Sabemos que acertamos quando achamos um filme de ação bem onomatopéico, com aquele roteiro bem basicão.

Mas nesse último domingo não foi tão fácil. Primeiro começamos a assistir a uma trama de “agente SEAL  é sequestrado no Iraque e colegas vão resgatá-lo”. Tinha bastante coisa para ser o nosso suprassumo do filme B, mas a narração em off com um texto mequetréfe e as péssimas atuações fizeram dele um filme D, quiçá F. Depois de 8 minutos, fomos obrigados a desistir.

Depois de algum tempo de procura, nos conformamos em ver O Inimigo do Estado, aquele do Will Smith que sempre te olha da prateleira da locadora, mas, no fim, não sei porque, não te convence a levá-lo. Pois o início me pareceu muito bom, com John Voight (o pai da Angelina Jolie) arrasando no elenco. O problema é que já nos 5 primeiros minutos tivemos que parar o filme e explicar pro Sammy o que acontecera e, quando meu pai viu que eu já ia discorrer sobre os trâmites do NSA pra criança, achou melhor trocar de filme.

Quando já pensávamos em desistir, achamos um filme com aquela carona de B Hollywoodiano, o melhor dos anos 90, com enredo de conflito entre russos e americanos (a Rê Bordosa da Guerra Fria). E ainda com Richard Gere e Bruce Willis no elenco…”perfeito!”, pensamos os três. Mentira, acho que o Sammy só achou muito legal. E eis que demos play em O Chacal.

Você já deve ter visto na Tela Quente mas, se não viu, conto que se trata de um filme policial de perseguição (americana E russa) ao terrorista Chacal (Bruce Willis), cuja identidade é desconhecida. As únicas 6 pessoas deste mundo vasto mundo que o viram estão mortas, com exceção de dois integrantes do IRA, o grupo separatista irlândes. Um desses integrantes, Declan Mulqueen (Richard Gere), está na prisão de segurança máxima por ser considerado um perigoso gerrilheiro-terrorista e a outra, Isabella (Mathilda May), mudou de identidade e vive numa bucólica casa de campo com a nova família.

Ao longo da trama o espectador descobre porque o Chacal e Declan Mulqueen se conhecem de outros carnavais, e porque o irlandês vira peça chave na investigação. Lá pelas tantas, Mulqueen se revela um verdadeiro herói, com habilidades estratégicas invejáveis e um simpático semblante de irlandês porra louca. Quando menos se percebe (como em todo bom filme B) estamos já nos emocionando com ele, torcendo por sua vitória, pra que ele ache o Chacal e ganhe a mocinha.

Bom, o fim, pouco importa. Depois que acabamos, olhei de soslaio pro meu pai e percebi que ele se perguntava a mesma coisa. Foi aí que joguei na mesa: “Você reparou que o herói é também um terrorista?”. Pois é. Mulqueen é tido, por vários momentos, como um criminoso inveterado, vigiado o tempo inteiro pelos agentes da CIA que pedem a sua ajuda, e ainda mais odiado por ser a peça chave da ajuda. Imagine você que, quando conquista a confiança desses agentes, Mulqueen ganha até uma arma!! Quando que, no nosso mundo pós 11 de setembro, semelhante cena seria produzida? Seria algo inverossímel, até de mau gosto.

Ingenuamente, foi a primeira vez que eu percebi que o cinema e a indústria cultural como um todo (pelo menos a mainstream) também tem que se adaptar ao curso dos acontecimentos. Olha só! A verossimilhança muda porque os tabus e demais “regras sociais” mudam. Sei que é óbvio, mas também um pouco curioso. Mundo, louco mundo! E vamos acompanhando o seu curso…

 

Bruce Willis (com cabelo!!) é o Chacal

Bruce Willis (com cabelo!!) é o Chacal

Os belos tempos modernos

Por Hannah Maruci Aflalo

Durante uma aula de história, uma aluna minha da oitava série me contava como achava religião um absurdo. Ela me explicava como tinha decidido, já há dois anos, que era agnóstica e como seus pais achavam tal fato inaceitável. Ela se incomodava com a desqualificação que eles dirigiam aos pensamentos dela dizendo que aquilo era “apenas uma fase”. “Não, não é uma fase”, ela dizia. Estudante de colégio católico, ela mesma parecia assustada com sua própria decisão e repetia pra si mesma que não estava fazendo nada de errado. Apesar de não ter sofrido pressões nesse sentido dentro de casa, me identifiquei com a aflição dela de várias maneiras. Não é raro alguém me perguntar, quando digo que sou ateia, coisas como: “Então você não acredita em Deus?”, seguida logo de uma outra pergunta, emitida com perplexidade após a confirmação da primeira: “Mas então você não acredita em nada?”. Claro que acredito, acredito em muitas coisas. Apenas não acredito em deuses, messias e, muito menos, em virgens marias. Para alguns é inadmissível que outros não acreditem numa força maior que nos guie, simplesmente porque lhes parece insuportável que esse guia não exista. “Mas então você não tem fé?”, curiosamente, fé não é algo exclusivo das religões, é possível acreditar cegamente em praticamente tudo. Mas até aí, são apenas alguns desconfortos cotidianos pelos quais todos passamos. O que realmente me assustou foi quando, ao me perguntar se eu era ateia e eu responder que sim, a resposta da minha aluna foi: “Eu já tinha percebido, mas eu não contei pra minha mãe porque ela gosta muito de você e isso iria mudar muito a opinião dela”. Em outras palavras, ela estava me dizendo que, caso a mãe dela soubesse de minha “orientação religiosa”, ela não a deixaria mais ter aulas comigo. Sempre tomei muito cuidado para não impor aos meus alunos minhas visões políticas, embora eu saiba que neutralidade é uma bobagem. Mas acho que fui ingênua ao pensar que não haveria consequências em dizer, em qualquer lugar, que sou ateia. A convivência na universidade nos faz muitas vezes pensar que vivemos num mundo muito menos conservador do que realmente vivemos e que nele pode-se sim perder um emprego por não se acreditar em Deus.

Mulher é…

Periguete. Feminazi. Puta. Pra casar. Gorda. Gostosa. Fácil. De respeito. Rodada. Direita. Ser mulher é andar na corda bamba dos rótulos sociais, numa vigilância incansável dos fiscais da moral e bons costumes. Nosso corpo é alvo de julgamento constante, inclusive de nós mesmas.  A violência contra a mulher toma muitos formatos e atinge 70% das mulheres do mundo em algum momento de nossas vidas. Pode isso?

Não! O dia de hoje, 25 de Novembro, é o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. Este ano o IPEA divulgou uma pesquisa sobre a violência contra a mulher no país e a coisa tá feia. Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que já foi vítima de violência, e para 70% da população a violência dentro de casa é mais forte do que a dos espaços públicos. No país da Maria da Penha, muitas mulheres não chegam a denunciar a violência que sofrem por acreditar que não haverá punição. O feminicídio faz no Brasil, em média, 5.664 mortes por ano, o que equivale a uma vítima a cada 90 minutos. Os parceiros íntimos são responsáveis por 40% desses crimes, enquanto a proporção no caso de homens assassinados é de 6%. O que, com algum eufemismo, sugere fortemente que o gênero é o fator preponderante. A maioria das vítimas era negra (61%) e baixa escolaridade (48%). Mulher, preta e pobre chega a ser quase uma maldição. O óbito é a expressão máxima do machismo, mas também se deve estar atento às formas mais sutis.

Eu nunca fui sujeita a violência doméstica, meus pais não me educaram de forma sexista e eu pude crescer sem sentir o forte machismo em meu cotidiano. Posso me considerar bastante sortuda frente a esses números. Meu erro é esperar que essa sorte continue nesse mundo véio sem porteira assim que saio de casa.

Muitas são as técnicas para evitar o desgosto dessas situações: mudar a forma de vestir, escolher caminhos alternativos, evitar o contato visual, não usar transportes públicos ou andar de fones para não ouvir comentários indesejados são alguns exemplos. O debate sobre o assédio nas ruas ganhou força com a campanha Chega de Fiu Fiu, que questionou quase 8.000 pessoas. A relação entre cantada e violência física é nítida: 85% das respondentes já foram agredidas fisicamente.

Quando abusos acontecem, ainda somos obrigadas a aturar outra face do machismo resumida em “mas ela pediu por isso”. Essa brilhante análise é feita por homens e mulheres com base em: tamanho de saias, maquiagem, decotes, teor alcoólico no sangue, entre outros. Quando nenhum desses itens é encontrado, talvez o homem seja culpado. Talvez.

O machismo tem impacto também na vida dos homens, rotulando qualquer desvio do comportamento neanderthal como bichice. Sempre que o homem se feminiliza, ele desce um degrau na cadeia hierárquica, afinal, quanto mais próximo de uma mulher você for maior será o desprezo. Chorar? Demonstrar sentimentos? Vaidade? Coisa de menininha. Aqui, nesse país de cabras machos, não pode não!

Mas não se iluda de que lá no famigerado primeiro mundo as coisas estejam resolvidas. Recentemente a Bélgica foi estremecida com 17 minutos de um documentário chamado Femme de La Rue. Sophie Peters gravou com uma câmera escondida o seu caminho pelas ruas da capital Bruxelas e registrou os impropérios pelo caminho. Resultado: o país instaurou uma multa de 75 a 250 euros para quem assedia mulheres na rua. Simplório e paliativo, por mais que passe uma mensagem.

Outras soluções são ainda mais questionáveis, como vagões apenas para mulheres no metrô, o que já acontece no Rio de Janeiro. É um cercadinho onde os homens não podem chegar e assim as mulheres teriam paz. Mas e o restante do espaço público? Transforma a mulher em coisa pública também? Entender isso como avanço é negligenciar a inércia que traz, sem alterar a lógica que torna aquele ambiente hostil e toda mulher em puta. Apenas quando questionarmos da mais sutil forma de violência ao feminicídio é que rompemos esse ciclo. Que esse dia sirva para refletir sobre os preconceitos que estão dentro de todos nós e nos comentários maldosos, nos olhares maliciosos e nas desculpas esfarrapadas. Até porque não há nada mais sexy do que homens feministas e mulheres livres.

Selena sem celular

Selena olhou a tela de seu computador, seu fiel escudeiro de todos os dias. Abriu uma gigantesca tabela Excel que se estendeu pela infinitas planícies da tela vertical. Na caixa de entrada, trinta e-mails a serem descobertos. Ótimo.

Uma hora de trabalho passou sorrateira. E então, Selena foi acometida por uma poderosa força, conhecida por muitos e que há milênios permite a evolução da humanidade. Em outras palavras, o tédio.

Mas Selena é uma mulher precavida. Para sanar essa pequena onda de marasmo, abriu sua bolsa e, delicadamente, retirou seu antídoto: seu smartphone de última geração. Novidades? Whatsapp: vinte mensagens não lidas. Facebook: dez curtidas na sua foto de perfil. Quanta alegria. E por que não uma partidinha de Angry Birds antes de retomar o batente?

Mas então, veio o horror. A tela, que já tinha começado a estampar uma chuva de belicosos passarinhos, foi impiedosamente substituída por um aviso: “bateria esgotada”. Selena arregalou os olhos e lembrou-se: “Esqueci o carregador”. E então, o vazio. Como sobreviver a este dia de trabalho sem… ele?

(…)

Selena pousou o celular desprovido de vida sobre sua mesa, botou a mão no queixo e pôs-se a fitar com incomum perícia aquele objeto tão presente no seu cotidiano. Algo ocorreu. Suas sinapses iniciaram uma orquestra mental e, rememorando seus auges das aulas de filosofia, Selena sacou uma folha branca, tirou uma caneta da bainha e começou a fazer algo que há tempos não fazia: pensar.

E as idéias foram surgindo…

“Celular, celular…O que é um celular?

Primeiro, uma extensão de meus neurônios. Uma cópia de bolso de meus contatos, de minhas memórias e de meus pensamentos. Um farol que indica da minha posição no Planeta Terra e relata minhas atividades no instante presente.

É uma máquina de falar? Está mais para uma máquina de ler, escrever e registrar.. 

Um agente revolucionário das relações amorosas. Dele, brotou uma nova cultura de flerte, pautada pelo “tempo de demora para responder”, na sutileza das linguagens de  emoticons, nas mensagens engarrafadas e embutidas nas linhas de SMS. Tudo mais rápido, tudo mais frágil?

Um celular é uma janela. Para você fitar o mundo. Mas também para o mundo olhar para você. É como uma das milhões de extremidades de um ser colossal, uma infindável e invisível medusa que tem seu fim em nossos bolsos e bolsas. Um  hecatônquiro[1], quem sabe? Mais do que isso, é um dos olhos do Grande Irmão.

Uma máquina portátil de alienação. O trabalho me segue, “aonde quer que eu vá”.

Um item social total, suporte para uma conexão generalizada e permanente. A via real para um projeto de onisciência e outro de onipresença.

Com ele eu sei tudo. Você me acha, aonde eu estiver. Eu acho o que eu quiser, quando eu quiser”.

Selena parou de escrever. Respirou fundo um par de vezes. Olhou para sua folha e depois para o relógio. De novo, irrompeu o tédio. A isso veio adicionar-se um indeterminado sentimento de angústia. Era solidão, uma solidão de raízes impulsivas. Uma sensação de desorientação, de não se saber o que ocorre no mundo. Uma coceira no cérebro. “Será que alguém me mandou mensagem”?. Outra coceira no cérebro.

Selena deixou a caneta, recuperou seu celular moribundo e foi caçar um carregador.


[1] Ser mitológico de 50 cabeças e 100 braços

Dia Nacional do White Mimimi

por Emiliano Augusto

Se tem algo que eu quero pedir para Tim Maia, o Papai Noel dos Crioulos pra vocês que não sabem, é que ano que vem o dia do white mimimi caia numa data diferente da do Dia da Consciência Negra. Não quero nem ser irrealista e pedir que tal data não aconteça, porque todos sabemos que o white mimimi não tem fim e precisa de muitos e muitos dias pra se sentir minimamente satisfeito, mas acredito que não é demais pedir um dia de folga que seja.

E aos meus amigos brancos algo de esquerda que estão rindo-se e pensando nos racistas assumidos e racistas ingênuos compartilhando aquele famigerado vídeo do Morgan Freeman ou a imagem facebookiana da consciência humana, apenas peço que parem: esta postagem é direcionada a vocês também. Aliás, primariamente a vocês, já que eu não tenho vocação pra discutir com comentarista de portal e eles não são meu público leitor.

O dia 20 de novembro é um dia que geralmente eu reservo para o silêncio e para a audição. Desde o ano passado eu escrevo algumas palavras sobre a materialidade da consciência e o imperativo de se desenvolver uma consciência de cor, e fora isso eu calo a minha boca. Porque embora eu não chegue a ser exatamente um em cada dez, a minha experiência não é em sua totalidade a experiência da população negra brasileira. Eu aprendi a não sair de casa sem documentos, mas a carteirinha da USP garante o direito de o policial parar de apertar o seu saco durante a revista, coisa que o RG e o CPF nem sempre garantem. Minha formação me permite acesso, ainda que um pouco limitado por vezes, a bens, relações, postos, etc. a que a grande maioria da população negra não tem. E no dia 20 eu prefiro ouvir as histórias dessa grande maioria.

Porém, eu não consigo ouvir, porque vocês, meus amigos brancos, de esquerda, anti-racistas, estão poluindo minhas redes sociais e meus ouvidos com suas histórias de white mimimi. Sabem aquela história de 86% dos brancos brasileiros afirmarem que não têm preconceito contra negros, mas 92% reconhecerem que existe racismo no Brasil (o que cria a belíssima imagem de que todo brasileiro se sente uma ilha de democracia racial cercada de racistas por todos os lados)? Pois então, as suas histórias de como vocês descobriram seus privilégios brancos, as histórias de suas empregadas negras quase avós como se fossem da família barrada pelos horríveis porteiros dos prédios são a expressão disso no plano dos depoimentos de internet.

E porque eu chamo de white mimimi? Porque a única maneira de que isso se relaciona com uma consciência negra é pela constatação de que pessoas brancas não conseguem parar e ouvir nem no dia da consciência negra. Eu chamo de white mimimi porque leio como uma tentativa de sinalizar: “veja, eu não sou racista!” Esse dia pode ser um dia pra muitas coisas, mas eu duvido que o uso mais adequado dele seja para a expiação dos seus pecados — sequer é um feriado religioso. Desculpem-me, não consigo ser mais claro que isso: não tem como vocês serem os protagonistas na formação de uma consciência negra.

Então abram o espaço para quem pode e deve ser. Só este dia. Desbloqueiem os ouvidos, as redes, e as vias. Pode ser melhor pra vocês, mesmo que vocês tenham que ficar quietinhos. Só por um dia.