Mulher é…

Periguete. Feminazi. Puta. Pra casar. Gorda. Gostosa. Fácil. De respeito. Rodada. Direita. Ser mulher é andar na corda bamba dos rótulos sociais, numa vigilância incansável dos fiscais da moral e bons costumes. Nosso corpo é alvo de julgamento constante, inclusive de nós mesmas.  A violência contra a mulher toma muitos formatos e atinge 70% das mulheres do mundo em algum momento de nossas vidas. Pode isso?

Não! O dia de hoje, 25 de Novembro, é o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. Este ano o IPEA divulgou uma pesquisa sobre a violência contra a mulher no país e a coisa tá feia. Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que já foi vítima de violência, e para 70% da população a violência dentro de casa é mais forte do que a dos espaços públicos. No país da Maria da Penha, muitas mulheres não chegam a denunciar a violência que sofrem por acreditar que não haverá punição. O feminicídio faz no Brasil, em média, 5.664 mortes por ano, o que equivale a uma vítima a cada 90 minutos. Os parceiros íntimos são responsáveis por 40% desses crimes, enquanto a proporção no caso de homens assassinados é de 6%. O que, com algum eufemismo, sugere fortemente que o gênero é o fator preponderante. A maioria das vítimas era negra (61%) e baixa escolaridade (48%). Mulher, preta e pobre chega a ser quase uma maldição. O óbito é a expressão máxima do machismo, mas também se deve estar atento às formas mais sutis.

Eu nunca fui sujeita a violência doméstica, meus pais não me educaram de forma sexista e eu pude crescer sem sentir o forte machismo em meu cotidiano. Posso me considerar bastante sortuda frente a esses números. Meu erro é esperar que essa sorte continue nesse mundo véio sem porteira assim que saio de casa.

Muitas são as técnicas para evitar o desgosto dessas situações: mudar a forma de vestir, escolher caminhos alternativos, evitar o contato visual, não usar transportes públicos ou andar de fones para não ouvir comentários indesejados são alguns exemplos. O debate sobre o assédio nas ruas ganhou força com a campanha Chega de Fiu Fiu, que questionou quase 8.000 pessoas. A relação entre cantada e violência física é nítida: 85% das respondentes já foram agredidas fisicamente.

Quando abusos acontecem, ainda somos obrigadas a aturar outra face do machismo resumida em “mas ela pediu por isso”. Essa brilhante análise é feita por homens e mulheres com base em: tamanho de saias, maquiagem, decotes, teor alcoólico no sangue, entre outros. Quando nenhum desses itens é encontrado, talvez o homem seja culpado. Talvez.

O machismo tem impacto também na vida dos homens, rotulando qualquer desvio do comportamento neanderthal como bichice. Sempre que o homem se feminiliza, ele desce um degrau na cadeia hierárquica, afinal, quanto mais próximo de uma mulher você for maior será o desprezo. Chorar? Demonstrar sentimentos? Vaidade? Coisa de menininha. Aqui, nesse país de cabras machos, não pode não!

Mas não se iluda de que lá no famigerado primeiro mundo as coisas estejam resolvidas. Recentemente a Bélgica foi estremecida com 17 minutos de um documentário chamado Femme de La Rue. Sophie Peters gravou com uma câmera escondida o seu caminho pelas ruas da capital Bruxelas e registrou os impropérios pelo caminho. Resultado: o país instaurou uma multa de 75 a 250 euros para quem assedia mulheres na rua. Simplório e paliativo, por mais que passe uma mensagem.

Outras soluções são ainda mais questionáveis, como vagões apenas para mulheres no metrô, o que já acontece no Rio de Janeiro. É um cercadinho onde os homens não podem chegar e assim as mulheres teriam paz. Mas e o restante do espaço público? Transforma a mulher em coisa pública também? Entender isso como avanço é negligenciar a inércia que traz, sem alterar a lógica que torna aquele ambiente hostil e toda mulher em puta. Apenas quando questionarmos da mais sutil forma de violência ao feminicídio é que rompemos esse ciclo. Que esse dia sirva para refletir sobre os preconceitos que estão dentro de todos nós e nos comentários maldosos, nos olhares maliciosos e nas desculpas esfarrapadas. Até porque não há nada mais sexy do que homens feministas e mulheres livres.

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