O que é uma esquina?

Por Ivan Nisida

 Uma esquina é o encontro de duas ruas, diria a mais básica definição, aquela da ponta da língua. Mas o olhar mais exigente mostra mais sobre a natureza deste ente tão complexo.

Uma esquina pode ser muitas coisas. Pode ser o ponto de encontro casual entre dois amantes que se descobriram recentemente. Ou a plataforma laboral de alguns ramos profissionais. Ou o epicentro de uma briga de bar. Até mesmo o palco de uma cotidiana tragédia trânsito, forjada por ferro e pura energia cinética. O lar do tudo e do nada.

Uma esquina se apresenta como um lugar único no espaço. Ou melhor, mais precisamente, é um não-lugar (utopia?) no espaço, pois ela não pertence exclusivamente a nenhuma das ruas que a compõem e, ao mesmo tempo, pertence às duas. A esquina é como duas verdades que se negam na teoria, mas que na prática podem conviver. A esquina carrega portanto uma preciosa anedota sobre a coexistência, é fronteira ilegítima, não traçada e muda. Para a intolerância humana, eis um antídoto.

 A esquina é uma biblioteca.

 Por sua natureza dual, a esquina nos ensina sobre identidade. Ela é uma, mais feita de duas. Nem de uma, nem de outra. Das duas, ao mesmíssimo tempo.

Na hermenêutica das esquinas, consta que as cidades, especialmente as grandes cidades, não são compostas de ruas, túneis e avenidas. Cidades são ninhos de esquinas, que se conurbam e se multplicam numa infindável teia de esquinas. Aliás, as cidades sao feitas de esquinas (e nãio de ruas). Ruas são secretamente intolerantes, revelam apenas uma visão cimentada e atrofiada do cosmos. A rua cega e leva a um só caminho. A esquina (se) abre. Sim a esquina se abre, ela dá passagem e oferece caminhos.

A magia, aquela de verdade, acontece nas esquinas.

Acontece no encontro, na troca, na fusão que encaminha a evolucão. Quem sabe o planeta Terra não seja também uma esquina, um encontro da Rua do Acaso com a Rua da Vontade de Existir? Seria então a maior esquina do universo, aquela que nos deu origem.

 O encontro acontece em toda esquina.

Mas se há encontro em toda esquina e se a vida é a arte do encontro – embora haja tanto desencontro na vida*- entao a esquina metaforiza respeitavelmente a vida.

Quem sabe. Eu gosto de crer nisso.

E para você que discorda, se duvida, vai ver se eu estou lá na esquina…

*Samba da Bençao, Vinicius de Moraes

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A Trindade Nortista: estados ricos, governos pobres e povos miseráveis

Sebastião Salgado

Fotografia de Sebastião Salgado

Chegada a época natalina, é momento de sair pra comprar presentes, organizar os enfeites de fim de ano, comprar as comidas, ver aqueles parentes que só vemos uma vez por ano. Para mim, em minha vida de migrante lá na paulicéia, é período no qual revejo a família e alguns velhíssimos amigos, passeio pelas ruas e mangueiras de Belém, e renovo o contato com minhas raízes. É por isso que hoje escrevo sobre um tema pouco conhecido, mas extremamente importante pra mim, paraense, mas também para todos aqueles que se preocupam com o bem estar de todos os brasileiros, em especial os mais pobres deles. Trata-se da ausência de uma política social e de desenvolvimento para a região Norte do país. Nesse artigo mencionarei com mais frequência o Pará, estado que por motivos óbvios eu conheço mais, mas boa parte das características que valem para o Pará valem para toda essa região quase esquecida, na qual reina uma trindade distinta da natalina: a de estados ricos, governos pobres, e um povo miserável.

Em primeiro lugar, que se diga de cara: a região norte é a mais rica do país em recursos naturais. É a região da floresta amazônica, onde existem bilhões de reais em botânica inexplorada e mais bilhões em madeira, sendo que essa é derrubada ferozmente há 4 décadas. É também a região de maior quantidade de água potável do mundo, onde há uma rica vida fluvial, e também um imenso potencial hidrelétrico (que começa a ser mais explorado agora com hidrelétricas como Rio Madeira, Santo Antônio, Jirau e Belo Monte). É disparada a maior região do país, com 42% do território nacional (um território maior do que a Índia), o que significa terras fartas para desenvolver diversas atividades de agropecuária ou extrativismo. E finalmente, tem os minérios. Ah, os minérios. Ferro, bauxita, ouro, manganês, estanho, calcário… É pelos minérios que a região norte (em especial o Pará) tem um balanço comercial extremamente favorável (tendo esse saldo um impacto inclusive nas contas nacionais).

Em seguida, é importante apontar o aspecto populacional. A região Norte se encontra em grande transformação demográfica. Logo pra início de conversa é importante dizer: o Pará é um estado populoso! Certamente não são os 40 milhões de habitantes de São Paulo, os 15 do Rio ou os 15 da Bahia. Mas são 7,5 milhões de habitantes, o que põe o estado a frente de Maranhão, Santa Catarina ou Goiás. Mais importante do que isso, é um estado em franco crescimento demográfico, assim como a região norte. Veja, no período de 2000-2010 a população do sudeste cresceu 10%, a do Nordeste 12% e a do Sul 9%. Já a do Norte e Centro-Oeste cresceram respectivamente 21% e 23%, o dobro do crescimento acumulado das outras regiões. No Norte há o caso de estados como o Amapá e Roraima, onde o crescimento foi de 40%. Por que isso ocorre, porque os nortistas, e principalmente os amapaenses, são bons de fazer filho? Não exatamente. O crescimento acelerado da população do Norte (e também do Centro-Oeste) se dá por conta da migração.

E é aqui que a discussão se nacionaliza. De que tipo de imigração estamos falando? Sem dúvida falamos de alguns profissionais qualificados, como médicos e engenheiros, que querem ganhar mais onde esse tipo de mão de obra é escarça. Mas na esmagadora maioria, falamos daqueles brasileiros que pela completa ausência de qualificação não vão para as capitais do Sudeste, Sul ou Nordeste, estas últimas em franca expansão econômica. Eles vão para a fronteira agrícola do país (as regiões Norte e Centro-Oeste), trabalhar nas atividades primárias da economia: agropecuária e garimpo, nas quais a exigência intelectual é mínima. São aqueles sem nome que saem de suas casas no Nordeste deixando suas famílias sem contato, e às vezes terminam no trabalho escravo ou desaparecidos em valas comuns nas fazendas do sul do Pará. O que ocorre hoje, portanto, é que a região Norte (e, de cara, Pará e Amapá, que são estados mais próximos do Nordeste) está importando os miseráveis de outras partes do Brasil, em especial dos estados nordestinos mais miseráveis: Maranhão, Piauí e Paraíba.

Essa transformação gerou uma estrutura social bem particular. Experimente ir para o sul e sudoeste do Pará, onde hoje está a fronteira agrícola do estado. Lá você encontrará gente de todo lugar, como nas pequenas cidades de filmes de faroeste. Mas, principalmente, encontrará uma divisão. Primeiramente vêm os paulistas, mineiros, goianos, gaúchos. Estes em geral são a elite: os donos de terras, funcionários públicos e profissionais liberais que vieram para a fronteira investir em terras ou em suas carreiras. Em seguida vem os maranhenses, piauienses, paraibanos, baianos. Estes, via de regra, são os desesperados. Aqueles que vêm sem absolutamente nenhum dinheiro nem nenhum capital, apenas a força de trabalho para vender.

Importar miseráveis é uma realidade já de cara preocupante. Pois gente miserável significa gastos e mais gastos. Gastos com assistencialismo, para impedir que muitas dessas pessoas passem por situações calamitosas. Gastos com educação, para educar não só esses trabalhadores como suas famílias, que vem acompanha-los tão logo a situação melhora um pouco. Gastos com saúde, pois seres humanos, em especial aqueles que costumam trabalhar em condições deploráveis de trabalho, costumam ter problemas de saúde. E, finalmente, gastos com segurança, pois junte algumas pessoas sem as noções mais básicas de civilidade porque não frequentaram escolas, acrescente álcool, prostitutas, conflitos de terra e de classe, e espere pra ver o que acontece.

É nessas horas que nós começamos a ver algumas cenas e nos perguntar: “onde está o governo?”. Onde ele foi parar? E ninguém por lá consegue te responder direito. E não conseguem porque, na verdade, o governo não existe. E não existe não só por causa das típicas má-gestão e corrupção dos políticos da região norte (já que os de São Paulo pra baixo, como todos sabem, são todos competentes e honestos). Não existe simplesmente porque a região norte vive a curiosa realidade de ter ao mesmo tempo estados ricos e governos pobres.

Ué, mas como pode um estado como o Pará, que desde 1998 tem uma trajetória do PIB bem acima da média nacional, que tem um saldo comercial de exportações positivo de 4,4 bilhões de dólares, ter um governo sem dinheiro? É simples: a atividade econômica simplesmente não é tributada. Em primeiro lugar, observemos o agronegócio. Para quem não sabe, o ICMS (principal imposto de qualquer estado) pago pelo gado não se paga na fazenda, mas quando esse gado é abatido. Ou seja, as milhões de cabeças de gado que existem no Sul do Pará não geram um único centavo ao estado mas sim a São Paulo, onde ficam os frigoríficos nos quais esse gado é abatido e devidamente embalado e exportado.

Em seguida, olhemos o que é mais óbvio, a maior riqueza do estado que são seus minérios. Em 1996 o governo Fernando Henrique Cardoso e seu ministro do Planejamento, Antonio Kandir, aprovaram a lei complementar no 87, a “lei Kandir”. Desconhecida da maior parte dos brasileiros, mas bem conhecida pelas pessoas por aqui. Essa oportuna lei gera incentivos a algumas exportações: produtos primários, produtos semi-industrializados e serviços exportados. O incentivo é: esses produtos, dentre eles todos os minérios, deixam de pagar ICMS. Isto é: não pagam nada de imposto aos estados. Nada. Nem um pouquinho. 0. Niente.

Algum economista ingênuo e que vive no fantástico mundo dos manuais econômicos pode se perguntar: “puxa, mas pra que gerar um incentivo para os produtos primários, a lógica não seria incentivar a exportação de produtos industrializados?”. É verdade, mas aí eu contarei uma estorinha. Era uma vez nos anos 90 um governo. Pensando por aí nos corredores do planalto, esse governo começou a pensar…

“Puxa, tô precisando criar umas reservas externas aqui, pra lastrear minha moeda nova. Umas exportaçõezinhas seria bacana, a gente pode gerar incentivos da galera… Mas que imposto cortar? Imposto federal nem pensar, que mexe com a nossa arrecadação! Mexe com ICMS que aí é com os estados. Beleza, vamos cortar o ICMS pra exportar! E o que é melhor incentivar? Já sei: produtos manufaturados, são os que tem o maior valor agregado! Opa, mas pera lá, se eu isentar os produtos industrializados os estados mais ricos do país, como São Paulo, entrarão numa situação financeira complicada… Melhor não mexer com os paulistas. Então tá certo, vamos isentar o ICMS dos produtos primários, tá subindo o preço das commodities aí e desse jeito a gente mexe com os estados pobres, e pobre já tá acostumado com aperto mesmo!”

E assim o tempo passou e passou. O exportadores de minério ficaram felizes, o país constituiu suas reservas, a indústria foi minguando aos poucos e a exportação de commodities prosperou. E o estado do Pará, cuja únicas riquezas eram o minério e o gado? É, pois é. Aí começou-se esse mistério da trindade composta de um estado rico, um governo pobre, e um povo miserável. Com estes últimos crescendo mais e mais, a cada ano que passa.

Por que falar de tudo isso, bem nessa véspera de Natal? Bom, primeiro porque, como eu disse no início, eu me preocupo com meu estado e minha região. Depois porque eu me preocupo especialmente com essas milhares de pessoas que chegam por aqui todos os anos, que não tem culpa de viverem em condições absolutamente miseráveis em seus estados e ambicionar uma vida melhor, mesmo que isso signifique trocar de vida, correr tantos riscos. Mas finalmente, faço porque faço um apelo. Neste fim de ano, quando fizerem as “retrospectivas” do ano de 2013, lembre-se que esse tal de Brasil não é uma entidade abstrata. É um território enorme, composto de muitas pessoas e regiões diferentes, cada um com seus problemas e questões bem particulares. Neste Natal use seu espírito natalino, e pense na solidariedade, pense nos diferentes e nos distantes. Quem sabe assim podemos ser menos essa entidade abstrata e podemos ser mais algo concreto.

Os nomes do demônio

Por Emiliano Augusto

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.

Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940

Na mitologia cristã, na tradição das magias (ou no RPG, eu nunca lembro. Não que sejam coisas diferentes), os demônios nunca revelam seus nomes, porque saber um dos nomes de um demônio confere ao dono de tal saber poder sobre a criatura abissal. Na vida real, não é diferente: devemos ter muito cuidado com as terminologias que surgem como práticas salvadoras. Muitas vezes elas encobrem o nome de um demônio para que façamos por ele seu trabalho. Esse parece ter sido o movimento padrão para a conciliação de classes se instalar no seio das esquerdas nos últimos anos.

O cenário hoje nas esquerdas não é muito animador: temos tarefas demais pra realizar, e a falta de encontrar um núcleo comum entre elas nos mantém refém da fragmentação de todas as particularidades que a realidade manifesta. Esgarça-se o diálogo entre os feminismo negros e brancos, entre a causa LGBT e os movimentos anti-racistas, entre esses movimentos e a esquerda que reivindica a tradição revolucionária, pra ficar em pautas que têm bastante entrada nos grandes centros urbanos e na internet. Mesmo as poucas organizações que agem em todas essas frentes têm dificuldade para superar a separação que se apresenta e criar uma linha de ação que consiga juntar os variados anseios que pautam os diferentes setores que se sentem tocados mais por esta ou por aquela frente.

Se eu posso fazer uma autocrítica em nome da esquerda que reivindica a tradição revolucionária (quanta pretensão!), aponto que nossa tentativa de apontar um núcleo comum entre essas lutas, embora estivesse lá, sempre foi muito débil ao longo do século XX. A resposta padrão — o capitalismo causa todos esses problemas — sempre soou mais como desejo de resolução simples do que uma resposta realmente ligada a uma teoria bem desenvolvida subordinada a uma estratégia de longo prazo. Isso nos deu dificuldades de pensar políticas, ainda que parciais, para atrair esses setores, que segundo nós mesmos são os mais explorados dentro do atual modo de produção e, por isso, de suas fileiras, sairão os combatentes com mais sangue nozóio pra destruí-lo. Nesse espaço que nós abrimos, instalou-se a esquerda reformista (e já que o tema são os nomes, provocação: raramente a esquerda reformista se anuncia como tal), cujas propostas adereçam, ainda que parcial ou limitadamente, problemas bastantes sensíveis para esses setores, mas que, em última instância, a longo prazo mais ajudam a manter o edifício que queremos derrubar de pé do que o contrário (estou pensando numa reivindicação que é comum aos movimentos negros, feministas, e LGBT: melhor representação midiática. Nós queremos destruir essa maneira de comunicação que funciona sob o signo da mercadoria, ou nós só queremos que os meios de comunicação nos vendam produtos também?).

É nessa conjuntura que certa confusão tem se espalhado e se tornado elemento central dos discursos de diversos movimentos. Embora não seja algo exclusivo do feminismo, nesse movimento (que, vocês sabem, não é homogêneo, nem todo mundo concorda com tudo, alguns termos mudam de sentido de linha para linha) há um termo que cristaliza isso: sororidade. Minhas colegas feministas podem explicar melhor o que ele significa, todas as nuances envolvidas, todos os sentidos que a palavra pode ter. A mim, só interessa por causa de algo que li recentemente: uma autora reclamava da falta de sororidade de outras feministas que a criticavam publicamente. É um acontecimento banal e anedótico, apenas quero usá-lo para ilustrar a seguinte afirmação: é temerário pensar que todas as mulheres dividem os mesmos interesses e por isso não podem ser criticadas por outras mulheres (façam a conta e extrapolem para outros setores, categorias, grupos, atores sociais, etc.).

Quando interesses divergentes entram juntos no mesmo saco, prevalecem aqueles que têm maior força para se impor. E, na maior parte do tempo, quem detém o poder econômico detém a força maior. Entretanto, nas sociedades em que o poder econômico se constrói pela sua concentração na mão de uns poucos e pela exclusão de muitos, há uma outra força capaz de fazer frente a esse poder: o poder dos números. Evitar a deflagração desse embate é questão de um movimento: apresentar o interesse de uns poucos como se fosse o da grande maioria. E a maior parte do tempo isso é falso, embora as políticas de conciliação de classe nos digam o contrário (e não se apresentem também como tais).

Com isso, perdemos todos (ganham alguns). Há um espaço amplo para mais radicalidade e ousadia, que são fatores que têm maior capacidade de levar a mudanças mais efetivas, porém o caminho segue bloqueado. É responsabilidade nossa, que cremos na radicalidade e sabemos o nome do demônio, de pensar meios de driblar esse bloqueio.

duas janelas

Por Ivan Nisida

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Edgar sentiu o vento frio congelar a janela do apartamento. É a única película entre ele e o mundo. Ali dentro do seu apartamento é puro silêncio. E lá fora? O que há lá fora?

Edgar passa a indagação à segunda janela, aquela que tudo vê: obrigado, Internet.

Lá fora, tudo é líquido. A modernidade derreteu o mundo numa nuvem de dados.  Edgar não escapa, ele também é plasma digital, condensado num oceanos de códigos binários e permanentemente sobrevoado por armadas de olhos. Alguém lá encima está observando. Ele se pergunta: será que é o Criador?!

Diante dessas deidades-sentinelas que o vigiam, Edgar aceita sua conivência. Não é somente eles que o querem ver. Ele também deseja ser visto. Quer ser notado.

Posto, logo existo”.

Tudo por uma migalha de reconhecimento social. Que venha do seu vizinho, com quem nunca trocou uma mísero vocábulo. Que venha do outro lado do mundo, de um coreano desconhecido com quem cruzou certa vez no aeroporto de Tóquio. Melhor se for da dondoca que ele paquera há anos, mas com quem nunca teve nada…

Assim somos, humanos, imperfeitos e interdependentes.

Eu não existo sem os outros.

O inferno são os outros.

Santo paradoxo.

Edgar fechou os olhos para mentalizar. Está tudo ali, à sua frente, inatingível e flutuando: fotos de viagens, celebrações, opiniões e debates acalorados. Tudo pairando no éter azul marinho esperando pelo selo rubro que pipoca de vez em quando. A liquidez tem a última palavra: se hoje sou novidade, amanhã já sou história.  É preciso se renovar! É preciso se adaptar!

Descoberta. Edgar se dá conta que o “lá fora” e o “ali dentro” não se descolam, eles são uma coisa única. Edgar se sente preso numa bolha de sentido, numa bolha de existência.

No final, qual das janelas é a mais real?

Aquela fria, que o separa do austero inverno que se anuncia, ou a  outra mais cálida, ligada à tomada?

Sabe como dizem por ai, fecha-se uma janela, abre-se uma porta…

Onde o povo pousa seu clunis

Por Guilherme Grava

Os últimos dias nos trouxeram acontecimentos interessantíssimos – e muito curiosos: vimos a comoção mundial com o falecimento do Mandela ser acompanhada por um intérprete auto-diagnosticado com esquisofrenia, vimos a pseudo-novela entre o Obama e a primeira-ministra da Dinamarca bombando nas mãos da Dilma Bolada, e até mesmo a triste história do advogado que teve o seu carro cimentado na calçada em Belo Horizonte… http://migre.me/h0jd4 (haha).

Mas de tudo o que circulou nos jornais nos últimos dias, o que mais me causou comoção (vamos chamar aqui de comoção para não dizer que eu mijei de rir): foi a declaração do Ministério Público de Santa Catarina após a confusão entre Atlético e Vasco no jogo do domingo.

Todos sabemos da triste realidade que enfrentamos no País em relação à violência nos jogos de futebol – violência essa, aliás, que até hoje não encontrou uma solução em definitivo. É evidente que não é neste episódio lamentável que está a graça. Muito pelo contrário. A graça está, na verdade, na desonestidade intelectual que fundamentou a bobagem sustentada pelo parquet catarinense (que praticamente me fez sentir o estômago embrulhar):

“Segurança pública é voltada para o público e o público está nos locais de acesso ao público. O campo de futebol onde os artistas se apresentam juntamente com os árbitros não é acessível ao público, ali não precisa segurança pública. Deve ser segurança privada.”

Hahaha não é mesmo?

Sejamos sinceros: é possível acreditar que alguém acha minimamente justificável esse argumento? É evidente que em um jogo como este, por mais que a entrada seja paga e por mais que o evento tenha um caráter nitidamente comercial, estamos lidando com a presença de um grande público.

É dever inequívoco do Estado zelar pelos seus cidadãos e não se colocar nesta confortável posição em que se diz: “dessa linha eu não passo”. Não existe lógica em um argumento desse tipo. Estádio de futebol não é o mundo da lua onde tudo pode acontecer. O MP errou sim. Errou feio, errou rude. E o preço está aí – caro demais!

O fato é que a declaração infeliz gerou um jogo de empurra-empurra que é o típico discurso que, no Brasil, tem cheiro de “meia muçarela, meia calabresa”:  PM diz que agiu conforme instrução do MP; MP diz que a polícia entendeu errado. No fim, não vai sobrar pra ninguém.

Interessante é perceber como questões deste tipo são tratadas com o mais absoluto descaso e despreparo. E aí vem a frase que todos estão esperado… vamos lá, vou dizer: “quero só ver como vai ser na Copa”. E foi aí que eu me lembrei de mais uma leitura interessante da semana, agora proporcionada por Gaudêncio Torquato na sua coluna semanal no site Migalhas (http://goo.gl/jpx7o7).  Trata-se de uma citação da carta deixada por Vespasiano ao seu filho Tito quando do seu leito de morte:

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos. “De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho : não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.” “Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa : onde o povo prefere pousar seu clunis : numa privada, num banco de escola ou num estádio ? Num estádio, é claro.” “Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma ‘per omnia saecula saeculorum’, e sempre que o olharem dirão : ‘Estás vendo este colosso ? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.” “Outra vantagem do Colosseum : ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.” “Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. ‘Vel caeco appareat’ (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma”. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase : ‘Ad captandum vulgus, panem et circenses’ (Para seduzir o povo, pão e circo).” “Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

Pois é. Pão e circo e Copa do Mundo. Moral da história: no País do futebol, estádio é lugar privado. Ou, talvez, a privada onde o povo pousa seu clunis…

Na manicure

por Maria Shirts

“Você que é a Maria? Tudo bem? Eu sou a Andrea. Senta aqui que eu vou pegar o alicate de unha na esterilizadora. Já volto!”
“Ok, obrigada!”
Apesar das rugas de Sol, Andrea não aparentava os 60 anos que dizia ter. Espírito jovem, tatugem, bronzeada e alegre, voltou com o alicate, a acetona e o banquinho-manicure que ainda vai lhe render uma destruição na lombar.
“Menina, sempre que eu pego esse alicate da esterilizadora eu fico pensando na minha tatuagem. Depois que eu descobri que existe uma seladora de saquinhos pra esses alicates, pronto, fiquei paranoica, achando que os tatuadores fazem isso. Já pensei que tivesse pego hepatite! Rárárá”
“Magina Andrea, tá doida? Esses lugares são inspecionados, não precisa ficar preocupada. Eu mesma tenho várias tatuagens e não tenho hepatite”
“É né? Eu também não. Fiz o teste recentemente, porque pra trabalhar de manicure tem que fazer, sabe?”
“Jura? Mas a mando do salão? Que bizarro!”
“Acho que é uma recomendação da Anvisa… Quem tiver eles não contratam. Você não sabe menina, quando eu fui buscar o teste nem dormi no dia anterior. Fiquei suando de desespero. Você quer unha quadrada ou redonda?”
“Quadrada, por favor”
“Então… Aí quando eu busquei o teste nem queria abrir! Sentei na escada de emergência do laboratório e fiquei tremendo. Quando eu vi que não tinha foi um alívio tão grande… Eu achava que não tinha, né, mas vai saber. A gente faz cada coisa nessa vida né.”
“Hahahaha, aquelas! Tipo o que?”
“Ix menina! Nem te conto. Minha vida mudou tanto… Meus pais eram de Portugal, sabe. Nunca foram ricos nem nada, mas assim que eles mudaram pro Brasil foram morar na Brigadeiro com a Paulista”
“Nossa, que demais!”
“É, claro que não era tão chique quanto hoje. Mas mesmo assim era um bom lugar, sabe. A gente morava bem, e eu estudava no Rodrigues Alves… a gente tinha uma vida muito boa sabe?”
Fiquei um pouco sem graça, sem saber como continuar a conversa. Não entendi se isso significava que a vida de hoje era ruim ou se, na verdade, ela só queria dizer que tinha menos grana do que antes. Fiquei quieta. Ela continuou:
“Mas papai morreu e aí a gente ficou sem dinheiro. Eu tinha 17 anos e acabado de passar em medicina veterinária! Eu amo animais! Na minha kitinet eu moro com dois gatos”
“Puxa eu adoro gatos. Mas e aí? Você cursou?”
“Nada menina, não passei na USP, né, passei numa particular. Aí não tinha como pagar. Na época não tinha nada como o Bolsa Família pra ajudar em casa, eu tive que ir trabalhar. Que cor cê vai passar?”
“Tem cinza?”
“Tem sim. Passa esse aqui que vai combinar com a tua pele”
“Legal. Mas e aí? Você conseguiu um emprego que pagasse a faculdade?”
“Não, porque a faculdade era integral. Não tinha como trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mas eu pensei que eu pudesse arranjar um emprego e juntar um dinheirinho pra pagar a faculdade no futuro, sabe. Aí cê não sabe o que eu fiz. Tinha umas amigas lá que trabalhava pra uma mulher e me convenceram a ir junto. Menina… me arrumaram, me pintaram.. e a mulher gostou de mim, né, porque eu sou magrinha. Falou que os homens iam me adorar. Eu tinha 17 anos, pensa!”
“Como assim? Que mulher?”, meio incrédula, meio curiosa
“Uai! A cafetina! Fui pra zona ganhar um dinheiro! Mas como eu era muito criança achei que era só pra dançar, sabe. E eu adoro dançar, então tudo bem. Mas que nada… tive que dançar no colo dos clientes, e depois ainda tive que subir pro quarto!”
“EAÍ?”
“E aí que eu fui lá com um homenzarrão gooordo, ele abaixou as calças e disse CHUPA! Eu dei um berro, saí correndo, e nunca mais voltei. Aí virei manicure”.

Naves espaciais, dragões, super-heróis… E muito machismo!

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Quando alguém fala em homem machista a imagem que vem à mente da maioria das pessoas são de dois estereótipos de pessoas. O primeiro tipo é aquele homem grosseiro, pobre e ignorante. Acha que é o líder (ou seria dono?) da família, trata a esposa como empregada e exige fidelidade mas não a pratica. O segundo tipo é um machista de tipo mais refinado, o playboy. Aquele cara com grana que pensa que pode comprar mulheres, e gosta de contar para os amigos as gostosas que “comeu” como se as mulheres que frequentaram suas camas fossem troféus. De fato, esses dois tipos de homem são os que mais difundem o machismo no nosso dia a dia. Porém, esse texto não visa atingir nem o primeiro nem o segundo tipo de homens, mas um tipo bem menos visado, mais estranho e mais simpático: os nerds.

Já li inúmeros textos e blogs feministas mas, estranhamente, li pouquíssimos artigos falando do machismo profundamente enraizado no mundo nerd. Posso imaginar alguns motivos do por que isso ocorre. Primeiro porque, ao invés dos caras acima, nerds costumam ser mais quietões sobre o assunto mulheres. Gostam de falar sobre o assunto não em público para os outros escutarem, mas nos seus círculos de amigos onde podem expressar suas visões machistas mais à vontade. Em segundo lugar porque no universo nerd o machismo às vezes não é tão evidente quanto comerciais de cerveja com mulheres objetificadas. Ele está em donzelas delicadas à espera da salvação, em personagens de ficção científica que estranhamente andam seminuas em naves espaciais, nas super-heroínas que usam algumas roupas e armaduras bem peculiares para se usar no combate. Para os olhares desatentos esses elementos são normais, sempre estiveram ali e assim continuarão. O terceiro motivo seja talvez simplesmente o de que a maioria das mulheres (feministas incluídas) nem se interessam por nerds, então não chegam a viver na pele a visão machista dos mesmos. Afinal, aquele cara de aparência física não tão interessante, de gostos estranhos e hábitos bizarros deve ser inofensivo não?
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Que não se tenha nenhuma dúvida: nerds são machistas. E o machismo, em nenhuma de suas formas, pode ser considerado inofensivo. Nesse texto apresentarei os três elementos machistas mais presentes no universo nerd.

1. Mulheres-objeto. Esse talvez seja o “pecado original” do machismo nerd, pois todos os outros derivam dele. Bom, não é novidade que nerds não tem o hábito de conviver muito com mulheres não é mesmo? Em geral isso ocorre mais por uma falta de interesse delas por eles do que o oposto, mas o fato é que essa distância gerou algumas consequências bem problemáticas. A primeira é que essa distância gerou um completo desconhecimento desse grupo em relação ao universo masculino. Não acostumados a verem mulheres como seres que pensam, sentem, tem opiniões e vidas próprias, os nerds acostumam-se a vê-las de forma distante e deturpada, imersos em seus “clubes do bolinha”. Essa distância inicial (involuntária) faz com que sempre que as mulheres sejam retratadas, isso seja feito de forma fantasiosa e objetificada, totalmente voltada ao público masculino. É normal que mulheres no universo nerd tenham comportamentos totalmente absurdos para uma mulher normal tipo: sofrer de algum amor passivo e eterno por algum dos personagens, ser absolutamente gentis e solícitas o tempo inteiro, ser românticas ao ponto da estupidez, ou ter uma libido insaciável como verdadeiras máquinas de sexo. Seja como for, são sempre retratadas em personagens lineares, de personalidade pobre e constante, ao passo que os personagens masculinos costumam ser construídos de forma bem mais rica e complexa. E, é claro, todas as vezes que esses personagens lineares aparecem estão em trajes tão exibicionistas que beira o ridículo: são armaduras com decotes imensos, roupas espaciais totalmente grudadas no corpo, disfarces que escondem a cara mas mostram fartamente a bunda e os seios!

Image2. É proibida a entrada de garotas. Talvez em decorrência desse “pecado original” (a distância dos nerds com o mundo feminino), o universo nerd constituiu-se como um espaço de homens, feito pelos homens e para os homens. E tornou-se confortável desse jeito, pois é um universo onde pode-se continuar separando as gostosas das feias da escola ou ler suas revistas em quadrinhos com mulheres completamente objetificadas sem que tenha nenhuma garota por perto para encher o saco. Na verdade, isso ia muito bem obrigado até que… Putz, agora tem mulher que gosta de coisa nerd também! Sabe, não é que os nerds não gostem de mulheres. Pelo contrário, adoram pensar que tem mulheres que gostam das mesmas coisas que eles. Porque quando uma pessoa gosta de algo que a gente gosta, quer dizer que gosta da gente, não é mesmo? Mas assim, gostar só já é o suficiente tá? Todas as vezes que você, mulher, quiser entrar no mundo nerd, lembre-se que você é convidada, não partícipe. Nada de opiniões fortes, nada de sugestões sobre como deveriam mudar uma coisa ou outra, nada de querer trazer suas impressões femininas para o “nosso mundo”. Nada de se incomodar com as personagens femininas andando seminuas, isso é um exagero desnecessário. Apenas seja legal e contente o tempo inteiro, admire o que os homens fazem e tome muito cuidado ao tentar fazer alguma coisa você mesma. Caso você veja alguma coisa que te deixe ultrajada não precisa se estressar, é só se lembrar: você é visita e a porta da rua é serventia da casa. O universo nerd foi criado por homens e por conta disso, eles tem a prioridade de ideias e opiniões sempre. Caso você seja mulher, lembre-se de não ferir nenhum ego masculino e aceitar essa realidade com alegria e bom humor.

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3. Culto à masculinidade. Quando um bombado vangloria-se de ter comido 3 no final de semana ou que ele aumentou 5kgs o treino de tríceps dele na academia, está muito óbvio que ele está fazendo culto à masculinidade. Nerds em geral não podem fazer isso, por motivos óbvios. Mas eles não deixam por baixo. Quando jogam RPG, fazem personagens que comem mulheres às pilhas. Quando vêem seus filmes, séries ou quadrinhos, sempre associam a si mesmos com os personagens mais fortes, mais poderosos e “comedores”. Há um culto à masculinidade tão forte no mundo nerd quanto fora dele. Não é à toa que é praticamente IMPOSSÍVEL encontrar em qualquer obra feita para nerds personagens homossexuais ou de comportamento “dúbio”. No mundo nerd as sexualidades são sempre hiper bem definidas, e aos nerds cabe o papel de machões prontos para salvar suas donzelas, proteger suas amadas, ou serem amantes das poucas mulheres dominadoras que puderem aparecer em um universo ou outro. E, como não é de se admirar, a vida imita a arte. É difícil encontrar um homossexual assumido num grupo nerd. Pode até ser que alguém o seja, mas esse é um mundo hostil a qualquer comportamento fora da dualidade homem-mulher. Nesse universo que valoriza tanto o que é masculino, é natural que a pessoa continue jogando o papel de machão mesmo que nem seja tão machão assim, sob pena de não conseguir acompanhar os amigos.

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Essas três características são as mais marcantes e degeneram em uma série de outras, mas caso o leitor se interesse pelo tema, sugiro que converse com mulheres que convivem no universo nerd e encontrarão mais uma série de casos de machismo flagrante. O objetivo desse texto não é ridicularizar nem pregar o ódio contra esse grupo em particular em específico. Ao contrário, eu comecei mesmo esse texto mostrando como em outros ambientes existe o machismo e de forma ainda mais escancarada (pois ele se revela para todos). Porém, acho necessário que ao se falar do universo nerd não só se demonstre o carinho ou a risada, mas que se observe que há muitos elementos bastante indesejáveis. E talvez o mais indesejável deles para mim seja esse machismo que ocorre de forma absolutamente aberta e naturalizada.
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