O que é uma esquina?

Por Ivan Nisida

 Uma esquina é o encontro de duas ruas, diria a mais básica definição, aquela da ponta da língua. Mas o olhar mais exigente mostra mais sobre a natureza deste ente tão complexo.

Uma esquina pode ser muitas coisas. Pode ser o ponto de encontro casual entre dois amantes que se descobriram recentemente. Ou a plataforma laboral de alguns ramos profissionais. Ou o epicentro de uma briga de bar. Até mesmo o palco de uma cotidiana tragédia trânsito, forjada por ferro e pura energia cinética. O lar do tudo e do nada.

Uma esquina se apresenta como um lugar único no espaço. Ou melhor, mais precisamente, é um não-lugar (utopia?) no espaço, pois ela não pertence exclusivamente a nenhuma das ruas que a compõem e, ao mesmo tempo, pertence às duas. A esquina é como duas verdades que se negam na teoria, mas que na prática podem conviver. A esquina carrega portanto uma preciosa anedota sobre a coexistência, é fronteira ilegítima, não traçada e muda. Para a intolerância humana, eis um antídoto.

 A esquina é uma biblioteca.

 Por sua natureza dual, a esquina nos ensina sobre identidade. Ela é uma, mais feita de duas. Nem de uma, nem de outra. Das duas, ao mesmíssimo tempo.

Na hermenêutica das esquinas, consta que as cidades, especialmente as grandes cidades, não são compostas de ruas, túneis e avenidas. Cidades são ninhos de esquinas, que se conurbam e se multplicam numa infindável teia de esquinas. Aliás, as cidades sao feitas de esquinas (e nãio de ruas). Ruas são secretamente intolerantes, revelam apenas uma visão cimentada e atrofiada do cosmos. A rua cega e leva a um só caminho. A esquina (se) abre. Sim a esquina se abre, ela dá passagem e oferece caminhos.

A magia, aquela de verdade, acontece nas esquinas.

Acontece no encontro, na troca, na fusão que encaminha a evolucão. Quem sabe o planeta Terra não seja também uma esquina, um encontro da Rua do Acaso com a Rua da Vontade de Existir? Seria então a maior esquina do universo, aquela que nos deu origem.

 O encontro acontece em toda esquina.

Mas se há encontro em toda esquina e se a vida é a arte do encontro – embora haja tanto desencontro na vida*- entao a esquina metaforiza respeitavelmente a vida.

Quem sabe. Eu gosto de crer nisso.

E para você que discorda, se duvida, vai ver se eu estou lá na esquina…

*Samba da Bençao, Vinicius de Moraes

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Os nomes do demônio

Por Emiliano Augusto

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.

Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940

Na mitologia cristã, na tradição das magias (ou no RPG, eu nunca lembro. Não que sejam coisas diferentes), os demônios nunca revelam seus nomes, porque saber um dos nomes de um demônio confere ao dono de tal saber poder sobre a criatura abissal. Na vida real, não é diferente: devemos ter muito cuidado com as terminologias que surgem como práticas salvadoras. Muitas vezes elas encobrem o nome de um demônio para que façamos por ele seu trabalho. Esse parece ter sido o movimento padrão para a conciliação de classes se instalar no seio das esquerdas nos últimos anos.

O cenário hoje nas esquerdas não é muito animador: temos tarefas demais pra realizar, e a falta de encontrar um núcleo comum entre elas nos mantém refém da fragmentação de todas as particularidades que a realidade manifesta. Esgarça-se o diálogo entre os feminismo negros e brancos, entre a causa LGBT e os movimentos anti-racistas, entre esses movimentos e a esquerda que reivindica a tradição revolucionária, pra ficar em pautas que têm bastante entrada nos grandes centros urbanos e na internet. Mesmo as poucas organizações que agem em todas essas frentes têm dificuldade para superar a separação que se apresenta e criar uma linha de ação que consiga juntar os variados anseios que pautam os diferentes setores que se sentem tocados mais por esta ou por aquela frente.

Se eu posso fazer uma autocrítica em nome da esquerda que reivindica a tradição revolucionária (quanta pretensão!), aponto que nossa tentativa de apontar um núcleo comum entre essas lutas, embora estivesse lá, sempre foi muito débil ao longo do século XX. A resposta padrão — o capitalismo causa todos esses problemas — sempre soou mais como desejo de resolução simples do que uma resposta realmente ligada a uma teoria bem desenvolvida subordinada a uma estratégia de longo prazo. Isso nos deu dificuldades de pensar políticas, ainda que parciais, para atrair esses setores, que segundo nós mesmos são os mais explorados dentro do atual modo de produção e, por isso, de suas fileiras, sairão os combatentes com mais sangue nozóio pra destruí-lo. Nesse espaço que nós abrimos, instalou-se a esquerda reformista (e já que o tema são os nomes, provocação: raramente a esquerda reformista se anuncia como tal), cujas propostas adereçam, ainda que parcial ou limitadamente, problemas bastantes sensíveis para esses setores, mas que, em última instância, a longo prazo mais ajudam a manter o edifício que queremos derrubar de pé do que o contrário (estou pensando numa reivindicação que é comum aos movimentos negros, feministas, e LGBT: melhor representação midiática. Nós queremos destruir essa maneira de comunicação que funciona sob o signo da mercadoria, ou nós só queremos que os meios de comunicação nos vendam produtos também?).

É nessa conjuntura que certa confusão tem se espalhado e se tornado elemento central dos discursos de diversos movimentos. Embora não seja algo exclusivo do feminismo, nesse movimento (que, vocês sabem, não é homogêneo, nem todo mundo concorda com tudo, alguns termos mudam de sentido de linha para linha) há um termo que cristaliza isso: sororidade. Minhas colegas feministas podem explicar melhor o que ele significa, todas as nuances envolvidas, todos os sentidos que a palavra pode ter. A mim, só interessa por causa de algo que li recentemente: uma autora reclamava da falta de sororidade de outras feministas que a criticavam publicamente. É um acontecimento banal e anedótico, apenas quero usá-lo para ilustrar a seguinte afirmação: é temerário pensar que todas as mulheres dividem os mesmos interesses e por isso não podem ser criticadas por outras mulheres (façam a conta e extrapolem para outros setores, categorias, grupos, atores sociais, etc.).

Quando interesses divergentes entram juntos no mesmo saco, prevalecem aqueles que têm maior força para se impor. E, na maior parte do tempo, quem detém o poder econômico detém a força maior. Entretanto, nas sociedades em que o poder econômico se constrói pela sua concentração na mão de uns poucos e pela exclusão de muitos, há uma outra força capaz de fazer frente a esse poder: o poder dos números. Evitar a deflagração desse embate é questão de um movimento: apresentar o interesse de uns poucos como se fosse o da grande maioria. E a maior parte do tempo isso é falso, embora as políticas de conciliação de classe nos digam o contrário (e não se apresentem também como tais).

Com isso, perdemos todos (ganham alguns). Há um espaço amplo para mais radicalidade e ousadia, que são fatores que têm maior capacidade de levar a mudanças mais efetivas, porém o caminho segue bloqueado. É responsabilidade nossa, que cremos na radicalidade e sabemos o nome do demônio, de pensar meios de driblar esse bloqueio.

duas janelas

Por Ivan Nisida

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Edgar sentiu o vento frio congelar a janela do apartamento. É a única película entre ele e o mundo. Ali dentro do seu apartamento é puro silêncio. E lá fora? O que há lá fora?

Edgar passa a indagação à segunda janela, aquela que tudo vê: obrigado, Internet.

Lá fora, tudo é líquido. A modernidade derreteu o mundo numa nuvem de dados.  Edgar não escapa, ele também é plasma digital, condensado num oceanos de códigos binários e permanentemente sobrevoado por armadas de olhos. Alguém lá encima está observando. Ele se pergunta: será que é o Criador?!

Diante dessas deidades-sentinelas que o vigiam, Edgar aceita sua conivência. Não é somente eles que o querem ver. Ele também deseja ser visto. Quer ser notado.

Posto, logo existo”.

Tudo por uma migalha de reconhecimento social. Que venha do seu vizinho, com quem nunca trocou uma mísero vocábulo. Que venha do outro lado do mundo, de um coreano desconhecido com quem cruzou certa vez no aeroporto de Tóquio. Melhor se for da dondoca que ele paquera há anos, mas com quem nunca teve nada…

Assim somos, humanos, imperfeitos e interdependentes.

Eu não existo sem os outros.

O inferno são os outros.

Santo paradoxo.

Edgar fechou os olhos para mentalizar. Está tudo ali, à sua frente, inatingível e flutuando: fotos de viagens, celebrações, opiniões e debates acalorados. Tudo pairando no éter azul marinho esperando pelo selo rubro que pipoca de vez em quando. A liquidez tem a última palavra: se hoje sou novidade, amanhã já sou história.  É preciso se renovar! É preciso se adaptar!

Descoberta. Edgar se dá conta que o “lá fora” e o “ali dentro” não se descolam, eles são uma coisa única. Edgar se sente preso numa bolha de sentido, numa bolha de existência.

No final, qual das janelas é a mais real?

Aquela fria, que o separa do austero inverno que se anuncia, ou a  outra mais cálida, ligada à tomada?

Sabe como dizem por ai, fecha-se uma janela, abre-se uma porta…

Onde o povo pousa seu clunis

Por Guilherme Grava

Os últimos dias nos trouxeram acontecimentos interessantíssimos – e muito curiosos: vimos a comoção mundial com o falecimento do Mandela ser acompanhada por um intérprete auto-diagnosticado com esquisofrenia, vimos a pseudo-novela entre o Obama e a primeira-ministra da Dinamarca bombando nas mãos da Dilma Bolada, e até mesmo a triste história do advogado que teve o seu carro cimentado na calçada em Belo Horizonte… http://migre.me/h0jd4 (haha).

Mas de tudo o que circulou nos jornais nos últimos dias, o que mais me causou comoção (vamos chamar aqui de comoção para não dizer que eu mijei de rir): foi a declaração do Ministério Público de Santa Catarina após a confusão entre Atlético e Vasco no jogo do domingo.

Todos sabemos da triste realidade que enfrentamos no País em relação à violência nos jogos de futebol – violência essa, aliás, que até hoje não encontrou uma solução em definitivo. É evidente que não é neste episódio lamentável que está a graça. Muito pelo contrário. A graça está, na verdade, na desonestidade intelectual que fundamentou a bobagem sustentada pelo parquet catarinense (que praticamente me fez sentir o estômago embrulhar):

“Segurança pública é voltada para o público e o público está nos locais de acesso ao público. O campo de futebol onde os artistas se apresentam juntamente com os árbitros não é acessível ao público, ali não precisa segurança pública. Deve ser segurança privada.”

Hahaha não é mesmo?

Sejamos sinceros: é possível acreditar que alguém acha minimamente justificável esse argumento? É evidente que em um jogo como este, por mais que a entrada seja paga e por mais que o evento tenha um caráter nitidamente comercial, estamos lidando com a presença de um grande público.

É dever inequívoco do Estado zelar pelos seus cidadãos e não se colocar nesta confortável posição em que se diz: “dessa linha eu não passo”. Não existe lógica em um argumento desse tipo. Estádio de futebol não é o mundo da lua onde tudo pode acontecer. O MP errou sim. Errou feio, errou rude. E o preço está aí – caro demais!

O fato é que a declaração infeliz gerou um jogo de empurra-empurra que é o típico discurso que, no Brasil, tem cheiro de “meia muçarela, meia calabresa”:  PM diz que agiu conforme instrução do MP; MP diz que a polícia entendeu errado. No fim, não vai sobrar pra ninguém.

Interessante é perceber como questões deste tipo são tratadas com o mais absoluto descaso e despreparo. E aí vem a frase que todos estão esperado… vamos lá, vou dizer: “quero só ver como vai ser na Copa”. E foi aí que eu me lembrei de mais uma leitura interessante da semana, agora proporcionada por Gaudêncio Torquato na sua coluna semanal no site Migalhas (http://goo.gl/jpx7o7).  Trata-se de uma citação da carta deixada por Vespasiano ao seu filho Tito quando do seu leito de morte:

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos. “De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho : não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.” “Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa : onde o povo prefere pousar seu clunis : numa privada, num banco de escola ou num estádio ? Num estádio, é claro.” “Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma ‘per omnia saecula saeculorum’, e sempre que o olharem dirão : ‘Estás vendo este colosso ? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.” “Outra vantagem do Colosseum : ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.” “Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. ‘Vel caeco appareat’ (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma”. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase : ‘Ad captandum vulgus, panem et circenses’ (Para seduzir o povo, pão e circo).” “Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

Pois é. Pão e circo e Copa do Mundo. Moral da história: no País do futebol, estádio é lugar privado. Ou, talvez, a privada onde o povo pousa seu clunis…

Na manicure

por Maria Shirts

“Você que é a Maria? Tudo bem? Eu sou a Andrea. Senta aqui que eu vou pegar o alicate de unha na esterilizadora. Já volto!”
“Ok, obrigada!”
Apesar das rugas de Sol, Andrea não aparentava os 60 anos que dizia ter. Espírito jovem, tatugem, bronzeada e alegre, voltou com o alicate, a acetona e o banquinho-manicure que ainda vai lhe render uma destruição na lombar.
“Menina, sempre que eu pego esse alicate da esterilizadora eu fico pensando na minha tatuagem. Depois que eu descobri que existe uma seladora de saquinhos pra esses alicates, pronto, fiquei paranoica, achando que os tatuadores fazem isso. Já pensei que tivesse pego hepatite! Rárárá”
“Magina Andrea, tá doida? Esses lugares são inspecionados, não precisa ficar preocupada. Eu mesma tenho várias tatuagens e não tenho hepatite”
“É né? Eu também não. Fiz o teste recentemente, porque pra trabalhar de manicure tem que fazer, sabe?”
“Jura? Mas a mando do salão? Que bizarro!”
“Acho que é uma recomendação da Anvisa… Quem tiver eles não contratam. Você não sabe menina, quando eu fui buscar o teste nem dormi no dia anterior. Fiquei suando de desespero. Você quer unha quadrada ou redonda?”
“Quadrada, por favor”
“Então… Aí quando eu busquei o teste nem queria abrir! Sentei na escada de emergência do laboratório e fiquei tremendo. Quando eu vi que não tinha foi um alívio tão grande… Eu achava que não tinha, né, mas vai saber. A gente faz cada coisa nessa vida né.”
“Hahahaha, aquelas! Tipo o que?”
“Ix menina! Nem te conto. Minha vida mudou tanto… Meus pais eram de Portugal, sabe. Nunca foram ricos nem nada, mas assim que eles mudaram pro Brasil foram morar na Brigadeiro com a Paulista”
“Nossa, que demais!”
“É, claro que não era tão chique quanto hoje. Mas mesmo assim era um bom lugar, sabe. A gente morava bem, e eu estudava no Rodrigues Alves… a gente tinha uma vida muito boa sabe?”
Fiquei um pouco sem graça, sem saber como continuar a conversa. Não entendi se isso significava que a vida de hoje era ruim ou se, na verdade, ela só queria dizer que tinha menos grana do que antes. Fiquei quieta. Ela continuou:
“Mas papai morreu e aí a gente ficou sem dinheiro. Eu tinha 17 anos e acabado de passar em medicina veterinária! Eu amo animais! Na minha kitinet eu moro com dois gatos”
“Puxa eu adoro gatos. Mas e aí? Você cursou?”
“Nada menina, não passei na USP, né, passei numa particular. Aí não tinha como pagar. Na época não tinha nada como o Bolsa Família pra ajudar em casa, eu tive que ir trabalhar. Que cor cê vai passar?”
“Tem cinza?”
“Tem sim. Passa esse aqui que vai combinar com a tua pele”
“Legal. Mas e aí? Você conseguiu um emprego que pagasse a faculdade?”
“Não, porque a faculdade era integral. Não tinha como trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mas eu pensei que eu pudesse arranjar um emprego e juntar um dinheirinho pra pagar a faculdade no futuro, sabe. Aí cê não sabe o que eu fiz. Tinha umas amigas lá que trabalhava pra uma mulher e me convenceram a ir junto. Menina… me arrumaram, me pintaram.. e a mulher gostou de mim, né, porque eu sou magrinha. Falou que os homens iam me adorar. Eu tinha 17 anos, pensa!”
“Como assim? Que mulher?”, meio incrédula, meio curiosa
“Uai! A cafetina! Fui pra zona ganhar um dinheiro! Mas como eu era muito criança achei que era só pra dançar, sabe. E eu adoro dançar, então tudo bem. Mas que nada… tive que dançar no colo dos clientes, e depois ainda tive que subir pro quarto!”
“EAÍ?”
“E aí que eu fui lá com um homenzarrão gooordo, ele abaixou as calças e disse CHUPA! Eu dei um berro, saí correndo, e nunca mais voltei. Aí virei manicure”.

Começa a batalha por Mandela

por Emiliano Augusto

Morreu Mandela. Nos grandes jornais e nas grandes revistas, haverá fotos de seu sorriso bondoso, enquanto na televisão, os cabelos brancos de seus últimos anos de vida serão usados para que vocês se lembrem deles como um tio ou um avô querido. Lembrarão dele como um homem que optou exclusivamente pela paz, enquanto esconderão as contradições contra as quais ele lutou. Talvez alguns textos nem toquem nas palavras apartheid e raça, e certamente a maioria deles não lembrará que boa parte do tempo que ele passou na prisão muitos governantes mundo afora o chamavam de terrorista, e quem sabe até algum desses veículos de comunicação tenha feito coro com esses governantes. Não caiam no truque.

Existem aquelas pessoas que, quando morrem, os amigos dizem boas palavras, os inimigos lembram dos defeitos, e em algumas semanas o assunto está superado. Mandela certamente não era dessas pessoas, e começará agora uma batalha longa pela sua memória. Todos dirão: O Madiba lutava do nosso lado, não no de vocês. E, certamente por causa dos tempos em que vivemos, a disputa será acirrada, porque as faíscas que um símbolo do tamanho de Mandela gera pode causar incêndios muito difíceis de controlar.

Mandela foi um homem de partido. Quanto mais as contradições se acirram, maior a necessidade de escolher um lado — eis a expressão tomar partido; e não se enganem, cedo ou tarde nós precisaremos tomar também. Além disso, não apenas militou pelo Congresso Nacional Africano, mas foi um dos responsáveis por convencer o conjunto do partido de que a não-violência não deveria ser um princípio, mas uma tática, e, como tática, poderia ser abandonada ou substituída se não estivesse funcionando. E quando o governo do Partido Nacional implantou o sistema de segregação racial, Mandela foi um dos fundadores do Umkhonto we Sizwe, o braço armado do Congresso Nacional Africano:

At the beginning of June 1961, after a long and anxious assessment of the South African situation, I, and some colleagues, came to the conclusion that as violence in this country was inevitable, it would be unrealistic and wrong for African leaders to continue preaching peace and non-violence at a time when the government met our peaceful demands with force.”

Não foi a não-violência que o levou a cumprir vinte sete anos de prisão e pavimentou o caminho para que ele se tornasse o símbolo que começou a tornar-se ainda preso, mas a decisão de resistir violentamente se fosse preciso. E se ele teve condições de negociar o final do apartheid, um dos elementos que permitiram a negociação foi a violência usada contra o regime. É isso que tentarão apagar nas próximas semanas e nos próximos anos: passarão a história a pelo, encobrindo uma parte do processo, para lembrar apenas o seu produto. E muitas vezes nós estaremos tentados a cair, afinal, uma história de reconciliação sem tocar fundo as contradições que a perpassam é muito mais confortável, e nós sabemos o quanto qualquer conforto faz bem quando a vida é tão dura. Mas se tem uma coisa que Mandela não simboliza é o conforto, principalmente esse falso conforto que esconde desconfortos muito mais profundos.

Quando a Polícia pede Desculpas

Nessa segunda-feira a polícia da Islândia atirou em um homem armado e o matou. Esse foi o primeiro caso na história moderna da Islândia em que a polícia matou um suspeito; o primeiro caso em quase um século de existência. Como se esse histórico não bastasse, após o incidente a polícia ainda emitiu um comunicado dizendo lamentar a situação: “A polícia lamenta o ocorrido e deseja estender suas condolências à família do homem”, disse o chefe da polícia nacional Haraldur Johannessen.

Mas por que a polícia da Islândia mata tão pouco, e ainda se sente arrependida depois? Em primeiro lugar, apenas equipes especializadas e altamente treinadas são autorizados a portar armas na Islândia; todo o resto da polícia não tem acesso às armas de fogo. Desta forma, o oficial médio não consegue atirar em ninguém porque ele não está armado; só os policiais mais bem treinados e com alto nível de discernimento têm acesso às armas de fogo. Uma das razões pelas quais os policiais não precisam estar armados é por que a taxa de homicídios na Islândia é muito baixa.

E por que o número de homicídos é tão baixo? Deve ser porque a população não porta armas de fogo… Mas será?

Aqui estão alguns outros dados sobre armas de fogo que podem nos ajudar a entender a situação na Islândia: há 30,3 armas de fogo para cada 100 pessoas na Islândia (n° 15 do mundo em termos de armas per capita), enquanto nos EUA há 101,05 armas de fogo para cada 100 pessoas (n° 1 do mundo per capita) e, no Brasil, apenas 8 armas de fogo para cada 100 pessoas (n° 75 do mundo per capita). Além disso, a título exemplifcativo, em 2009 houve quatro mortes por arma de fogo na Islândia, cerca de 32 mil nos EUA e aproximadamente 35 mil no Brasil. (http://www.gunpolicy.org/firearms/region/iceland)

Com tantas armas de fogo e tão poucas mortes resultantes, o que acontece nesta pequena ilha-nação de tão diferente? Bom, antes de tudo cabe mencionar que as leis da Islândia são extremamente rígidas quanto à compra de armas, especialmente quando comparadas a muitos outros países. Embora haja uma grande quantidade de armas no país (diz-se que os islandeses gostam de caçar), a compra de uma arma é feita por meio de controles rigorosos, incluindo exames médicos e um teste escrito; existem registos e cadastros nacionais que formam um banco de dados com todas as armas e todos os compradores de armas, todos os processos de licenciamento para a posse de armas e todas as origens e transferências das armas.

Além disso, e é por isso que é tão crucial sabermos diferenciar os tipos de armas de fogo e os seus usos quando queremos ter um debate completo sobre o tema, revólveres e pistolas de todos os tipos são extremamente difíceis de adquirir na Islandia; apenas as espingardas de caça são legais para as pessoas em geral. Isso significa que as pessoas usualmente têm armas que usam tipos de munição diferentes daquelas que infligem mais danos aos seres humanos. Isto é completamente o oposto do que ocorre no Brasil e nos Estados Unidos, países que permitem a posse de armas de pequeno porte e armas semi-automáticas. É claro que todas são armas de fogo, mas é muito mais dificil esconder uma espingarda de cano duplo no corpo do que colocar um revolver na cintura,  e a espingarda só carrega dois tiros.

“Rifles semi-automáticas são proibidas e a posse de pistolas e revolveres, felizmente, é muito baixa; quando existe, é permitida em conexão com sharpshooting [competições de tiro]. A posse de armas na Islândia é voltada para a caça e a pratica esportiva.” –Elvar Árni Lund, presidente da Associação de Caça da Islândia (Tradução Livre)

E porque temos tanto acesso às pistolas e aos revolveres, às armas semi-automáticas e às munições? Porque o Brasil é um grande produtor de armamentos, facilitando o acesso da população às armas? Não. Porque algumas empresas na Suiça, na França, nos Estados Unidos, na Alemanha, no Reino Unido, na Russia e em muitos outros países produzem estes belos bens e os enviam para cá, armando todos os lados de um profundo conflito social e aumentando o potencial de periculosidade da nossa sociedade como um todo.

Se os Estados Unidos querem ter o direito de manter tropas e bases na Colômbia para combater o tráfico, acho que poderiamos ter o direito de fechar algumas empresas de armamentos nos EUA (para combater o tráfico, as quadrilhas, a violência estatal, as milícias, o poder paralelo e o poder paralelo dentro do poder oficial); mas essa solução ainda parece não estar completa.

Foi para melhor entender estas questões que Andrew Clark, um estudante de Direito da Universidade de Suffolk, em Boston, decidiu escrever sua tese sobre o baixo índice de crimes violentos na Islândia. Ele descobriu que os islandeses facilmente dão caronas a estranhos e ocasionalmente deixam seus bebês sozinhos na rua enquanto entram em algum local; tais atitudes são impensáveis para um Paulista, um Carioca, um Londrino ou um Novayorkino.

Em sua tese, Clark concluiu que a maior razão pela qual os indíces de crimes violentos na Islândia são baixos é a igualdade social. Os ‘ricos’ e os ‘pobres’ vão para as mesmas escolas, os serviços públicos atendem a grande maioria da população, a dissiparidade salarial entre o salário mais alto e o mais baixo chega a um máximo de 20 vezes (com o salário mínimo de R$ 678,00, os brasileiros mais bem pagos receberiam R$13.560,00 por mês, o que não é uma utopía, mas poderia ser melhorada por meio de aumentos ao salário mínimo e não só aumentos aos salários milionários), e só 1,1 por cento da população Islandesa afirma ser de classe alta, enquanto só 1,5 por cento afirma ser de classe baixa – o resto é o resto. Por todas essas razões, há muito menos ressentimento e raiva no tecido social daquela pequena ilha congelada do que em nossas suntosas praias calorosas. Quiçá deveríamos aprender alguma coisa com eles.