Um não-post carnavalesco.

Por Paula Elias

Hoje não tem jeito: não sai post! Não consigo pensar em nada que não seja o carnaval. Bom, eu e metade do Brasil, imagino.

Há dias venho matutando sobre que fantasia usar nos blocos de carnaval desse ano.

Ano passado fui de Frida Kahlo e: arrasei.

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Foi a segunda vez que usei a fantasia, e esse ano eu PRECISO pensar em algo melhor.

Dividi minhas idéias com algumas pessoas, que não pareceram dividir o meu senso de humor e/ou estética. Maaaaas, como eu sou teimosa perseverante, tenho certeza que a internet receberá meus insights muito mais carinhosamente!

1. SUPER EGO

Basta colocar uma capa de super-herói e sair podando as pessoas!

2. TEA PARTY

1 chapéu de festinha + 1 balão de hélio + pacotinhos de chá = LET’S MAKE FUN OF SARAH PALIN!

3. NÍQUEL NÁUSEA

Orelhas do Mickey e sarcasmo!

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4. Estátua da Liberdade.

Basta um vestido verde, uma lista telefônica, uma coroinha e uma lanterna. Eu já me vesti assim e curti! O lado ruim é o braço que dói depois de ficar com ele esticado segurando a lanterna.

5. Drag

Fantasia muito fácil de conseguir e ótima para sambar na cara da sociedade machista-patriarcal-heteronormativa.

Empresto vestido para os moçoilos que precisarem.

Ontem eu decidi, de uma vez por todas, que vou usar as minhas raízes (leia-se meu nariz) e ir de libanesa. Um vestido longo, um lenço no cabelo e voilà!

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Ok, pode não ser eeeeexatamente preciso, maaaaaaaaaaaas, é carnaval, não me diga mais queeeeeeem você é… lalalalalala…

Já já tudo volta ao normal.

É melhor a gente curtir a ofegante epidemia enquanto isso.

E, pensando bem, o importante é a gente (e as nossas mães) nos acharmos bonitinhos.

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Poeminhas dedicados

por Maria Shirts

Para Jimi

e aqueles dias que ta tudo meio gypsy eyes? eu poderia fazer um castel made of sand, chamar o joe (hey, joe!) pra tomar uma birita com aquela foxy lady. e, quem sabe ele começaria a arrastar as suas little wings pra cima dela, e tudo ia acabar num verdadeiro rouménce. eles iam ficar loucos de amor até o céu ficar purple haze, se acabar no goró, na noite, aproveitar a freedom e quem sabe até fazer uma voodoo child. nunca se sábado.

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Para dos Anjos

tal e qual meto reto adentro dessa porta (entre!) aberta. sinto nadie, nádegas. depois sinto dor e falta, e sinto falta do afago da mão que por repetidas vezes me apedreja. tal e qual continuo e vivo e sobrevivo e faço disso matéria de continuar e continuar e continuo com medo mas sabendo que tudo há de continuar. desafiamo-nos constantemente à procura de novos e tudo novo que de novo sinto, que de novo sejo. sejo? sou. sabe que de tudo e tal e qual não me arrependo, mas repetidamente tento e te busco e me deito – de bruços – e reflito a respeito da beira do mar aberto. cospe, cospe, cospe aqui nesse prato que come. te come, te como, devoro. pararavóro. tal e qual me submeto, mas devo e aprendo que a vida é assim, a vida é assim, tudo é fadado tudo é assado tudo me escarro. tudo no asfalto.

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Para Caio Fernando

bato. bato e bato e bato repetidas vezes no vidro da janela desse quarto. igualzinha a essa abelha, abelhinha, que tenta a liberdade. vento, vento. te sinto mas não te acho. e bato, e de novo bato bato e bato, repetidas vezes bato nessa janela desse quadro. vidro maciço. te vejo, mas não ultrapasso. e talvez consiga me libertar. durante cinco, talvez dez segundos e elucidar, elucidar, elucidar. completamente vietnã, sob o sol de saigon.

Ser de esquerda não tem valor em si

por Emiliano Augusto

Das coisas que a esquerda deveria abandonar, faz-se mais urgente abandonar a sensação de superioridade moral em assumir uma posição de esquerda. Não porque não haja alguma superioridade na defesa nos oprimidos e dos explorados, mas porque frequentemente nos deixamos seduzir por essa suposta superioridade até nos locupletarmos com ela, como se apenas a posição de esquerda, tomada plano da consciência, bastasse.

Em tempos de redes sociais, essa posição beira o insustentável — só não o realmente é porque não há muito esforço em gastar algumas horas do dia postando no facebook, no tumblr, ou no twitter. Ser de esquerda geralmente significa postar denunciando o último absurdo proferido por algum dos reaças, seguir o perfil engraçadinho da semana, e dialogar e gritar somente para a esquerda que já concorda conosco, porque as outras esquerdas e as pessoas nas outras faixas do espectro já foram bloqueadas ou nos bloquearam há tempos. Alie-se isso a defender o candidato certo a cada dois anos, e voilà: estamos sentados confortavelmente no corredor da esquerda.

Pelo contrário, ser de esquerda não deveria ser confortável. Olhando para as inesgotáveis e espinhosas tarefas que temos para realizar, há um descompasso se a dificuldade se limita ao auto-exame de consciência (tarefa que por sua vez já pode ser bastante complicada, admitamos). Ao contrário da nossa consciência, que pode permanecer limpa, há que se sujar nossos pés com a poeira das ruas, nossa mão com a graxa das máquinas, nossos rostos com a terra divida, nosso torso com o sangue que espirra nos atos, nas passeatas, nas greves, nas ocupações.

Um desses barbudos uma vez disse (nunca lembro se o que morreu na cruz ou o que morreu na Inglaterra) que o critério da verdade é a prática. Acho que é seguro afirmar que é possível levar a prática para além das redes sociais e para além das urnas. Elas não são tudo que existe, e nós não devíamos nos limitar a elas.

Arte, na Corea do Norte

“A primeira coisa que eu vi foi um cartaz que dizia: “Se você correr, você morre”. Se você fugir você vai ser morto a tiros. Isso é o que eu vi no primeiro dia da minha entrada no centro. Mas há uma tortura que acontece antes de você chegar no campo de prisioneiros. No próprio centro de detenção ficamos de joelhos; colocam um copo na nossa frente. Devemos ficar na mesma posição até que o copo fique cheio de suor. Nesta outra posição devemos pensar que existe uma motocicleta imaginária e que estamos nesta posição como se estivéssemos andando de moto. E nesta esta outra posição fingimos que somos aviões. Estamos voando. Se você ficar nessas posições não há qualquer chance de você ficar por muito tempo; você cairá para frente. Todo mundo no centro de detenção passa por esse tipo de tortura. Somos obrigados a permanecer nessa posição até que o carcereiro sinta que você já foi torturado o suficiente. Assim, a tortura continua até o momento em que o carcereiro está satisfeito. Quanto a mim, acho que era capaz de ficar nessa posição durante, talvez, uns 20 minutos. Eu ficava nessa posição de moto e me diziam para ficar nessa posição até que meu suor enchesse um copo, o copo na minha frente. Você nunca vai imaginar o que é isso.

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Posições de Tortura

Levantávamos às 5 da manhã. Devíamos ficar sentados de joelhos com a cabeça no chão; ficávamos nessa posição até as 10:00. A lei permite que os detentos fiquem em uma posição por no máximo 5 minutos, sendo que em seguida deveria ser feita uma pausa, mas as vezes ficávamos na mesma posição por mais de 10 horas. Se tentássemos nos mover porque estávamos exaustos, nos batiam novamente.

Espancamento

Espancamento

Existe também a tortura do pombo. Suas mãos ficam atadas atrás de você e eles te amarram assim; o peito sai para a frente e nessa posição você é torturado. A posição em si é a tortura, mas além disso você está constantemente sendo espancado. Se você não deu a declaração correta durante a audiência preliminar, você passa por esse tipo de tortura. Você está sendo espancado, o que te leva a vomitar, porque você se sente muito desconfortável por dentro. Às vezes você vomita sangue. E então você entra em colapso. Você entra em colapso. Você perde a sua consciência, e se você entra em colapso eles fazem você se deitar em uma prisão no centro de detenção.

Tortura do pombo

Tortura do Pombo

Isto é o que acontece lá dentro. Todo mundo sofre de desnutrição. A pessoa em pé, eu acho, é o guarda. Pessoas com mais de 170 metros não conseguem sair de um campo correcional vivos; quanto mais alto você é, maior é a possibilidade de você sofrer de desnutrição. A comida que nos dão é inferior a 80 gramas por refeição, mas se você fizer algo de errado, se você escorregar, eles te dão menos. Por lei você deveria receber 100 gramas, mas nós não recebíamos o suficiente e eles nos alimentavam com algumas coisas que nem mesmo os porcos comiam, como pepino podre. Pepino podre cozido foi dado para nós comermos. E se nós nos recusássemos a comer, éramos punidos. Às vezes, você seria punido com menos de 50 gramas por refeição. Seis meses depois de ficar em um destes campos de detenção não era possível continuar vivo.

Cela

Cela

Antes de ir para estes campos de prisioneiros você faz testes de aptidão física para ver se você será capaz de aguentar a estadia. Quase todo mundo passa no teste de aptidão física; às vezes não passam no teste, mas vão para os campos do mesmo jeito. Na prisão eles determinam se você está apto fisicamente deixando você nu e olhando para as suas nádegas. Se suas nádegas estão separadas e soltas, os guardas usam os punhos para ver se conseguem encaixar uma mão entre as suas nádegas. E é assim que eles determinam se você está fraco ou não. [Os que estão de pé recebem um atestado de fraqueza “classe 1”, aquele que estão mais fracos recebem o de “classe 2”, e os piores o de “classe 3”]. Então, se você estiver fraco como eles, você nunca vai conseguir sair deste acampamento. A desnutrição crônica, a tortura, a fome e as doenças fazem você cair rapidamente à classe 1 de fraqueza. Se a sua família não te visita eles te consideram um negligenciado e você vai cair para a classe 2 ou a classe 3. Por isso, bastam cerca de 15 minutos para alguém muito fraco receber um atestado de fraqueza classe 3. Como tínhamos muita fome e não tínhamos o suficiente para comer, íamos procurar cobras na rua. Sei que isto soa horrível para você. Como pode-se comer uma cobra na rua? Mas, para nós, o primeiro que achasse comia. Todo mundo correu para pegar aquelas cobras porque estávamos tão sedentos.

Cobras

Cobras

A capacidade da prisão era de 800 pessoas, mas quando eu estava lá havia 2.400. Às vezes eles colocavam até 4000 pessoas, o que significava que em um quarto havia mais de 60, 70 pessoas; em uma cela que só cabiam 14 ou 17 pessoas. Às vezes havia até 170 pessoas. Os meus pés ficavam no topo da cabeça de alguém e os pés de alguém ficavam no topo da minha cabeça. As vezes as pessoas dormiam em pé; nós revezávamos entre ficar deitado e ficar de pé. Nesse tipo de ambiente, às vezes você está tão exausto que você quer desistir, acabar com sua própria vida. É por isso que tinham guardas entre nós; para ver se alguém estava tão fraco que decidiria cometer suicídio. No verão, quando estávamos sufocando, dormíamos nus; e, quando dormíamos nus, tínhamos graves problemas de higiene. Falando literalmente, vivíamos em um buraco de defecação humana. Em 2 anos e 5 meses vi muitas pessoas morrem. Foram mais de 100. Há tantos cadáveres. 8 pessoas que dormiam ao meu lado em uma célula morram por causa de febre alta.

Celas

Isolamento

Pela estrada à esquerda, saindo de Sangdong, se você andar dois quilômetros encontrará uma montanha e uma caverna. Há um fosso lá onde colocamos os corpos dos mortos. Se alguém morresse na sua cela, as pessoas que estavam mais fortes levavam os corpos. Mas nós não levávamos só um ou dois cadáveres, nós esperávamos os corpos acumularem até que houvessem 4 ou 5 corpos. Mesmo que eles estivessem apodrecendo no calor do verão, nós não carregávamos. Então ocasionalmente os corpos deterioravam e os ratos comiam os corpos.

Ratos

Ratos

Nós carregávamos os corpos em um carrinho que era tão grande quanto um caminhão. Colocávamos os corpos num pote e acendíamos uma fogueira. Era como se não fossem como nós… era como queimar lixo, queimar entulho. E se você olhasse para dentro do pote você via os ossos que não tinham sido totalmente queimados, e as vezes os ossos viravam pó. Levávamos o pó para os campos e usávamos ele como fertilizante. Por termos visto tantas pessoas morrerem, nos acostumados com isso. Lamento dizer, nos acostumamos tanto que já não sentíamos nada. Quando alguém morria tirávamos suas roupas; deixávamos elas nus. Aqueles que estavam vivos tinham que seguir em frente e os mortos, me desculpem, estavam mortos; nos acostumamos com isso.”

Corpos

Corpos

– Kim Kwang Il, preso pelo regime Norte Coreano em 2004 por atravessar a fronteira para vender pinhões, em testemunho à Comissão de Inquérito de Direitos Humanos na Republica Popular da Corea. [Tradução livre e reorganizada para coadunar com as fotos do livro de Kim Kwang Il]

Três contos lusitanos

Há quem diga que a melhor forma de passar o tempo dentro do transporte público é ler um livro, ouvir uma música. São boas, mas gosto mesmo é de encarnar a psicóloga-socióloga-voyeur! Olho para aquele amontoado de relações humanas e não consigo me conter, quero observar o que se passa. Tento ler os títulos dos livros e imaginar porque foram escolhidos. Adoro quando ouço uma história de amor, uma fofoca. Fico sentida quando vejo gente chorando. Para alguns eu adoraria dar dicas de moda: legging marca a celulite. Para outros, dicas de higiene: o bilhete é tão importante quanto o desodorante. Como não posso, guardo para contar depois.

Faz pouco menos de um mês que me mudei para Lisboa e o hábito está cada vez mais forte, acho que é o sotaque que atiça ainda mais minha curiosidade! Comecei até a tomar notas do que vejo por aí… Escolhi três breves histórias de três meios de transporte para compartilhar.

Esparrela Mapa

O autocarro da loucura

O autocarro 735 Hospital Santa Maria me leva todos os dias até a faculdade e nele acompanhei uma das cenas mais tristes na minha carreira de analista barata dos transportes. Um senhor, possivelmente um dos muitos imigrantes das ex-colônias, sentou-se e começou a falar com um conhecido sentado mais ao fundo. O colega se despede e desce no próximo ponto. Ele continua a falar, dessa vez sozinho. Não percebi nada no começo, eram algumas frases, alguns sorrisos.

Entram três ciganas pouco mais adiante e o teor do monólogo se altera, elas se tornam o alvo de uma ira gratuita de forma como nunca vi. Estão de tênis para não fazer barulhos ao nos roubarem! Com a voz alterada, exclama que é um absurdo a Europa abrir-se para este povo. Deveriam todos morrer! Duvido que tenha sido a primeira vez que elas, ciganas, lidavam com a xenofobia. Apenas se entreolharam, com um desconforto resignado, até o fim do trajeto. Desceram sobre outros berros, ameaças e gestos.

Surge outro velhinho, muito velhinho no autocarro. Sentou-se por perto e, notando a raiva no companheiro de viagem, começa a dizer com um carinho familiar:

– Não deves ficar sem a medicação, há de tomar todos os dias! Eu tomo todo dia, sagradinho! É assim que damos a volta à essa condição!

O senhor não o responde, apenas sorri contrariado e fica em silêncio até o ponto final. Ódio, xenofobia e fascismo são sintomas de uma violência demente. Lamentei pelo senhor e desejei que em seu remédio ele encontrasse alguma empatia pela humanidade.

O comboio da crise 

A crise está por todo lado, em todas as conversas, em todos os salários.  Este tema recorrente não poupou nem a literatura. Era uma conversa de telemóvel no comboio a caminho de Coimbra:

–       Olha, ele não tá a ver que não se pode com tantos livros! Um homem de quarenta e tal não tem como se dar ao luxo de ter uma biblioteca. Com os livros não se faz nada de jeito!

–       …

–       Oh, tá-se bem, cultura, mas só os lemos uma vez! Ele deveria vendê-los ao invés de deixar dinheiro empoeirar.

–       …

–       Pois, é por isso que devem se desfazer dos livros, é um quarto a menos. Pagar por um T3 para ter um quarto para os livros é um disparate! Ainda mais com o dinheiro que farão com a venda deles!

–       …

–       Tás a ver? Não podemos mais viver à fartazana…

–       …

–       Fale com ele! Porta-te bem. Beijinhos!

O metro do amor  

Aguardava o metro chegar na estação Colégio Militar/Luz, sentada no banco ao lado de um casal. Cinco minutos de espera, de acordo com o placar instalado no teto. O silêncio era apenas interrompido por tosses doloridas e alguns espirros. Não havia palavras, mas sinais. Sinais que eu logo reconheci: amor. Sem movimentos bruscos, muito menos românticos. Uma prova de companheirismo subestimada frente às grandes declarações, mas ainda assim amor.

Era apenas aquele carinho que damos aos nossos queridos doentes, desejosos de que nossa insistente presença retire dali qualquer enfermidade. Ela apertava seu corpo contra o dele, com todo o desdém frente ao contágio. Eu, pelo contrário, já estava imaginando o trajeto dos vírus ou seja lá o que fosse para saber se estava no raio de alcance. Eu  não o amava, mas ela… a cada tosse o carinho se tornava mais forte, segurando seu braço e apoiando a cabeça em seu ombro.

 

Da amizade

por  Maria Shirts

O conheci nos idos de 2004. Estávamos no aniversário de uma amiga. Ele a conhecia da Faculdade de Psicologia. Eu, por via de um ex-amigo. Não lembro muito bem o que conversamos, só que ele não acreditou na minha idade e, eu, no seu nome (é pomposo).

Nunca mais, à época, dividi com ele uma mesa de bar. Mas, em compensação, nos encontrávamos randomicamente quase todos os dias. Na padoca, no café (pequeno) do bairro, no bar ruim da mesma esquina, e no bar “bom” que nos conhecemos, o Genésio. Nas festas juninas, nas baladas capengas da Vila Madalena, na feira desse mesmo bairro, onde ambos morávamos.

E assim, durante 5 anos seguidos, perdemos repetidas vezes a oportunidade de sermos amigos. Nosso conhecimento se restringia a breves acenos, ou um levantar de sobrancelhas que mostram reconhecimento.

No ano de 2009, entrei na faculdade. Na PUC-SP, que alegria! Finalmente ter aulas de política, geografia, sociologia. Lembro-me muito bem dessa última. Era a minha preferida. Aprendi Durkheim, Marx e Webber, não sem antes ter a primeira aula do curso sobre Robinson Crusoé. Jamais esquecerei do Robinson Crusoé. Foi nessa aula que, lotada, pude apenas ouvir o questionamento do garoto lá na frente a respeito da diferença entre o sujeito e indivíduo na obra de Daniel Defoe. Quando desviei das cabeças à minha frente para olhar o dono da pergunta, eu o vi. Ele, o meu não-amigo do bairro.

Finda a aula, nos entreolhamos e eu, já um pouco aterrorizada com a coincidência, indaguei:
– O que VOCÊ tá fazendo aqui?
– Eu que te pergunto! — respondeu, suspeito, também um pouco aterrorizado.
– Eu ESTUDO aqui.
– Eu TAMBÉM.
– Mas você não fazia Psico?
– Troquei.
– Ah ta. Desculpa, qual que é o seu nome mesmo?
– Fernando Carlos. Mas todo mundo me chama de Fecê.
– Certo.. o meu é Maria.
– Boa. Vamo pro bar do Paraty? Fica do outro lado da rua.
– Legal! Pode ser.
– Ei, galera, vamo lá pro bar do Paraty! Tem jogo do Corinthians contra o Fluminense, vamo torcer pro Flu!
– Óbvio que não, aqui é Corinthians!!!!

1 bilhão.

Por Paula Elias

Foi em Paris. No metrô de Paris, mais especificamente.

Passei um tempo por lá para aprender francês. Era verão, e minhas lembranças são adornadas por dias e noites idílicos andando de vestido e havaianas pela margem esquerda do Sena.

Uma noite estava eu voltando do cinema para minha casa. Entrei no metrô e pude escolher meu assento no vagão vazio.

Eram umas nove da noite.

Reparei que tinha um homem olhando um pouco insistentemente para mim. Abaixei a cabeça e esperei passar.

Desci na minha estação rapidamente, apressando o passo quando vi que o homem desceu atrás.

Apertei com força as chaves de casa na mão.

Até que ele me chamou.

– Ei, quer ir tomar um café comigo, moça?

Eu o encarei. Parecia de origem árabe. Da minha altura.

– Não, obrigada.

Ele se aproximou.

– Vamos tomar um café!

Eu recuei em direção à parede.

– Não! Obrigada.

Ele segurou meu pulso e se aproximava mais, quando uma voz ressoou no corredor vazio:

– Ele está te incomodando, moça?

Meu salvador. Jovem, negro, alto, voz grave.

– Sim, muito.

Nesta altura o fulano do café se acovardou e foi embora em segundos. Meu herói se ofereceu para andar comigo até a porta do meu prédio, proposta que aceitei rapidamente.

Sã e salva na frente da minha casa, agradeci meu amigo de olhos marejados. Ele, francês, pareceu desconcertado com minha gratidão latina expressa por um abraço.

Essa é a minha “pior” história.

A contei para poucas pessoas.

Por mais informada, educada, feminista que eu seja, ainda ressoam os avisos da sociedade machista:

– De noite? Sozinha? O que você estava vestindo?

 

Não é fácil escrever sobre isso. Pode não ser nada para muita gente, mas foi um momento de medo para mim.

1 terço de todas as mulheres serão espancadas ou estupradas ao longo da vida.

Nesse “Valentine’s Day”, quero juntar minha voz ao movimento para por fim à violência doméstica. E contra as mulheres.

Para saber mais, acessem:

http://2013.onebillionrising.org/