Três contos lusitanos

Há quem diga que a melhor forma de passar o tempo dentro do transporte público é ler um livro, ouvir uma música. São boas, mas gosto mesmo é de encarnar a psicóloga-socióloga-voyeur! Olho para aquele amontoado de relações humanas e não consigo me conter, quero observar o que se passa. Tento ler os títulos dos livros e imaginar porque foram escolhidos. Adoro quando ouço uma história de amor, uma fofoca. Fico sentida quando vejo gente chorando. Para alguns eu adoraria dar dicas de moda: legging marca a celulite. Para outros, dicas de higiene: o bilhete é tão importante quanto o desodorante. Como não posso, guardo para contar depois.

Faz pouco menos de um mês que me mudei para Lisboa e o hábito está cada vez mais forte, acho que é o sotaque que atiça ainda mais minha curiosidade! Comecei até a tomar notas do que vejo por aí… Escolhi três breves histórias de três meios de transporte para compartilhar.

Esparrela Mapa

O autocarro da loucura

O autocarro 735 Hospital Santa Maria me leva todos os dias até a faculdade e nele acompanhei uma das cenas mais tristes na minha carreira de analista barata dos transportes. Um senhor, possivelmente um dos muitos imigrantes das ex-colônias, sentou-se e começou a falar com um conhecido sentado mais ao fundo. O colega se despede e desce no próximo ponto. Ele continua a falar, dessa vez sozinho. Não percebi nada no começo, eram algumas frases, alguns sorrisos.

Entram três ciganas pouco mais adiante e o teor do monólogo se altera, elas se tornam o alvo de uma ira gratuita de forma como nunca vi. Estão de tênis para não fazer barulhos ao nos roubarem! Com a voz alterada, exclama que é um absurdo a Europa abrir-se para este povo. Deveriam todos morrer! Duvido que tenha sido a primeira vez que elas, ciganas, lidavam com a xenofobia. Apenas se entreolharam, com um desconforto resignado, até o fim do trajeto. Desceram sobre outros berros, ameaças e gestos.

Surge outro velhinho, muito velhinho no autocarro. Sentou-se por perto e, notando a raiva no companheiro de viagem, começa a dizer com um carinho familiar:

– Não deves ficar sem a medicação, há de tomar todos os dias! Eu tomo todo dia, sagradinho! É assim que damos a volta à essa condição!

O senhor não o responde, apenas sorri contrariado e fica em silêncio até o ponto final. Ódio, xenofobia e fascismo são sintomas de uma violência demente. Lamentei pelo senhor e desejei que em seu remédio ele encontrasse alguma empatia pela humanidade.

O comboio da crise 

A crise está por todo lado, em todas as conversas, em todos os salários.  Este tema recorrente não poupou nem a literatura. Era uma conversa de telemóvel no comboio a caminho de Coimbra:

–       Olha, ele não tá a ver que não se pode com tantos livros! Um homem de quarenta e tal não tem como se dar ao luxo de ter uma biblioteca. Com os livros não se faz nada de jeito!

–       …

–       Oh, tá-se bem, cultura, mas só os lemos uma vez! Ele deveria vendê-los ao invés de deixar dinheiro empoeirar.

–       …

–       Pois, é por isso que devem se desfazer dos livros, é um quarto a menos. Pagar por um T3 para ter um quarto para os livros é um disparate! Ainda mais com o dinheiro que farão com a venda deles!

–       …

–       Tás a ver? Não podemos mais viver à fartazana…

–       …

–       Fale com ele! Porta-te bem. Beijinhos!

O metro do amor  

Aguardava o metro chegar na estação Colégio Militar/Luz, sentada no banco ao lado de um casal. Cinco minutos de espera, de acordo com o placar instalado no teto. O silêncio era apenas interrompido por tosses doloridas e alguns espirros. Não havia palavras, mas sinais. Sinais que eu logo reconheci: amor. Sem movimentos bruscos, muito menos românticos. Uma prova de companheirismo subestimada frente às grandes declarações, mas ainda assim amor.

Era apenas aquele carinho que damos aos nossos queridos doentes, desejosos de que nossa insistente presença retire dali qualquer enfermidade. Ela apertava seu corpo contra o dele, com todo o desdém frente ao contágio. Eu, pelo contrário, já estava imaginando o trajeto dos vírus ou seja lá o que fosse para saber se estava no raio de alcance. Eu  não o amava, mas ela… a cada tosse o carinho se tornava mais forte, segurando seu braço e apoiando a cabeça em seu ombro.

 

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