Uns cálculos

Gosto de números, sabe? É sempre bom ter alguns na ponta da língua para poder argumentar e um deles dificilmente será esquecido: os 65% que concordaram que ‘mulheres que usam roupas que mostrem o corpo merecem ser atacadas’. É em cima desses sessenta e cinco que eu quero fazer uns cálculos. Não seria surpresa para ninguém que uma pesquisa sobre a ‘Tolerância social a violência contra a mulher’ demonstrasse por a + b outra conta que há muito tempo é feita: homem > mulher. É assim numa sociedade sexista, o sinal nessa conta é de desigualdade.  Os números divulgados, ai, os números… Eu não mereço ter que dizer que não mereço ser estuprada, mas é preciso.

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A pesquisa tem poucas e necessárias páginas, recomendo. Ao ler me lembrei do dia em que, aos nove anos, escolhi inocentemente um livrinho com uma menina desenhada na capa para ler em casa. Era sobre direitos das mulheres, eu acho, o que me marcou mesmo foi a descrição vívida de cortarem os clitóris das meninas da minha idade em alguns países. Mal eu sabia o que era um clitóris, mas logo quis saber e proteger o meu, oras! É essa sensação, de medo de violarem o meu corpo, que passa pela cabeça de tantas mulheres todos os dias. No metrô, em casa, no campus da faculdade, nas prisões. A sociedade nos é muito hostil, assim também foram os entrevistados.

Eram postas frases e para cada uma delas o entrevistado deveria responder se: concordava totalmente, concordava parcialmente, era neutro, discordava parcialmente ou discordava completamente. De uma forma muito brilhante, estas frases deixavam cair por terra as hipocrisias e máscaras. Num primeiro momento dá até para ter alguma esperança, afinal 78% concordaram totalmente que marido não pode bater em mulher. Mas, algumas frases depois, eles demonstraram que lá no fundo a lógica que impera é outra. O número cai para 58,4% quando questionados se concordam totalmente que ‘o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros’. Quando surgiram dois ditos populares então, nossa! Apenas 13% discordaram totalmente que ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’, enquanto outros 6,3% discordaram totalmente que ‘a roupa suja deve ser lavada em casa’. É, nem tudo que reluz é ouro.

‘O homem deve ser a cabeça do lar’: aproximadamente, 64% concordaram. ‘Toda mulher sonha em casar’:  79% concordaram. ‘Uma mulher só sente realizada quando tem filhos’: quase 60% disseram concordar totalmente ou parcialmente com isso. Então, qué dizê, as mulheres sonham em casar, apenas se realizam ao procriar e devem ser lideradas em casa pelos seus maridos, numa doce submissão de anúncio publicitário. Eu me arrisco a dizer que se torna inegável o quanto nossa sociedade é machista, patriarcalista e heteronormativa. Conquistamos direitos? Sim, conquistamos. Mas não nos permitiram ser iguais, ainda.

A violência é uma eficaz forma de controle, em todos os casos, e não seria diferente nessa relação de desigualdade entre homem e mulher. A violência doméstica é o mando do homem sobre o espaço privado. A violência sexual é o mando do homem no espaço público. Mas saber que 65%, sessenta e cinco!, concordam que merecemos ser atacadas por mostrarmos o corpo é estarrecedor. Até decidi recorrer a gradação da resposta para tentar acalmar os ânimos, mas ainda assim: 42,7% concordaram totalmente com isso! O restante concordou parcialmente. Agora, meu senhor, o que é concordar parcialmente nessa questão? É dizer ‘é, pode ser que sim’? Não dá, não adianta. É essa cumplicidade com a cultura do estupro que me dá náuseas. Não são estes sessenta e cinco estupradores, mas são eles que promovem a banalização desse crime hediondo.

Outra prova disso é a frase seguinte do questionário: ‘se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros’. Dos 58,5% que de alguma forma concordavam, 35,3 concordaram totalmente. Eu posso concluir duas coisas, um, a mulher não merece respeito, mas se houver tecido cobrindo seu corpo, é favor respeitar o tecido.  Dois, o estuprador é, no final das contas, um educador de mulheres mal comportadas. O estupro é o golpe final, mas não o único. As encoxadas no metrô, o assédio nas ruas, a pressão do estereótipo vêm todas no mesmo pacote.

Podem não cortar nossos clitóris, mas tentam nos convencer a todo custo que não somos donas do nosso corpo e quem dirá da nossa sexualidade. ‘Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama’ foi, sabiamente, outra das frases e 54,9% não querem casar com as mulheres que são sexualmente livres. Que tristeza, não? Quer dizer que algo tão delícia não pode fazer parte do casamento desses obtusos. Olha, pena! Pena para esses homens que vão buscar na ‘pureza’ das mulheres um repositório dos seus frígidos valores sexistas. Pena para essas mulheres que não saberão a beleza pura do sexo. Ambos saem perdendo, mais uma vez.

A escolaridade e menor interferência da religião foram variáveis importantes na maioria das frases. Católicos e evangélicos tendiam muito mais do que a média a culpabilizar a vítima pela violência sexual. Retirar a culpa que a religião impõe aos corpos femininos, a culpa da volúpia, da serpente e da maçã.  A tendência se invertia com o grau de escolaridade e o sexismo se dissipava através da educação.

A matemática pode ter aí um papel, na troca de um simples sinal:

Homem > Mulher

Homem = Mulher

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Da grandeza das pequenas coisas

Descobri o livro “O primeiro gole de cerveja”, de Philippe Delerm. Nele, o autor discorre sobre o prazer das pequenas coisas. Fala do prazer indizível do primeiro gole de cerveja acariciando os lábios e adentrando geladamente garganta abaixo, e de outros prazeres pequenos. Da anedota, tece-se uma “micro-filosofia de vida”, que implica capturar e repertoriar estes diminutos eventos carregados de prazer. Eventos que podem passar invisíveis para o olhar frenético de um urbanóide padrão. Eventos  que a vida, essa soma incalculável e “aleatória” de encontros e desencontros, nos oferece. Prazeres sem preço e, ao mesmo tempo, gratuitos. Prazeres tais como observar uma aranha almoçar na perfeição arquitetonicamente de seu ninho. Tais como deixar-se consumir pelo vazio operacional de um domingo à tarde. Tais como alimentar um blog.

Opressão veiculada

por Maria Shirts

Esses dias publiquei uma pergunta no Facebook a respeito das reportagens sobre os assédios sexuais no metrô. Questionei: “gente, uma dúvida: a divulgação desses casos perturbadores na mídia não pode ter um efeito reverso, de provocar ainda mais ações desse tipo? É claro que precisa ser noticiado, mas com um cuidado um pouco maior, como se noticiam casos de suicídio, talvez….não?”.

A minha preocupação residia (e ainda reside) no fato de que, ao noticiar os casos em seus mínimos detalhes, os jornalões pudessem estar incitando algum tipo de desejo no maníaco. A analogia com o suicídio não é gratuita: ao que eu saiba, a Sociedade Brasileira de Psicologia pede que jornais não noticiem casos de pessoas que se matam porque isso incitaria demais ocorrências.

Bom, qual não foi minha surpresa ao ler, ontem, que o próprio Metrô teria veiculado uma propaganda na Transamérica incitando o assédio via “xaveco” nos trens. Preocupada, liguei para o meu colega que trabalha na assessoria de imprensa do Metrô antes de tirar qualquer conclusão precipitada. Segundo o Carlos, o meio de transporte de fato adquirira um espaço na rádio para veicular publicidade e, por meio do procedimento comum, passaram o material (briefing) a ser veiculado.

Ainda segundo a assessoria, a Transamérica teria ignorado o briefing e inventado essa “esquete” e, por isso, será processada “pelo uso indevido e sem aprovação de seu nome em inserção testemunhal veiculada em programa da emissora”, como disse a nota de esclarecimento no site do Metrô. A rádio, segundo o Estadão, diz que a “peça” é da estatal. E aí, né?

Independente da culpa, que todos esperamos vir à tona, o que é mais decepcionante é pensar que esse tipo de crime ainda é visto como chacota pelos setores de comunicação. Se antes eu fiquei preocupada com a imprudência dos jornalões em descrever coisas do tipo “passou a mão no órgão genital da vítima apertando o mesmo com vigor”, o que sentir, agora, que a agressão é incitada para uma audiência ainda maior (que, segundo site da própria rádio, configura 8 milhões de ouvintes no mês)?

O que os publicitários talvez precisem entender é que a subjulgação das pessoas não é frutífero pra nada e nem ninguém. Assim, trens superlotados não oferecem nenhuma vantagem aos seus usuários e muito menos às usuárias. É revoltante ver que, mesmo depois de mais de 20 casos de assédio e até estupro nas linhas do Metrô e da CPTM, a questão não é levada a sério – nem pela mídia e muito menos pela sociedade.

 

No Egito e aqui

Em 2011, a quantidade sufocante de jovens que foram às ruas no mundo árabe por não poderem mais suportar a situação em que viviam pareceu, por algum tempo, apontar para uma mudança radical no  status quo do Oriente Médio. No caso do Egito, os protestos derrubaram o presidente Hosni Mubarak, já há 30 anos no poder, e abriram a possibilidade para a invenção de uma nova maneira de se viver. No lugar de algo novo ou revolucionário, como foi chamada a Primavera Árabe por alguns, instaurou-se uma eleição aos moldes ocidentais segundo as aclamadas democracia e liberdade norte-americanas. Na eleição realizada em 2012 os dois oponentes que disputavam a presidência representavam as duas principais forças presentes no Egito: a militar e a religiosa. Vence a religiosa e Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana sobe legitimamente ao poder: eleito pelos princípios democráticos e transparentes. Mas não por muito tempo. Os protestos voltam ao cenário egípcio e inundam a Praça Tahrir, no centro do Cairo. A repressão é intensa, egípcios são mortos. Dessa vez, quem sabe, a democracia consiga vingar nessa terra seca e infértil deixada por três décadas de ditadura. O único problema foi que havia ainda no Egito quem gostasse de ditadura e de um Estado militarizado: os militares. Eles tomaram o poder e permanecem lá desde então, praticando o terror.

No dia 19 de Março foi decidido que o filho de Mursi, o vencedor da eleição que foi deposto pelos militares, será julgado por consumir maconha.

No dia 20 de Março um menino de 15 anos pró-Mursi é morto.

Ainda no dia 20 de Março dois são mortos e centenas feridos em protesto realizado pelos islamitas.

Ontem, o governo do Egito condenou 528 pessoas à pena de morte, todos eles islamitas.

Agora vamos dizer que a democracia simplesmente não funcionou no Egito? Nos Estados Unidos a democracia funciona belissimamente. Ontem mesmo os EUA declararam repúdio total à decisão do governo egípcio em relação às penas de morte, alegando que isso vai contra os direitos humanos.

Lembremos apenas que os Estados Unidos possui e aplica a pena de morte, mas jamais condenará 500 pessoas de uma vez só, por isso muito mais humano. Lembremos que a política anti-terrorista norte-americana mata por precaução os inúmeros suspeitos e perigosos. Lembremos, portanto, que o terrorismo de Estado não é exclusivo de ditaduras, mas é inerente ao próprio funcionamento estatal.

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Dilma e o Capitalismo II

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Em Abril de 2013, escrevi para esse blog um artigo intitulado “Dilma e o Capitalismo”. Nesse artigo analisei dois componentes fundamentais. O primeiro foi a probabilidade da gestão econômica de Dilma influir negativamente em seu desempenho eleitoral. O segundo foi uma análise mais macroeconômica: será que Dilma estava caminhando em direção a uma política macroeconômica mais estatizada, a exemplo do que já ocorreu no Brasil com os PNDs dos militares, ou será que Dilma estava avançando em direção a uma economia mais liberal. Na época, respondi as duas perguntas: em primeiro lugar não, não havia nenhum risco da presente situação econômica do Brasil impedir a reeleição de Dilma, e em segundo lugar Dilma estava caminhando em direção a um governo mais liberal. Quem deseja rever os argumentos suscitados por mim na ocasião, veja aqui.

Porém, praticamente um ano se passou desde então. O que se alterou? Será que a conjuntura se transformou? Que acontecimentos ocorreram que ameaçaram mudar ou mudaram efetivamente os preceitos que eu afirmei ali?

Seguindo a ordem que abordei, começo primeiro pela análise de economia política. É fundamental aqui retomar o “quadripé do bolso”: o emprego, a renda, o crédito e a inflação. Pode parecer uma injustiça analisar a política econômica olhando apenas esses indicadores. Mas, novamente, devemos lembrar: a esmagadora maioria da população não lê (nem confia) nos jornais, e muito menos entende conceitos básicos de macroeconomia. Dessa forma, ao invés de analisarem os dados do investimento, olham apenas para os dados do desemprego, e ao invés de observarem os debates sobre a selic, olham apenas para os índices de inflação (quando não apenas os preços no mercado). É uma forma mais simplificada de se olhar a política econômica, mas ainda sim relativamente eficiente.

Analisando esses 4 elementos centrais, observa-se que não há nenhuma grande alteração. O desemprego está em 4,8%, posição ainda mais favorável do que o encontrado em abril de 2013, no último artigo (por volta de 5,5%). A renda continuou crescendo acima da inflação. A disponibilidade de crédito continua abundante, embora tenha desacelerado com o aumento da taxa de juros. E finalmente a inflação de 5,91% continua dentro da margem de 6,5%, que é o limite, mas parece teimosamente distante dos 4,5% que é o centro da meta. Ou seja, economicamente falando Dilma não corre nenhum risco eleitoral.

Tendo em vista a sensação do eleitor, podemos passar agora para questões mais complexas da macroeconomia. Será que os fundamentos macroeconômicos do país vão bem?

Em 2011 e 2012 o governo tomou ações que visavam realizar uma consolidação fiscal, ou corte de gastos, como se diz na linguagem corrente. Falei sobre as medidas dessa consolidação no artigo anterior. O objetivo fundamental do governo era que esse corte de gastos pudesse concretizar uma redução na taxa de juros, historicamente elevadas desde o Plano Real. Por que os juros são um fator tão importante numa economia ao ponto do governo cortar gastos e ameaçar o crescimento para reduzi-lo? Bom, porque a alteração de juros sozinha já mexe em alguns dos elementos macroeconômicos mais importantes de um país, a saber: o custo de capital, a taxa de câmbio e o endividamento do governo. Sobre o endividamento do governo já falei um pouco no primeiro artigo: é fundamental diminuir o tamanho da dívida pública para que o Estado possa aumentar sua capacidade fiscal e subsequentemente diminuir os impostos danosos à economia (leia-se aqui: “tributos sobre a produção”). Sobre os dois outros elementos macroeconômicos, cabe agora uma explicação mais detalhada.

A taxa de juros de qualquer país define o custo de capital básico dele. A base para esse raciocínio nasce de uma premissa bastante simples: os Estados são os atores econômicos mais seguros para se emprestar dinheiro numa economia. Toma-se isso como verdade porque: 1. Os Estados são eternos e; 2. Os Estados podem aumentar ou diminuir impostos à vontade para pagar seus credores. Bom, a história já nos mostrou mais de uma vez que nem sempre os Estados duram pra sempre e nem sempre eles são capazes de aumentar impostos indefinidamente para pagar seus credores (às vezes não há condições políticas ou mesmo econômicas para isso). Mesmo assim, é fato que os países são atores econômicos bastante sólidos, que só entram em falência ou deixam de pagar seus credores em situações macroeconômicas muito atípicas.

Partindo dessa premissa que a dívida do Estado é o ativo mais seguro numa economia, e levando em conta que a taxa de juros de um país é exatamente a “remuneração pelo risco” que o credor tem em emprestar dinheiro a esse país, então nenhum ativo econômico normalmente tem rentabilidade inferior à taxa de juros. Do contrário, seria mais fácil simplesmente trocar esse ativo (por exemplo, a ação de uma empresa) por títulos do governo, já que a remuneração é superior e o risco é do investidor não obter o pagamento é “praticamente inexistente”.

Pode se perceber então, como a taxa de juros influi no custo do crédito para as empresas, por exemplo. Numa economia com taxas de juros módicas, os bancos são incentivados a emprestar dinheiro para as empresas, já que eles ganham pouco por deter ações do governo e é provável que as empresas sejam capazes de “superar” o que o Estado paga. Já numa economia com taxas de juros elevadas (como é o caso da brasileira), os bancos sempre pensam duas vezes antes de emprestar dinheiro às empresas, já que apenas emprestando dinheiro para o governo eles já estão ganhando bem, sem o riscos econômicos inerentes a qualquer atividade comercial (como crises econômicas, crises específicas no setor daquela empresa, etc).

Além do custo do capital, outro elemento que é fundamental (principalmente para a atividade industrial) é a taxa de câmbio. Em outras palavras, “quantos dólares eu consigo comprar com tantos reais”. Um país com moeda valorizada dificulta a vida de sua indústria, e um país com moeda desvalorizada facilita. Por que? Por que a taxa de câmbio mexe no comportamento consumidor de vários mercados ao mesmo tempo. Peguemos o exemplo do real. No mercado interno, quando o real está valorizado, o consumidor é capaz de comprar produtos importados com maior facilidade. Ao mesmo tempo, no mercado externo, esse mesmo real está valorizado torna mais difícil importar produtos brasileiros, já que eles são mais caros em relação a produtos que vem de países com moedas mais “baratas” (o caso da China, por exemplo). Ou seja, se o câmbio está valorizado, ao mesmo tempo em que um país “compra mais” ele também “vende menos”, e quando o câmbio está desvalorizado o país passa automaticamente a “comprar menos de fora e vender mais”.

As taxas de juros são fundamentais para as empresas (especialmente as industriais) nesses dois sentidos, portanto. O custo de capital e a taxa de câmbio são dois elementos extremamente importantes para a estratégia e a atividade empresarial. O que então não funcionou?

Ocorre que para se realizar uma transformação macroeconômica tão profunda como a que o governo pretendia, é necessário fazer muita articulação. E, como se sabe, o governo atual “não é muito bom de conversa”. O corte de gastos que o governo realizou na verdade foi incapaz de atingir os gastos de custeio da máquina pública. Não houve (e não há) condições políticas para se fazer isso. O que acabou se cortando, na verdade, foram os investimentos, o que acabou retardando em muito o crescimento do PIB.

O governo acreditava que as alterações no custo de capital, as desonerações pontuais e as mudanças na taxa de câmbio fariam com que as empresas investissem mais, o que compensaria essa perda de investimentos por parte dele. Porém, o mercado não comprou a ideia de que a redução no custo de capital e as desonerações eram pra valer.

E não comprou porque ao mesmo tempo em que emitia esses sinais, o governo também emitia outros bastante contraditórios com a ideia de que estava se criando um ambiente no Brasil com menos participação do Estado na economia. Observou-se, por exemplo, o aumento do crédito na economia por meio dos bancos estatais (BNDESe Caixa Econômica Federal). Se o governo diminui a taxa de juros, ele está indicando que pretende que os bancos privados tomem papel maior como financiadores da economia. Mas se ao mesmo tempo em que faz isso o governo aumenta o crédito nos bancos públicos, o que ele quer dizer na verdade? Ao mesmo tempo em que cortou gastos em seus próprios investimentos o governo aumentou os gastos com os bancos públicos ao ponto de hoje 9% da dívida pública brasileira serem empréstimos do BNDES.

Além dos bancos públicos o governo também gerou desconfiança no empresariado em outras ocasiões, como a negociação de preços no setor elétrico. A forma autocrática com a qual o governo agiu aumentou a percepção de risco e de arbitrariedade das ações da administração federal. Com essa percepção de que o governo estava empreendendo programas pontuais e não uma estratégia de desenvolvimento, o empresariado nacional decidiu utilizar as desonerações para aumentar sua margem de lucro e adiar os projetos de investimento. Isso culminou no crescimento baixo que testemunhamos nos últimos anos, agravado por um crescimento ruim no mundo inteiro (o que gera uma competição mais acirrada nos mercados consumidores ainda saudáveis, como é o caso do brasileiro).

É evidente que um crescimento menor significa arrecadação menor, o que fez com que se tornasse mais difícil de cumprir as metas de superávit fiscal (o dinheiro economizado para pagar a dívida). Nesse momento o governo tinha duas opções: ir ao mercado e explicar a situação ou tentar aplicar um corretivo e dizer que estava tudo bem. Ele optou pela segunda opção, o que deu origem à chamada “contabilidade criativa”. Descoberta a malandragem, aumentou-se ainda mais a desconfiança do mercado em relação ao governo.

Há um efeito colateral na redução de juros que é o aumento da inflação. Não é difícil de entender por que isso ocorre. Com juros menores, o dinheiro vale menos. Com o dinheiro valendo menos, o preço de todos os produtos importados tende a subir. Numa economia como a brasileira, na qual boa parte dos produtos industrializados hoje vem do exterior, o impacto imediato de uma redução de juros e da desvalorização monetária é bastante significativo. Isso associado a uma inflação inercial que existe no Brasil e alguns choques de custo (a história do tomate, entre outras) levou a uma inflação relativamente alta nesse período (comparado ao anterior).

Foi então que o governo se viu em uma situação bastante delicada. Ao mesmo tempo em que havia perdido crescimento devido a cortes de gastos e redução de juros que não se converteu em investimentos privados, o governo se viu com uma inflação acima do normal. A agenda de concessões veio para tentar aplacar esse baixo crescimento, forçando o setor privado a investir por meio dos contratos. Não satisfeito com toda a desconfiança que já havia causado, o governo ainda tentou controlar as taxas de rentabilidade dessas operações. Decidiu voltar atrás quando o empresariado demonstrou que não participaria das concessões nessas condições. E, desde o ano passado, após ter baixado os juros a duras penas num esforço de mudança de política macroeconômica, o governo decidiu elevar os juros para controlar a inflação (que atualmente é agravada pela valorização do dólar).

Qual foi o real erro macroeconômico cometido por essa administração? O erro fundamental foi o de ser ambíguo, emitindo sinais contraditórios para o mercado, o que terminou na sua inação. Quando incertos do futuro, os empresários cessam investimentos e aumentam o caixa, é a reação natural. Num mundo conturbado como o que vivemos nos últimos anos, era necessário se ter uma liderança muito ativa por parte do governo para contrapor esses temores. Liderança não significa controlar, mas coordenar a economia.

Talvez a administração tenha sido ambígua porque “o governo” não é apenas uma pessoa, mas várias. Uma pessoa delas, por exemplo, é a responsável por três desses sinais contraditórios enviados ao mercado (emissão de dívidas para bancos públicos, contabilidade criativa e tentativa de controlar a rentabilidade nas concessões), o Secretário do Tesouro Arno Augustin. É sabido que em qualquer governo os embates ocorrem. Porém, para que no final o governo pareça como uma entidade única é fundamental que um ator político seja capaz de articular todas as opiniões numa única estratégica. Trata-se, em última instância, de uma atividade política. E é por isso que talvez não seja tão absurdo afirmar que o maior problema econômico do Brasil atualmente não seja econômico em si, mas político. Os próximos meses revelarão se a atual administração será capaz de articular todos os membros de sua administração em uma única voz, ou mesmo se os erros cometidos acabarão uniformizando as ações futuras do governo, eliminando as ambiguidades no discurso (como já parece estar ocorrendo agora).

Como vimos com os dados econômicos do início, a situação econômica atual não é catastrófica. Aliás, está bem longe disso. Tendo em vista a situação econômica internacional, o Brasil tem tido um desempenho acima da  média na crise. Mas com essas pendências resolvidas e com uma relação de diálogo mais profícuo com o mercado, o governo pode entregar um crescimento mais favorável e fundamentos macroeconômicos sólidos para o futuro. Tendo em vista que o Brasil é um país jovem com tantos problemas a resolver e com grandes manifestações às portas, esse cenário torna-se não uma opção mas uma meta a ser cumprida. A conferir.

Das derrotas

por Emiliano Augusto

Às vezes, antes do salto, a gente não confia nas próprias pernas, só pra no ar perceber que elas tinham forças suficientes sim, e quem sabe, tendo pulado melhor na hora do impulso, não haveria queda. Tudo bem, a força nas pernas vai ser necessária para levantar e tentar o salto novamente, agora mais confiante.

Back in the U.S.S.R.

Soldados na Guerra da Crimeia

No centro do conflito entre a Rússia e a Ucrânia está a famosa cidade-fortaleza de Sebastopol. Essa cidade foi o cenário de muitas ‘glórias’ militares russas do passado, e continua sendo a sede da frota naval russa do Mar Negro. Mesmo depois do colapso da União Soviética, mais de duas décadas atrás, Sebastopol continuou sendo um enclave russo dentro da Ucrânia; por meio de diversos tratados, nos moldes dos que regem o enclave estadunidense na Baía de Guantánamo, a Rússia aluga as partes da cidade e do porto que sediam a sua frota na região.

Em tempos longínquos, a frota do Mar Negro era o epicentro do poder bélico russo, um símbolo da determinação do império  de sair dos confins do Mar Negro e adentrar ao Mediterrâneo em busca de conquistas e riquezas em terras longínquas. Durante a Guerra da Crimeia, em 1855, a cidade de Sebastopol foi sitiada durante 11 meses por uma força Anglo-Turco-Francesa; esse conflito foi imortalizado por Leo Tolstoi em seus Esboços sobre Sebastopol. Já na Segunda Guerra Mundial, Sebastopol resistiu à invasão Nazista por 250 dias, recebendo  o título de “cidade herói” junto Stalingrado, Leningrado, Odessa, Minsk, Kiev, Moscou e algumas outras. Por fim, em 1954, o então Premiê Soviético Nikita Khrushchev presenteou a Crimeia à Ucrânia; Sebastopol, entretanto, recebeu status apartado de “zona especial”, gerida diretamente de Moscou.

Mapa da Guerra da Crimeia

Mapa da Guerra da Crimeia

Nas últimas duas décadas, entretanto, a outrora famigerada fortaleza-cidade de Sebastopol e a sua Frota do Mar Negro entraram pouco em atividade. Sem o antigo sonho soviético de criar uma frota naval de águas profundas que pudesse fazer frente à frota estadunidense em todos os oceanos, a Frota do Mar Negro foi posta de lado; mesmo tendo sido mobilizada na invasão russa da Geórgia em 2008, ela acabou não participando do conflito.

“[A Frota do Mar Nego] tem recebido pouca atenção nos últimos anos. Algumas atualizações foram feitas, mas não muitas. […] A Rússia historicamente é uma potencia terrestre, e a marinha é usualmente vista como algo para proteger a costa. […] A Rússia poderia facilmente vencer uma guerra contra a Geórgia, ou – deus me livre – a Ucrânia, sem se valer de suas forças navais.” – (Tradução Livre) Alexander Konovalov, presidente do Instituto de Avaliações Estratégicas de Moscou

Das quatro maiores frotas navais russas, a do Mar Negro é a de menor importância, vindo depois da Frota do Mar Báltico, da Frota do Mar do Norte e da Frota do Oceano Pacífico. Além disso, outros portos na região, dentro do próprio território russo, teriam capacidade de abarcar a Frota do Mar Báltico.

Então por que a Rússia estaria tão interessada na região?

Analistas têm sustentado há um bom tempo que a Rússia atualmente é governada por um grupo informal, uma liderança coletiva de cerca de uma dúzia de figuras, com Putin como homem de frente e decisor-mor. Os veteranos dos serviços de segurança, ex-KGBs, sempre tiveram voz mais forte nessa corte-santuário, mas não a monopolizavam. Eles eram contrapostos por um grupo de tecnocratas que buscava integrar a Rússia à economia mundial, ao menos até agora. A forma como a decisão de intervir na Criméia foi feita parece sugerir que a Panela-Putin está ficando cada vez menor, composta inteiramente por veteranos da KGB.

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“A decisão de invadir a Criméia, funcionários e analistas disseram, foi feita não pelo conselho de segurança nacional, mas em segredo por um círculo menor de assessores mais próximos e de maior confiança de Putin. O grupo excluiu os altos funcionários do Ministério de Relações Exteriores e os conselheiros relativamente liberais que poderiam ter previsto o impacto económico e as potenciais consequências de sanções americanas e europeias.” (Tradução Livre)

Putin participou da cerimônia de encerramento de uma Olimpíada que ele considerava ser a vitrine do renascimento da Rússia como uma nação moderna e ponderosa; ele então ordenou a rápida e furtiva apreensão da Crimeia, sacrificando os ganhos econômicos russos da última década aos deuses da expansão imperial.

Os Estados Unidos e a Europa não conseguiram defender adequadamente a integridade territorial da Ucrânia; não por falta de armas, mas por falta de dinheiro. Em parte por causa das duas guerras que drenaram os cofres dos Estados Unidos e em parte por causa da crise financeira, os Estados Unidos e a Europa tinham pouco a fazer contra a Rússia.

Para além da romântica Sebastopol do imaginário estatal russo, a atual crise ucraniana tem suas raízes no desejo que Vladimir Putin tem de construir uma “União da Eurásia”, uma zona económica que inclua o maior número de ex-repúblicas soviéticas possível e que restabeleça o domínio regional russo. Putin queria que a Ucrânia se juntasse ao bloco, mas esse desejo colidiu com a oferta feita pela União Europeia.

Em março passado, o então presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, prometeu trabalhar em direção a um acordo com a UE. Então, em meados de novembro, ele parou abruptamente, o que provocou os protestos pró-europeus que eventualmente o derrubaram. Para Yanukovych, a proposta da UE, embora popular com os ucranianos, continha graves riscos. Para começar, ele teria enfurecido Putin, seu padrinho político. Em segundo lugar, o acordo o teria obrigado a liberar a sua maior inimiga política, Yulia Tymoshenko. Por fim, adequar a Ucrânia aos regulamentos da UE teria um alto custo. Como parte da negociação, Yanukovych pediu €20 bilhões a título de auxílio, mas a UE, com seus próprios problemas econômicos, ofereceu menos de um trigésimo do valor: €610 milhões.

Então, em meados de dezembro, a Rússia fez a sua oferta. Ela se comprometeu a comprar US$15 bilhões da dívida externa da Ucrânia e descontar em um terço o preço do gás russo vendido à Ucrânia, o que resultaria em uma economia de aproximadamente US$7 bilhões aos cofres ucranianos. Esse dinheiro, Putin acrescentou, não implicaria em “aumento, redução ou congelamento dos padrões sociais, pensões, subsídios ou salários”. Era um verdadeiro tapa na cara das medidas de austeridade do FMI que provavelmente acompanhariam o acordo com a UE.

Quando o Presidente Viktor Yanukovych caiu, a Rússia decidiu intervir e rapidamente instigou a convocação de um referendo local, que fora organizado em dez dias, realizado de forma contrária à Constituição Ucraniana, sob o olhar de soldados armados, sem que a mídia da oposição pudesse se manifestar e sem que uma das possibilidades fosse manter o status quo da região. A secessão da Crimeia, desta forma, foi feita na contramão de todos os processos atuais de separação regional que acontecem na Europa. Quando ocorrem, movimentos de separação devem ser os desfechos de pacíficas negociações parcimoniosas, tanto no âmbito nacional quanto internacional. A separação da Crimeia não chegou nem perto desse ideal, mas isso não causará uma guerra entre grandes potencias. Os Estados Unidos e a União Europeia já estão tratando a anexação como um fato consumado.

Entretanto, a menos que Putin sinta algum efeito negativo, as suas ambições irredentistas crescerão. O  próximo alvo provavelmente será o resto das áreas de grande população russa no leste da Ucrânia, incluindo as cidades de Luhansk e Kharkiv. Isso resultaria em um desmembramento ainda maior da Ucrânia, e entraria para a história ao lado da partição da Polônia como um dos mais notórios exercícios de poder arbitrário.

A anexação da Criméia – que contém apenas 4 por cento da população da Ucrânia – não vai por si só alterar significativamente o equilíbrio de poder na Eurásia, mas ela criou um precedente preocupante que outras potências grandes (e não-tão-grandes) podem invocar. Além de privar Putin do reconhecimento internacional do seu espólio, a comunidade internacional precisa enviar uma mensagem clara sobre o preço a ser pago por nações que redefinem unilateralmente fronteiras internacionais. Caso contrário, continuaremos a ver a engatinhada do neo-império russo para além da Moldávia (com os territórios ocupados da Transnistria), da Georgia (com os territórios ocupados da Abkhazia e South Ossetia) e da Ucrânia.

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