Há quem sambe diferente

Explicar o Brasil não é fácil, quisera eu que alguém o explicasse pra mim! Mas é essa responsabilidade que sinto quando alguém me questiona sobre o meu país em terras lusitanas. Algumas das perguntas eu adoro responder, principalmente as musicais! Todo Lepo Lepo se transforma numa oportunidade de mostrar outra face da música brasileira, que costuma ser sempre bem recebida. Caetano já tem sua fama, Adoniran é sempre garantido, Itamar Assumpção, Jards Macalé e outros malditos apresento mesmo pelo espanto.

Mas, em tempos de carnaval, o que eles querem entender é como se dá essa festa que mora no imaginário mundial. Os estereótipos vem todos juntos e misturados, com muita mistificação, exotismo e erotismo. A Vice publicou a seguinte definição:

CAR.NA.VAL
 s. m.


1. Orgia romana. Só que bem mais colorida, com confetis, música e bebida.


2. Época do ano em que “ninguém é de ninguém”. Todos os corpos estão expostos numa montra de perdição e prazer. Toda gente fica louca e, nove meses depois, a taxa de natalidade do país sobe.

Ai, que preguiça, há quem sambe diferente! Eu aplaco os ânimos e hormônios dos que tem essa idéia dizendo que é uma festa muito diversa e divertida, com sambódromo, bloquinhos de rua, Garantido e Caprichoso no Amazonas, o Galo da Madrugada, frevo, maracatu, putaria, festa de família. Frustração em alguns, curiosidade em outros.

Temos sempre pano pra manga! O Brasil é sim o país do Carnaval, do B do Brics, do tamanho de um continente, do povo simpático, da feijoada, da floresta e do Cristo, da Copa e da Olimpíada. Somos também o país das favelas, de tenebrosas transações, dos recentes protestos, do PCC, de Amarildos, de Felicianos e de Sheherazades. O interesse é crescente, seremos manchete de muito mais notícias esse ano e estamos na boca do povo.  As perguntas têm evoluído, assim como seu grau de dificuldade.

Aguardei ansiosamente a edição de hoje de um dos principais jornais do país, o Público. Essa quarta-feira de cinzas é o aniversário de 24 anos do periódico e a edição foi dedicada ao Brasil, tendo a Adriana Calcanhotto como diretora. Achei que seria importante saber o que andam falando de nós por aí, pra saber o que falo ou rebato sobre nós por aqui. Quero dividir algumas coisas que me chamaram a atenção…

Brasil descoberto? B de Banana? Oi? Engoli a seco e, para sobreviver até a última página, ia deixar passar uma escolha publicitária no mínimo duvidosa.

Brasil descoberto? B de Banana? Oi? Engoli a seco e, para sobreviver até a última página, ia deixar passar essa escolha publicitária no mínimo duvidosa.

O editorial da Adriana Calcanhotto me fez torcer pra que ela entrasse por essa porta agora, dissesse que me adora e em meia hora voltasse atrás em algumas palavras. Mas ela logo avisou que era difícil falar de um país tão inapreensível. Eu aí então me identifiquei com a corda bamba que é fugir de estereótipos e da chatice que é só falar mal do Brasil. É preciso estar atento e forte para não recair sobre o samba ostentação, do meu Brasil Brasileiro, grande pela própria natureza. Dá saudade e por vezes o Brasil é tudo isso pra mim, é o carnaval do Rio de Janeiro, a Bahia da Tropicália, a São Paulo do multiculturalismo e todas as nossas incríveis paisagens naturais. Aí eu lembro de todo resto e tento equacionar numa resposta convincente às perguntas, inclusive para as minhas.

No mais, o resto da edição foi surpreendente! Eles também estavam nesse exercício de desconstrução e conseguiram em boa parte mostrar nossas peculiares incongruências. É engraçado como até fico espantada com a habilidade do jornalismo em propor questões e mostrar diferentes olhares depois de tanta Folha e Estadão na minha vida. Mundial 2014: delírio tropical ou porta para a modernidade? Bolsa família: instrumento eleitoral ou combate inevitável a pobreza? O apartheid educacional no Brasil. Com grifo especial para a última manchete, apenas afirmativa, que foi das mais corajosas ao expor as dificuldades do ensino público e dos próprios professores. Ah, sobre as manifestações, tópico citado em diferentes matérias, a única pessoa que usou a palavra vândalos foi a nossa própria Adriana.

Ainda bem que em Portugal há quem olhe o Brasil além do B de Banana! Agora, imagina na Copa…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s