RadioTaxi

Anteontem peguei um taxi para o aeroporto. Assim que sentei veio o som de um rádio alto e chiado. Um velhinho estava no volante; um aparelho auxiliador de audição em seu ouvido.

“Vou ao aeroporto. Pode continuar reto aqui.”

“OK. Pode deixar.”

Antes de conseguir pensar em algo para lhe falar ou em algum tema para discutir, tive meus pensamentos raptados pelo homem que gritava no rádio.

“Neste dia 11 você será abençoado; deus lhe dará tudo que você não conseguiu na sua vida. Você vai comprar aquilo que você precisa comprar, vai vender aquilo que precisa vender, vai encontrar aquele fornecedor que você está procurando, vai conseguir aquela promoção que você está esperando…”

Que interessante, além de criador, ele também é comerciante.

“E esse dia 11 será especial também para as mulheres, que terão um programa de uma hora aqui na rádio para ajudar elas a enfrentarem os desafios do novo século.”

Ebaaa. Uma hora de velhos caucasianos ensinando as mulheres do Brasil a enfrentarem a dura realidade que as circunda. Quem acha que eles têm algo para ensinar põem a mão aqui, se não vai fechar!

E então começaram os hinos e os cânticos que – graças a deus – nem o nobre e devoto Sr. João conseguiu aguentar.

Aeeee. Vamos para o Rock’n’Roll. 102.1! Agora vai…. “E o problema é que muitos estudantes não sabem que o socialismo existiu. Alguns professores vão lá e falam das maravilhas… mas não falam que Cuba é uma ditadura e que o socialismo foi um terror, especialmente na União Soviética. Esses professores de escola não sabem e não estudam a realidade desses países.”

Era mais um eloquente comentarista.

Dei o dinheiro ao taxista e desci. Não sei o contexto da fala do radialista, nem a conclusão que ele ia fazer, mas duvido que seria algo diferente do clássico: “vamos tragar essa merda já que as outras opções também foram/são uma merda.”

Que tal pensarmos e vermos se a não-merda existe – se a não-merda pode existir?

Agora, sentado no avião, trago a merda, esperando que algum dia ela esteja menos pulverizada em nossos ares e que eu seja menos cúmplice desta bostaria aerotransmissível.

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A limpa

É inevitável. Todo mundo sabe disso (ou vai saber um dia). Chega uma hora em que tem que acontecer. Você pode postergar e postergar, esperando que se faça magicamente por duendes operários enquanto você dorme. Mas não adianta e você tem que cumprir esta tarefa. Pois é, um dia você tem que arrumar o armário.

Sabe aquele armário, lotado de tralha e objetos de utilidade quase nula? Roupas velhas, brinquedos de criança, anotações de cursinho, elucubrações universitárias, poemas tolos que nunca viram luz do sol, brindes de conferências e simpósios são alguns itens que podem povoar aquele armário. É a luta de um único ser humano contra o império das tralhas. Se estivesse ainda vivo, Camões escreveria uma epopéia sobre essa aventura mnemônica.

Oh, céus, mas por que tamanha dificuldade?

Talvez porque realizar a “limpa” do armário é mais que despejar alguns objetos anacrônicos e criar espaços vazios. É terapia. É catarse. É a hora de aparar as arestas com o tempo, ou melhor, com o passado. Explorar as entranhas do armário é um passeio laborioso pela canopéia das memórias, é relembrar-se de encontros passados e esquecidos em algum lugar da caminhada, seja para revisitá-los, seja para deixá-los esquecidos. É colher frutos doces de outrora. Mas também alguns amargos. E, freqüentemente, alguns agridoces. Você vai cavando, encontrando pepitas de tempos dourados, mas também dragões adormecidos e preguiçosas quimeras. Aquele bilhete com telefone da menina mais popular da sala e o seu troféu de tricampeão de bocha.

Há de tudo nos subterrâneos do armário, assim como há de tudo na vida.

Que complicado é passar pelo portal do armário, desvendar o micro-cosmo das prateleiras e das caixas submissas à poeira. Esse momento de  revalidar o contrato de moradia de algumas tralhas e se desfazer de algumas outras. Se desfazer para refazer. Abrir as alas para as novas tralhas…

São tralhas tolas, sem uso nem significado? Tudo porcaria? Talvez.

Mas talvez seja um protesto ontológico contra o fim e a absurdidade deste mundo. Vai saber.

Haitiano no elevador

por Maria Shirts

Eu não sou boa de elevador. Parece piada. Afinal, é um elevador. Mas nunca consegui entender as condutas sociais, filosóficas e morais que regem o ascensor.

Faz tempo que eu descobri isso. Primeiro achei que era um medo, uma claustrofobia, uma paranoia dessas de gente doida, tipo a protagonista do filme Medianeras. Mas depois de ser abordada algumas vezes pelo papinho climatempo, os olhares constrangidos, a disposição errada do espaço e ser flagrada tirando a selfie no espelho, percebi que, na verdade, eu nunca aprendi a me portar direito no transporte 2×2.

Não é ‘rocket science’, eu sei. Mas, tente entender: eu nunca morei em prédio. Sempre trabalhei em sobrados, salvo algumas exceções (e o escritório atual). Adquiri menos referências ascensoristícas do que a maioria. É claro que sempre fui na casa de amigos, parentes, do namorado, em consultórios. Mas, faça as contas: eu provavelmente peguei muito menos elevador na vida do que você.

Dada a incompetência, criei eu mesma um modus operandi ascensorial. Entro ouvindo música, lendo ou com o os olhos já treinados para rastrear e atingir o mais rápido possível o/a Elemidia (não sei qual o gênero de ‘Elemidia’).

Pois bem, estava na última semana saindo de uma reunião no 25º andar desses prédios comerciais e espelhados quando botava meu plano operacional em prática. Antes das portinhas cinzas abrirem eu já tinha colocado os fones de ouvido e, uma vez ali dentro, aumentava consideravelmente o som do iPod. Mas foi questão de um só andar.

A porta abriu no 24º e, tão logo entrou, a senhora uniformizada operando um celular (provavelmente mandando um SMS) começou a gesticular, olhou para mim abrindo e fechando a boca, emitindo sons ininteligíveis aos meus ouvidos salvaguardados pela tecnologia appleniana. Era comigo. Tirei o fone, em sinal de educação, e perguntei:

– Pois não senhora?

– ….meu namorado, sabe. Um barato, mas muito ciumento!

Tá vendo? É por isso que eu não gosto de elevador. O que dizer? O que fazer? Por que que as pessoas se submetem a isso? Em 5 segundos muitas respostas potenciais surgiram na minha cabeça. Pensei em dar aquele sorriso amarelo, em condescender com o drama, em dar conselhor amorosos, em sair no primeiro andar em que a porta abrisse. Mas antes que eu pudesse tomar alguma decisão, ela emendou:

– Mas acho que é porque ele é haitiano. Você sabe se é um povo ciumento?

(A voz interna: ma che?)

– Haitiano? Não sei não senhora.

– Ai menina deve ser, porque olha… Cê sabe que ele mudou pro meu bairro só pra me vigiar?

– Ahn, er, poxa.. é mesmo? Onde a senhora mora?

– No Grajaú.

– E onde ele morava antes?

– Na Liberdade!

– Eeeita.

– Pois é menina. Mas ele é um barato. E fala português mal pra caramba! rárárá! Eu to tentando ensinar mas ele não aprende. Ê bicho burro.

– Mas português é difícil pra estrangeiro, senhora.

– É né? Deve ser mesmo. Pra gente é tão fácil.

-….

Térreo. Abre a porta, ela sai ligeira, rindo dos erros que o haitiano comete via SMS e, simpática, despede-se:

– Tchau filha! Fica com Deus.

 

Tudo menos o central

A esquerda brasileira faliu. Vai pra casa, esquerda, você está bêbada. É cachorro correndo atrás da sombra do próprio rabo. Não admira que paramos para brigar com Rodrigo Constantino, defender espírito de resultado de pesquisa mal feita (sim, estou falando da pesquisa do IPEA), e considerar um mal menor governos que fazem o que a ditadura militar não conseguiu ou se atreveu a fazer (estou falando da Maré militarmente ocupada, mas podia estar falando de Belo Monte).

Vou me concentrar sobre o texto de Francisco Bosco contra Constantino n’O Globo, até porque Francisco Bosco não é Rodrigo Constantino e nem tratá o desgaste de discutir feminismo na internet. Mas mais porque o texto nos dá um vislumbre de como programaticamente a nossa esquerda está equivocada. Primeiro, pelo procedimento, que se torna cada vez mais comum conforme avança a falência desse programa equivocado: apelar para o combate à direita, não importa o quão pequena, isolada, boçal, desmobilizada ela seja. Não é à toa que há um espaço no texto para defender que a esquerda moderada é que é revolucionária hoje, ao contrário da anti-sistêmica. Só o fantasma da direita do natal futuro mesmo pra sustentar esse desejo de querer ao mesmo tempo dirigir o capital (tá lá com todas as letras) e ser revolucionário.

Mas vamos ao programa propriamente dito. Há alguns anos, a esquerda olhava para toda a Europa e dizia: é isso que nós queremos, um estado de bem-estar social, um estado que consiga equilibrar a disputa entre capital e trabalho. Agora, a esquerda olha para os nórdicos e diz a mesma coisa, sem se perguntar por que não há todo o continente europeu para admirar. Não é por idealismo ou utopismo que a tradição revolucionária defende a necessidade internacional da revolução: é porque o capital é internacional. Se ele cresce e desenvolve-se diante de nossos olhos, é porque em outra parte do globo, onde nossos olhos não estão, ele destrói e empaca. O crescimento nos chamados BRICs não está separado da destruição das condições da força de trabalho na Europa e do trágico fim do parque industrial de Detroit. E nessa conjuntura em que o capital, ao redor do planeta, destrói a força de trabalho, a natureza, e os meios de produção que ele mesmo implantou com uma velocidade inacreditável, maior que ele cria novas condições pra força de trabalho e novos meios de produção (e a natureza ele não cria mesmo, então o grau de destruição por ora vai ser sempre maior que o de criação), a esquerda quer dirigir o capital pra fazer alguma coisa.

Não se trata de uma briga de ego para ver quem é o verdadeiro revolucionário que vai denunciar o reformismo alheio; trata-se apenas de criar um programa adequando à conjuntura. O anunciado pelo texto de Francisco Bosco não passa nem perto disso, e nós estamos dando o conforto necessário para que essas questões se mantenham escondidas ao bater palminha pra qualquer um que bata no Rodrigo Constantino ou num blogueiro afim. Os blogueiros de direita e a sua truculência não são o maior dos nossos problemas, e nós temos que parar de nos comportar como se fossem.

Somos todos Adelir

Tudo começou em Torres, no Rio Grande do Sul, quando a gestante Adelir Carmen Lemos de Goés foi até o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes com dores lombares e no ventre. A médica que a examinou recomendou uma cesariana; o bebê poderia estar em posição incorreta e poderia ser enforcado durante o parto. Adelir, decidida a ter um parto normal, assinou um termo e foi para casa. Retornaria a um hospital quando estivesse em estágios mais avançados de parto.

“Na madrugada de segunda-feira, um oficial de Justiça, acompanhado por pelo menos seis policiais militares foi até a casa da família, na localidade de Campo Bonito, zona rural de Torres, para levar Adelir Lemos de Goés até o hospital. A ação era em cumprimento a uma ordem judicial expedida horas antes, após a intervenção da Promotoria de Justiça no caso. […] ‘Minha mulher não teve o direito de escolher como minha filha ia nascer e eu ainda fui impedido de assistir o parto, que eu tanto queria’ – Emerson Guimarães.” (Aqui)

Stephany Hendz, a doula que acompanhava a gestação de Adelir e que estava junto com ela no hospital, disse que era possível sentir a cabeça do bebê encaixada no local correto e que era possível ouvir os batimentos cardíacos do filho na lateral da barriga da mãe; a criança não estava em pé. Mesmo assim, tiraram Adelir da sua casa à força, a levaram ao Hospital, fecharam ela em uma sala, a deixaram sem acompanhantes e cortaram ela com um bisturi até que houvesse espaço suficiente para que seu filho lhe fosse arrancado. Um absurdo.

Infelizmente, no Brasil, um absurdo corriqueiro.

“O mais recente relatório global do UNICEF (Situação Mundial da Infância 2011) mostrou que a taxa de cesárea no Brasil é a maior do mundo, de 44%. Os dados oficiais do Brasil mostram um percentual ainda maior. A Organização Mundial da Saúde estabelece que apenas 15% dos partos devem ser operatórios. O UNICEF é favor do parto normal e contra a cesariana desnecessária. Acredita que, para reverter a atual situação no Brasil, é preciso que a sociedade – principalmente as famílias – seja conscientizada sobre os benefícios do parto normal e que os profissionais de saúde só indiquem o parto operatório nos casos necessários.” (Aqui)

Alguns índices brasileiros mostram que cinquenta por cento dos partos em hospitais públicos são realizados por meio de cesarianas. Muitas pacientes têm cesarianas agendadas com antecedência e as mulheres que querem partos naturais não conseguem encontrar leitos livres. Médicos regularmente pedem subornos em troca de leitos para mães parirem naturalmente.

No outro lado do espectro social, o preço mais elevado do sistema privado promete conforto e menos tempo de espera, cesarianas facilmente programadas e rapidamente realizadas. Médicos efetuam até oito cesarianas por dia e existem clínicas-resorts onde mulheres agendam cesarianas, recebem manicures pós-operatório e têm serviço de quarto.

“O modelo de assistência ao parto no Brasil, falando do ponto de vista da melhor evidência científica, nem é seguro e nem é efetivo. Parte disso se deve à aposta na assistência centrada no médico de formação cirúrgica. O que acontece quando você coloca profissionais que são cirurgiões, em um ambiente cirúrgico, para cuidar de mulheres saudáveis? Obviamente vai haver uma tendência a ter mais cirurgias. É a vocação do cirurgião, do ambiente cirúrgico. Nesse sentido, não há nada de inesperado no cenário obstétrico brasileiro. […] Os dados mais recentes mostram que a maioria das mulheres que dá à luz pela via vaginal o faz em posição de litotomia (deitada com a barriga para cima e pernas levantadas). A maioria delas tem o seu parto induzido ou acelerado com ocitocina. A maioria tem sua vagina cortada numa episiotomia (para supostamente facilitar a passagem do bebê). Cerca de 40% são submetidas a uma manobra de Kristeller (expulsão forçada, empurrando a barriga da gestante). Na hora do parto mesmo, apenas em torno de um terço das mulheres, tanto do setor público quanto do privado, tem seu direito a acompanhante respeitado, e assim por diante. Então a experiência do parto vaginal é “pessimizada”, ela é tornada mais sofrida física e emocionalmente, para se oferecer, em comparação, a cesária como experiência mais aceitável. Esse é mais ou menos o quadro que a gente tem.” Dra. Simone Diniz, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Aqui)

É claro que cesarianas indubitavelmente têm utilidades, são consideravelmente seguras e podem salvar a vida da mãe e do filho em diversos casos, mas realizar esse procedimento cirúrgico sem necessidade pode resultar em diversas complicações médicas, causar transtornos psicológicos às pacientes e fazer com que a experiência de dar a luz seja infinitamente mais complicada e dolorosa do que ela precisa ser. O caso de Adelir foi mais um exemplo da coação e violência sofrida pelas mulheres no sistema de saúde brasileiro; um caso que ganhou mais repercussão, mas que representa a situação de diversas brasileiras e brasileiros.

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¿Hablas español?

Este texto foi feito para um laboratório de jornalismo literário que tinha como proposta a produção de um perfil de um exilado em 1968 num cenário diferente: o Brasil como uma ditadura comunista

 

DIÁRIO DO GOVERNO – Jornal oficial da República Portuguesa

28 de outubro de 1968

por Maria Shirts

MADRID – Um bigode protuberante. Clichê, mas é sem dúvida a primeira coisa que salta aos olhos quando um vê Paulo Leminski detrás da porta, em seu sobrado azul claro no coração de Salamanca, Madrid.

O jovem poeta, hoje com apenas 24 anos, me recebe um pouco tímido mas, tão logo me deixa entrar, já pergunta sobre o Brasil. Faz pouco tempo que está na Espanha e, no entanto, já sente muita falta da terra onde canta o seu sabiá, Alice Ruiz, com quem casou há pouco menos de seis meses.

Sua casa é simpática, não muito grande. Decorada com motivos hippies-orientais, tem um grande poster no centro da sala do poeta japonês Matsuo Basho, seu mestre. Não demora muito e me oferece um trago de vodca ou, como prefere dizer, o chá das 5h. Recuso.

Foi muito inesperada a saída de Leminski do Brasil. Ou, pior, a sua expulsão. O regime que se instalou há quatro anos no país, liderado pelo comunista Luis Carlos Prestes, sempre simpatizou com o poeta, a quem imaginavam um possível Maiakovski brasileiro. A recíproca, ao que tudo indica, também era verdadeira.

A relação começou a amargar, entretanto, quando Leminski declarou em um sarau que ele “preferia um bom poema romântico do que um ruim poema político” já que, ao menos, o romântico não enfraquecia os ideais. Muito ofendidos, os companheiros do regime programaram seu exílio quando os irmãos Campos, já muito influentes, pediram calma pois se suspeitava que Leminski estivesse bêbado, de vodca, inclusive, a bebida pátria que, apesar de camarada, obnubilava o poeta.

Pouco convencidos, os representantes concordaram com sua estadia, mas sob advertência e vigilância. Leminski alega que não ficou sabendo da indisposição. Despreocupado, continuou produzindo e publicando seus haikais.

Inspirado pela tormenta de um mês de julho frio e tipicamente curitibano, lançou aquele que seria seu último poemeta em solo brasileiro: “Faça chuva/Faça Sol/Yo no hablo español”. Tido como a gota d’água, o regime exigiu sua averiguação, “sob a justificativa de que eu estava fazendo chacota dos irmãos bolivarianos. Mas não tinha nada a ver. Eu só queria um trocadilho com aquele rimete ‘chuva e sol, casamento de espanhol’, compreende?” disse, um pouco vencido pelo cansaço. “Mesmo porque… eu falo espanhol”, suspirou baixinho.

Quando inquirido pelos representantes do Partido, explicou que jamais tiraria sarro de Simón Bolívar, que falava espanhol e que não tinha absolutamente nada contra a América Latina. Como castigo pelo suposto desacato, foi enviado a Espanha do inimigo Francisco Franco, que pelo visto o aceitou de abraços abertos na tentativa de lograr o “Câmbio Intelec”, política de softpower que tenta atrair ao país os artistas e intelectuais de vários lugares com o intuito de seduzí-los com valores e ideais “francos”.

Ele não se interessou. É uma pessoa simples, contemplativa. Vive todos os dias uma mesma rotina: escreve, tenta publicação em revistas e jornais madrilenhos, ou então portugueses. Tem escrito, ironicamente, muito mais em espanhol. Treina judô toda semana, tendo conquistado a faixa marrom recentemente. E frequenta o cinema. Disse, entusiasmado, que daqui duas semanas vai para Paris encontrar Alice. E depois de me contar sua história, termina nosso encontro com um conselho, que acho bom publicizar: “Lugar onde todos têm razão, melhor não ter nenhuma”.

A destruição da destruição da Universidade Pública

por Emiliano Augusto

A verdade é que a universidade pública como está na nossa cabeça — um espaço de liberdade de ideias, de produção independente do conhecimento, de abertura para sementes de transformação social — foi e está sendo destruída pela universidade que ocupa o seu lugar hoje, e nenhum programa de reforma está a altura de barrar a velocidade com que se dá essa destruição. Tomemos o exemplo da Universidade de São Paulo.

No último semestre, os estudantes da USP deflagaram uma greve cuja pauta envolvia a democratização daquela universidade. Pediam eleições diretas para Reitor, medidas de democratização do acesso, como cotas, mais moradia estudantil, etc. Imaginemos por um instante que a greve tivesse sido vitoriosa: os estudantes que começassem seu curso na maior Universidade do hemisfério sul entrariam votando pra reitor, e parte deles entraria através de um programa de cotas. Podemos até exagerar na nossa imaginação para fins didáticos, e imaginar que a greve conquistara uma política de cotas radical e mais avançada que a do Governo Federal.

Pois bem, os alunos que entrariam com e através dessas conquistas se deparariam com o seguinte: os que se interessassem por pesquisa farmacêutica veriam seu conhecimento submetido à produção de cosméticos para empresas como Avon, Boticário, etc. Os estudantes de ciências humanas seriam divididos em prédios boa parte provisórios há 30 anos e com os espaços de convivência ameaçados ou simplesmente já fechados. Estudantes de comunicações entrariam em uma escola cujo espaço estudantil está sob ameaça de ser transformado em estacionamento da reitoria. Estudantes de todos os cursos se veriam diante de um corte de verbas arbitrário que cancela bolsas de estudo, alimentação, moradia, trabalhos de campo enquanto mantém obras de prédios administrativos nas áreas mais caras da cidade de São Paulo…

E estudantes da EACH, o campus da Zona Leste, o campus que poderia ter tido uma ligação com a população historicamente excluída e alijada de qualquer direito entrariam, como entram hoje, em cursos cujas aulas sequer começaram porque o campus está interditado devido a diversas contaminações, irregularidades, quiçá corrupções, e seriam atomizados por diversos institutos de outros campi. Este processo, que ocorre hoje na EACH, não é a exceção, não é um ponto fora da curva: é apenas a vanguarda de para onde essa universidade caminha.

Durante a greve, que foi derrotada, os estudantes ocupavam a reitoria, que funcionava nos antigos blocos K e L do CRUSP. É isso mesmo, dois blocos inteiro de moradia estudantil foram transformados em prédios da burocracia universitária. Uma das questões que surgiu durante a ocupação era que os blocos K e L já estavam ocupados pelos estudantes. Deixava de ter sentido pedir de volta aquele espaço que já era nosso, e a questão poderia passar a ser como transformá-lo em moradia de fato a partir daquela ocupação. Porém, naquele momento, nós não tivemos confiança nas nossas forças, e a falta de confiança nas nossas próprias forças acaba sempre se revelando em fé numa força que não é a nossa. Acabou prevalecendo a ideia de que não deveríamos ocupar com intenção de transformar imediatamente em moradia, porque isso mudaria o caráter da ocupação e a justiça poderia deferir um mandado de reintegração de posse, coisa que ela tinha decidido não deferir. Pois bem, acreditamos no caráter burocrático da justiça, o seguimos à risca, e fomos recompensados com uma reintegração de posse do mesmo jeito.

Trouxe esse exemplo para um outro exercício de imaginação: se tivesse vencido o outro argumento, os estudantes de diversos cursos — engenharia, arquitetura, ciências sociais, artes plásticas — poderiam ter colocado seu conhecimento a favor de transformar aquele espaço em moradia. Estariam criando um espécie de programa unindo diversos conhecimentos e os fazendo funcionar na prática, coisa que hoje a universidade não tem. Estariam, portando, criando uma outra universidade dentro da universidade.

Qualquer programa para a Universidade, se quer-se efetivo, precisa contemplar necessariamente a destruição da Universidade como ela é hoje, e fazer nascer dessa destruição uma outra Universidade, aquela que queremos. Talvez a greve do ano passado realmente não tivesse forças para isso — ela ainda estava muito focada apenas no que acontece no interior da universidade. Mas existe um descontentamento nas ruas, um ódio que vem sendo mastigado diariamente no ônibus, nos metrôs, nos trens, nas escolas, nos camelódromos, nos sítios de construção, com potencial para arrombar as portas, derrubar os muros, e ocupar realmente todos os espaços. É preciso deixar que esse ódio que está nas ruas contamine a universidade, e nada melhor para isso que convidá-lo a entrar e deixar que ele se organize lá dentro.