O que um suposto assassino estadunidense tem para nos ensinar sobre nós mesmos?

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Na última sexta-feira um jovem chamado Elliot Rodger, nascido nos Reino Unido mas que cresceu nos Estados Unidos da América, supostamente atacou e matou 6 pessoas em Santa Barbara, California. Rodger tinha 22 anos, nunca havia namorado e jamais tinha beijado uma garota; era virgem.

Em um video que ele postou no YouTube no mesmo dia em que ele supostamente assassinou quatro homens e duas mulheres, Rodger disse que era terrível ter que viver sozinho em um ambiente bonito. Ele não era capaz de ficar sozinho enquanto todos os seus colegas saíam e se encontravam com garotas. Mas por quais razões Rodger sentia que ficar sozinho em casa e não ter uma namorada eram problemas tão graves?

De alguma maneira ou outra todos os homens já sentiram isso, mas é ocasionalmente difícil para nós entendermos tais conceitos como advindos de ideais maiores; ideais de masculinidade. É claro que isso não quer dizer que as ações dele são justificáveis, mas talvez que os motivos que o levaram a tomar essas ações sejam inteligíveis e, se os entendermos, possamos entender um pouco mais sobre a sociedade que nos circunda e a forma com a qual atuamos nela.

Em julho [de 2013], eu passei muito tempo me exercitando no meu quarto, fazendo um último esforço para parecer o mais atraente possível para as mulheres. Propus a mim mesmo que, após duas semanas de exercício rigoroso, iria tentar o meu melhor para ir à Isla Vista e fazer tudo o que pudesse para encontrar uma garota e perder minha virgindade. […] Fazia muito tempo que eu não ia à Isla Vista, mas eu sabia que eu tinha que fazer isso. Eu não tinha nada a perder, e toda a minha vida estava em jogo. Antes de decidir definitivamente que eu iria planejar o meu Dia de Retribuição, eu queria dar às mulheres e à humanidade mais uma chance de me aceitar e me dar a chance de ter uma juventude agradável. […] Eu resolvi que, se eu fosse para Isla Vista esta última vez e voltasse para o meu quarto virgem e solitário, eu não teria escolha a não ser planejar a minha Retribuição. […] Essa foi a única coisa que poderia ter me salvado. Eu estava dando ao sexo feminino uma última chance de me fornecer os prazeres que eu merecia.” (Eliott Rodger, em seu Manifesto “My Twisted World”) (Tradução Livre

Ao ler o seu Manifesto, um tratado de mais de 130 páginas sobre a sua própria vida, é possível observar que Rodger era um jovem que estava se esforçando para se adequar aos rigorosos padrões de beleza que hoje aceitamos como paradigmas imutáveis e naturais. Mais do que isso, é possível observar que as frustrações de Rodger, enquanto pautadas no seu acesso às mulheres, eram constantemente formuladas em relação a outros homens: para Rodger, pior do que as mulheres não o quererem, era que elas queriam outros homens.

As mulheres são incapazes de ter morais ou de pensar racionalmente. Elas são completamente controladas por suas emoções e impulsos sexuais depravados. Devido a isso, os homens que as mulheres deixam experimentam os prazeres do sexo e do privilégio de reprodução são homens que são atraentes para as mulheres… os estúpido, degenerados, os homens detestáveis. […] As mulheres não devem ter o direito de escolher com quem acasalar e com que procriar. Essa decisão deve ser feita para elas por homens racionais de inteligência. Se as mulheres continuarem a ter direitos, elas só vão dificultar o avanço da raça humana por meio da procriação com homens degenerados e criando estúpidas proles degeneradas. Isso fará com que a humanidade se torne ainda mais depravada a cada geração. As mulheres têm mais poder na sociedade humana do que elas merecem, tudo por causa do sexo. Não há nenhuma criatura mais má e depravada do que a fêmea humana.” (Eliott Rodger, em seu Manifesto “My Twisted World”) (Tradução Livre)

Rodger estava frustrado em relação às mulheres e as considerava seres humanos secundários que não deveriam sequer ter capacidade de escolher quem teriam como parceiros sexuais, mas Rodger expressava a sua raiva também em relação aos outros homens. “O meu problema é com as garotas… Eu mereço elas muito mais que todos esses patetas. […] A todas vocês que me rejeitaram, me olharam de cima para baixo, me trataram como escória enquanto davam para outros homens. E a todos os homens, por viverem uma vida melhor do que a minha. A todos vocês homens sexualmente ativos. Eu odeio vocês. Odeio todos vocês e eu não posso esperar para lhes dar exatamente o que vocês merecem. A aniquilação total.”

Não é difícil de entender as raízes desse tipo de pensamento. Em um artigo do TheAtlantic, Noah Berlatsky cita o livro Between Men, da escritora Eve Sedgwick. Nele a autora define um sentimento comum aos homens: o de pautar as relações e competições entre os homens nas mulheres. Dessa maneira, as mulheres tornam-se objetos por meio dos quais os homens mostram o seu poder e capacidade aos outros homens. O sucesso e a “proeza” com as mulheres tornam-se parâmetros do poder e do prestígio dos homens, constituindo neles a noção do que é ser um homem, um macho. E é exatamente esse o sentimento que Rodger explicita ao falar que as mulheres o tratam como lixo meramente por não ficarem com ele e por escolherem outros para serem seus namorados; porque as mulheres não são pessoas, elas são meramente avaliadoras de quem é e quem não é “homem”. Como as mulheres não o escolhiam, Rodger não se considerava “homem” e, consequentemente, se sentia inferior aos seus pares mais bem sucedidos no âmbito amoroso.

E é assim que o conceito de masculinidade é definido como o de poder sexual, onde ser virgem não é ruim pela implícita falta de sexo ou pela falta de uma companheira(o), mas porque a virgindade implica na não-masculinidade do ente, na sua condição de não-homem. E isso causa frustrações; por não se relacionar sexualmente, o homem não estaria somente incompleto, ele estaria desprovido da sua essência masculina.

Existe, portanto, o Homem, algo que a sociedade diz que todos os membros do sexo masculino devem ser, e o homem, algo que todos são. “É possível ver isso nos vídeos de Rodger, onde ele alterna entre afirmações sobre a sua própria grandeza e declarações desesperadas sobre a sua própria insignificância. Em alguns momentos ele se considera um ‘gentelman perfeito’, mas nos próximos ele se considera ‘tão invisível quando anda pela faculdade, porque nenhuma das meninas presta atenção nele’. Ele é um super homem e, em seguida, ele não é nada; não há espaço entre os dois. Para Rodger, isso só poderia ser resolvido com a expressão máxima de ‘masculinidade’: a violência. ‘Se eu não posso ter vocês, meninas, eu vou destruí-las’, disse ele. E ele também se destruiu: destruiu aquele ente lamentável, que não era um homem.” (Tradução Livre

 

Sebo Silva

por Maria Shirts

Dia desses fui comprar um livro num sebo na Liberdade – o bairro. Fazia muito tempo que eu não ia atrás de romances usados porque tenho comprado mais lançamentos ultimamente. E também porque a minha tara por livros se tornou de tal forma um fetiche que acabo por pagar os olhos da cara pelo objeto de desejo sem pensar duas vezes.

Pois bem, a ficção que eu queria comprar estava esgotada nas megastores livreiras, o que me obrigou a procurá-la na Estante Virtual. Como queria o livro com alguma ansiedade (ó o fetiche aí de novo), optei por ir buscá-lo no sebo mais perto, o “Mania de Cultura”, ali na cara da Catedral da Sé.

Fui almoçar com uma amiga na Rua Augusta e decidi ir depois, a pé mesmo, pra curtir um centrão de São Paulo. Desci a via mais boêmia da cidade, entrei na Caio Prado, Rua Gravataí e atravessei a Praça Roosevelt. Precisava passar no Viaduto Nove de Julho e, de lá, iria para a Dr Rodrigo Silva, meu último destino.

É gostosa aquela São Paulo. Os pixos, a lanchonete do Estadão, as fuligens grudadas nas paredes dos viadutos. O gari, hoje agente ambiental, musicando a vassoura do lado do beleléu — igualmente musical. Aquele magenta de tijolo queimado antigo; as pastilhas dos prédios do Artacho Jurado.

Segui a Rua Dona Paula, xinguei um motorista folgado; admirei a Câmara dos Vereadores. Fazia tempo que não passava por ali.

Entrei na Dr. Rodrigo e, logo em seguida, no sebo. Não dei nada. “Pequeno”, pensei. Droga. Perguntei pelo livro, um do Tom Wolfe, e ela me indicou, polegar em riste: “lá em cima”. Passei por alguns patamares com livros socados embaixo das escadas, em prateleiras, empilhados, em qualquer rincón de 90º com apoio e abrigo.

Cheguei no andar de cima, eu e minha rinite, ao som de AC/DC. Aí apareceu o adolescente típico de sebo, trabalhador informal sem carteira assinada que quer fazer um troco no período da tarde, ele e o seu moicano loiro, o chiclete mastigado desde a hora do almoço.

“Você tem o ‘Eu sou Charlotte Simmons’, do Tom Wolfe?”.

Fez cara de decepção tão logo eu acabei de falar, emitindo aquele “iiiiih” desanimado. Desacreditei — como é possível ele saber assim, de bate pronto? Será um fã de Tom Wolfe que pega todos os livros do neojornalista pra ele? Ia ser maravilhoso. Não fosse a minha vontade primária de comprar a novela em questão.

“Poxa moço, vim até aqui só pra isso”.

Me levou na seção de literatura americana, procuramos, eu e ele, sentados naquele banquinho de criança, desconfortável até para as crianças — marca registrada das lojas de livros usados. Achei em menos de minuto. Ideia fixa, sabe como é.

Peguei o exemplar toda feliz, ele nem tanto (acho que ainda não tinha lido esse do Wolfe) e continuei fazendo hora, olhando os amarelados Manoel de Barros, plastificados Mil e Uma Noites, detonados Sagaranas, todos com 50% de desconto. Agradeci, paguei, desci.

Olhei pra trás com a sensação de que deveria ter ficado mais. “Deve ser o fetiche”, concluí, indo embora.

 

Sebo Mania de Cultura, Liberdade. SP.

Sebo Mania de Cultura, Liberdade. SP.

Já reservou?

 

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Varsóvia, 2013

COP19

 Ah, Polônia. A casa do clima em 2013. É mais uma gloriosa ocasião para “salvar o planeta”. Agora vai. Estão quase todos os países reunidos, numa espécie de arco-íris internacional para lutar “juntinhos” contra o aquecimento global.

 Estamos no momento solene que precede a abertura oficial. Os jornalistas apontam seus lápis. Lá fora, os ativistas esquentam as cordas vocais para berrar. Nas salas de negociação, os delegados ajustam os nós das gravatas para proferir belas palavras.

Estamos agora na sala mãe da conferência do clima, onde será dado o ponta-pé inicial.

O clima está esquentando.

Vai começar.

(…)

Enquanto isso…

Na terceira fileira, o delegado da Xislândia sussurra no ouvido da delegada da Ypsilonlândia:

E ai, já reservou o hotel de Paris

O poder de síntese

Alguém uma vez disse que a filosofia nada mais é que a luta de classes hipostasiada, e eu estou convencido de que isso é verdade: cada processo lógico é um raciocínio correspondente a um processo material, porque derivado dele. Assim, quando Marx demonstra os pressupostos da existência do modo de produção capitalista, esses pressupostos aparecem primeiramente ao leitor como um raciocínio, uma parte do modo de exposição da sua obra; mas esses pressupostos não são apenas lógicos, são também os pressupostos materiais e concretos necessários à produção capitalista, como a acumulação de riquezas, a expropriação de amplas massas, formas anteriores de apropriação do trabalho, etc.

Digo isso pensando não nas delícias que junho nos deixou, mas nas dores. Quando a tarifa caiu, uma profusão de pautas, que permaneciam até então refreadas justamente pela necessidade de barrar o aumento da tarifa, veio finalmente à tona, todas elas se digladiando sem que nenhuma finalmente conseguisse preencher o espaço deixado pelo aumento da passagem. De certa forma, essa ainda é a situação em que nos encontramos. Diferentemente de junho, as pautas parecem pautadas de maneira muito mais determinadas: assistimos a entrada cada vez maior de setores claramente trabalhadores em cena, então por ora estamos livres de reivindicações sobre a aprovação dessa ou a proibição daquela PEC a respeito do Ministério Público. Mas a profusão ainda existe, com reivindicações girando em torno dos transportes, da saúde, da educação, da moradia…

Essa profusão, ainda que (ou principalmente porque) determinada em sua maioria por questões como salário e condições de trabalho, demonstra que não são crises específicas e localizadas, mas que passamos por um momento de crise geral. A lógica de lidar com isso, portanto, deve ser outra que lidar localizadamente com cada um desses problemas isoladamente. Daí a necessidade de um trabalho árduo de síntese.

A síntese tem um sentido de radicalidade: cortar fora o que é supérfluo. Não apenas somar todas as reivindicações existentes na esperança de agradar a todos os setores que podem entrar em luta, que podem votar em outubro, que podem doar dinheiro pra campanha… Mas procurar um núcleo comum, secundarizar o que for secundário a esse núcleo e ter coragem de eliminar o que for supérfluo.

De certa forma, isso já vem acontecendo. Ao contrário de junho, hoje existe um elemento que dá concretude a essa necessidade de síntese: não é à toa que os garis gritaram, os professores gritaram, os sem-tetos gritaram “não vai ter copa”. Embora essas categorias saibam que a Copa não necessariamente seja a causadora de seus problemas, ela se apresenta como pretexto de vários ataques (precarização das relações de trabalho, militarização de locais de moradia, escalada no aparato repressivo do estado, etc.), e justamente por isso tem o poder de sintetizar diversos desconfortos diferentes.

Neste momento, a relação clássica se inverte: são os setores proletários que indicam o caminho às suas direções, mesmo às mais vacilantes, às mais governistas. Nos protestos organizados, o grito “não vai ter copa” surge de maneira espontânea, às vezes já com toda sua força, às vezes com timidez, e vai crescendo à revelia dos organizadores, até que eles mesmos se rendam.

Aquilo que o povo já sabe, a esquerda faz de tudo para ignorar. Deixando passar a oportunidade de construir uma síntese para partir de um novo patamar de lutas, deixa passar a própria oportunidade de se construir enquanto alternativa, de apontar pra um caminho que já contenha em si a síntese da experiência que nos trouxe até aqui. E vai construindo, de vitória parcial em vitória parcial, a sua própria derrota.

Para além dos macacos, que tipo de política você faz?

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Deputados ucranianos lutam entre si no Parlamento

Durante a polêmica campanha do “somos todos macacos”, adotei uma posição diferente de muitas pessoas que vi nas redes sociais, pessoas que inclusive respeito e com as quais compartilho muitas posições ideológicas. Não que eu tivesse certeza que o slogan da campanha antirracista fosse bom. Mas simplesmente porque tive dúvidas do grau de certeza dos que criticaram a campanha. Em primeiro lugar porque achei a atitude do jogador Daniel Alves sensacional. Ao invés de se revoltar, xingar, e ficar indignado com o ofensor racista, dando-lhe mais importância do que merecia, o jogador simplesmente ignorou a “piada” e comeu a banana, desconstruindo toda a ofensa cometida. Ele literalmente “engoliu a piada”, seguindo o mais autêntico espírito antropofágico brasileiro, talvez sem nunca ter ouvido falar de antropofagia cultural.

Em segundo lugar, tive dúvidas se a campanha em si era tão ruim assim. E aqui cabe uma explicação. Pensei nisso simplesmente porque me lembrei de algumas aulas de marketing que tive durante minha graduação. Lembrei-me dos professores reproduzindo uma frase tão clássica que já virou clichê nos cursos de marketing: “não importa o que você fala ou como você fala, mas a forma que o receptor entende a mensagem”. Em outras palavras, não interessa muito as palavras e conceitos que você usa numa campanha, interessa o efeito que eles provocam. Com base nisso fui observar se a campanha tinha provocado alguma coisa. E aí constatei: o torcedor que cometeu o ato de racismo foi proibido pra sempre de entrar no estádio do clube. Uma punição exemplar, que eu nunca havia visto acontecer no mundo do futebol. Ao mesmo tempo, muitas pessoas se posicionaram contra o racismo nos estádios. Políticos, formadores de opinião, pessoas que não estão familiarizadas com o discurso do racismo. Foi daí que pensei: será que a campanha não está deu certo mesmo?

Se a campanha estava correta ou não, prefiro não chegar a nenhuma conclusão. Primeiro porque eu acho que não tenho conhecimento nem dados de marketing o suficientes para fazer uma análise desse tipo. Segundo porque simplesmente não sou negro, e todas as vezes que me pronuncio sobre um movimento sobre o qual não faço parte, tomo um certo cuidado. Por um simples fato: há uma série de experiências de vida e de luta que apenas uma pessoa que vivencia aquela realidade sabe os significados que elas têm. Em outras palavras, entendo as diferenças que eu e que uma pessoa que realmente vive o racismo na pele todos os dias temos na hora de decidir se uma campanha sobre o racismo deve ser sarcástica ou extremamente séria. Por isso, prefiro deixar esse debate a outras pessoas que considero que tenham mais capacidade pra isso.

Mas nesse debate todo, uma coisa me chamou bastante atenção, algo que vai além do debate racista. Trata-se de uma certa postura ao debater temas políticos/ideológicos. Explico-me melhor. Durante um debate, levantei o fato de o movimento feminista ter tido uma postura bem diferente daquela que eu observava. O movimento “marcha das vadias”, como outras pessoas citaram, teve essa postura: pegou o xingamento e o “devorou”, ressignificando o termo “vadia”. Minha debatedora apontou: “todas as mulheres estão aptas ou já foram chamadas de vadia um dia, brancas e negras, independente de terem agido de forma “libertina” ou não; no caso dos macacos, apenas os negros sofrem essa ofensa, uma pessoa branca não”. Só que eu não vi muita lógica nesse argumento. Porque da forma que o argumento foi posto, parece que o binômio de opressão é “mulheres brancas e mulheres não-brancas” e “negros e pessoas não-negras”. Mas na verdade a opressão não está entre mulheres brancas e não-brancas, está entre mulheres de todas as raças e homens de todas as raças. E aí sim podemos fazer a pergunta correta “algum homem já foi chamado de vadio de forma pejorativa alguma vez na vida?”. “Vadia”, “vagabunda”, “puta”, “corrimão”, “catraca”… Nunca vi esses termos sendo aplicados como ofensa a homens, da mesma forma que nunca vi brancos sendo xingados de macacos. Apontei esse raciocínio. No que minha amiga respondeu: “ok, mas ocorre que o movimento feminista, por decisão autônoma e voluntaria das mulheres, decidiu ressignificar o termo ‘vadia’, e o movimento negro decidiu não ressignificar o termo negro”.

Foi então que um clique ocorreu na minha cabeça. Fui reler muitas das criticas que li pelas redes sociais e comecei a perceber uma série de adjetivações. “Isso é movimento de coxinha”, “Quem tá reproduzindo isso não tem a menor ideia da historia das lutas dos negros, dos significados que as coisas tem pra nós/eles” e até mesmo “é fácil o jogador de futebol rico falar isso, queria ver se ele fosse preto e pobre na periferia”. Ou seja, divisões. Ou melhor, eu diria, movimentos de exclusão. E aí percebi algo que estava me incomodando bastante nessas criticas, que é uma visão de política.

Basicamente, acredito que há duas formas de se fazer política, que não tem a ver com a ideologia da pessoa, mas com o método. A primeira é a excludente. Nessa forma, divisões são criadas rotineiramente, para separar os que “realmente fazem parte da luta” dos que “não fazem”. A forma de se fazer isso é simples. Por exemplo, num grupo feminista, as ativistas mais velhas vão falar “e aí, você é feminista?”… “Mas é mesmo? Você conhece a história das sufragistas? Já leu alguma coisa de Simone de Beauvoir? Conhece a crítica à Pornografia da McKinnon? Você chega ao orgasmo no seu relacionamento ou é submissa na cama?” Etc, etc, etc. Da mesma forma, num grupo negro um ativista ia questionar: “O que você sabe da cultura hip hop? Já ouviu o rap da periferia? Conhece a história da escravidão e do neocolonialismo na África? Você curte mais um Luther King ou um Malcom X?”. Um socialista poderia dizer “Você leu quantos livros do Marx? Você conhece a Escola de Frankfurt? No seu cotidiano é consumista?” e um liberal poderia dizer “Já leu algum livro da Escola Austríaca? Conhece a teoria de valor marginalista? Você dá duro no seu trabalho ou fica dando uma de vagabundo esquerdista?”.

O motivo para isso acontecer é simples. É o mesmo truque de tentar vencer uma discussão vomitando conceitos que o outro não conhece, ou de tentar descreditar um argumento por causa de erros de português. O que se está criando, na verdade, são barreiras ao interlocutor. “Credenciais” para se criar uma certa autoridade moral e vencer o debate desse jeito. Dessa forma, quando uma novata critica uma postura que ela acha equivocada no movimento feminista ela escuta a “carteirada ideológica”: “o que você sabe de feminismo pra fazer essa crítica?”. Ela escuta e se sente mal, e no final (vai?) aceitando a posição do grupo. É uma forma de submissão da opinião da recém-chegada à opinião da veterana, que é mais qualificada. Da mesma forma que os “coxinhas” que tiraram fotos com bananas, e “pensavam estar lutando contra o racismo”. Eles deviam deixar de ser otários e deixar o assunto pros profissionais. Assim é a política excludente.

A outra forma de fazer política é a política inclusiva. Ela não está baseada no grau de pertencimento a grupos ou no grau de conhecimento “da luta” que a pessoa tem. Ela tá baseada na força de argumentos. Por exemplo, não precisa que o cidadão seja a favor de cotas e conhecedor da luta negra. Basta que ele entenda que o racismo num campo de futebol é algo absurdo, e que torcedores ofendem jogadores devem ser severamente punidos. De forma similar, uma mulher pode ser evangélica e acreditar que a primeira função de uma mulher é a maternidade. Se ela concordar que o aborto é algo necessário para evitar que além de crianças também as mães morram nos abortos clandestinos, isso já será uma conquista enorme para o movimento feminista. O mesmo vale para capitalistas que acreditam que a escola pública é algo necessário para uma sociedade civilizada, e para socialistas que concordam que é importante um país ter alta produtividade para competir no mercado internacional.

A política inclusiva acredita na formação de consensos. Você não precisa ser igual a mim para me ajudar a lutar contra um problema, você só precisa entender e acreditar na lógica do meu argumento. Claro que essa forma de fazer política também tem desvantagens. Por exemplo, o mesmo sujeito que concordou que torcedores racistas devem ser severamente punidos pode não concordar que cotas raciais são necessárias para reparar as desigualdades de séculos. E ele não vai aceitar o seu argumento porque você sabe muito mais e é muito mais foda do que ele. Ele vai precisar ser convencido. E isso ocorrerá cada vez que houver uma disputa de consenso.

Acredito que a forma inclusiva de se fazer política combina muito mais com a democracia. Porque se um grupo está tão seguro que está certo sobre tudo, ele não tem que dialogar com ninguém, ele tem que fazer grupo armado, tomar o poder e implementar aquilo que ele sabe que é o certo. É a única coisa coerente a se fazer. Por outro lado, se você participa do jogo democrático, não há outra opção a não ser chegar com humildade e apresentar o seu argumento. Porque ninguém vai ser convencido “na marra” ou “por medo do ridículo”. Qualquer um com racionalidade ou um mínimo de amor a si próprio não será convencidos simplesmente porque outro afirma que entende muito mais de um assunto do que ele. Ele esperará argumento após argumento, até você provar que sua posição é mais correta do que a dele.

É por isso que faço um apelo a todos os que debatem política na internet. Negros, feministas, socialistas, capitalistas, conservadores e quem tiver lendo esse texto. Façamos um esforço. Retomemos um pouco de civilidade e tratemos nossos interlocutores como pessoas inteligentes, capazes de entender os argumentos que proferimos. Porque essa é a única forma de convencer de verdade outra pessoa: tratando ela como uma pessoa e não como uma imbecil. Esse é o único caminho possível numa democracia: o diálogo. Do contrário, sejamos coerentes. Não vamos fingir que estamos fazendo política quando estamos na verdade apenas tentando humilhar nossos opositores e alimentar nossos egos com as pessoas que pensam igual a nós. Aí é melhor ser coerente: vamos parar de debater, vamos nos armar, e vamos nos matar até ver qual posição sobrevive no final. E esperemos todos que seja a certa, por que do contrário, pilhas e pilhas de pessoas vão ter morrido para nada.

Ultraje a Roger

Ultraje a rigor

Sempre fui fã da banda Ultraje a Rigor, talvez por ter sido dela o meu primeiro disco de rock nacional, talvez porque era legal gritar “cú” nos refrãos quando eu era moleque, talvez porque o Roger (vocalista e líder da banda) foi meu vizinho até os 13 anos; ainda tenho uma foto minha, aos oito anos de idade, com ele e o papagaio dele, assinada por ele. A memória ficou e uma estranha simpatia por essa amizade inexistente se desenvolveu.

Quando fui ficando mais velho, não deixei de gostar da banda, embora escutasse muito pouco. Quando aparecia na rádio, achava as músicas divertidas, lembrava do Roger, e pensava: “ao menos alguém era irreverente na última década da Ditadura… alguém estava lá, tirando com a cara daqueles velhos filhos da puta.”

Quando eles foram para o Agora é Tarde, ex-programa de Danilo Gentili, eu achei legal. Meu amigos falaram: “puta, mó fim de carreira… os caras até que são legais mas pô, tocar num programa de televisão…” Seila, eu achava legal o Roger estar ali, de volta na atividade, tocando alguns clássicos do rock nacional. Não sabia quais eram as suas opiniões políticas – tudo que eu tinha para me guiar eram resquícios da minha infância e flashes de meus amigos e eu pulando em camas e gritando pela invasão de praias alheias – mas achava ele um cara inteligente e engraçado.

Poucos dias atrás, em um show no Vale do Anhangabaú, Roger fez uma pequena pausa para fazer uma declaração sobre ataques que sofreu na internet por ter aceitado fazer um show com incentivos do governo. Abordarei abaixo umas partes da declaração (que está disponível na integra no vídeo ao final).

“Fui atacado porque, segundo a lógica distorcida desses cretinos, eu estaria aceitando dinheiro de um governo que não apoio para tocar hoje aqui, e que isso não seria coerente. Pois bem, quem está me pagando hoje não é um partido que se considera dono do Brasil. Um governo honesto deve apenas administrar o dinheiro que recolhe do povo e devolvê-lo ao povo em forma de serviços, de acordo com a necessidade desse mesmo povo. Não vou agora discutir se isso está sendo feito ou não, mas o fato é que estou sendo contratado para exercer meu ofício, nesse caso, trazer cultura e diversão para o povo. Quem está me pagando é o povo, do qual eu faço parte, através de um órgão do governo que, repito e enfatizo, não pertence a um partido político, ao contrário do que querem acreditar esses canalhas que me perseguem por eu exercer meu direito de pensar e me expressar livremente.”

Vamos lá. Um governo deve fazer mais do que devolver dinheiro ao povo em forma de serviços, mas não vamos adentrar esse tema. Sem ser isso, Roger, eu concordo com você: quem te pagou para fazer o seu show não foi um partido só, foi o governo como um todo. Você, como músico, tem todo o direito de aceitar esse dinheiro e fazer o seu show. Eu não sei se vocês aceitaram dinheiro público durante a Ditadura para fazerem shows, nem sei se aceitariam; mas, sendo contra os princípios básicos que delineiam o plano de governo do PT, eu não acho que boicotar o show teria sido ruim. Seria uma manifestação política interessante… Isso não quer dizer que vocês não podiam aproveitar a oportunidade de cantar em um show patrocinado pelo Estado para falarem mal do governo; algo que também acho positivo.

De qualquer forma, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o Ministério da Cultura, etc., são órgãos que contam com entes de todos os partidos, razão pela qual concordo que não há que se dizer que foi o PT que patrocinou o show.

O único problema com todo esse discurso é que ele é um pouco formalista. É claro que esses órgãos são relativamente independentes, mas você sabe que no Brasil a maioria das decisões vem de cima e é um pouco ingênuo acreditar que o partido que está no governo e do qual você veementemente discorda não tem nada a ver com o dinheiro que você recebeu para tocar.

Claro que não é a mesma coisa do que quando a Jeniffer Lopes recebe milhões para fazer um show para o ditador do Turkmenistão ou a Mariah Carey recebe milhões para cantar para o ditador da Angola, mas vale a pena tomar uma posição política mais ferrenha se você realmente discorda tanto do governo (talvez você discorde, mas não discorde tanto, porque, por mais que ele seja uma merda, ele ainda é consideravelmente democrático e preserva a maioria das liberdades burguesas que conquistamos com a Constituição de 88). Por outro lado, em tempos em que o Roger Waters pede aos Rolling Stones para boicotarem um show em Israel, vale a pena pensarmos em como damos apoio midiático e político aos governantes por meio de nossas ações culturais de massa.

“E eu estou com o saco cheio dessa violência indiscriminada, dessa luta de classes cruel e ignorante que vem sendo incentivada de uns tempos pra cá. Somos todos brasileiros. É esse tipo de miséria que eu gostaria que acabasse no Brasil: a miséria cultural, a pobreza de espírito, a falta de educação de qualidade. Tenho certeza que, bem educados, ninguém precisaria de esmolas do governo, assim como eu nunca precisei.”

Pô Roger, ai você complicou. Somos todos brasileiros… tudo bem, formalmente todo mundo recebe um RG e é considerado cidadão, mas sabemos muito bem que alguns tem mais privilégios que outros (vide os próprios governantes que você deplora) e que falar “Brasil, um país de todos”, “somos todos brasileiros” e “sou brasileiro e não desisto nunca” é o equivalente político ao “não tá fácil pra ninguém”.

O que mais me incomodou na sua fala, porém, não foi isso. Você diz que quer acabar com a miséria cultural do país, com a falta de educação de qualidade… diz que assim os brasileiros não precisariam de esmolas do governo. Por esmolas eu imagino que você esteja fazendo uma referência ao bolsa-família, um programa que dá aos estudantes uma pequena ajuda de custo para poderem continuar nas escolas ao invés de terem que trabalhar na lavoura, na carvoaria, na oficina mecânica ou no semáforo.

O bolsa-família atende famílias com renda de até R$ 140 per capita por mês e o valor do benefício varia entre R$ 22 a até R$ 200 por mês, dependendo do tamanho da família. Diversos estudos comprovam que esse dinheiro não só é essencial para garantir que essas crianças continuem indo para a escola, mas que esse dinheiro deu às mulheres muito mais autonomia na casa (podem gastar mais com comida, roupa e materiais para os filhos) e fez com que elas dependessem muito menos dos maridos para organizarem o orçamento familiar.

Cara, sério, é um valor ridículo – eu e você gastamos mais do que isso em qualquer refeição – essencial para diversos brasileiros (afinal, somos todos brasileiros) e crucial para fazer com que pais optem por deixarem os filhos na sala de aula ao invés de pedirem para eles trabalharem e ajudarem com os custos da casa. A grande maioria dos países Europeus dá ajuda de custo para seus estudantes, até mesmo na universidade, mas esse nem é o ponto para mim. Você, bem de vida que nem eu, que tem plena capacidade de pagar todos os seus impostos, que quer ver os brasileiros com um nível de educação mais elevado, que quer ver um fim ao trabalho escravo e infantil, acha que dar 50 pila por mês para um cara que não ganha nem 150 conto um absurdo? Tente viver com 200 reais por mês para ver o que é um absurdo.

Por fim, você falou que nunca precisou de esmola do governo enquanto recebia dinheiro do governo e caçoava de outras pessoas por aceitarem esse mesmo dinheiro. Desculpe, mas o processo é o mesmo nos dois casos. As pessoas pagaram imposto; uma parte do imposto foi usada para patrocinar o seu show e uma parte foi para ajudar as crianças do Brasil a irem à escola e terem meios básicos de subsistência. Eu já me posicionei antes aqui dizendo que eu acho que é preciso degustar um bom pão antes de ter força para degustar um bom livro; do jeito que está, o brasileiro médio trabalha tanto para conseguir o pão que ele está cansado demais na hora do circo.

Tudo que eu quero lhe dizer é que você aceitou dinheiro do governo e não achou que era esmola. Dinheiro este que vem do mesmo lugar que o dinheiro do bolsa-família. Se a função do governo é devolver o dinheiro do povo em forma de serviços, como por meio de shows musicais, porque não um serviço de ajuda de custos com incentivo à escola? Isso não vai nos ajudar a educar o povo brasileiro e ainda garantir uma pequena melhoria nas condições básicas de vida dele? O seu trabalho – de cantar por uma hora ou duas em cima de um palco para centenas de pessoas – é mais importante que o dos estudantes do brasil? O dinheiro público que você ganhou para tocar é salario, mas o dinheiro público que o estudante ganhou para estudar é esmola?

Gastamos dinheiro público para construir e iluminar árvores de natal país afora todos os anos, para colocar flores nas mesas dos principais refeitórios dos órgãos públicos do Brasil, para comprar cadeiras de couro para os congressistas, para construir estádios de futebol e para comprar caças supersônicos para defendermos barreiras imaginárias. Se for para escolher entre pagar por todas essas coisas, pagar pelo seu show ou pagar para alguém estudar, acho que deixei claro onde acho que o dinheiro seria mais bem aplicado. Dito isso, espero que você continue tocando as suas músicas e, se possível, reflita um pouco sobre o que R$ 50 pode representar para alguém que não sabe ler e não consegue entender as letras das suas músicas.

Se oriente rapaz

por Maria Shirts

Linha Verde

Pegar a linha verde do metrô no dia da Parada Gay é sempre exótico. Os tipos que entram e saem das estacões que desembocam na Avenida Paulista são invejáveis: desde um senhor musculoso trabalhado no mini-dress e desfilando muito melhor do que eu, por exemplo, num salto 15, até adolescentes com camisetas do AC/DC cantando Lady Gaga a plenos pulmões no trem.

Meu destino no último domingo, entretanto, não era o desfile do Orgulho LGBT, mas o Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. Lá havia ido apenas uma vez na vida, a trabalho, num dia de semana xexelento e desanimado. Acompanhava uma excursão de escola quando ainda era repórter institucional de um desses colégios proto-hippies-construtivistas. A impressão provocou um bode eterno, de maneira que eu nunca mais voltei. Até domingo.

Centro Cultural São Paulo

Cheguei no CCSP esperando um lugar cinza, fantasma e com funcionários mal humorados. “Programão, hein”, mentalizava sarcasticamente, até adentrar o andar Caio Graco – o de cima – e dar de cara com um jardim suspenso e de solzinho outonal que enchia de vitamina D os poucos casais ali estirados.

Desci a rampa central em direção à exposição do subsolo sobre a língua árabe. A montagem era bem qualquer nota, mas simpatizei com o estilo “lá em casa”.  De graça, circundava a biblioteca do Centro Cultural que, para a minha surpresa, estava cheia de estudantes de Medicina, Cálculo, Direito e um que lia As Leis da Doença Mental e Emocional (editora: Neuróticos Anônimos), cuja formação não consegui desvendar.

 

Mostra árabe no CCSP: "o conhecimento é luz, a ignorância é escuridão".

 

O guarda volumes atestou a minha única impressão correta sobre o lugar: o mau humor dos funcionários. Mas, também, não é como se todo mundo ficasse feliz em trabalhar num domingo, de modo que a suposição não era de todo reveladora.

Um bando de adolescentes chamou a minha atenção para a área externa do Centro. Não sabia que era tão grande. Eles ensaiavam uma coreografia em conjunto bem americanizada apesar de inspirada pela música Corean Pop. Quando saí para observar notei que não havia um, mas ao menos 12 destes grupos — um do lado do outro no corredor do C.C., como seus hormônios adolescentes me permitiram apelidar.

 

Jovens ensaiam coreografia ao som de Corean Pop

 

Além dos grupos de dança, alguns ensaiavam esquetes de teatro, mas com comedimento para não atrapalhar os que jogavam xadrez numa mesinha disposta no canto dos cantos. Outros se reuníam em roda para bater papo, fazer piquenique ou discutir questões mais profissionais – se entendi bem, um grupo de jovens do Rotary levantava pautas sobre o programa de intercâmbio da Fundação.

No mais, um casal de palhaços protagonizava uma contação de histórias para crianças enquanto outros casais, um pouco menos palhaços, tomavam um cafézinho enquanto não começavam as sessões de cinema mais hipsters que eu já vi numa mesma programação: às 15h30, The Punk Singer, sobre a vocalista Kathleen Hannah da banda “electroclash” Le Tigre; às 17h30, The story of Descendents/All, documentário sobre as bandas punks homônimas; e às 19h30Jimi Hendrix: Hear My Train Comin, “o olhar mais íntimo – e menos polêmico – sobre o guitarrista mais influente do Rock”.

Confesso que fiquei com vontade de assistir a todos, mas a fila e os demais 4 quilômetros que tinha para desbravar não me permitiram. Quem sabe eu não vou na semana dos “Dias Nórdicos” ou na “Mostra Prostituta”?

Caminho Vergueiro

Eu não sabia, mas a Avenida Vergueiro também tem ciclofaixa aos domingos, o que a deixa um pouco mais simpática – se é que isso é possível – nos fins de semana. Apesar de mais acolhedora, pra mim não faz muita diferença porque minhas habilidades ciclísticas não são incríveis.

Fui a pé ao meu segundo destino, o Jardim Oriental da Liberdade, para poder absorver o caído caminho Vergueiro, talvez o lugar da cidade com mais concentração de FMUs por metro quadrado.

Passei pelo deprimente Hospital do Servidor que parecia ermo, dado que alguns paramédicos descansavam despreocupados do lado de fora, batendo um papo que parei para escutar, como quem não quer nada, até ser interrompida por um mendigo loucão que me assustou e fez seguir meu rumo.

Me impressionei com a Rua Castro Alves e seu statement urbano – uma espécie de divisor de águas entre Paraíso e Liberdade. Pro lado de cá as neo-torres da classe média(val) da zona sul (nada) paradisíaca; de lá, os cortiços descascados, os olhinhos puxados e as luminárias vermelhas mais charmosas da cidade.

Fui pelo caminho maior para dar uma olhada na Praça da Liberdade. Que grande ideia estúpida. Esqueci da feira gastronômica (sempre) lotada. Saí pela Galvão Bueno em busca do meu Jardim Oriental que, próximo à ponte e mais distante do epicentro gourmet, achei que estaria mais pacífico. Ledo engano.

Jardim Oriental Liberdade São Paulo

…Depois de 300 metros e 30 minutos na Rua Galvão Bueno – cujo nome descobri que homenageia não o narrador mais insuportável do Brasil mas sim o advogado e professor Carlos Mariano de mesmo sobrenome, que teria morrido tragicamente afogado durante uma pescaria no Rio Tamanduateí – cheguei ao Jardim Oriental Liberdade São Paulo.

Sua entrada é charmosa: tem pedras, bambus e carpas num lago onde crianças orientais e ocidentais pescam com as próprias mãos — apesar de não poderem. É um lugar gostoso, a priori. Por pouco não se nota a Radial lotada costeando o muro rústico.

 

Jardim Oriental Liberdade São Paulo

 

Ao fundo do Jardim há um salão pouco convidativo com mesas de plástico e um palco inabitado. Defronte, vários espetinhos de camarão fritos, yakissoba, temaki, e outra tanta gastronomia exótica são vendidas a preços módicos. Notei que ali comiam mais japoneses e chineses do que na Praça da Liberdade, o que julguei ser um bom indício. Até olhar a cozinha.

Desisti de comer, fiquei olhando em volta e ri comigo mesma  ao notar o letreito luminoso “quick massage”: R$ 20 – 15 minutos. Achei cômica a situação de fazer uma massagem olhando o vizinho comer um espetinho ou, pior ainda, um temaki enquanto se suja de shoyo, derruba arroz na mesa inteira, o hashi no chão…

Em suma, achei o lugar bonito, mas um pouco baixo astral. Resolvi voltar para o Centro Cultural São Paulo para completar os 5 quilômetros prometidos à reportagem.

Foi então que conheci um pouco da Liberdade profunda.

Liberdade Profunda

É verdade que já estive em karaokês e restaurantes excêntricos (como o Chi Fu) na Liba (para os íntimos), mas nunca andei por ali mais do que o necessário (leia-se: metrô – destino).

Por isso me foi muito surpreendente desmistificar a Galvão Bueno e ver um lado desabitado, inóspito e pouco fantasioso do bairro. Diferente do começo da rua, seu fim tem um quê de centro mais puído, com vários predinhos baixos e acabados, de janelas estouradas, com estacionamentos duvidosos.

O cenário só é aquebrantado pelo edifício da Força Sindical, que tem uma imponência realista socialista de dar medo. Fora isso, continuam as FMUs, os cortiços e os restaurantes chineses até a Rua Tamandaré onde, descobri, há uma igreja ortodoxa russa no número 710. Estava fechada. Uma pena, porque deve dar uma boa história…

Igreja Ortodoxa Russa na Rua Tamandaré. Créditos: Douglas Nascimento

Igreja Ortodoxa Russa na Rua Tamandaré. Créditos: Douglas Nascimento