Lutar pelo direito de lutar

Se não tiver lideranças, não vai ter manifestação!, disse o policial diante do ato em defesa dos presos no último ato chamado pela frente “Se não tiver direitos, não vai ter copa”. Chama atenção o fato de as posições serem diametralmente opostas. Isso ocorre porque a janela que se abriu no país, da qual junho de 2013 é corolário, só pode ser respondida com respostas radicais. Porém, enquanto a esquerda perdeu-se em dúvidas, vacilos, e meio-termos onde não há meios-termos, não vimos a imprensa, o Estado, os partidos de direita se preocuparem com “manifestação para quem?” ou seja lá qual for o equivalente do outro lado do espectro para “Na copa vai ter luta”.

Neste momento, os governos estão em ofensiva para quebrar os movimentos dos trabalhadores e da juventude que protesta nas ruas. A prisão de Fábio Hideki e Rafael Marques não é um fato isolado, sobre uma frente que estava realmente em grande parte isolada, mas está umbilicalmente ligada à vitória que o governo do Estado de São Paulo impôs sobre a greve dos metroviários às vésperas da Copa do Mundo.

A greve dos metroviários foi provavelmente a greve mais forte que o setor viu nos últimos anos. Adesão massiva da categoria, apoio passivo de mais de 70% da população, apoio material e presencial de coletivos, partidos, independentes. Infelizmente, também foi uma greve muito combatida: pela imprensa, pelo governo estadual e pelo governo federal (o ministro Cardozo chegou a pedir que os grevistas tivessem o bom senso de aceitar um acordo e encerrar a greve), pelo judiciário (que exigiu uma greve sem greve: funcionamento de 100% dos trens nos horários de pico e 70% nos outros horários, algo que, dadas às condições precárias das linhas causadas por anos e anos de descasos e trensalões, soa como impossível até em momentos de absoluta normalidade), pela polícia, e até a tropa de choque foi acionada para desmontar piquetes. O embate terminou com uma vitória do governo: impôs o acordo salarial rebaixado que defendeu desde o início e ainda demitiu 42 trabalhadores, muitos deles lideranças, ou lideranças que começavam a se formar enquanto tal.

Na luta de classes e na guerra, nenhuma vitória conta só em si. A partir de uma posição conquistada, é possível dali atacar outras frentes. Não é de se estranhar que nas próximas semanas e meses o aparato policial cresça como opção para desmobilizar outras greves e protestos. Em São Paulo, por exemplo, agora o governo experimenta combinar o aparato da polícia civil e da polícia militar, e com o avanço conseguido sobre os metroviários, pode experimentar com muito mais desenvoltura do que poderia semanas atrás. E de Fortaleza e outras cidades, chegam relatos de bombas de gás, que antes se restringiam aos protestos da juventude e às manifestações de rua, sendo usadas contra greves. Dada a perseguição a militantes que se escancarou em Goiás (embora já houvesse começado no Rio Grande do Sul) e se espalhou por diversos estados, não será surpresa se logo mais a polícia federal tomar parte ativa na trindade da perseguição.

Diante desse quadro, a esquerda se afoga em imaturidades e falta de visão estratégica (causadas pela educação de anos e anos que tivemos sob égide do programa reformista, que nos deixou desarmados diante desses ataques). Fábio Hideki, Rafael Marques, os 42 metroviários, os 80 rodoviários não foram atacados por causa daquilo que nos separa: das divergências programáticas, estratégicas, táticas, equívocos, diferenças de valores, que possam ter conosco ou ter cometido, mas justamente porque estavam na rua lutando quando os queriam em casa confortáveis e contentes. E suas demissões e prisões constituem uma convocação para que todos nós os defendamos, para que todos nós lutemos, em unidade, hoje. Se não por solidariedade, mas porque se esses ataques passarem ficará mais difícil para nós lutarmos amanhã. E isso deveria ser muito mais central do que as divergências que temos entre nós.

15 mulheres, 4 homens e 1 cachorro

por Maria Shirts

Por mais crítica que eu pense que seja, não consigo deixar de curtir a Copa do Mundo. Acho que é por causa do meu pai – Freud explica. Foi ele que me levou, pela primeira vez, em um estádio. E a primeira partida a gente nunca esquece.

 Foi Brasil x Colômbia, um amistoso no Estádio do Morumbi. Lembro que o Dida, saudoso, era o goleiro, então deve ter sido lá pelos anos 2000. Se não me falha a memória, o jogo foi 3 x 2 para nós. Diferente do que o placar poderia sugerir, foi um jogo ruim. Na verdade, eu adorei. Mas recordo de ver inúmeras bandeirinhas serem descartadas lá de cima formando uma cachoeira verde e amarela no panetone Cícero Pompeu. Lembro de ter ficado revoltada com o protesto da elite branca e europeia-brasileira.

Esse é só mais um dos fatores que me faz acordar ansiosa – ou melhor, não dormir – a cada 4 anos, desde 98, às vésperas do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo.  

Neste ano, a estreia foi em casa. Chamei 20 amigos, comprei Doritos e cerveja, pendurei a bandeirona na janela. Pela 5ª vez reclamei que não tinha camiseta do Brasil – amarelo não me cai bem, nunca comprei roupa dessa cor –, roubei uma no armário do meu pai, verde, e esperei os convidados.

Aos poucos chegaram – 15 mulheres, 4 homens e 1 cachorro (que tem medo de fogos e, por isso, não pode ficar sozinho em casa). Desde às 15h prostrada no sofá menor da sala, o que fica do lado da TV, aguentei a histeria de todo mundo que queria mudar de canal, aumentar o volume, por no HD, tirar do HD – pô, HD tem muito ‘delay’, a gente vai ouvir os gols antes. Só não foi pior do que o segundo jogo, que assisti no boteco, porque eu ainda posso reprimir os meus amigos – diferente dos cornetinhas do Bar do Biro.

Algumas cervejas depois, Marcelo fez o primeiro gol da partida: contra. Só esse xabu mesmo pra silenciar os 20 amigos bêbados que alucinavam na minha casa. Era como se todos tivéssemos esquecido como pode ser tenso ser um brasileiro durante a Copa do Mundo – ainda mais no Brasil.

Depois da recuperação, os ânimos se exaltaram mais do que no início. As meninas berravam, os meninos mordiam os lábios e os dedos. O cachorro, como lhe restava, só latia.

Foi um belo jogo. Tão animado que os convidados foram todos comemorar na Vila Madalena, antro da boemia paulistana, selvagem e carnavalesca dessa Copa do Mundo brasileira. Eu, totalmente inebriada, fiquei em casa cantarolando “Olêê, olêê, olêê” e pensando que tá tendo muita Copa. Ainda bem.

 

AUTORRETRATO

Por Laura Trachtenberg

Um dia, faz mais ou menos um ano, estava no metrô de Paris indo pra sabe-se la onde. O ambiente desse meio de transporte é particular,  uma mistura de máquina vintage que nos faz darmos ainda mais conta da violência do mecanismo moderno. Ele vem com uma força e um barulho enormes, ele para: sobem pessoas e descem pessoas.

Mas mais brutal que a própria maquina, é a interação entre os indivíduos presentes dentro dos vagões. Ou melhor: é a falta dela. Existem regras de boas maneiras: você entra, senta ou não; não se fala com ninguém, por isso vale trazer um livro ou os fones de ouvido, entrar na sua própria capsula e não sair dela até o destino desejado. As vezes entram os músicos, tocando La vie en rose (ironicamente) para agradar os turistas e irritar os franceses, que por sua vez “bufam” e olham feio para a caixa de som presente no meio do vagão.

Mas nesse dia em especial a viagem foi diferente. Uma estação depois da minha entraram uma mãe e uma filha dentre do vagão onde eu estava – cumprindo todas as regras de conduta: sentada num canto, fones de ouvido apostos, olhando para um ponto fixo. A menina sofria de alguma deficiência mental que não pude reconhecer, mas que transparecia por seus movimentos, sua fala e, principalmente, pela sua relação com o outro, pelo seu olhar.

A “jeune femme” de mais ou menos 11 anos, acredito, encarava a todos fixamente; chegava bem perto, olhava nos olhos, observava tudo de todos e sorria ou saía indiferente. A situação começou a incomodar a todos no vagão, inclusive essa que escreve. Lembro-me de pensar: “Por quê essa mãe não controla sua filha?” Mas um tempo depois dessa jornada a reflexão foi outra “Por quê essa mãe deveria controlar essa criança?” e mais “Por quê seu olhar me incomodou tanto?”

Tanto que estudante em história, artes e mediação cultural, um gênero da pintura ou da fotografia que sempre amei foi o autorretrato, sobretudo aquele co olhar direto, olhar nos olhos. Pois ele tira o espectador da obra de seu lugar passivo, o indivíduo passa a participar do momento artístico.

Um dos autorretratos mais famosos é aquele de Velazques, As Meninas (1656), obra inovadora e genial em diversos sentidos: o primeiro pela qualidade da obra, por sua técnica, mas sobretudo pelo jugo de olhares e pela sociologia de uma época que o pintor escancara.

Imagem

Num primeiro olhar vemos o artista num instante de hesitação, ele olha sua obra, ele a analisa; o que por si só já foi revolucionário numa época em que apenas o trabalho final do artista era levado em consideração, Velazques mostra o work in progress da criação artistica. Além disso, Velazques não se mostra violentamente como um autorretrato, ele se coloca descontraído, como se quase não estivesse la, deixando que a luz principal recaia sobre Margaita, filha de Philippe IV e Mariana da Austria que aparecem refletidos no espelho ao fundo.

Para quem Velazques olha? Para o espectador da obra? Para os reis da Espanha (uma das mais fortes potências da época, em plena globalização)? E qual o sentido desse olhar? O quadro estabelece nomes históricos em seu dia a dia de corte, mas também tipos sociais: o rei, a rainha, a princesa, o “bouffon” e, muito importante, o artista. A obra é impressionante pois ela torna o que seria invisível, os bastidores da corte e do artista, visíveis e olha como quem diz: “mire e veja” em sobretudo se reconheça, numa pessoa, num governo, numa sociedade. Será que Velazques não percebia sua vanguarda? Acho que sim, mas naquele contexto o melhor era ser discreto.

Diferente da versão de Picasso (1957), que pôde, graças a uma nova era, assumir sua violência e vanguarda. Picasso muda o olhar em relação a obra. Sem duvidas ele quebra regras, mas justamente ele consegue fazê-lo graças ao conhecimento (consciente ou não) de uma historia em que ele se insere, politica e ao mesmo tempo artística.

Imagem

Talvez seja essa uma verdadeira revolução: não negar a história, ou onde nos inserimos nela, mas encontrar uma maneira de ser sujeito dentro dela, de transformá-la. Para isso é necessário mudar o olhar e observar, às vezes friamente, a realidade; e isso pode ser invasivo, pois é um olhar que nos tira da zona de conforto.

Como mostra esse ultimo autorretrato de Parmigianino (1503), ainda mais que os outros pois ele é concavo, e invade o espectador fisicamente, o olhar do outro e a imagem do outro nos remetem a nos mesmos. Nos nos reconhecemos através do olhar alheio e somos obrigados a sair do estado de catatonia quotidiana. Já diria Sartre: “o inferno são os outros”.

 

Imagem

Talvez por isso a menina no metrô tenha causado tanto incômodo. Ela quebrou nossa rotina, nossa educação tão fria e polida, nossa falta de interação. Ela nos observou e tirou suas proprias conclusões, e nos deixou pensando sobre os bastidores de nossas vidas que são tão dificeis de serem expostos, mais que os de qualquer corte ou governo… os bastidores da intimidade pessoal que apenas quem sabe ler um olhar e mudar, junto com ele, a forma de ver o mundo consegue se deixar invadir e compreender o outro.

Quatro estações depois a menina desce com a sua mãe arrastando-a pelo braço. Respiramos todos aliviados…

 

Um Comentário sobre a Corporeidade

 por Rodrigo Magalhães*

Enquanto escrevo este texto, três dedos da minha mão direita seguram uma caneta e, logo abaixo, meu pulso se movimenta, comandado pelo meu cérebro, para que os símbolos que coloco no papel sejam reconhecíveis. No entanto, veja só… os dedos que seguram a caneta; eu os tenho? Tenho a mão que escreve? E o cérebro que comanda a escrita, é um cérebro meu? Meu cérebro é meu? Sou eu?

Se fosse concebível que eu existisse sem meu corpo, teria as mãos para escrever, e teria para mim sentido o papel escrito? Se fosse concebível ver meu corpo andando por aí, cadê eu? Como o nariz de Gogol, teria meu corpo sem mim uma razão de ser? É inconcebível a idéia de uma separação entre eu e meu corpo; meu corpo sou eu: sou eu que escrevo, eu que corro, eu que tiro pausas para coçar o meu nariz, e o meu nariz sou eu (e ai dele se tentar fugir e me subjugar, com seu uniforme…).Corporeidade

Supor-me dividido é como supor uma relação entre eu e o mundo, uma relação que não existe, pois inexistem nos dois casos dois conceitos diferentes. Eu não sou/não existo em absoluto, a não ser com, para, dentro, e através do corpo e do mundo que sou. Sou um ser-no-mundo – sem o mundo não sou e não estou – bem como, fora do corpo que sou, não seria – sou-no-corpo.

E existindo através das experiências existenciais que validam o ser, mudo a todo instante, como um rio em curso, como a nota de um trompete, como um carro que corre a auto-estrada. Existindo desta forma, sou a mudança ocorrendo, sou a próxima faixa branca pintada no asfalto que engolirei e aquela que acabou de passar, sou o queimar do combustível e o trabalhar dos pistões no motor que também sou. Sou a mudança e, sendo-a, sou o que ainda não posso ser – a próxima faixa branca. Quando você erra uma nota, é a próxima nota que decidirá se você errou ou não, disse Miles Davis – sou o que já não posso mais, o que finalmente posso, e o posso cada vez mais. Existir é potencia e indigência. Sou a carência e o poder. Tu és também.

Em minha carência posso ser pequeno, menor do que os meus cento e setenta e quatro centímetros acusam, posso ser um grão de areia sendo o corpo, sendo o mundo, e os sentindo. Em minha carência eu preciso. Eu sou o precisar, sou minha fome e meu sono. Em minha carência sou limitado – fadado a ser no mundo, limites físicos me abalizam. Todas as carências que sou são os pesos dos quais sou o suportar, e as dores das quais sou o sofrer e o resistir e o perdurar. E enquanto sou-no-tempo, sou-no-mundo e sou-no-corpo, o tempo passa, o mundo muda e o corpo sente. Existo agora me consumindo, e em minha indigência fatal sou a decadência e a velhice.

Mas, pondo a pequenez de parte, posso ser maior que as montanhas. Como o carro na auto-estrada, posso ser os quilômetros que seguem, posso conquistá-los e ser o conquistado e o conquistar. Posso transcender a realidade e, em minha condição de homem, ser no que ainda não é, e dar-lhe forma. Posso vir a ter prazer, vir a experienciar o belo, e sê-los. Sou potência e indigência; no mundo, no corpo e no tempo.

*Rodrigo Magalhães, convidado especial do Esparrela, é formado em Direito pela PUC-SP e atualmente cursa Psicologia na mesma instituição.

Por que eu fiquei obcecado por Montenegro

Image

Dois dias atrás a revista The Economist publicou em sua página no Facebook um artigo com mapa interativo muito interessante. Creio que no clima de Copa no Brasil, acharam interessante fornecer aos seus leitores mais informações sobre este país. O artigo tratava da complexidade do Brasil e, em particular, da vasta desigualdade entre as regiões e estados brasileiros. Para demonstrar isso fizeram comparações entre os estados brasileiros e países, usando-se de três indicadores: PIB, PIB per capita, e população.

Gostei muito da ideia. Frequentemente fico abismado com a ignorância que nós brasileiros demonstramos ter de nosso próprio país. Fazemos grandes afirmações sem ter nenhuma base objetiva, repletas de preconceitos e estereótipos de senso comum. Certa vez, em um debate, eu tentava provar para minha interlocutora que a corrupção era um grande problema, mas estava longe de ser o problema mais sério do Brasil. Dada a insistência de minha interlocutora, perguntei: “ora, quanto você acha do PIB brasileiro que vai para a corrupção?”. Ela respondeu “não sei, acho que uns 40%”. Fiquei perplexo. A maioria das análises estatísticas trabalham com números por volta de 3% do PIB. Isso dá 3 vezes mais corrupção do que existe na União Européia, por exemplo. Mas está MUITO longe de um dado como 40%. Na verdade, é difícil que os países extremamente corruptos ultrapassem 10% do PIB em corrupção (estamos falando de países africanos altamente corruptos). Ou seja, minha interlocutora, que era uma pessoa de classe média alta, supostamente educada nas melhores escolas, não tinha absolutamente a menor ideia do que estava falando.

Parece que nossa própria imprensa se esforça em reforçar esses estereótipos. Ao invés de mostrar que a renda per capita brasileira torna impossível fazer no país uma socialdemocracia à lá Dinamarca, reforçam a ideia de que “todos os problemas do Brasil vem da corrupção e dos políticos”. Como se bastasse acabar a corrupção que nós teríamos uma saúde pública padrão inglês. É por isso achei muito interessante a reportagem do Economist. Creio faltam reportagens do gênero em nosso próprio país, para informar melhor a população.

Ao observar os dados fornecidos pela Economist, senti dois choques. Ou melhor, duas decepções. A primeira, que eu já esperava, foi em relação à grande diferença entre PIB e PIB per capita no Brasil. Se olharmos apenas o PIB (o total de grana produzida num estado), temos a impressão que o Brasil é um país de extremamente rico. A economia de São Paulo, por exemplo, de US$ 806 bi, é comparável a de países como Holanda (US$ 800 bi), Turquia (US$ 788 bi), ou Arábia Saudita (US$ 711 bi). Além disso, Minas Gerais (US$ 230 bi) tem a economia comparável a de Israel (US$ 240 bi), Rio de Janeiro (US$ 276 bi) tem a economia comparável à de Singapura (US$ 276 bi), e no Sul do Brasil temos dois Iraques (US$ 149 bi), o Paraná (US$ 143 bi) e o Rio Grande do Sul (US$ 157 bi). É por causa de dados como esses que o Brasil se enquadra na posição de 6a economia mundial, acima da Inglaterra.

A pergunta que se faz é: “se temos tanta grana assim, por que paulistas não vivem como holandeses, por que mineiros não vivem como israelenses, ou cariocas não vivem como singapurianos?”. Deve ser por isso que minha amiga lá acima afirmou o absurdo de que metade do PIB brasileiro vai para a corrupção. A resposta para isso, no entanto, mesmo um economista principiante pode responder. Está na conversão de PIB (total da grana) para PIB per capita (total da grana dividida pela quantidade de pessoas que há nesses estados).

Nessa conversão, São Paulo (US$ 19,386 mil per capita) não é mais equiparável à Holanda (US$ 47,633 mil per capita), mas sim à Estônia (US$ 19,031 mil per capita) ou à República Checa (US$ 18,857 mil per capita). Minas Gerais (US$ 11,694 mil per capita) passa a se assemelhar não mais a Israel (US$ 37,035 mil per capita), e sim ao Gabão (US$ 12,302 mil per capita) ou Argentina (US$ 11,766 mil per capita). O Rio (US$ 17,144 mil per capita) se parece com a Eslováquia (US$ 17,706 mil per capita) ou Uruguai (US$ 16,609 mil per capita). E Paraná (US$ 13,604 mil per capita) e Rio Grande do Sul (US$ 14,675 mil per capita) parecem-se com a Rússia (US$ 14,818 mil per capita) ou com a Croácia (US$ 13,561 mil per capita).

 

Foi aí que tomei meu segundo choque. Pensei: “é verdade, é um absurdo pensar que paulistas poderiam viver como holandeses”. “Mas ao mesmo tempo, os paulistas estão bem longe de viver como os checos”. De forma similar, os mineiros não vivem como os argentinos, os cariocas não vivem como os eslovacos ou uruguaios, e os paranaenses e gaúchos não vivem como os croatas. Por algum motivo, parece que nossas sociedades vivem bem pior do que realmente deveriam, segundo nossas rendas per capita. E isso é particularmente verdade quando pensamos nos miseráveis e nos mais pobres. Pense num pobre paulista. Ele mora em uma casa precária na periferia, sem saneamento básico, sem transporte público, sem lazer, sem acesso a cultura, com uma educação pública bem precária, um acesso à saúde terrível. Já os pobres checos moram em habitações pequenas, mas decentes, com saneamento, com transporte público eficiente, com algum acesso a lazer e cultura, uma educação pública razoável, um acesso a saúde (que é pública) decente.

Pense agora nos pobres cariocas e nos pobres uruguaios, nos pobres gaúchos e nos pobres croatas. Tem algo de estranho aí não? Foi aí que lembrei de algo que temos de incomum com todos esses países também. Não se encontra muito turistas checos comprando bolsas Louis Vuitton em Paris, almoçando nos caros restaurantes de Nova York, fazendo a rota do vinho na Itália. Menos ainda os uruguaios ou croatas. Nossos pobres vivem como animais em canis, mas nossa classe média alta vive como as elites de países ocidentais desenvolvidos, em residências extremamente confortáveis nos bairros nobres, viajando algumas vezes por ano pra Europa, com acesso a tudo e mais um pouco. Foi aí que deduzi os verdadeiros grandes problemas do Brasil.

O problema em primeiro lugar é sim não termos renda suficiente para o tamanho de nossa população. Não podemos pensar em vidas similares a de holandeses, franceses ou alemães se nossa renda per capita é quase 1/5 da deles. Mas o segundo problema, e sem dúvida alguma, o mais brutal deles, é a desigualdade social. Esse é o problema que impacta mais ferozmente o grosso da população. E para provar isso, tive uma outra ideia. Comparar os IDHs (índice de desenvolvimento humano) dos estados brasileiros com o dos países menos desiguais de renda per capita similar, que citei. E veja só: São Paulo tem IDH de 0,783 e a República Checa possui 0,873, Minas Gerais possui IDH de 0,731 e a Argentina possui 0,811, Rio de Janeiro possui 0,761 e a Eslováquia possui 0,840, o Paraná e Rio Grande o Sul possuem respectivamente 0,749 e 0,746, e a Croácia possui 0,805 (perceba como os estados do sul, conhecidos por ter desigualdade social menor que outros estados do Brasil, possui seu IDH mais próximo ao seu equivalente do que os outros estados acima).

Portanto não há dúvidas, o maior problema do brasil é a desigualdade. Como resolver esse problema, é que é a maior dúvida. É difícil não notar que muitos desses países com IDHs muito melhores do que os nossos passaram por revoluções comunistas (República Checa, Eslováquia e Croácia passaram por esse regime). O regime distribuiu as riquezas de elites aristocráticas para servos e camponeses pobres, criou sistemas públicos de educação e saúde potentes que devem ter ajudado esses países a chegarem nessas posições. Mas é evidente que há outros caminhos para se chegar lá. O importante, acima de tudo, é reconhecer a desigualdade como o problema central de nossa sociedade.

Depois de olhar para tantos estados e países, fiquei com curiosidade de olhar ainda mais dois. Primeiro um estado que nunca posso esquecer, pois está no meu coração, meus pensamentos e minha alma. O Estado de onde eu vim, o Pará. Olhei para a renda per capita: US$ 6,867 mil dólares. Procurei um país similar, e encontrei Montenegro (US$ 7,026 mil). E então comparei o IDH dos dois: Pará 0,646 e Montenegro 0,791. E assim fiquei pensando nos pobres de meu estado: casas precárias, sem educação, sem lazer, trabalhando muito pra ganhar pouco. Pensei nos pobres montenegrinos, vivendo suas vidas humildes, mas com o básico que um ser humano precisa pra viver dignamente. Pensei também que nunca vi turista montenegrino esbanjando grana em Paris, e em quantas vezes ouvi entre os amigos da família conversas sobre suas viagens na Europa e EUA, e no que tinham comprado lá. E me vi obcecado por Montenegro, olhando documentários, vídeos de turismo, lendo notícias sobre esse país tão longínquo e diferente de meu estado natal. Pensei no quão diferente poderia ser a vida de meus conterrâneos. Pobres sim, humildes sim, mas com dignidade.

Reflexões aleatórias sobre ontem

De tudo que foi falado sobre a repressão tanto ao ato “Se não tiver direitos, não vai ter copa” quanto ao ato no sindicato dos metroviários em solidariedade aos trabalhadores demitidos ontem, parece-me que ainda não foi suficientemente frisado o fato de que os mínimos direitos democráticos não foram garantidos sequer fora da zona de exclusão imposta pela FIFA. Que haja uma zona de exclusão já deveria ser um absurdo, mas em São Paulo ela se estendeu pela cidade toda, mostrando que o estado de exceção por essas bandas é a regra, não é a exceção.

Diante da conjuntura aquecida e de um elemento único que não se repetirá aqui por algumas décadas, a esquerda vacila e age timidamente. Aqueles que nos oprimem, entretanto, agem com a radicalidade adequada à situação: diante da Copa, aumentam vertiginosamente o aparato repressivo do Estado, e preparam a ofensiva para quebrar a possibilidade de movimento das massas trabalhadoras que junho de 2013 abriu. Corretamente, de sua perspectiva, utilizam a Copa como pretexto para criar uma estrutura que se manterá anos e anos após a passagem dela.

***

Esse deveria ser nosso inimigo comum, uma situação para secundarizar divergências e garantir a primazia da luta ombro a ombro contra a repressão. Para quem acompanhou os relatos na sede do sindicato, entretanto, parece que a esquerda se esforça para sair ainda mais fragmentada do que já é. Entendo que o trabalhador comum, a gente miúda das cidades alimente certa desconfiança dos manifestantes mascarados, porém não entendo porque as direções políticas alimentem essas desconfianças.

Da mesma maneira, não entendo porque partidos e correntes que se pretendem revolucionários apresentam tanto rechaço à juventude mais proletarizada e mais alijada que em geral compõe os adeptos das táticas que supostamente afastam o trabalhador da luta. Ora, que essa juventude possa estar errada em suas táticas, em seus métodos, em seus alvos deveria ser compreensível: a responsabilidade maior recai sobre quem tem o peso da experiência, da teoria e da prática sobre seus ombros. Por que uma corrente que se pretende revolucionária manteria a porta cerrada justamente aos mais explorados e aos mais radicais? Talvez seja mais fácil defendê-los em abstrato…

***

Não foi essa juventude que vaiou Dilma nos estádios, obviamente, afinal não era ela que estava nas arquibancadas, nas áreas VIP. Mas gosto de ver os setores mais governistas bradando aos quatro ventos que foi a elite que vaiou a presidenta. Admitem, sem querer, para quem foi que realizaram a Copa, afinal, como muitos já apontaram. Quero dizer, porém, que houve vaia sim, e se reclamar, haverá duas:  dificilmente se Dilma estivesse nas ruas, onde estão os trabalhadores neste momento, teria sido ovacionada, imagino.

***

Teve Copa sim. Mas com gol inicial contra, cinco ou seis erros bizarros de arbitragem em três jogos, abertura tosquíssima, e tudo isso garantido com muita repressão. Como materialista, não creio no sobrenatural: mas secretamente ponho toda essa zica na conta do mau-olhado da galera que gritou Não vai ter copa.

Tropical Delicinha

por Maria Shirts

Toda vez que venho trabalhar passo por uma ou duas instalações que gosto de chamar de “Tropical Delicinha”.

Pra quem não sabe, são espécies de tabladinhos dispostos por algumas esquinas com… delicinhas: bolo de laranja, café de coador, goiabinha, às vezes um cházinho, enfim, várias opções pra quem saiu de casa correndo sem tomar café da manhã.

Fico observando o Tropical Delicinha e adoro as interações sociais que ele gera. Sempre tem dois ou três conversando sobre o bolo, a vida, o café da garrafa térmica de R$ 1,50 – forte, né?

Resolvi chamar assim, de Tropical Delicinha, porque me ocorreu que esse tipo de coisa só pode ser vista em países tropicais. Não só pelo que ali é oferecido, mas porque esse tipo de comércio informal, que ocupa a rua numa versão bem mais tímida de feira livre, é a cara de países emergentes e, por que não dizer?, tropicais.

Você imagina algum americano asséptico experimentado um home made bolo de laranja num Tropical Delicinha? Jamais! Agora, yakisujo de food truck em Manhéttén tudo bem, né. A diferença, como se pode perceber, é o industrializado, ave César, ó progresso! O home made bolo de laranja, ao contrário, é artesanal…

Vai ver que é por isso eu gosto tanto dos tabladinhos retráteis dessa esquina da Angélica onde trabalho. Eles emanam uma espécie de carinho que só uma comida caseira pode despertar. Pouco me importa se foi comprado na padoca, ou de algum fornecedor da Alameda Glete. Ele parece ter sido feito em casa pela própria senhorinha que o está vendendo aqui, debaixo dessa janela do escritório.

Aliás, ela já tá indo embora. Daqui do 6º andar posso ver que vendeu todo o aparato e, carregando uma caixa e duas sacolas, deve ir pro seu próximo posto. E olha que ainda são 9h30.

Qualquer dia desses, entre um café de coador e um bolo de laranja, vou perguntar o que que ela acha de chamar o seu empreendimento de Tropical Delicinha. Aposto que ela vai achar ridículo.