O Hamas: Tudo Sobre (ou o pouco que sei)

Hamas-Logo

Desde sua fundação, em 1987, o Hamas proclamou-se um “Movimento de Libertação Nacional”, cuja base ideológica é o Islã. O movimento, que tem posições profundamente conservadoras em relação a temas como o livre mercado e a liberdade sexual, rapidamente ganhou popularidade sobre organizações palestinas seculares e de esquerda. Entretanto, o Hamas e Hezbollah, ambas organizações islâmicas, são as únicas organizações de massa no Oriente Médio que continuam a resistir a Israel e aos EUA. É importante entender como o Hamas passou a ocupar esta posição privilegiada para entender a forma como suas políticas afetarão a região e os esforços pela libertação da Palestina.

Neste contexto, ressalta-se que a história do Hamas é inseparável do movimento islâmico mais popular e difundido do mundo árabe: a Irmandade Muçulmana, fundada pelo professor egípcio Hassan al-Banna, em 1928. Naquela época, o Egito era nominalmente independente, mas estava efetivamente sob controle britânico; tropas britânicas tinham suprimido uma revolta popular anti-colonial em 1919 e sedimentado seu poder na região. Nacionalistas liberais do partido Wafd, composto mormente por grandes proprietários de terras e alguns industriais, procuravam barganhar com os britânicos por mais autonomia, mas desencorajavam quaisquer mobilizações de massa que pudessem desafiar suas posições econômicas. Já os membros da Irmandade Muçulmana, quando afrontados por esta nova onda de dominação imperial britânica e de desigualdade social, clamaram por um retorno ao que consideravam ser os princípios básicos das primeiras comunidades islâmicas. O Hamas é uma continuação desta tradição e destes anseios.

A idéia de uma comunidade islâmica moralmente revigorada e capaz de repelir os poderes coloniais era muito interessante para determinados grupos sociais. A Irmandade Muçulmana, inicialmente financiada por doações de grandes fazendeiros e industriais com o intuito de difundir a idéia de ‘renovação islâmica’ entre os retirantes recém-chegados às cidades, fundou centros de caridade e hospitais (instituições particularmente úteis para as classes desapossadas). O Hamas, em Gaza, que nasceu da Irmandade Muçulmana do Egito, tem seguido o mesmo padrão. Grande parte do financiamento do Hamas vem de empresários palestinos e de grandes capitalistas dos países do Golfo.

A influência inicial da Irmandade egípcia advêm da situação territorial da Palestina entre 1948 e 1967, quando a Cisjordânia foi anexada pela Jordânia e Gaza ficou sob a administração do Egito. Voluntários da Irmandade Muçulmana lutaram contra o estabelecimento e a expansão de Israel em 1948, mas não adentraram a luta armada e rapidamente aceitaram o novo status quo do Território Palestino. Sheikh Ahmed Yassin, líder espiritual da Palestina que se tornou um ativista da Irmandade Muçulmana depois de dedicar a sua juventude aos estudos islâmicos no Cairo, pregou e realizou trabalhos de caridade na Cisjordânia e na Faixa de Gaza durante a década de 1960. Tais territórios, entretanto, foram apreendidos pelas forças israelenses após a Guerra dos Seis Dias (1967).

ahmad-yassin

A ocupação israelense de Gaza após a Guerra dos Seis Dias (1967) não alterou a meta de Yassin de promover uma revitalização islâmica. Organizações seculares como o Fatah e, posteriormente, a declaradamente marxista “Frente Democrática pela Libertação da Palestina” e a “Frente Popular pela Libertação da Palestina”, assumiram a resistência à ocupação Israelense; a Irmandade Muçulmana não. Em 1973, Yassin estabeleceu o al-Mujamma al-Islami (Centro Islâmico) para coordenar as atividades políticas da Irmandade Muçulmana em Gaza; os Irmãos e o Centro Islâmico ganharam prestígio oferecendo os serviços de assistência social, saneamento básico e saúde que os ocupantes israelenses não estavam dispostos a fornecer.

Sheikh Yassin cuidadosamente construiu uma base de poder entorno do Centro Islâmico de Gaza, em mesquitas e em universidades (que tinham começado a aceitar o ingresso de estudantes rurais e mais conservadores). A Majd, uma milícia do Centro Islâmico, foi criada para lutar contra a esquerda e intimidar as pessoas à observância religiosa. Dessa forma, uma estrutura armada de baixa complexidade já estava em vigor antes da primeira Intifada (levante palestino contra o controle israelense da Cisjordânia, Gaza, e Jerusalém Oriental). No entanto, foi somente em 1987, com a eclosão dessa primeira revolta popular na Palestina, que o Hamas foi oficialmente formado (como braço político local da Irmandade Muçulmana em Gaza).  O Hamas recusou-se a juntar-se à OLP durante a primeira Intifada, mas atuou essencialmente da mesma forma. A nova organização concebia-se principalmente como um movimento de libertação nacional,  mas propunha o islã como a solução para a crise de identidade do nacionalismo palestino. Um ano depois, em 1988, o Hamas publicou sua Cartilha oficial, distanciando-se do ethos pacifista da Irmandade Muçulmana.

A Cartilha do novo movimento reivindicava toda a terra natal dos Palestinos para os Palestinos, incluindo a parte que se tornou Israel em 1948, e considerava o judaísmo um monoteísmo de respeito, a ser protegido por um governo islâmico, mas também replicava libelos anti-semitas encontradas nos notoriamente falaciosos Protocolos dos Sábios de Sião. Embora essas falácias já tenham sido abandonadas pelos líderes do Hamas há tempo, estas passagens repugnantes e contraproducentes não devem ser interpretadas como fruto de um anti-semitismo inerente à cultura árabe e/ou islâmica, mas sim como um sintoma da perigosa confusão política que os palestinos sofrem por só encontram israelenses e judeus como agentes de um opressivo projeto colonial. Esta confusão só pode ser efetivamente desafiada a partir de um ponto de vista que apóia a resistência a essa opressão enquanto não admite a redução da questão ao anti-semitismo. Fazer o contrário é fazer com que a oposição ao anti-semitismo advenha somente do sionismo, restringindo os parâmetros do debate a este falso dualismo.

De qualquer forma, o apelo principal do Hamas não estava em sua Cartilha, independentemente do conteúdo desta. Os palestinos foram atraídos ao Hamas pela rejeição do Hamas à proposta da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) de acordar com Israel uma solução de dois Estados. A Declaração de Tânger da OLP, de 1988, e a renúncia da Jordânia ao território da Cisjordânia efetivamente ofereceram a Israel o reconhecimento do seu território, algo particularmente desagradável para a população de Gaza, cuja maioria era (e ainda é) composta de refugiados que teriam o retorno às suas casas negado sob um acordo de dois Estados nos moldes propostos por Israel. O recém-criado Hamas denunciou a participação da OLP nas negociações (infrutíferas) de Madrid, mas o Hamas continuava financeiramente e politicamente mais fraco do que o Fatah e a OLP. A balança tenderia a favor do Hamas à medida em que a OLP passava a ser identificada com a lenta rendição e usurpação dos remanescentes direitos palestinos, cuja destruição se consolidava no dito “processo de paz” que se seguiu à primeira Intifada.

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O referido processo de paz (também conhecido como o processo de Oslo, por causa do papel desempenhado pelos mediadores noruegueses) foi composto por uma série de acordos entre a OLP e Israel. O primeiro deles foi a Declaração de Princípios, assinada no gramado da Casa Branca em 1993. O principal princípio declarado era que os palestinos ‘reconheciam’ Israel em 78% das terras originalmente Palestinas. A OLP acreditava que isso faria com que Israel gradualmente se retirasse dos 22% restantes, ocupados em 1967: a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Israel havia concebido uma retirada gradual dos Territórios Ocupados, mas uma em que ela manteria o controle sobre suas colônias e estradas. Embora Arafat e a OLP tenham reconhecido o direito de Israel existir, Israel apenas reconheceu a competência da OLP para negociar. Os acordos adiaram as questões das fronteiras, dos refugiados, de Jerusalém e dos assentamentos até as ditas ‘negociações finais’ (que, obviamente, nunca ocorreram). Esta manobra permitiu que Israel não só mantivesse seu controle sobre os Territórios Ocupados, mas ampliasse a ocupação por meio da construção de mais checkpoints, barreiras e assentamentos. O número de colonos israelenses na Cisjordânia e na Faixa de Gaza aumentou 50% no período inicial das negociações de Oslo (de 1993 a 2000). Estabeleceu-se, também, a Autoridade Palestina (AP), com um Poder Legislativo eleito democraticamente e um Presidente, mas cuja jurisdição se estendia somente às áreas palestinas mais populosas; o resto do território permaneceria sob controle israelense direto ou sob controle conjunto.

O Hamas se opôs aos acordos de Oslo desde o início, insistindo na reivindicação palestina de todo o território originalmente Palestino e no direito de regresso dos refugiados às suas antigas vilas, cidades e casas. Eles também denunciaram os líderes da OLP que formaram a Autoridade Palestina e que rapidamente se enriqueceram, à maneira de outros governantes árabes dos demais países da região. O Hamas se recusou a participar das eleições da Autoridade Palestina, não porque eles rejeitavam procedimentos democráticos, mas porque eles se recusavam a legitimar Oslo. Foi uma decisão astuta. Como o processo de Oslo vacilou, a Autoridade Palestina tornou-se cada vez mais irrelevante. O Hamas não rejeitava (e não rejeita) uma solução de dois Estados; todas as suas grandes figuras expressaram vontade de celebrar um cessar-fogo de ao menos uma década com Israel, desde que Israel retirasse suas tropas e colonos para a fronteira de 1967. O Hamas não estava preparado, no entanto, para renunciar à resistência militar até que um acordo desse tipo fosse celebrado. Assim, o Hamas lançou uma série de ataques suicidas contra alvos israelenses ao longo das negociações de Oslo, a primeira delas sendo realizada em vingança ao massacre de Hebron (1994), quando um colono israelense da reserva do exército invadiu uma Mesquita (onde estariam os túmulos de Abraão e Sarah) e metralhou 40 fiéis islâmicos durante a reza.

A posição do Hamas foi validada pelo colapso do processo de Oslo e pela erupção da segunda Intifada (em 2000) devido a erros táticos por parte de Israel – como a tentativa fracassada de assassinar Khaled Mesh’al, um importante líder do Hamas na Jordânia, e o envio de centenas de membros do Hamas para o exílio no Sul do Líbano, reduto do Hezbollah. A principal razão pela segunda Intifada, no entanto, foi política. A segunda Intifada refletiu a raiva dos palestinos com um processo de paz que só tinha piorado as suas vidas. Nesse contexto, as pessoas identificavam o Hamas com a resistência a este processo. A segunda Intifada aproximou o Hamas e o Fatah, mas os contínuos ataques israelenses à infra-estrutura política e física da Palestina, especialmente a ofensiva israelense aos centros urbanos na primavera de 2004, enfraqueceram o Fatah, que havia se instalado nessas estruturas. No topo da estrutura política da Palestina estava Yasser Arafat, que manteve (ou recuperou) o seu prestígio como líder da resistência palestina. A morte de Arafat em novembro de 2004, entretanto, privou o Fatah de seu maior símbolo remanescente para clamar uma certa hegemonia sobre a luta palestina; Mahmoud Abbas seria o seu substituto. Enquanto Abbas comprometeu-se às iniciativas de George W. Bush para continuar o processo de Oslo, por meio do chamado “road map”, o Hamas conseguiu a única retirada de colonos e assentamentos israelenses em terras Palestinas até a presente data; quando as tropas e os colonos israelenses deixaram Gaza em 2005. Entretanto, o território permaneceu sitiado por forças aéreas, terrestres e marítimas de Israel.

A retirada de Gaza tinha o intuito de livrar o Estado de Israel de uma população árabe grande e rebelde a fim de liberar recursos e forças para melhor manter as colônias israelenses na Cisjordânia. Esta retirada, portanto, fazia parte integral de um novo conceito de defesa israelense: de segregação unilateral e construção de uma barreira sólida para garantir essa segregação. Esta doutrina procura tornar a presença física dos palestinos uma realidade a-política. O Muro de Hasbará, que corta comunidades palestinas fisicamente umas das outras, é uma manifestação literalmente concreta desta estratégia. No entanto, as atitudes de Israel demonstram que os assentamentos não teriam sido retirados se os benefícios de ocupar Gaza superassem os custos da ocupação. Infelizmente, foi necessário o Hamas elevar os custos da ocupação para os israelenses se retirarem.

Durante quase 30 anos os palestinos tinham se convencidos de que fazer concessões a Israel era o caminho para recuperar ao menos uma parte de suas terras; a contínua apropriação de terras por Israel provou que não haveria acordos com Israel. A intransigência Israelense no tocante à terra, por sua vez, legitimou as políticas do Hamas, como a do Hezbollah no sul do Líbano, ao mostrar que a única maneira de acabar com a ocupação militar Israelense era por meio da luta armada. Para o mundo, Ariel Sharon apresentou a retirada de Gaza como uma contribuição para a paz baseada em uma solução de dois Estados. Entretanto, no ano seguinte, 12.000 colonos se estabeleceram na Cisjordânia (enquanto somente 8.000 colonos foram retirados de Gaza), reduzindo ainda mais a possibilidade de se criar um Estado Palestino independente e contínuo.

A apropriação de terra e a construção da paz são conceitos incompatíveis. Israel tinha uma escolha, e ela escolheu a terra. Enquanto a retirada de Gaza e a apropriação de terras na Cisjordânia  se sedimentavam, Gaza foi convertida em uma prisão a céu aberto. Da retirada dos colonos em diante, a força aérea israelense passou a ter liberdade irrestrita para lançar bombas sobre os habitantes desta prisão.

O sucesso do Hamas em forçar a retirada israelense de Gaza em 2005 abriu o caminho para a grande vitória eleitoral do Hamas nas eleições para o Poder Legislativo Palestino em 2006. O Hamas, cuja plataforma eleitoral baseava-se em uma plataforma de “Mudança e Reforma”, ganhou 60% do voto popular na Palestina. Apesar de “Mudança e Reforma” ser um slogan vazio, qualquer candidato do Fatah que proferisse tal slogan seria ridicularizado, tão consolidada era a visão dos palestinos sobre os fracassos do Fatah. O Fatah, liderado por Mahmoud Abbas, não só foi incapaz de garantir melhoras na condição de vida dos Palestinos frente à ocupação Israelense, mas também era acusado de corrupção, má gestão e colaboração; a campanha do Fatah nas eleições legislativas foi fortemente apoiada por Israel e pelos EUA, mas o esforço foi inútil.

Após a vitória do Hamas, o gabinete israelense se recusou a reconhecer os novos membros do Poder Legislativo Palestino e declarou que nunca iria negociar com “qualquer administração palestina que fosse parcialmente composta por uma organização terrorista armada que defende a destruição do Estado de Israel”. O Fatah retirou equipamentos e recursos dos ministérios, se recusando a cooperar com os ministros do Hamas. O Presidente da Palestina, o Sr. Abbas, estava abertamente em conflito (armado) com membros do Poder Legislativo Palestino e do Gabinete Presidencial. Milícias do Fatah receberam treinamento e recursos da Jordânia e dos EUA para encabeçarem um golpe de estado, mas o plano para se livrar do Hamas no verão de 2007 saiu pela culatra. Os combatentes do Hamas foram capazes de expulsar os combatentes do Fatah de Gaza; o oposto ocorreu na Cisjordânia.

O bloqueio de importações e exportações a Gaza foi implementado depois do golpe fracassado do Fatah em 2007. Este bloqueio é um ato contínuo de punição coletiva, pontuado por atos de violência brutal direcionados a aterrorizar a população. Como resultado, de acordo com a ONU, a economia formal em Gaza entrou em colapso: mais de 70% da população vive com menos de um dólar por dia, mais de 75% depende de ajuda externa para conseguir alimentos e mais de 60% não têm acesso diário à água. Apesar de tudo, mesmo com a tentativa de golpe de estado e o bloqueio, o Hamas provou-se impossível de desalojar; parecia que Israel teria que lidar com o Hamas. A perspectiva de ter que reconhecer o Hamas como um parceiro de negociações (e, portanto, de dialogar sobre o levantamento do bloqueio) estava por trás do ataque israelense a Gaza no final de 2008 (Operação Chumbo Fundido).

Uma trégua de seis meses foi acordada entre o Hamas e Israel em junho de 2008. O Hamas condicionou a renovação dessa trégua à suspensão do bloqueio. Yuval Diskin, então chefe da Shin Bet (força de inteligência interna israelense) disse, em uma reunião de gabinete antes do início da Operação Chumbo Fundido, que o Hamas estava “interessado em continuar a trégua, mas queria melhorar seus termos […] queria que Israel levantasse o bloqueio, parasse os ataques, e estendesse a trégua para incluir [a Cisjordânia].” (Tradução Livre)

A despeito da ferocidade da Operação Chumbo Fundido, o Hamas não foi destruído, mas a guerra devastou a já arruinada infra-estrutura do território. De acordo com o grupo israelense de direitos humanos B’tselem, metade dos 1.387 palestinos mortos eram civis. Israel, é claro, garantiu uma supremacia militar ainda mais esmagadora sobre Gaza e sobre os palestinos, mas foi incapaz de usar essa supremacia militar para alcançar o seu objetivo político – derrubar o Hamas – mesmo enfrentando um povo desnutrido e cujo território era (e é) inteiramente controlado pelas forças terrestres, marítimas e aéreas de Israel. A incapacidade de Israel de usar seu poder de fogo e supremacia aérea para efetuar a mudança política que desejava enfraquece a “doutrina Dahiya”, que tem sido a base das recentes operações israelenses. Esta doutrina, nomeada em homenagem ao subúrbio de Beirute (Dahiya) que foi sua primeira cobaia (em 2006), considera o uso de “força desproporcional” imprescindível em qualquer local que Israel considere  uma ameaça à sua segurança. No entanto, o uso da força bruta produziu (e produz) retornos escassos a Israel; durante as últimas guerras em Gaza, Israel não foi capaz de usar sua superioridade militar para atingir seus objetivos. Podemos estar perante uma situação similar hoje.

Usando uma metáfora Netanyahuesca, a ‘linha vermelha’ do Hamas para parar os seus ataques é o levantamento do bloqueio. Isso é possível, mas apenas através de uma campanha sustentada pela pressão popular, especialmente pelos aliados ocidentais de Israel. Por outro lado, uma solução a longo prazo parece improvável porque a idéia de segurança do Estado de Israel tem como premissa a manutenção de um “Estado judaico”, que exclui os palestinos. Enquanto os palestinos existirem, esta ‘segurança’ jamais será conquistada.

Por outro lado, o Hamas não é uma organização socialista ou da classe trabalhadora e, certamente, não prega uma visão de emancipação universal. Como a OLP, o Hamas evita desafiar os outros regimes árabes. Eles estão comprometidos com a luta contra a ocupação e o estabelecimento de um Estado palestino, mas querem garantir que esta luta não se estenda ao exercício de um poder popular que possa ir além dessas metas. Dentro dos limites da Palestina, eles conseguem desafiar o poderio militar de Israel, mas não derrotá-lo. O impacto de quase duas gerações de ocupação, bloqueio e exclusão da economia colonial faz com que a perspectiva de uma transição interna, a la África do Sul, seja improvável.

Os porta-vozes israelenses afirmam que Israel não tem outra escolha que não manter o bloqueio a Gaza porque o Hamas é uma organização terrorista fundamentalista islâmica que não reconhece o direito de Israel de existir. Porém, uma vez que ‘o direito de existir’ de Israel implica na negação do direito dos palestinos de retornarem à sua terra natal em condição de igualdade com os judeus israelenses, pode-se perguntar por que o Hamas, ou qualquer pessoa comprometida com a idéia de igualdade racial, é obrigado a reconhecê-la. Além disso, esta constatação sobre o Hamas é falsa: durante as quase três décadas de sua existência, o Hamas clamou por um cessar-fogo de dez anos (uma hudna), o que implicaria no reconhecimento de fato do Estado de Israel em suas fronteiras pré-1967, desde que Israel se retirasse a essas fronteiras e removesse seus assentamentos ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Khaled Meshaal, lider do Hamas desde 2004, falou claramente sobre o tema em 2009, quase 5 anos atrás:

“Khaled Meshaal, de 53 anos, disse em uma entrevista de 90 minutos, na sede do Hamas na Síria, que o seu partido político e a ala militar do seu partido se comprometeriam a um cessar-fogo imediato e recíproco com Israel. […] Ele também disse que sua organização aceitaria e respeitaria um Estado palestino com base nas fronteiras de 1967 como parte de um acordo de paz mais amplo com Israel; contanto que os negociadores israelenses aceitassem o direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos e o estabelecimento de uma capital para o Estado palestino em Jerusalém Oriental. […] O Sr. Meshaal disse que o Hamas não seria um obstáculo para a paz. ‘Nós, juntamente com outras facções palestinas, em consenso, acordamos em aceitar um Estado palestino nas fronteiras de 1967’, disse Meshaal. ‘Este é o programa nacional. Este é o nosso programa. Esta é uma posição que defendemos e respeitamos.’” (Tradução Livre)

Khaled_Meshaal_01

O Hamas, entretanto, não é um partido inocente neste conflito. Tendo sido negado os frutos da sua vitória eleitoral e confrontado por adversários sem escrúpulos, o Hamas recorreu à arma dos oprimidos, dos desesperados: o terror. Além disso, apesar de toda a morte e destruição que Israel infligiu sobre o Hamas, o Hamas mantive a sua resistência e continuou disparando seus foguetes. Simplesmente não há solução militar para o conflito entre os dois grupos. O problema com o conceito de segurança de Israel é que ele nega até mesmo a segurança mais elementar para a comunidade Palestina. A única maneira de Israel alcançar alguma segurança não é através da força bruta, mas através do diálogo com o Hamas, que tem declarado repetidamente a sua vontade de negociar um cessar-fogo de longo prazo (de 10, 20 ou até mesmo 30 anos) com o Estado israelense com base nas fronteiras pré-1967. Israel rejeitou essa oferta e continua rejeitando-a pela mesma razão que rejeitou o plano de paz da Liga Árabe de 2002: tais ofertas envolvem concessões.

Na presente guerra, Israel acusou o Hamas de seqüestrar e assassinar três colonos perto de Hebron sem produzir uma prova sequer. Quatro semanas e 1000 vidas depois (de ambos os lados), Israel ainda não produziu qualquer prova demonstrando o envolvimento do Hamas naqueles trágicos assassinatos. Durante os dez dias subseqüentes aos assassinatos, Israel realizou a Operação “Brother’s Keeper” na Cisjordânia, prendendo cerca de 800 palestinos sem mandatos judicias, acusações formais ou prospectos de julgamento, matando nove civis e invadindo cerca de 1.300 edifícios (residenciais, comerciais e públicos). Foram essas provocações israelenses que precipitaram os disparos de foguetes do Hamas.

Israel é a décima-primeira potência militar do mundo – a mais forte, de longe, no Oriente Médio – e uma potência nuclear que não ratificou os acordos de não-proliferação nuclear da ONU. Com o uso de drones, F-16s e um arsenal de tecnologia e armamento moderno, Israel tem plena capacidade de evitar as mortes em massa de civis. Mas Israel já matou ao menos 800 palestinos; demoliu 3.175 casas (ao menos uma dúzia com famílias dentro); destruiu cinco hospitais e seis clínicas; parcialmente danificou sessenta e quatro mesquitas e duas igrejas; parcialmente destruiu oito ministérios; e deixou 4.620 feridos nos últimos vinte e tantos dias. E o ataque continua.

A ONU estima que mais de 74% dos mortos são civis. Isso era de se esperar em uma população de 1,8 milhões onde o número de membros do Hamas é de aproximadamente 15.000. Os grandes meios de comunicação israelenses, no entanto, insistem em dizer que estes palestinos queriam morrer, encenaram suas próprias mortes, ou foram vítimas trágicas do Hamas; o poder militar Israelense está culpando as vítimas por suas próprias mortes, acusando-as de desvalorizar a vida humana e atribuindo esse desrespeito a uma dita “falência cultural”. Os dados, entretanto, indicam flagrantes violações de Direitos Humanos e infrações às normas basilares do Direito Humanitário Internacional por parte de Israel (lembremos que Israel tem status de Potência Ocupante, como definido pela IV Convenção de Genebra, e tem o dever legal de proteger a população civil ocupada).

Israel não conseguirá bombardear os palestinos à submissão e, certamente, não conseguirá bombardeá-los à paz. Quem sabe algum dia entenderão que é necessário dialogar com os palestinos, fazer concessões e terminar a ocupação militar que perdura há quase 50 anos para que exista algum prospecto de paz. Ou isso, ou terão que matar todos eles. 

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Na bolha, na guerra, no meio do rolê…

por Luís H. Deutsch

TEL-AVIV – As sirenes antibomba param a ‘cidade que nunca dorme’ por alguns minutos. Percebi isso desde a primeira vez que ouvi o desagradável barulho. Na estação de ônibus central, de onde partem pessoas para todas as partes de Israel, soldados das IDF em prontidão esperam que as explosões ouvidas nos céus sejam apenas projeteis interceptados, assim como eu. Ontem, visitei o prédio no bairro de imigrantes que é também um alojamento da equipe de emergência do exército desde o começo de Julho.

A brigada 997 das IDF é um dos serviços de resgate urbano na ocasião de uma ocorrência grave, como no caso de um míssil atingir um edifício habitado, por exemplo. Na região metropolitana de Tel-Aviv, eles são responsáveis por socorrer quase 3,5 milhões de pessoas se o pior acontecer.

O espaço, assim como a quase totalidade do país, está razoavelmente seguro no que diz respeito à nova leva de hostilidades entre Israel e Palestina. São 18 dias em que a operação Margem Protetora (Protective Edge, em inglês) acontece na Faixa de Gaza para – segundo o governo e as IDF – ‘destruir as instalações terroristas do Hamas, que continua atirando foguetes e mísseis contra o território israelense’. Nas mais de duas semanas de tensão, o “código vermelho” foi acionado na Grande Tel-Aviv todos os dias. Nenhuma casualidade grave foi registrada.

O tenente Gal Goldman, 25, controla uma equipe de 10 soldados da brigada 997. “Todos estão preparados caso sejam chamados e podem chegar a qualquer lugar de região metropolitana em poucos minutos”, explica o oficial. Pela base estar situada em um bairro central e dispor de ônibus especiais para a equipe, a mobilização é realmente rápida. Salas de controle se misturam com diversas camas onde os soldados dormem e passam seus dias. Uma programação de treinamento diária deixa os convocados ocupados e preparados para diversos tipos de emergência.

Porém, alguns fatores fazem com que a rotina vivida pelos soldados seja apenas cansativa. Só Tel-Aviv, segundo sua prefeitura, dispõe de local de abrigo para 800.000 pessoas, sendo que a cidade tem 400.000 habitantes. O sistema de defesa antimíssil de Israel, o Iron Dome, apesenta até agora uma porcentagem de mais de 70% no sucesso em interceptar os recentes morteiros dos Hamas, afirmam as IDF.

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Isso é o que falo e repito sempre para minha mãe no Brasil desde que a primeira sirene tocou enquanto eu estava na rua. Essa cidade é super-protegida. Tel-Aviv ainda continua na bolha enquanto a situação do conflito entre Israel e Gaza parece piorar.

As cifras entretanto são muito dramáticas. O número de mortos na Faixa de Gaza, até o fechamento deste artigo, ultrapassa os 1000 – sendo a maioria de civis, segundo fontes do governo palestino e mídia, além de ONGs e da ONU. Cerca de 100 são crianças. Israel passou a registar mais baixas após o início da operação por terra no último dia 17. São mais de 40 pessoas – soldados na grande maioria.

A nova onda de violência começou no meio de Junho, quando três jovens israelenses foram sequestrados em um assentamento judaico localizado na Cisjordânia.  O crime ainda não foi comprovadamente atribuído ao Hamas, porém, todas as evidências indicam que os sequestradores tenham agido em apoio ao grupo terrorista que controla Gaza e ultimamente aliou-se ao Fatah, que ainda mantém laços diplomáticos com o governo de Israel.

Os meninos foram provavelmente mortos horas depois do sequestro, baleados e enterrados próximos à cidade de Hebron. Seus corpos foram encontrados no dia 30 de junho e durante o período das buscas, centenas de Palestinos foram presos nas investigações – o que esquentou os ânimos do já conturbado conflito.

No dia seguinte da descoberta, um grupo de seis israelenses militantes de extrema direita sequestrou e queimou vivo um adolescente palestino. Após o ato que indica uma vingança, a escalada apenas intensificou, com protestos diários em Jerusalém Oriental, onde morava o jovem assassinado.

A ação militar de Israel não tardou. A “Margem Protetora” atacou até agora aproximadamente 3.700 locais em Gaza. Hospitais e escolas inclusive, os quais as IDF alegam terem relação ‘comprovada com o terrorismo do Hamas, que esconde armas e usa civis como escudo humano’. A chuva de mísseis do grupo contra o território israelense não para, são mais de 2.300 – chegando até cidades onde o armamento antigo não conseguia alcançar.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Ambos envolvidos acusam-se de cometer crimes de guerra.  Na mídia, jornalistas e meios de comunicação travam batalhas paralelas em apoio às causas. Protestos das mais variadas tendências ganham as redes sociais e também as ruas do West Bank, das cidades israelenses e do mundo todo, tendo a violência de manifestantes, das IDF e da polícia como pano de fundo em muitas ocasiões. Todas as tentativas para um cessar-fogo falharam até agora e apenas tréguas “humanitárias” de poucas horas foram aprovadas.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

O medo e a morte tornaram-se rotina em Israel e em Gaza. De dentro, vemos que a situação é uma moeda com dois lados manchados de sangue e desesperança.

E onde parece haver apenas espaço para o desespero e rancor, venho com minha inevitável opinião sobre o assunto. Mas, tento ser o mais construtivo possível. Pois, acredito que disseminar o ódio e escolher um lado para sustentar 100% como uma cega torcida de futebol é apenas prestar um desserviço à solução pacífica.

Afirmo com coragem que sou a favor da solução dos dois Estados. Pois é assim que a situação já “é”, apesar de não ser formalmente aceita.  Ambos precisam se aceitar. Israel, como o lado mais forte do conflito, naturalmente apresenta sua superioridade bélica. Porém, precisa apresentar uma urgente proposta para realmente trazer “tranquilidade” para toda a região. Instável desse jeito, ela só se mostra vulnerável a perigos muito maiores e infinitamente mais radicais, como o ISIL, por exemplo.

Não creio que a ação militar israelense – por mais implacável que seja – botará um ponto final na luta armada do Hamas. O financiamento do grupo persistirá e as sementes para represálias violentas vingarão nos terrenos arrasados pelos ataques da força aérea de Israel. Assim como acontece em qualquer caso onde a violência substitui a razão, a educação precisa entrar para mudar as coisas.

Israel e Palestina precisam trabalhar juntos para que haja a opção justa e pacífica na representação de um povo hoje tão sofrido. Só a cooperação pode trazer benefícios eternos e estabilidade.

A coalizão atual do governo israelense não considera parar sua política de assentamentos na Cisjordânia nem o bloqueio à Gaza, o que é essencial para fomentar as premissas de qualquer discussão, ao ponto que , atualmente, ela só gera mais ranhuras na relação entre os lados e isola Israel na comunidade internacional.

O Hamas – sendo uma organização terrorista reconhecida internacionalmente, precisa ser desmantelado. Seu modo de lutar não é legítimo e caberá a um futuro Estado Palestino, o papel de combater e eliminar a via política do terror. Só uma Gaza livre do grupo e com acesso a uma economia aberta sem as sanções israelenses será capaz de destruir a opção belicista de dentro.

Ambos lados desconfiam dessa solução. Mas é a única possível. Esse voto de confiança precisa ser dado, uma vez que todos os olhos do mundo – mesmo com todas as podridões que o planeta passa – são focados quase que totalmente nessa região. Isso é urgente.

Por fim, as pessoas precisam conviver. Só quando conhecemos a rotina dos outros, somos capazes de dividir os problemas que nos afetam e construir uma nova realidade. Sendo assim, conheçam e apoiem o projeto da Peace Factory.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

Sim, pode parecer que tudo o que eu falo funciona para colocar minha cabeça levemente em meu travesseiro. Sim, é exatamente por isso.

Enfim, Tel-Aviv continua segura. Mas ainda é um alvo. Mesmo durante os preparativos do jantar de Shabbat – dia sagrado para a religião judaica, a equipe especial de resgate segue em alerta na estação central. Completamente uniformizados e preparados para qualquer situação, soldados cantavam as rezas enquanto eu entrevistava o Tenente Goldman – ou apenas Gal, pois é um grande amigo meu. No final da visita, presenteei meu brother com uma fitinha do Bonfim e o lembrei da importância de fazer os desejos.

Fui embora alimentando minha alma de esperança, mesmo no meio de toda essa zona. Pois é isso o que venho fazendo desde que toda a confusão começou. Fui embora esperando que as preces desse Shabbat em Israel, as do final do Ramadã em Gaza e os desejos do meu amigo falem a mesma língua: a da paz.

Hafradá: A Separação Palestina

por Raphael Lagnado*

Dentre todas as polêmicas que compõem o debate em torno do conflito Israel-Palestina, acentuadas nas últimas semanas devido ao recrudescimento do conflito entre Israel e o governo do Hamas na Operação Limite Protetor, provavelmente uma das questões mais espinhosas se refere à acusação de que Israel exerceria um regime de “apartheid” em relação à população palestina nos Territórios Ocupados, e talvez até mesmo dentro de Israel – emulando o apartheid (do africâner, “separação”) original, imposto pela elite branca da África do Sul à população negra, mestiça e indiana.

Partidários desta visão apontam para a situação na Cisjordânia, de gritante discrepância entre a situação econômica das vilas palestinas nas áreas B e C (sob controle total ou parcial israelense) se comparadas aos assentamentos israelenses, protegidos pelo exército e subsidiados pelas políticas governamentais e empresas privadas de Israel; os checkpoints no coração do território, que dificultam significativamente a liberdade de movimento; as estradas separadas para colonos israelenses e para a população palestina. Já críticos do uso do termo apartheid chamam atenção para as diferenças entre Israel e a África do Sul: cidadãos palestino-israelenses (i.e. somente nos territórios de 1948), por exemplo, possuem igualdade nominal e direitos civis, existem palestinos servindo na IDF e membros do Knesset (o parlamento israelense), etc. Também há quem argumente que descrever a política de Israel como apartheid diminui e desrespeita a memória coletiva das vítimas do regime segregacionista.

Apesar da negativa das autoridades israelenses e de seus aliados no exterior de que Israel praticaria uma forma de segregação entre sua população judaica-israelense e árabe-palestina, grande parte das políticas de Israel para a Cisjordânia e Jerusalém Oriental pode ser enquadrada dentro do escopo de um termo da língua hebraica – surgido, supreendentemente, do interior do establishment político e acadêmico israelense e promovido pelos formuladores de suas políticas de segurança; a palavra hafradá (orig.: הפרדה), cuja tradução literal seria, assim como apartheid, “separação”, “divisão” ou “segregação”. Ativistas pela causa palestina, como o americano-israelense Jeff Halper, do Israeli Committee Against House Demolition (ICAHD), argumentam que hafradá, guardadas suas semelhanças significantes com apartheid, constituiria uma descrição mais aguçada da “visão e política de Israel para com os palestinos nos Territórios Ocupados”.

O termo hafradá começou a assumir seu caráter político-paradigmático e adentrar o uso corrente tanto dos meios oficiais quanto da população civil israelense a partir da década de 1990, com os trabalhos do professor da Universidade de Haifa Daniel “Dan” Schueftan, e com certas “políticas de segurança” adotadas pelo então primeiro-ministro Yitzhak Rabin, como a barreira que separa Israel da Faixa de Gaza. A palavra também apareceu em campanhas políticas, sempre carregada de uma conotação positiva, como na eleição de Ehud Barak para primeiro-ministro, em 1999, realizada sob o slogan “Nós aqui. Eles lá”. Na época, não estava explícito onde exatamente seriam “aqui” e “lá”. E em 2001 Ariel Sharon se elegeu prometendo prover “paz e segurança” fazendo uma “hafradá do comprimento e largura da terra”.

No ano de 2002, a hafradá passou a ser associada à ideia, promovida por Sharon, de “desengajamento unilateral” (orig.: “Hafradá Chad Tzdadit”, צדדית דח הפרדה), da qual fazia parte a construção, iniciada neste mesmo ano, da barreira de separação (orig: “Geder HaHafradá”, הפרדהה גדר), que se estende em parte na Linha Verde que separa Israel dos Territórios Ocupados, em parte Cisjordânia adentro, mantendo do “lado de cá” grande blocos de assentamentos, como Gush Etzion e Ariel, e isolando cidades palestinas como Qalqilyah e Belém do “lado de lá”; a barreira continua sendo construída até o presente momento. O nome original da iniciativa, “Plano de Separação”, foi trocado por “Plano de Desengajamento”, pois, como admitiu o próprio Sharon em sua biografia: “‘Separação’ soava mal, especialmente em inglês, pois evocava apartheid”.

O plano de desengajamento de Sharon foi adotado oficialmente por Israel em 2005, e constituiu uma estratégia pragmática para o avanço e a normalização da ocupação na Cisjordânia. Foi e continua sendo executado unilateralmente, i.e. imposto sem o consentimento da Autoridade Palestina ou da população palestina. Parte do plano incluiu, naturalmente, cessões; todos os assentamentos israelenses na desvalorizada Faixa de Gaza foram forçosamente demolidos, e seus nove mil colonos foram evacuados ou deixaram o território voluntariamente. Eleições foram convocadas para a Autoridade Palestina em 2006, resultando numa vitória apertada do islamista Hamas sobre o laico e moderado Fatah, vitória essa que não foi reconhecida por Israel, EUA, a União Europeia e a maioria do mundo ocidental, que se pôs a sancionar economicamente a Autoridade Palestina. Tensões entre ambas as facções acabaram explodindo com a Batalha da Faixa de Gaza em Julho de 2007, na qual o Hamas acabou por derrotar o Fatah em uma guerra civil de baixa escala, e estabeleceu controle total sobre o pequeno território. O Fatah, por sua vez, continuou a controlar a Área A da Cisjordânia. O resultado, no longo prazo, você confere em qualquer jornal ou site de notícias dos últimos dias.

O doutor Schueftan, em uma entrevista ao The Jerusalem Report em 2005, após a adoção oficial do “Plano de Desengajamento”, afirmou que este constituía apenas o primeiro passo em um “processo histórico mais amplo”, e que a “característica subjacente” do desengajamento não é que ele trará paz, mas sim que impedirá o “terror perpétuo”.

Qual é a importância do conceito de hafradá no contexto da Operação Limite Protetor? Pra começar, eu coloco minhas fichas que Israel não vai reocupar militarmente a Faixa de Gaza, tendo ou não capacidade para isso. Além da divisão Hamas-Fatah ser benéfica pra execução do “Plano de Desengajamento”, o Hamas ainda garante alguma estabilidade ao território, contendo outros grupos mais radicais, como a Jihad Islâmica. Um retorno à situação pré-2005 seria extremamente custoso para Israel, exatamente o contrário do que pretende o “desengajamento”; i.e., manter uma ocupação estável e barata.

Como parte do processo amplo e de longo prazo da hafradá, está previsto o estabelecimento de um Estado Palestino independente (Ramallah, Belém, Jericó, Jenin, Nablus, parte de Hebron, etc.) – cabendo aqui perguntar qual seria o grau real de independência de uma instância administrativa operando em território descontínuo (somente na área A da Cisjordânia), com uma autonomia imposta por Israel (ao invés de negociada) e economicamente dependente? Novamente, a semelhança com os bantustões sul-africanos é preocupante.

O professor de Biologia Eitan Harel, da Universidade Hebraica de Jerusalém, disse ao Le Monde Diplomatique em 1996: “O sonho da Grande Israel foi substituído pela realidade de uma Israel menor. O que importa para as pessoas é viver melhor aqui, e se você lhes perguntar pelo que elas desejam e esperam, a resposta da maioria é: hafradá, separação”. Ao mesmo tempo em que a hafradá é a desistência de uma Grande Israel, representa, no entanto, também a consolidação da presença israelense na Cisjordânia – e, especula-se, o fim do paradigma da solução de “Dois Estados Para Dois Povos”.

*Raphael Lagnado, o mais novo integrante do Esparrela, cursa Relações Internacionais na PUC-SP.

Manifesto pelo direito de sofrer por amor

  Às vezes percebo uma certa imposição da felicidade como obrigação diária e estilo de vida. É quase um pecado sentir-se triste, quase uma doença que parece deixar as pessoas em volta em pânico.

 Quando falamos que alguma coisa não vai bem, ou que nos sentimos simplesmente tristes, todos tentam desesperadamente achar uma solução rápida e eficiente para não importa qual problema. Fico pensando o por quê desse medo da tristeza.

  O que é mais complicado ainda é que, negando esse sentimento, ou ainda tentando resolveêlo de maneira pragmática, sem uma verdadeira reflexão, sem um olhar interno, negamos uma maneira de crescer, evoluir no nosso conhecimento pessoal. Parece que o comportamento normal, é “ser forte”, dizer que não é nada, responder que “tudo está ótimo”, que a “familia vai bem”e que apesar dos problemas econômico-psico-sociais “vamos levando”…

  Percebo que isso é ainda mais forte quando se trata de “sofrer por amor”. Em tempos em que a auto-suficiência está acima de qualquer suspeita, que tudo se resolve em um download, em que as relações começam e terminam pelo facebook, em que escolhemos parceiros, companheiros, pelo seu “curriculum”- bom trabalho, bons estudos, bonito, bom gusto, quer ter filhos…

  Nesse mundo em que os sonhos, olhares e apaixonamento são vistos de maneira cínica , desconfiada, e negligenciados pela máquina pós-moderna, que valoriza ao mesmo tempo as construções sólidas, dexando as relaçōes tão líquidas. Dentro dessa realidade, dizer que sofremos por amor, é muitas vezes interpretado como um sinal de fraqueza ou dependência.

  Claro, não estou falando daquela tristeza desesperada ou de uma depressão, mas simplestente do fato de perder alguém, independente do motiveo que é uma das piores dores, partindo do princípio que foi uma relaçāo (de amor, amizade, pouco importa…) que tenha contado em nossa vida. Então fica a questão: negamos a dor, por não poder senti-la, vivê-la? Ou as relações são tão superficiais que, quando acabam, não fazem falta? De onde vem a fragilidade?

  Acontece que, para realmente amar, é preciso ao menos poder sofrer por amor. Ainda que seja difícil, ainda que machuque a alma, o orgulho, o ego. Mas que também, de um outro lado, possa ser de um grande aprendizado.

  A começar pela sensibilidade que florece, todas as letras de música começam a fazer um outro sentido, ou lembramos da pessoa em todas a letras escutadas; mesmo naquelas ditas mais “bregas”mas que carregam dentro de si uma inteligência e potencial tão humano:

“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade

Se estou na solidão pensando em você,

Eu nunca imaginei sentir tanta saudade

Sinceramente amor não sei o que fazer…”

  Ou ainda (uma das minhas favoritas):

“Eu tenho medo de te dar meu coração e confessar que eu estou em tuas mãos

  Mas não posso imaginar o que vai ser de mim se eu te perder um dia…”

  Por que definimos isso como brega? Por que a entrega a alguém é ridicularizada?

  Então às vezes para conseguir superar essa desilusão temos que aprender novas músicas, nos reinventar, sermos artistas na própria vida, nos transformar para aprender a viver sem aquele pedaço de vida. Aprender que “somos também o que perdemos” e que, como diria Drummond:

 “De tudo ficou um pouco

  Do meu medo. Do teu asco.

  Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco.”

 E que ainda sofrer por amor é, no fim, um privilégio de ter vivido algo realmente legítimo, é ter tido coragem de sair da zona de conforto. Na minha opinião é o melhor motivo da vida para se sofrer, e além de tudo é a dor que nos torna mais humanos.

 E um dia desde que consigamos rir daquilo que passou e das músicas “bregas tão lindas que cantamos, possamos falar desse amor cicatrizado: “que não seja imortal posto que a chama, mas infinito enquanto dure.”

Somos todos idiotas

Este ano é ano de eleições presidenciais, as campanhas já começaram, e eu estou disposto a apostar cerveja e dinheiro na seguinte contradição: no ano em que temos 11 (onze!!!11!!1!um!onze) candidaturas à presidência da república será também o ano em que ficaremos mais órfãos de qualquer debate programático sobre a construção de um poder alternativo.

A palavra idiota vem do grego ἴδιος, que quer dizer algo como “privado”. Em Atenas, dizem que era usada para se referir àqueles que não se importavam com os rumos da pólis, apenas com seus assuntos privados. Em tempos mais recentes, a esquerda cunhou o termo idiotismo parlamentar para se referir às organizações políticas que se deixavam guiar pelos interesses particulares de suas campanhas eleitorais em detrimento dos interesses comuns da classe, do povo oprimido e explorado, etc. É triste então ver a esquerda sucumbir a certa idiotia e vir para o pleito fragmentada, sem conseguir compor uma frente no plano nacional, o que já joga água na vodca da discussão programática.

Infelizmente, a esquerda não será a grande responsável pelo abandono do debate programático. Com isso, não quero passar pano para os meus companheiros do lado de cá do espectro; a nossa responsabilidade menor está diretamente relacionada ao nosso tamanho. Fôssemos mais que em torno de cinco por cento do eleitorado, causaríamos um estrago maior e a responsabilidade seria maior.

Mas este ano ficaremos não apenas reféns do idiotismo parlamentar como da particularidade individual. Isso é decorrência histórica do programa que levou o Partido dos Trabalhadores ao governo (e continua a pesar sobre as costas e bloquear os caminhos de toda a nossa esquerda, mais ou menos organizada em partidos. Uma bobeada, e aqui a gente encontra até setores mais próximos ao anarquismo reivindicando o estado de bem estar social ou naturalizando a estrutura do estado brasileiro) e da diminuição paulatina da distância que separava o PT e o PSDB.

Por isso, toda a discussão que ouviremos serão basicamente as alucinações de golpe comunista petralha orquestrado por Dilma serem rebatidas pelas acusações moralistas de que Aécio é cheirador. Programaticamente, o PSDB continuará tentando se colar aos programas sociais do governo federal, enquanto o PT passa a coordenar através do Ministério da Justiça repressão aos movimentos dos trabalhadores, à revolta da juventude, o ataque aos direitos democráticos mínimos, motivo de orgulho até então mais da gestões estaduais.

Dado esse incrível vácuo de programa, restará aos que desejam construírem alguma coisa construírem somente sua posição de esquerda enquanto identidade individual. Tudo que resta é bradar contra os coxinhas no facebook enquanto nos sentimos muito bem por não sermos coxinhas nós mesmos. Ser de esquerda, quando não há nada a se construir, não está relacionado com nada que fazemos, apenas a como nos vemos. É a vitória do particular sobre o comum, ainda que todos os particulares sejam mais ou menos os mesmos.

Peleset

Eu ia escrever um Artigo
Mas me faltaria espaço

Comecei a escrever um Conto
Mas me faltou calma:

Há sangue nas ruas!
E ele escorre do meu lado.

Há sangue nas ruas!
E todos acham justificável.

Há sangue nas ruas!
E por ele flui um rio de mágoas.

a                            A suntuosa vermelhidão desce
a                                                 pelas pernas da cidade
a                                                              Coagulando o sangue no meu coração

Não há mais verão
a          Não a mais verão

a                                 [Blood screams her brain as they chop off her fingers]
a                 [Blood will be born in the birth of a nation]
[Blood is the rose of mysterious union]

a  Blood
a         (revenge)
a                     so you need not weep.

2014: A Batalha de Vida ou Morte do PSDB

 

Aécio oficializa sua candidatura à presidência pelo PSDB

Aécio oficializa sua candidatura à presidência pelo PSDB

As eleições de 2014 serão muito importantes para todos os candidatos a presidência, governos estaduais, senadores e deputados federais que tentarão disputar o espaço político e de tomadas de decisão do país. Serão também importantíssimas para o povo brasileiro, que será governado por esses representantes e se esforçará para escolher o mais apto a continuar os progressos econômicos e sociais conseguidos nos últimos 20 anos da história brasileira. Porém, essas eleições serão extremamente importantes para um partido que ajudou a escrever a história brasileira desde 1988, quando o partido foi criado, e desde 1994, quando conquistaram a presidência e diversos governos estaduais chave. Esse partido é o Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, que apesar do nome, é o principal representante do pensamento neoliberal no Brasil.

Por que isso? Na semana que passou fomos informados sobre todas as composições de partidos para as eleições de 2014. Chamou a atenção a situação de São Paulo onde Paulo Skaf, numa reviravolta, tornou-se o candidato com mais tempo de TV nessas eleições (5min37seg). Vale a pena dizer algumas coisas sobre Paulo Skaf. Algumas pessoas compararam sua posição no início dessa disputa como a de Celso Russomano, insinuando que sua campanha poderia desintegrar-se com a mesma facilidade que a de seu similar.

Tal percepção, em minha opinião, é extremamente equivocada. A campanha de Russomano tinha três deficiências gravíssimas, que vinham do fato do candidato vir de um partido nanico (e aqui vale a reflexão do “por que a política se revezar sempre entre os partidos grandes”). Essas deficiências são:

  1. Tempo de TV muito pequeno para expor suas ideias, se defender de ataques, e se marcar na cabeça da população como um candidato “pra valer” (a grande massa da população tende a identificar os candidatos com maior tempo como aqueles que estão disputando “de verdade” as eleições);
  2. Ausência de estrutura partidária: militantes que sustentassem a campanha nos momentos cruciais e candidatos a cargos parlamentares (vereadores) conhecidos que defendessem o nome do candidato na campanha;
  3. Ausência de capilaridade do partido na sociedade, isto é, de contato com parcelas organizadas da sociedade (com a exceção notável da Igreja Universal). Por conta disso, sua campanha não construiu debates com militantes e especialistas que são indispensáveis para se construir programas de campanha realistas e competitivos, que atendam de fato demandas sociais.

Esses 3 elementos são fundamentais para se disputar uma campanha majoritária e vencer. É por causa deles que partidos grandes como PT, PSDB e PMDB tendem a se revezar no poder. E é por causa deles que os adversários de Russomano puderam destruí-lo com tanta facilidade na última semana antes das eleições, que é sempre a mais crucial de qualquer campanha. Seus adversários encontraram as fragilidades de seu programa, construído de forma frágil e, a partir daí, foi só usar a militância para expor as fragilidades com ninguém para defendê-lo.

Skaf, porém, encabeça uma campanha bem diferente. Em primeiro lugar, ele vem candidato pelo PMDB, que como todos sabem é um partido bastante consolidado na sociedade brasileira. O partido, em São Paulo, tem boa capilaridade na classe média liberal, nos médios empresários, e nos municípios do interior (região que é a maior reserva de força dos tucanos no estado). Em segundo lugar, ele próprio vem candidato tendo por trás de si a estrutura da FIESP, organização que representa 20% do PIB nacional, que administra outras organizações de amplo impacto e visibilidade social como o SESI e o SENAI, e que lhe concedeu inserções na TV que culminaram num bom desempenho nas pesquisas eleitorais no período pré-campanha. Em terceiro e último lugar, ele possui agora tempo de TV e dinheiro mais do que o necessário para se consolidar como candidato real nas cabeças da grande massa, tempo que será utilizado pelo competente marqueteiro Duda Mendonça.

Ou seja, Skaf é um candidato muito forte com uma equipe muito forte e duas estruturas (FIESP e PMDB) muito sólidas por trás. Além de tudo isso ele tem uma quarta característica bastante relevante para quem disputa eleições no estado de São Paulo: ele não é petista. Muitos paulistas votam nos tucanos mais por antipetismo do que por real identificação com o programa ou o governo tucanos. Skaf permitiria trocar de governo sem coloca-los nas mãos dos odiados “petralhas”.

E a situação de Alckmin em meio a isso tudo? A maioria do cientistas políticos aponta a pesquisa de aprovação de governo como a “mãe de todas as pesquisas”, a mais importante de todas para se olhar antes de uma eleição. Isso porque pesquisas eleitorais tendem a enganar: é possível que eleitores citem o governante do momento como opção, simplesmente porque é o nome que mais conhecem. As pesquisas de aprovação, por outro lado, não: elas indicam diretamente a disposição da população de permanecer com o atual governante ou trocar por outros. Há um certo consenso obtido por meio de estatísticas de que candidatos com acima de 60% dos ótimos e bons estão reeleitos salvo raríssimas exceções, independentemente dos opositores. De maneira inversa, governantes com menos de 30% de aprovação estão quase que fadados a perder eleições. A maioria dos governos ficam na faixa dos 40-50%, governos mais próximos de 30% são mal avaliados e governos mais próximos de 60% são bem avaliados. Evidentemente, ciência política não é física, então espaços para anomalias sempre existem, o que é motivo suficiente para os partidos se digladiarem a cada eleição mesmo seus candidatos sejam frágeis. Não obstante, a maioria das eleições segue esse padrão.

E aí vem o primeiro e mais grave problema de Alckmin. Na última pesquisa Ibope, realizada em dezembro de 2013, Alckmin atingiu 31% de aprovação. Como pode-se perceber, é uma aprovação extremamente baixa, beirando o “matematicamente inelegível”. Não se realizou outra pesquisa Ibope desde então, mas é improvável que Alckmin tenha subido acima de 40% em um semestre. Ou seja, a despeito de estar bem posicionado nas pesquisas, o que é natural visto que Alckmin já é candidato muito conhecido em São Paulo, sua aprovação está muito mais próximo do “piso” do que do “teto” da norma. Mesmo a aprovação pessoal do governador, que em geral costuma ser maior (visto que os eleitores tendem a estar mais dispostos a falar mal dos governos do que das pessoas em si), está bastante baixa, em 41% (número que talvez seja mais próximo do das pesquisas eleitorais).

Além disso, há outras questões bastante relevantes para Alckmin. A primeira delas, é que Alckmin tenta um 4o mandato no governo do Estado. Depois de 12 anos com a mesma pessoa governando um estado, é difícil não haver rejeição ou cansaço por parte dos eleitores. A segunda questão é que nas últimas eleições municipais o PSDB perdeu um grande número prefeituras no interior, que é o principal reduto eleitoral do governador, incluindo cidades importantes como São José dos Campos, onde o PSDB governava há 16 anos. E adivinha qual partido mais faturou em cima das perdas dos tucanos no interior? Justamente o PMDB de Paulo Skaf…

Por todas as razões que elenquei acima, considero que Paulo Skaf hoje é fortíssimo candidato ao governo do Estado. A pergunta que se segue é: o que aconteceria se Paulo Skaf se tornasse o próximo governador de São Paulo?

O que poderia se seguir é a mais profunda transformação da política brasileira nos últimos 20 anos. Sem o Estado de São Paulo, o PSDB que já tem apenas 49 deputados federais, perderia sua capacidade de sustentar candidaturas competitivas à presidência da República. O quadro, que já é muitíssimo grave, se tornaria catastrófico se o PSDB fosse incapaz de vencer a próxima eleição presidencial (o que me parece a hipótese mais provável, por conta da sólida base de votos do PT e da esmagadora diferença de tempo de Dilma) e perdesse a eleição em Minas Gerais, cujo governador, apesar de ter boa aprovação (49% segundo o Ibope), está impossibilitado de se recandidatar, deixando os rumos do PSDB nas mãos do ex-ministro de FHC Pimenta da Veiga, que no momento está bem atrás de Fernando Pimentel do PT.

Se por um lado a perda de São Paulo seria terrível para o PSDB, seria extraordinariamente bom para o PMDB. No últimos anos o partido teve que lidar com as pretensões hegemônicas do PT, que aumentou substancialmente sua bancada em 2010, e provavelmente aumentará ainda mais em 2014. Ter São Paulo daria um novo fôlego para o partido disputar os espaços de poder a nível nacional num segundo mandato de Dilma. E, ainda mais importante do que isso, daria para o segundo maior partido do Brasil um peso tão grande que seria impossível o PT acomodar o aliado num futuro. O que significa que o PMDB emergiria naturalmente como a segunda força da política nacional nas futuras eleições presidenciais, no lugar do PSDB, se assumindo como a nova direita do país.

A substituição de PSDB por PMDB não representaria apenas uma mudança nas disputas eleitorais do país. Representaria também uma importante alteração na disputa ideológica do Brasil. A velha disputa entre o modelo desenvolvimentista (encampado pelo PT) contra o modelo neoliberal (encampado pelo PSDB) estaria acabada, com a vitória do primeiro. A partir daí a disputa seria outra: entre um desenvolvimentismo mais à esquerda (que aumente o salario mínimo, distribua renda, tenha políticas sociais fortes, etc), defendido pelo PT, e um desenvolvimentismo mais à direita (que promova corte de gastos, uma política social conservadora, terceirização dos serviços públicos e arrocho salarial). Não obstante, em muitas questões os dois lados concordariam: a redução de juros, a elevação do câmbio a patamares mais competitivos, a criação de políticas industriais mais agressivas. Seria o grande legado político da Era Lula: uma alteração profunda na disputa de hegemonia nacional.

Daí pode-se entender o empenho e vontade com os quais o PSDB virá nas próximas eleições. Será uma batalha de vida ou morte, de sobrevivência do PSDB e de sua ideologia na vida política nacional.