Eles querem destruir o futuro

Às vezes, é um pouco perigoso falar em lutar pelo futuro. Por um lado, é fácil dar um tom poético à formulação, porém, por outro, também é fácil perder-se em abstrações e esvaziá-la de um conteúdo concreto. O que move as pessoas são os motivos concretos, os seus interesses mais ou menos imediatos. E na luta pelo futuro também é muito fácil, às vezes, perceber como as mudanças no presente afetarão esse tempo que ainda não chegou.

Esta semana, finalmente, uma ficha caiu. No plano de reestruturação da USP apresentado pela reitoria e pelo governo do estado de São Paulo está incluído um Plano de Demissão Voluntária que abrangeria cerca de 3000 funcionários. Os impactos disso no presente são fáceis de serem calculados: para os funcionários, aumento do assédio moral para que haja adesão ao PDV, aumento de trabalho sem aumento de remuneração para os que ficam. Para os estudantes, imagina-se que alguns procedimentos se tornarão ainda mais vagarosos, mas como é fácil perder de vista quem trabalha, é difícil calcular o impacto. Mas a ficha que caiu é que com essas demissões se efetivando, são 3000 postos de trabalho dentro da Universidade que deixam de existir.

A USP tem uma tradição de certo umbiguismo. Parte disso é pura arrogância conquistada em ouvir demais que é a melhor Universidade do país, do continente, do hemisfério. Mas parte disso se deve a um lastro na realidade. A USP conseguiu construir dentro de si uma tradição também de lutadores combativos, aguerridos. Muitas das conquistas e das ações da luta lá dentro acabam reverberando para as lutas fora dela, mas muitos dos ataques à classe trabalhadora e à juventude são testados primeiro dentro da USP. Veja que o Governo Federal, por exemplo, está desvinculando hospitais universitários também.

Não seria de surpreender se passando o PDV na USP, essa ferramenta começasse a surgir em outras áreas ligadas ao setor público, e passasse por contaminação pra outros setores. Assim, sabe-se lá quantos postos em outras Universidades, nos transportes, na educação, na saúde seriam extintos nos próximos anos como resposta à crise.

Para a juventude que está ou estará entrando no mercado de trabalho nos próximos anos, significa na prática menos postos de trabalho, uma pressão maior para manter os salários baixos, maior abertura para a precarização das relações de trabalho. A luta pelo futuro, então, não é somente pelo sonho, pela situação melhor em abstrato. A luta pelo futuro é simplesmente defender já hoje aquilo que ataca hoje o seu interesse de amanhã.

Por isso, é hora de resistir. Se nos calarmos, certamente nada restará do futuro.

O Holocausto Sírio

Desde 2011 a situação na Síria tem se deteriorado diariamente; o que começou com a violenta repressão de manifestações civis se tornou uma guerra civil. Cidades inteiras foram bombardeadas por tanques e artilharia do governo, armas químicas foram usadas por Assad contra a população civil e os relatos de abusos de direitos humanos (tanto por parte do governo quanto por parte das dezenas de grupos rebeldes) têm aumentado exponencialmente. De modo geral, já existiam provas suficientes para que o regime de Bashar al-Assad fosse considerado um regime perpetrador de crimes contra a humanidade, mas, recentemente, a situação se agravou ainda mais.

Dentre os crimes cometidos pelo governo Assad, destacam-se os bombardeios indiscriminados a civis, as detenções arbitrárias de milhares de membros da oposição, os massacres de vilas Sunitas inteiras, o estupro de detentos e civis, o uso da tortura como método investigativo/punitivo (inclusive de crianças) e a privação da sociedade civil de alimentos, medicamentos e bens de consumo básicos. Como resultado, centenas de milhares de pessoas já pereceram no conflito.

Mas a descoberta de que o Governo Assad está sistematicamente torturando e assassinado dezenas de milhares de pessoas em suas centrais de detenção elevou o nível da situação para aquela de Genocídio e Holocausto. Essas atrocidades sistemáticas foram reveladas quando um policial militar do Governo Sírio desertou o seu posto e fugiu do país carregando consigo mais de 55 mil fotos (tiradas de mais de 11 mil corpos) que revelavam as formas de tortura que Assad ordenou que fossem praticadas naqueles que considerava serem seus inimigos políticos.

A Professora Sue Black, antropóloga forense da Universidade de Dundee, foi uma das pesquisadoras convocadas para avaliar as 55 mil fotos. Ela descreveu os estrangulamentos, espancamentos, choques elétricos e privações de alimentos como as atrocidades sistemáticas mais similares às praticadas nos Campos de Concentração Nazistas já vistas desde os anos 40. As imagens, para a Professora, são as mais perturbadoras que ela já viu em seus mais de 30 anos atuando como especialista forense. Tendo estado em Kosovo depois da guerra iniciada em 1999 e na Malásia depois do tsunami de 2004, a Professora relatou que o nível de dor e sofrimento que as mais de 11 mil vítimas devem ter sofrido é indescritível e contemporaneamente inigualável.

“Trabalho com análise forense há mais de 30 anos e esses [crimes] são os piores que eu já vi… A quantidade de mortos não é algo novo para mim, mas o nível de violência interpessoal é. (Tradução Livre)

Um dos outros pesquisadores enviados para analisar as fotografias, o Sr. Desmond de Silva, que atuara como Procurador Geral da Corte Especial na Serra Leoa, concorda com a opinião da Sra. Black, especialmente em relação às comparações com o Holocausto.

“Algumas das imagens que vimos lembravam absolutamente as fotos de pessoas que saíram de Belsen e Auschwitz. [E isso] é só a ponta do iceberg, porque estamos tratando apenas de 11.000 [pessoas] em uma única área. (Tradução Livre)

O policial militar desertor que trouxe as fotos dos crimes à tona, denominado “Ceaser” para manter a sua identidade real sob sigilo, explicou as razões pelas quais as fotos foram tiradas:

“Há duas razões pelas quais essas fotografias foram tiradas. Em primeiro lugar, para permitir que uma certidão de óbito fosse gerada sem que as famílias tivessem que ver os corpos, evitando, assim, que as autoridades tivessem que prestar um relato real sobre as mortes; em segundo lugar, para confirmar que as ordens para executar as pessoas tinham sido seguidas.”

Sem mais demoras, seguem abaixo algumas das fotos trazidas por Ceaser:

[CONTEÚDO GRÁFICO ABAIXO – NÃO VEJA SE NÃO ESTIVER PREPARADX, MAS TENTE… POIS SE SOMOS GRANDES O SUFICIENTE PARA GUERREAR, O SOMOS TAMBÉM PARA VER OS FRUTOS DESSAS GUERRAS]

 

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                                                                                                   [Mais Fotos Aqui]

A festa e a saudade

E eis que, depois de te conhecer, aqueles risos altos das festas já não conseguiam ser o suficiente, nem os olhares sedutores furtivos, nem os assuntos de cultura geral sócio-econômico-políticos.

 No meio daquela pista de dança, todo mundo dançava só… Só mesmo, não apenas com a ausência de alguém, mas com toda solidão de quem ainda tenta seconder por detrás de uma gargalhada o vazio de seu coração.

 E, então, eis que aquela fogueira das vaidades que no fundo cheira a Prozac e à lágrimas no travesseiro não me cabia mais.

 Fui embora. “Mas já?!”, pânico, dúvida, medo daqueles companheiros de vida nortuna festiva, “Nem parece você!” Sorri de maneira que assegurasse que tudo ia bem, mesmo que, no final das contas, eles tivessem uma razão, ainda que não refletida ou consciente: já não era mais o eu que haviam conhecido.

 Aquele eu tão cínico que não se importava com ligações no dia seguinte, narcísico sobre uma bela capa de auto-suficiência tão bem vista.

 Hoje o que eu queria era a ver seu olhar em festa quando me vê e me perder nos teus braços durante as horas (que não iríamos ver passer) de uma “manhã indecisa”de tempo e horário, em que os restaurantes, teatros e cinemas estariam fechados e vetados pelo interesse da nossa conversa que vai muito além dos assuntos gerais.

Já não existe mais espaço para o geral, mas sim para a intimidade. Já não suporto mais a solidão, apenas a saudade.

A volta da destruição da Universidade

Saiu nos grandes veículos de comunicação do país a notícia, descoberta cerca de um ou dois dias antes pelo movimento grevista da USP, sobre o plano do governo do Estado de São Paulo que seria implantado após a abertura da crise na Universidade de São Paulo. Esse plano incluiu um projeto de demissão voluntária de três mil funcionários, a flexibilização do regime de dedicação integral dos docentes, e a desvinculação de áreas como o Hospital Universitário, parte da fazenda experimental da Esalq. Seria a destruição da Universidade como a conhecemos, submetendo-a, agora escancaradamente, ao interesse do mercado, ao interesse de meia dúzia de empresas e interesses privados que já atuam veladamente no interior da Universidade.

A verdade, entretanto é que no interior da Universidade sempre conviveram dois pólos, e a forma que ela tem neste momento, é uma forma instável, uma forma transitória para outras duas formas de Universidade, e nenhuma das duas pode nascer sem destruir as sementes da outra. Como dito acima, essa “solução” apresentada pela imprensa é senão o modo escancarado de algo que já existe na USP, e nas outras Universidades, neste momento. E para que isso se pudesse apresentar assim, foi preciso um plano consciente de dilapidação, um projeto de descaso programado. Criar a crise e vender a solução para o problema criado.

Mas, pelas suas características, a Universidade, tal qual ela existe, acaba trazendo em si a possibilidade de uma outra Universidade. Embora limitada, embora submetida ao conflito de classe que organiza a sociedade, existe dentro da Universidade um certa liberdade. Alguma liberdade de ação, alguma liberdade de experiência, alguma liberdade de pensamento. Liberdade com limite, mas liberdade. E esse limite é justamente o interesse privado, a sujeição da universidade aos desejos do mercado, do capital. É isso que não permite que a experiência da Universidade seja plenamente uma experiência em nome do interesse mais geral e comum.

Por isso, não há conciliação possível entre esses dois pólos. Se vence um lado, o interesse mais comum não pode se efetivar. Se vence o outro, o interesse particular não pode valer. A questão, chega então, aquele momento que fomos ensinados sempre a evitar: é preciso escolher um dos lados do conflito. É preciso tomar partido.

Dentro da Universidade, existem aqueles que estão nela para garantir que haja pão na mesa amanhã. E, na verdade, são eles que garantem o funcionamento dela. Existem aqueles que estudam, que experimentam, que se beneficiam com essa liberdade, mesmo que limitada. Só pela união desses dois setores é que o interesse mais comum tem alguma chance de se efetivar. Para o desespero daqueles que vêm a Universidade como meio de realizar seus interesses privados, e para nossa sorte, essa mistura tem um componente explosivo. E dessa explosão pode nascer a Universidade que realmente queremos.

E esse Curdistão, rola?

A guerra civil na Síria descambou para o Iraque e para o Líbano. O grupo extremista sunita “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS), agora rebatizado apenas de “Estado Islâmico” (IS) ou “Califado Islâmico”, que já lutava contra o domínio de Bashar al-Assad, decidiu fazer jus ao nome e cruzar a fronteira para combater outro aliado xiita do Irã, o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá. Em relativamente pouco tempo (aproximadamente seis meses) os rebeldes conseguiram capturar as regiões e cidades mais populosas do país, como Fallujah, a apenas alguns quilômetros de Bagdá, e Mosul, no Norte, a segunda maior cidade do país. Pego de surpresa, o governo iraquiano viu sua influência erodir rapidamente dentro do seu próprio território. Tropas do Governo Regional do Curdistão (GRC), em uma ação autônoma, aproveitaram para tomar os principais campos de petróleo ainda sob controle iraquiano e estenderam seu controle sobre a região de Kirkuk, dividindo, na prática, o Iraque em três.

Os curdos são um povo etnicamente relacionado aos persas, que tem habitado uma região vasta que inclui partes do Irã e da Síria, mas principalmente do Iraque e da Turquia. A grande maioria dos curdos é muçulmana sunita, embora exista uma minoria xiita, especialmente na Turquia; no Iraque, muitos curdos étnicos também são cristãos ortodoxos e adeptos da religião yazidi – vistos como hereges, são aqueles que mais têm sofrido com o avanço dos salafistas do IS. Em todos estes países os curdos sofreram com a discriminação, o desterro e a perseguição, em maior ou menor grau. O status de sem-Estado dos curdos os levou, ao longo do século XX, a se solidarizarem com outros povos refugiados do Oriente Médio, como os palestinos e os armênios.

O único país onde a autonomia política curda foi reconhecida foi o Iraque – primeiro em 1991, depois da Guerra do Golfo, e depois em 2003, após da invasão americana. Após o reconhecimento dessa autonomia, o GRC se tornou na prática um Estado semi-independente, com capital na cidade de Erbil. Isso representou uma grande conquista para um povo que sofreu atrocidades nas mãos de Saddam Hussein – que, na década de 1980, usou armas químicas para combater a insurgência curda do atual presidente do GRC, Massoud Barzani. Desde 2003, o Curdistão iraquiano tem sido visto como um dos poucos exemplos de “democratização” e “estabilização política” de sucesso no Oriente Médio, liderado pelo Partido Democrático Curdo (PDC) de Barzani e pelas forças armadas do GRC, os Peshmerga (em curdo, “aqueles que confrontam a morte”).

Às recentes conquistas do GRC, tanto territoriais (tomando territórios ricos em petróleo cujas forças de Bagdá estavam fracas e desorganizadas demais para manter) quanto políticas (os EUA já admitem estar treinando e armando os curdos contra o IS), soma-se o sucesso de outro grupo armado curdo, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (em curdo, PKK), baseado na Turquia e na Síria. Este grupo, surgido da efervescência política da Turquia dos anos 1970, combina seu nacionalismo curdo com ideais de socialismo e democracia direta, e tem travado uma guerra de guerrilha contra o governo turco desde 1984. O PKK, considerado pelos EUA e pela União Europeia um grupo terrorista, também é organizado fora da Turquia e conseguiu, em meio ao caos da guerra civil, estabelecer um pequeno enclave no nordeste da Síria, conhecido em curdo como Rojawa, fazendo fronteira com turcos, rebeldes do ISIS e curdos iraquianos. O Rojawa, controlado pelas Unidades de Proteção Popular (em curdo, YPG) tem sido defendido com sucesso, pelos últimos dois anos, tanto das tropas governistas de Assad quanto das diferentes milícias rebeldes, e, por ser mais estável que o resto do país, tem servido de refúgio para sírios de outras regiões.

 

Vídeo da Vice News, feito no final de Junho, após a tomada de Kirkuk pelo GRC, e antes das confrontações abertas com o IS.

 

Não obstante sua oposição ao IS e suas crescentes dificuldades em repelir seus ataques, o governo iraquiano faz coro às posições do Irã, se recusando a qualquer concessão política aos curdos. Ou, pelo menos, se recusava – a decisão do novo presidente iraquiano (etnicamente curdo) Fuad Massoum de substituir al-Maliki por Haider al-Abadi pode vir a moderar o sectarismo xiita do governo. Atentando à oportunidade de prejudicar os interesses iranianos no Iraque, o governo turco desenvolveu, ao longo dos últimos anos, relações diplomáticas e econômicas crescentes com o GRC, que lhe provê um suprimento relativamente barato de petróleo.

Mas espera – a Turquia não estava em guerra com os curdos do PKK? Pois é, a divisão política do Oriente Médio também afeta a luta curda por independência; até hoje nunca existiu uma frente única que englobasse os curdos de todos os países. Além disso, as diferenças ideológicas entre o PDC de Barzani, um partido laico e pró-Ocidente (mas, ao mesmo tempo, conservador e enraizado no caciquismo tribal), e o PKK, nacionalista e próximo de uma extrema esquerda, são latentes e deixam pouco espaço para uma eventual união composta por estes e outros partidos curdos.

Dentro do próprio Curdistão Iraquiano, ocorreu uma brutal guerra civil no período 1994-97, envolvendo, principalmente, o PDC de Barzani, que foi apoiado por Ancara e Bagdá, e a União Patriótica do Curdistão (UPC), do ex-presidente iraquiano (2005-14) Jalal Talabani, próxima do PKK e de Teerã. O Acordo de Washington, em ’97, dividiu o GRC em uma região controlada pelo PDC, com capital em Erbil, e outra nas mãos da UPC, com capital em Sulaimaniyah. Apesar da reconciliação e reunificação ocasionadas pela eventual queda de Saddam em 2003, as duas facções ainda guardam ressentimentos, até mesmo neste momento delicado; acredita-se que Peshmerga leais à UPC, na luta contra o IS pela vila de Rabiaa, na semana passada, foram abandonados pelos milicianos do PDC, e receberam ajuda das YPG do Rojawa sírio.

No entanto, o governo turco de Recep Tayyip Erdogan tem aplicado um processo chamado de “abertura curda”, i.e., o gradual estabelecimento de canais de comunicação com lideranças curdas, principalmente o PKK, com vistas a sanar as causas do conflito. O sucesso da iniciativa, porém, ainda está pra ser visto; em meados de Julho, as negociações de paz estavam estagnadas. Isso não impediu as recentes operações conjuntas realizadas pelas forças Peshmerga e as YPG na fronteira entre Síria e Iraque com o objetivo de retomar vilas como Mahmoudia, Makhmour, Zumar e Shingal, perdidas para o IS no último mês. No entanto, o sucesso da ‘empreitada curda’ no longo prazo depende da bênção política da Turquia – ou, se esta não se materializar, de uma união sólida de curdos de todas as facções, no estilo “contra tudo e contra todos”.

Detox Espiritual

por Maria Shirts

“…magina, ele me deu uma bota falando que precisava de um ‘detox espiritual’”.

“Que porra é um detox espiritual?”

As duas mulheres, calculei uns 35 anos e algum grau etílico, caíam na gargalhada enquanto vinham para fora do bar, na minha direção, fumar cigarros e discutir relacionamentos.

“Não sei o que é pior. Falar uma merda dessas ou fazer o que o Alexandre fazia comigo, tipo me usar de mina troféu, sabe?”

“Não, que que é mina troféu?”

“Ah, o cara te deixa ali de standby na estante e só tira de vez em quando pra dar uma lustrada e mostrar pros amigos”.

“Puts, isso é foda. Mas pior mesmo foi a humilhação que eu passei antes do espiritual-entoxicado, em 2010, com o Lima. Lembra dele?”

“O loirinho com cara de cafa?”

“Esse mesmo. Fui viajar pro Réveillon na Baleia com ele e uma galera e o cara só me esquentava, ficava fazendo carinho, me elogiando, me deu uns beijo… aí meu, quando chegou a… a…, qual que é o nome dela? Até esqueci. Enfim, quando chegou uma menina que eu não conhecia, amiga da Rê…”

“Rê era a dona da casa?”

“É amiga, a Rê loira, que pega o Celsinho”

“Ah, total”

“Enfim, aí chegou a menina e o Lima não pensou duas vezes… se agarrou com ela e não largou mais. Eu chorava, mas eu chorava, tive que ir embora tipo no dia 1 de janeiro de tanta humilhação. E o pior é que ele começou a namorar a menina, olha que loucura”

“Ai amiga, que mal…”

“Pois é. Aí to eu aqui, quatro anos depois, e o menino vem me mandar email falando que ele foi muleque, que ele se arrepende, que terminou com a menina e que queria tomar um café…”

“Gente, que cara de pau. E aí?”

“Aí que a gente marcou sexta”.

 

O Primeiro dia de Férias

 
Bom, o primeiro dia de férias! Genial para a maioria das pessoas, fim dos estudos, do trabalho, teoricamente de tudo que nos incomoda, e nos afasta da plenitude pessoal e humana… pois é, pra mim as coisas funcionam de maneira um pouco diferente. Para explicar isso tenho que falar um pouco mais sobre mim.
Estudo história na Sorbonne, porque digo especificamente a Sorbonne, bom talvez para me gabar um pouco, e principalmente para me proteger de contra-argumentos quando digo que meu curso é imensamente trabalhos, demanda horas de estudo e leitura, o que serve para justificar todas minhas neuroses, ou talvez tampá-las com a peneira…
Como acabei na Sorbonne, sendo que sou brasileira… morei durante um ano na França em 2009, gostei muito do país e, de volta à São Paulo, detestava a faculdade de jornalismo… Alors, resolvi me inscrever para a Université Paris 1… fui aceita, e fui!
Durante os oito meses de curso anuais, estudamos que nem cavalos, des de o Império Romano, até a História Moderna da Transilvânia (sim, a Transilvânia existe… sim, o personagem do Conde Drácula foi inspirado num antigo « senhor feodal » da região)- começamos a ver que estamos realmente na merde quando pesquisamos algo no Google e a unica resposta é « 0 resultados », aí a solução é se jogar nas bibliotecas, lídar com os seres estranhos que vivem por lá e se alimentam de livros, nunca falam alto, são sempre pálidos e vivem se esgueirando entre as prateleiras, com o tempo você acaba virando um deles…
E após esses oito meses de gritos de desespero nas cavernas mais profundas, procurando a única edição do livro sobre a política construtiva medieval de Milão nos séculos XIV e XV, sim isso existe… O ano de repente acaba.
Aí acordo num dia de feriado em Paris, ou seja: tudo fechado, graças a politica de bem estar social francês, Merci la France! E me deparo com o dia inteiro sem absolutamente nenhuma tarefa. O primeiro sentimento é de alívio, de missão comprida, momentos megalomaníacos com direito a gargalhadas satânicas por ter passado em História Medieval… num segundo momento um vazio…
E não há nada melhor para ocupar um vazio que uma boa preocupação, logo vi que o meu aluguel do mês não havia chegado ao proprietário por culpa do banco, algo facilmente resolvível quando não estamos em um dia de feriado na França, mas mesmo assim resolvo mandar cerca de 10 e-mails para o banco, para a agência de apartamentos, para minha gerente do bando e para a secretária da agência de apartamentos, uma mulher de 40 anos, não casada, francesa, infeliz com sua vida amorosa… que já passou faz tempo do seu estado balzaquiano.
Tendo isso feito, são 11h30 da manhã e ainda tenho meu dia inteiro pela frente pronto para ser arruinado, a pergunta é: como fazê-lo¿ sim, pois isso é um talento, é preciso dedicação, força de vontade e aptidão…
Depois de meia hora andando em círculos pelo meu chateau de 17m², no quinto andar sem elevador, com o teto inclinado- bom, sempre posso dizer que moro numa cobertura em Paris… Sabe aqueles prédios centenários charmosíssimos parisienses, que sempre aparecem nos filmes franceses que nós de humanas veneramos e sempre nos imaginamos morando num desses, tomando uma taça de vinho e escrevendo nossos pensamentos em um moleskine antigo, Pois é, não funciona bem assim… primeiro que até você carregar a garrafa de vinho mais suas compras de supermercado já não é tão poético…
Mas voltando ao dia de férias, coloquei a roupa pra lavar e comecei a arrumar o apartamento, imundo depois de duas semanas de exames finais, época em que sobrevivemos a base de comida congelada, dormindo em cima dos livros e fotossíntese a base da luz do computador… real story…
Não contente, lembrei que tinha uma amiga, estudante de história da arte que teria ainda uma prova de história antiga, e aí vem a parte que mais me envergonho: mandei uma mensagem para ela perguntando se não queria ajuda para estudar… estou até sentindo sua reação após ler essa frase, mas tenha sempre em mente doeu mais em mim do que em você… Estudei tudo de novo no meu primeiro dia de férias, toda dinastia julio-claudiana romana e os sucessores de Alexandre, o Grande… quando estávamos dando um tempo tomando uma cervejinha meu celular da dois pequenos toques, era a agenda… tinha esquecido completamente que tinha análise naquela tarde… não é surpresa, depois de tudo isso, que eu faça análise…
Expulsando minha amiga de casa fui correndo até minha psicanalista como estando atrasada para qualquer compromisso, disposta a chegar a tempo cumprir o horário e voltar pra casa. Cheguei a tempo sentei no sofá do consultório e… nada, silêncio… mais nada… um branco, um vazio- aquilo não era mais um compromisso… não conseguia saber o que eu sentia, nem que pensamentos me passavam pela cabeça, me deu uma tensão por não conseguir fala nada, como estar falhando numa prova, depois angustia por não conseguir nem saber o que estava sentindo fiquei olhando para o teto, e para o gato da minha analisa que roncava profundamente (a falta de interesse dele também não ajudou)… ela disse:
– “o tempo acabou”
-hoje eu não consegui
-faz parte – ela concluiu com um sorriso acalentador.
Fui embora, sentei num banco por uma meia hora, pensando no que tinha feito com o meu dia, dessa vez a conjugação do verbo não poderia ser outra: o que eu fiz com meu dia… o que me faz pensar que a conjugação quase nunca é outra, na maior parte do tempo somos responsáveis por nossos dias, todos os que compõem a nossa vida…
Pena que não paramos todos os dias meia hora num banco de rua pra pensar como foi o nosso dia, para fazer uma avaliação sincera dos acontecimentos, e não apenas nos nossos dias des férias, que pena dever esperar os parênteses, para poder definir o curso do texto… Por quê não percebemos todas as desculpas que nos damos para continuar nossa vida de formiga em campo de trabalho forçado¿ Por quê se questionar ficou tão difícil¿
Só sei que às vezes os silêncios são mais úteis que as respostas diretas e seguras, principalmente sobre as perguntas que não ficam guardadas em livros de bibliotecas subterrâneas, nem em oráculos modernos via internet e, muito menos, em teses de doutorado. O problema não é arruinar o primeiro dia de férias, mas deixar de perceber que não percebemos todos os outros dias…