Luto de um amor não vivido

Às vezes é preciso tirar um momento para pensar naquilo que é proibido, no que não deveríamos pensar. Afinal a vida nos foi prometida tão simples: crescer, ter um emprego, um amor, filhos, uma casa.

Felizmente ou não a vida acabou sendo diferente, e por um motivo nos abrimos à sua irreverência quase cínica… como um sorriso de canto de boca que diz: “quem disse que ia ser fácil?”

E aí que é quase evidente que algumas perdas são parte do caminho, mas outras simplesmente são uma surpresa. Todo mundo um dia sofre por amor, mas normalmente as relações acabam por falta de amor ou de vontade de continuar de pelo menos uma das partes envolvidas. E quando as duas partes se amam, mas ainda assim a relação deve obrigatoriamente terminar?

Uma das partes pode simplesmente morrer, distanciada por questões geográficas ou culturais, ainda pode ser a presença de uma terceira pessoa e somos obrigados a escolher. O fato é que temos que, nesse caso, lidar com o luto do que não acnteceu, de um amor que poderia ser mas que não pôde ser vivido ou mesmo concretizado.

Então acontece um fenômeno estranho: começamos a sentir saudades de fatos que nunca existiram, de lugares que nunca fomos, de beijos nunca roubados, de declarações nunca feitas. A perda se torna ainda mais dolorosa sabendo que, se existissem terceiras escolhas na vida, poderíamos estar juntos.

Outro dia falei com uma pessoa que acabara de perder uma amiga de infância, perguntei estupidamente como ela estava e ela me deu uma resposta que superou muito o nível da minha pergunta: “Claro que está sendo difícil, mas pelo menos, nesses últimos tempos consegui estar do lado dela, conversar, ajudar no que foi preciso…conseguimos dizer tudo o que era importante”

Um belo filme sobre o assunto chama-se “Hanami, cerejeiras em flor” que fala sobre um homem que, depois de perder sua mulher, vai ao Japão durante a época em que as cerejeiras florescem, aprender a dança tradicional japonesa “bantô” – vestindo as roupas da falecida seu objetivo é realizar o sonho de sua amada, ainda que ela esteja morta.

Uma das qualidades de quem ama é a vontade de partilhar, e a dor de não poder dividir o jantar, o jardim, os netos, as viagens e os sonhos é ainda maior quando são os imparativos pragmáticos da vida que interrompem uma ligação. Como diria o psicanalista Emílio Rodrigué : « algumas separações são necessárias, outras não ».

Mas ainda que doa o pensamento nas relações proibidas ou interrompidas, suas cicatrizes (o que essa relação nos deixou e o que ela nos transformou) são infinitamente mais belas do que um coração virgem de sofrimento.

quino

O Corpo

nu1

por Sofia Caseiro*

O Corpo fala então:
Escute!!

Não coloque
Nu meu corpo nu
SUAS
Amarras
elas nao
me pertencem

Do nascimento
ao comportamento
Ele se mantém
solto ao vento
Não deixo
seu tormento
Me dominar

Aonde está o desrespeito
Ele eh teu ou meu??
Sou assim
Livre para voar

Não me empurre
seus conceitos
Seus preconceitos
Minha simplicidade
É natural e
vai continuar

Simples momento
Desconstroi seu pensamento
Basta se deixar levar
Se tivesse uma calcinha
não ia te chocar?

Me respeite
Esse desconforto eh teu
Não venha me empurrar
me responsabilizar

O meu eh assim
Solto
ninguém vai me
Segurar

Continua sendo
So sendo meu
O corpo nu ou não
Ele ainda eh meu

Pegue o seu
Saia para passear
Vá ver o mar
Sentir cheiro de mato
Se preocupar
Em como
viver de fato!!

*Sofia Caseiro é estudante de Psicologia na PUC-SP.

O problema da liberdade

“L’art nous contraint d’être libres”, essa foi uma frase dita por Nietzche e explicada pelo sociólogo da arte Bruno Péquignot, que leciona atualmente na Universidade Sorbonne-Nouvelle.

“Contraint”quer dizer quase uma forma de obrigar, de nos colocar um problema, um imprevisto que nos forçaria a algo. No caso dessa frase o filósofo diz que a arte nos força a ser livres.

Achei interessante essa frase pois sempre havie entendido a palavra e eo conceito “liberdade”de maneira muito positiva, como um direito, como algo intrínseco à natureza humana. Mas Monsieur Péquignot continua a explicação dizendo que ä liberdade nos causa muitos problemas…”, explicou, sorrindo discretamente com um olhar de quem já viveu o que explica.

Ele diz: “A liberdade nos obriga a sair da nossa zona de conforto, a repensar muita coisa… Normalmente gostamos mais de estar confortáveis.”Concordo com meu professor, vejo as pessoas fazendo muitos planos, quase que imutáveis para se assegurar de algo que no fundo é imprevisível, a vida.

Quantas vezes não ouvi amigas falando que iriam se casar e ter um filho antes dos 30 anos. Não é que eu não respeite seu desejo e sua escolha de vida, mas me pergunto: como podemos colocar um prazo para se apaixonar?

Basta ir num jantar de família, para sentir a pressão que esses planos impõe: “e aí, e as namoradas? Já casou? Vão ter filhos?…”Basta também começar a responder essas questões de maneira um pouco mais irreverente que o normal, para notar o estranhamento, ou quase pânico dos que estão em volta com um simples “não sei”. Talvez por que a liberdade alheia também assuste e faça refletir sobre nossas próprias escolhas…

Talvez fazer administração ao invés de história, ter casado com aquela mulher tão perfeita, ir a todos almoços de domingo não tenha sido o bastante para ser feliz… como todos lhe prometeram.

E a arte nisso tudo? A arte serve, existe, para repensar os códigos e leis (sociais ou políticas) impostos pela sociedade. Uma das melhores explicações sobre o que é e como funciona arte veio da brochura do instituto Votorantim para projetos culturais; onde ele explica que um pedaço de madeira pode ser um banco para sentar
ou um totem, o papel da arte seria desconstruir o anco e o totem.

A arte coloca em evidência tudo o que nāo é dito claramente, os resquícios do que não é entendido ou dito numa conversa, explicita a distância que existe entre o emissor, a fala e o receptor da mensagem. Para tanto a arte se utiliza de uma inteligência que é sensível.

Nos resta entender porque esse tipo de inteligência é sempre tāo rebaixada, vista como “pouco séria” ou paradoxalmente vista como tāo perigosa, algo que precisa ser controlado, basta ver os movimentos de censura artística durante governos ditatoriais ou mesmo o Index, da igreja católica – que define os livros proibidos, entre eles clássicos como Madame Bovary de Gustave Flaubert – ou ainda a queima de livros de autores judeus e comunistas pelos nazistas.

Por quê tanto medo da arte? Porque ela nos faz enxergar as grades invisíveis impostas, nos faz imaginar um mundo que poderia ser diferente, a começar por nossa própria vida.

israel é o bezerro de ouro

GoldCalf

por Kevin Coval
(tradução por Marko Guastiov)

para Tisha B’av – 4 de August de 2014

Eis o seu deus, ó Israel, que vos tirou do Egito! – Exodo 32 verso 4

O Tisha B’av comemora o falso relato
judeus aceitaram vagar pelo deserto
quando começamos a venerar ídolos.

Abraão quebrou os ídolos
na loja de esquina do seu pai
porque ele tinha certeza
De-s é uno.

a maior atrocidade que se abateu sobre os judeus hoje
e nos últimos cento-e-tantos anos é a aceitação desses falsos relatos
e a veneração ao estado de Israel.

israel o ídolo.
israel o De-s falso.
israel o bezerro de ouro.

Theodor Herzl, fundador do sionismo moderno
um judeu germanófono secular e húngaro
assimilado, em seu diário de 1895, em referência à população

indígena da Palestina, querendo dizer que já havia pessoas lá
chamadas Palestinas, escreveu:
Nós tentaremos impulsionar a empobrecida população para o outro lado da fronteira…
negando a ela emprego em nosso país.

e assim começa ou continua
a reivindicação de uma terra não nossa.
a mente colonizada assimilada
de judeus vivendo confortavelmente em impérios
europeus aprendendo dos poderes europeus
a alçarem bandeiras.

nós cobiçamos essas bandeiras e
queremos alçar a
nossa própria.

os esnobismos eloqüentes de homens judeus
europeus ocidentais assimilados se tornaram os pais
de israel. eles são os avôs racistas
na cabeça das nossas mesas de jantar
na cabeça dos nossos estados
e da solução de 2 estados.
eles contam as mesmas
mentiras e histórias falsas
desde 1897 durante o primeiro congresso sionista
em Basel, Suíça.

Herzl escreveu que israel seria
uma colônia parte do muro de defesa
da Europa na Ásia, um posto avançado da civilização
contra a barbárie, ele disse.

eu vos apresento o pai de israel
e os pais que ele pariu
e os pais depois deles.

israel o brutamonte idiota.

você construiu um império
igual à europa, igual à américa
e colocou 1.8 milhões de Palestinos
em um canto de Gaza e os bombardeia
em hospitais e os bombardeia
em escolas

agora você faz o seu próprio genocídio
a sua própria limpeza étnica
o seu holocausto

isso é o que você está fazendo.

você está livrando um povo de uma terra

seu golias

israel o bezerro de ouro
o falso de-s

nós veneramos
nós envenenamos

isso é o que acontece
quando você constrói um estado
quando você ergue barreiras
quando você se define
em oposição ao outro.
quando você outra

israel eu não quero um assento à sua mesa
eu comerei com os goyium que você tanto despreza
ou eu comerei sozinho

eu não quero aliyah.
a audácia de ascender
a um lugar maior
um lugar onde há
vida já e amor
e gerações
que agora assassinamos.

sua cidade de paz
é uma cidade de morte.

eu renuncio à minha cidadania.

nós somos um povo da Diáspora
feitos para vagar, para fazer
do mundo inteiro uma casa
para nós e para todos
para chamarmos todos os lugares de
Jerusalem
não um lote de terra
é uma metáfora!
seus literalistas!
seus racistas!
seus genocidas imitadores de europeus e americanos!
seus maníacos!

nosso dom tem sido tornar todo lugar divertido
divino

não uma terra mas toda a terra
não um povo mas todo o povo
nós fomos escolhidos para vagar
Sião está afrente, é um futuro
em cuja direção trabalhamos, o messias
não uma pessoa, mas um tempo

israel você é um império.
você tem ogivas e armas
usadas para desmantelar casas e famílias
e pessoas do respiro. tua água é sangue
Gaza a câmara de gás ao seu redor
Palestinos adentro.

israel você é o bezerro de ouro
mas eu ainda sou judeu
eu vejo você prostrada na frente de ídolos

mate os seus ídolos!
fodasse os seus ídolos!

cada pessoa jovem
cada judeu jovem
cada pessoa não chamada netanyahu
não um primeiro ministro israelense criminoso de guerra

nós fomos enganados
nós fomos manipulados
nós fomos coagidos

seu judaísmo não depende
da lealdade absoluta a um estado
que assassina em seu nome.

israel não é uma religião
israel é o bezerro de ouro
e De-s é
uma criança em Gaza

e isso é holocausto
isso é genocídio
isso é limpeza étnica
isso é o que é
e não pode mais ser.

israel eu te abomino.

hoje durante o Tisha B’av
eu lamento pela Palestina
por Gaza.

sionismo é racismo.
pergunte à américa o que acontece
quando você funda a idéia de um país
na supremacia de alguns
sobre a humanidade de todos.

onde estão os indígenas
todos os nativos desse país
nessa cidade
em israel

eu lamento pela moralidade de um povo
de um mundo, de um país aqui
de um país ali. eu lamento
as vidas se esvaecendo em prisões
para pessoas Negras e Mulatas
na américa e eu lamento pelas vidas
perdidas nas prisões a céu aberto em Gaza

a mesma guerra está sendo travada contra
as pessoas pobres e trabalhadoras e indígenas
em todo o mundo todos os dias e bem agora
na Palestina.

eu lamento a noite de hoje

mas amanhã
eu resistirei
novamente
com aqueles
não do lado do poder
nem do lado do esbranquecer

De-s, israel, é uma criança
em Gaza, na Palestina
acordando
nessa manhã de luto
para fazer você
tremer na base.

Quem é você ?

marcela
 
Faz muito tempo que não escrevo simplesmente porque preciso. Mas às vezes a gente vê coisas que nos inspiram tanto que a expressão dos sentimentos é quase uma necessidade vital, seja ela como for, por lágrimas ou pela escrita.
Foi o que aconteceu comigo quando vi a obra da minha ex-chefe querida Marcela Tiboni. Nessa obra, ela aparece nua, como que numa imagem refletida num espelho com uma gola que lembra séculos passados e segurando uma faca em seu pescoço… Essa obra me emocionou muito, mesmo não sendo grande conhecedora das artes plásticas.
  No instante seguinte a minha primeira visão, tentei entender o por quê da emoção, e a primeira coisa que me veio a cabeça foi o diálogo entre Alice e a Lagarta, que aparece em Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, se bem me lembro é mais ou menos assim:
“Lagarta: Quem é você?
 Alice: Eu sou Alice
 Lagarta: Não, você ainda não é Alice…”
  O fato é que todos precisamos passar por grandes etapas, desafios e auto-descobertas para responder a essa pergunta que seira tão simples mas é a mais difícil. Acho que a arte tem o poder de chegar no que é mais profundo no homem, ela começou junto com a idéia de Deus, tentando acalmar as angústias daqueles homens que pintavam em suas cavernas para tentar se proteger, logo que tiveram consciência de sua mortalidade. Hoje, se pensar, nós também usamos de muitos artifícios para nos defender…
  A arte mostra nossos medos, angústias, segredos profundos e medíocres… E, pelo menos, na minha opinião, a grande obra de arte é aquela em que o artista se desnuda de corpo e alma, quando abre mão da vergonha, do pudor, dos valores sociais e familiares, ou ainda se mostra consciente de todas essas interferências mas ainda tenta, ao menos, ultrapassá-las por esse desejo vital de expressão do que realmente sente, doa a quem doer…
  O bom artista consegue responder a pergunta da Lagarta, pelo meio de seu talento. Quando vi o trabalho de Marcela senti isso, que essa obra tinha saído da mais profunda reflexão e questionamento (aliás salvei a imagem no meu computador sob o nome de ”Marcela”, não poderia ter outro título para mim), sua nudez- mesmo tanto que personagem em sua própria obra- significou pra mim uma total entrega e exposição… Entrega, apesar do medo, de possíveis críticas, de incompreensões de uma sociedade muitas vezes estúpida, que compreende mais a violência, de filmes neandertais que consistem em sangue e carros explodindo, mas não conseguem entender ou ao menos se compadecer do amor de pessoas do mesmo sexo… Bom, como disse Krishnamurti: “Não é atestado de sanidade ser bem adaptado a uma sociedade extremamente doente”.
  A obra de Marcela me fez pensar o que preciso passar ainda para poder responder A pergunta, pois sinto que ainda não cheguei lá, mas pelo menos continuo caminhando, e cada vez um pouco mais próxima da total nudez de pensamentos e sentimentos…
  Na minha opinião a arte serve, entre muitas outras coisas, pra nos ajudar nesse caminho, pra quando a gente estiver pensando em ir pela via “mais segura” ela nos lembrar que não existe verdadeira segurança. Pra quando estivermos apáticos, ela nos dar aquele tapa necessário; pra nos lembrar que a vida é uma só, e que não vamos sair vivos dela… pra ouvir aquela música (todo mundo tem uma, ou várias…) que funciona melhor que heroína e nos deixa levitando durante seus efêmeros minutos, mas dependendo do que acontece neles, pode valer mais que quinze anos de escola (aliás isso não anda tão difícil…).
  A gente se apega a diplomas, finanças, carreiras, relacionamentos, religião, auto-ajuda, família, valores, procurando uma resposta… pra assegurar uma felicidade pressuposta, mas esquece de se perguntar: e se tudo isso não existisse? Quem sou eu? Nada, nem ninguém pode dar a resposta… É bem mais difícil do que parece, a sinceridade consigo tem um preço, e é um caminho sem volta, parece como pular de um precipício, mas a vista é linda…