Bientôt, au revoir!

Eu me lembro do dia em que me apaixonei por você. Eu me lembro à minha maneira, é claro.

Lembro de te ver pela primeira vez no escuro, sem dar muita atenção, pois estava com saudades de outro amor, perdido ou colocado em stand by.

Foi no outro dia de manhã que comecei a te descobrir, saíndo de casa pela primeira vez, com uma certa insegurança, com as ruas anotadas num papel. Como ainda era bem cedo, a manhã era cinza – como é de seu gosto.

Dentro do ônibus, tomava cuidado para não perder o ponto; com o tempo nós duas aprendemos que se perder foi o único caminho para nos encontrarmos. E, de repente, o ônibus saiu de um túnel, e o sol surgia lentamente por detrás do Louvre. Esse foi o momento em que me apaixonei por você.

E é verdade que criamos uma relação forte, você me deu tantas experiências, tanta gente, tanta cultura. E eu tentei te dar um pouco, muito, de mim. Mas acho que poucas vezes você aceitou… que pena.

Mas o fato é que boa parte de mim veio de você e que do seu lado vi passar anos muito formadores. Mas agora parece que as águas do Sena já não me levam a lugares desconhecidos e que falar francês tem me impedido uma comunicação mais profunda.

Ma chérie, je suis désolée, não é você sou eu, mas acho que precisamos dar um tempo. Um tempo dos sorrisos cínicos, do cinza, do silêncio subentendido !

Você sempre terá um lugar no meu coração, precisando de qualquer coisa estou aqui. E tenho certeza que você fará outra pessoa muito feliz ! Mas nesse momento o Atlântico me chama, preciso de espaço, tempo e, sobretudo, de gargalhadas escrachadas que, vamos admitir, não fazem o seu estilo.

Ma belle Paris, je t’aime, mas não podemos continuar assim, seus frutos têm me dado mal estar. Quem sabe em outro momento.

Merci de toute façon… A bientôt

O guarda-chuva é pros fracos

Essa é uma historia de amizade, aventura, risos e sexo. Sobretudo é uma homenages às pessoas que me fazem rir, então viver, “no metter what”, nesse “putain” inferno gelado que é a França (desculpem, não estou num bom momento com o país).

Um belo dia escrevo a A:

-Nego, terminei.

-Não tem problema Laurinha. To indo pra Paris, vamos deixar Calígula envergunhado!

E assim estava eu aguardando ansiosamente a chegada daquele que me faz rir a cada mensagem de texto, sobretudo aquelas enviadas depois de grandes eventos privados (no sentido da privada).

Eis que pela primeira vez em anos, Paris resolveu não nos dar a graça de sua irritante e masturbatória chuva sartriana (fina e delicada que cai o dia inteiro, não alagando nada mas acabando com o dia de todos), dando lugar a uma verdadeira tempestade.

E os guarda-chuvas sempre me irritaram muito. Imagina: ficar segurando, carregando, esse instrumendo disforme um dia inteiro apenas pelo medo de se molhar. Loucura, não? Por isso independente das previsões de raios, tempestades ou redemoinhos, faço questão de jamais levar um guarda-chuva comigo. Além disso, devo confessar que às vezes gosto de caminhar um pouco embaixo da chuva.

Voltando, uma puta tempestade, raios e trovões dignos de São Paulo. Saio da biblioteca com meus dois livros sobre as mulheres na Igreja do século VII (porque desgraça pouca é bobagem) e entro no metro, na linha 4 que, pela primeira vez entrou em pane. Em meio a multidão um chinês completamente embriagado vomitou na bolça de uma francesa que imediatamente falou: “Putain chinois de merde” (Eee chinês de merda).

Com este toque escatológico e xenófobo resolvi caminhar, em meio a chuva, para uma outra linha. Eu teria chegado a tempo se um casal de velinhos (ah que fofo… só que não) não bloqueassem a escada.

Finalmente, entrando no metro, lotado, pingando… vejo que a criatura sentada ao meu lado carregava com ele uma caixa de tangerinas. Olhei chocada para o fato e, infelizmente, por uma vez houve um encontro de olhares no metro parisiense. E ele me pergunta:

-Quer uma?

-Não, mais merci!

-Pode pegar, são muito boas, vieram do meu país. Do Marrocos!

-Não mais obrigada mesmo

A conversa se estendeu por mais ou menos dez minutos. A conclusão: sair correndo do metro completamente encharcada com não uma, mas quatro tangerinas (bergamotas, clementinas ou mixiricas… whatever works) nos bolsos do casaco.

O ônibus do A, que havia atrasado uma hora, acabara de chegar. A porta se abriu deixando sair um odor que parecia ser uma mistura de Cheetos com carne humana em putrefação. Os personagens saídos desse ônibus pareciam uma variável entre imigrantes ilegais romenos, filmes de terror com um toque de jamaica. No meio disso, meu querido A chegou nessa tal de Paris!

Obviamente todas as máquinas que vendem tickets para o metro estavam quebradas. Olhei para ele e disse, com ar decidido:

-É o seguinte : você vai ter que passar na catraca comigo. Vai ter que me encoxar… Na amizade, na coerência! (essa é a parte do sexo).

Finalmente entramos no metro, depois de meses sem se ver. Olhei pra ele e disse:

-Quer uma tangerina?

São nesses momentos mágicos de pura amizade que dão sentido a existência. Dane-se o guarda-chuva. Tá na vida, se molha.

Aguardem os próximos capítulos.