Sorrir sem Motivo

Tive uma entrevista de emprego interessante. Foi numa pequena produtora de cinema em Paris, onde se fabricam documentários e filmes de arte.

Quem falou comigo foi a dona da empresa, uma moça de uns 35 anos, cabelo escuro e liso comprido, magra e pálida. Ela me perguntou se eu sabia algo sobre administração de uma produtora, eu disse que não. E sobre contratos da industria cinematográfica, eu respondi que menos ainda.

Então ocorreu o seguinte dialogo:

-Você é brasileira não é?

-Sou, de São Paulo

-Eu ja fui algumas vezes pro Brasil, mas não pra São Paulo. Pra Salvador.

Obviamente abri um sorriso de orelha a orelha, quando ela continuou:

-As pessoas me perguntavam se eu estava chateada todo o tempo, porque eu não sorria muito. Nós parisienses somos assim, só sorrimos quando temos um motivo. Espero que isso não te incomode.

Confesso que não soube bem o que dizer, falei da unica forma que conhecia, com um pequeno sorriso amarelo no canto dq boca.

Mesmo sem saber absolutamente nada sobre gestão de uma produtora de filmes fui contratada pois eu possuía “outras qualidades (que não me foram especificadas) e um percurso interessante! Diferente da média francesa”.

Duas semanas se passaram e eu estava completamente infeliz em meio a arquivos, a contratos e, sobretudo, à falta de sorrisos.

Sei que em meio a uma das minhas missões apaixonantes, fazer copias de três chaves, resolvi desencanar e andar ouvindo musica (algo que me faz sorrir sozinha). Estava no meu mundo, passando em frente a uma floricultura, quando qlguém me parou abruptamente. Uma senhora de seus 80 anos, com cabelos brancos, que me perguntou:

-Desculpe incomodar mas não consigo me decidir. Qual buquê a senhora acha mais bonito, esse mais colorido ou o outro mais claro.

-Pra qual ocasião?

-Pra colocar sobre uma tumba.

Meus olhos se compadeceram da senhora e respondi:

-Acho que as brancas são mais bonitas. Transmitem mais paz.

-Merci beaucoup – respondeu, sorrindo.

Fiquei pensando, sera que o simples fato de estar vivo e ter (ou ter tido alguém) não são suficientes pra sorrir. Vi que não me encaixava naquela produtora quando, em outra entrevista, depois de ter contado uma piada no ambiente que seria o mais formal possivel, minha chefe me falou:

-Finalmente, alguém com humor!

Acho que no fim, meu percurso e qualidades tão diferenciadas passam muito pelo sorriso.

Queridos parisienses, espero que um dia vocês aprendam a sorrir sem motivo.

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5 comentários sobre “Sorrir sem Motivo

    • E algum dia você ainda lançará seu livro na FLIP e se eu não for sua assistente vou estar lá te prestigiando com certeza. Que nós possamos sorrir e rir sem motivo sempre!

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