O losango de Merkel

por Artur Lascala

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Angela Merkel, chanceler da Alemanha, notabilizou-se por um gesto, semelhante  a um losango, que faz com as mãos quase sempre que fala em público. Com os resultados das eleições federais, os alemães e os europeus souberam que a democracia cristã de Merkel obteve a maior votação e que Merkel continuará desfilando seus losangos por aí.

A vitória de Merkel é significativa do respaldo que a direita alemã vem tendo com o eleitorado. Ainda assim, a vitória de ontem veio junto com a aniquilação do FDP, partido de posições associadas ao liberalismo clássico e membro da coalizão de Merkel, que não atingiu o 5% da cláusula de barreira do sistema político alemão. Isso significa que a democracia cristã terá de buscar aliados na oposição para que se forme um governo de coalizão. Essa aliança poderia ser com os Verdes, mas a maioria dos analistas aposta que Merkel penderá por dar as mãos com a Social-Democracia, a qual tentará extrair o máximo da barganha.

De toda maneira, o atual modelo do capitalismo alemão e as posições de defesa da austeridade em relação à periferia do sistema do euro parece ganhar ainda mais legitimidade. De fato, o risco de derretimento da moeda única parece atenuado e a Alemanha mantém os melhores indicadores de crescimento econômico da Europa.

Mas a recente vitória de Merkel oculta alguns problemas da atual sociedade alemã. Note-se o baixo comparecimento eleitoral, o que denota certa perda de crença na capacidade dos governantes de superarem os atuais desafios alemães e europeus. A atual competitividade alemã construiu-se a partir de um grande aumento na distância entre capital e trabalho. Encurralados pela emergência de novos centros exportadores nos países periféricos, os trabalhadores alemães foram  obrigados a aceitar que ganhos de produtividade não fossem proporcionais aos aumentos de salários, gerando uma queda sensível no poder de compra relativo e um aumento da concentração de renda nas mãos dos empresários.

Não saberia dizer sob quais condições os trabalhadores alemães poderiam ter saído dessa sinuca sem amargar perdas tão significativas. Talvez houvesse saída, talvez não. O fato é que o descontentamento é latente e o eleitorado reluta em aderir à Social-Democracia, uma vez que foi ela própria uma das articuladoras desse grande pacto.

Resta saber até quando as políticas de Merkel resultarão em contradições aceitáveis pelo conjunto da sociedade alemã. A falta de alternativas viáveis à esquerda do espectro político faz com que, porém, o losango de Merkel ainda seja visto por muito tempo na política da Alemanha.

 

Para saber mais: http://thenextrecession.wordpress.com/2013/09/22/german-capitalism-a-success-story/

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Pondé contra o “fascismo do PT”

por Artur Lascala

A minha intenção inicial para hoje era discorrer um pouco sobre a infame fala da Profa. Maristela Basso a respeito da Bolívia e dos bolivianos. Essa pessoa, que já andou proferindo umas burrices do tipo “Israel assinou o TNP” e outros equívocos (inclusive na área jurídica, sua especialidade), sempre vinham me perturbando, principalmente pela ignorância e pelo procedimento retórico de legitimar visões muito conservadoras como se fossem verdades auto-evidentes, de fácil compreensão.

Mas eis que o Leonardo escreveu um excelente texto sobre preconceito, contemplando, também, a distinta a Profa. Basso, e fiquei sem saber o que escrever.

Porém, o que era uma segunda-feira sem ideias transformou-se rapidamente quando me deparei com esta coluna do filósofo Luiz Felipe Pondé.

Não posso dizer que fiquei impressionado, porque se o Pondé, talvez, num passado remoto tenha produzido textos instigantes, atualmente, seus textos são testemunhas de uma dramática decadência intelectual. É de sentir pena.

E olha que não se precisa nem se deter muito nas aberrações ideológicas, verborragias “anti-petralhas” que grassam na internet há muito, as quais o Pondé achou apropriado transplantar para sua coluna semanal. Basta ver o percurso argumentativo adotado, típico reductio ad hitlerum, tentando desacreditar o programa Mais Médicos como a reedição brasileira do nazismo, e acusando o governo brasileiro de impor aos médicos a condição de “judeus do PT”. Os argumentos em si são os mesmos de sempre e sobre eles o Fernando já escreveu ontem, só dar uma lida lá.

O texto do Pondé termina com a seguinte frase: “vivemos sob um governo autoritário e populista.” Errado! Não vivemos, não, cara. Vivemos em uma democracia imperfeita (como todas as são, algumas mais, outras menos), mas que prevê um conjunto de razoável de pesos e contrapesos ao poder estabelecido, as regras constitucionais são resguardadas e o direito das minorias é, ainda que com graves problemas, preservado. Enfim, é absurdo.

Sabe-se que o filósofo tem um grupo de fiéis admiradores, os quais adoram esse tipo de ideia e ficam bastante contentes quando ele escreve um texto desse nível. E ele fica bem confortável nessa posição, escrevendo pra torcida e supondo que seus opositores são nazistas. Essa coluna aí não precisa nem daqueles comentários que vêm embaixo das notícias.

Corredor de ônibus piora o trânsito?

por Artur Lascala

Acho lamentável que todas as manchetes que vi hoje sobre a entrada em operação do corredor de ônibus na Avenida 23 de Maio se refiram, exclusivamente, à lentidão causada ao tráfego de automóveis.

A prefeitura, finalmente, vem retomando a racionalização da mobilidade urbana na cidade de São Paulo, adequando-a ao paradigma contemporâneo, que enfatiza o transporte de pessoas em detrimento da fluidez de veículos. Um ônibus transporta 10 vezes mais passageiros e polui, per capita, muito menos do que um carro particular. Nada mais lógico do que privilegiar o transporte coletivo.

Pior pra quem tem que usar o carro, verdade, ainda mais porque se sabe que os coletivos em São Paulo ainda deixam muito a desejar. Mas o argumento dos que se opõem é o de que se deve fazer corredores apenas quando o transporte for de qualidade. Ocorre que o salto de qualidade depende, também, da prioridade de fluidez do trânsito de ônibus! Não adianta ficar à espera do ovo ou da galinha. A prefeitura acerta em segregar imediatamente o transporte coletivo, à exemplo de todas as cidades do mundo que tenham um projeto urbanístico razoável.

Complica para alguns (não são poucos, eu sei), no curto prazo; muito melhor para a grande maioria no médio prazo. Taí uma iniciativa em que vale a pena apostar!

 

Peço desculpas aos leitores e colegas pela brevidade deste post. Estou no fim de um longo e muito importante projeto, que já dura um ano, e que tem me mantido enormemente ocupado nas últimas semanas. 

Os jovens católicos

por Artur Lascala

Eis que chega a Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco vem ao Brasil, para participar de um evento que deverá reunir milhares de jovens católicos de todo o planeta. Quem circulou pelo centro de São Paulo, na última semana, pôde perceber muitos estrangeiros, quase todos com crachás que os identificavam como peregrinos. Eu me deparei com um grupo de franceses, todos muito jovens, cantando — parecia que era latim — em frente ao Mosteiro São Bento, coisa bem atípica, mesmo para quem vive no maior país católico do mundo.

Não deixa de ser interessante para alguém que, como eu, já passou pelo “ciclo padrão” do catolicismo brasileiro urbano de classe média, isto é, nascido em família católica, batismo e primeira comunhão “meio que por tradição”, seguido de um silencioso esvaimento da fé. À medida que a incongruência das prescrições eclesiásticas com a realidade contemporânea se soma ao conhecimento das atrocidades causadas pela religião organizada, acaba por não sobrar muito além de obrigações ritualísticas na ocasião de nascimentos, casamentos e mortes.

Vejo nesse jovens algo de melancólico, algo de quixotesco em sua determinação de oxigenar uma tradição cada vez mais declinante, o que me provoca certa admiração. Ressalte-se que não incluo nessa reflexão aqueles que defendem a agenda conservadora, que orienta a mente de alguns desses jovens, como a oposição ao casamento gay, consoante aos ditames de Roma.

Procuro, também, afastar-me, indisfarçadamente, do ateísmo militante, condição que acomete até mesmo mentes brilhantes como a de Richard Dawkins. Para essas pessoas, qualquer religião não passa de mero atavismo de tempos ancestrais; são categóricos ao afirmar: a humanidade viveria melhor sem o apelo ao transcendente. Essa atitude, excessivamente simplificadora, não necessariamente se verifica em todos os lugares; julgo, portanto, equivocado defendê-la com unhas e dentes. A agenda a ser cumprida, na minha opinião, é de total resguardo das instituições públicas em relação à influência de toda e qualquer religião, princípio que já é positivado na Constituição Brasileira, mas que precisa ser, constantemente, defendido.

É muito curioso observar como os jornais brasileiros dedicam uma atenção absolutamente desproporcional à Igreja Católica em alguns momentos. Quando da escolha de um novo papa, a cobertura é massiva, esquadrinham-se todos os detalhes que regem o misterioso procedimento e os possíveis papáveis. Com a visita do papa, ocorre a mesma coisa. Mas durante o restante do ano, não se encontram comentários às encíclicas papais ou notícias dos bastidores do Vaticano. As recomendações do papa, que, a rigor, deveriam ser obedecidas por todos os fiéis católicos, não ecoam por aqui.

A Igreja só ganha algum interesse generalizado quando revestida de espetáculo. Parece-me que, para boa parte da população brasileira, quiçá a mundial, a Igreja se tornou uma forma de divertimento ameno, uma curiosidade. Novamente, prefiro não avaliar esse fenômeno em termos valorativos; não sei dizer, sinceramente, o que é melhor. Para colocar as coisas em perspectiva, vale lembrar que parte da Igreja Católica atuou de maneira muito relevante na oposição ao regime militar e que, antes do expurgo promovido por Ratzinger e a Congregação para a Doutrina da Fé, a Teologia da Libertação (a despeito de todos seus problemas) representou uma das principais forças progressistas na América Latina.

Pois é, a Igreja inicia o século XXI esvaziada, quase que incapaz de convencimento e carente de legitimidade.  Devem ser tempos difíceis para os jovens católicos que agora cantam no Rio de Janeiro.

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Os desafios de Dilma

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por Artur Lascala

Que mês para o governo da presidente Dilma! A chefe do Executivo federal passou de um ameno céu de brigadeiro para uma violenta turbulência, que ainda não parece ter demonstrado que terminará tão cedo. A  presidente amargou uma das piores quedas de popularidade da história republicana e a eleição de 2014, que tinha tudo pra ser um passeio, agora assusta, e muito.

As razões para o descontentamento da população brasileira são diversos e já muito bem explorados em outros textos deste blog e alhures. Opto pela síntese na ideia de déficit de democracia de um povo que se sente muito pouco representado pelos políticos eleitos.

Por mais que essas razões já sejam uma realidade brasileira há muito tempo, Dilma e sua equipe é quem respondem agora por elas. A política é dura e não perdoa, quem está no Planalto durante a crise tem de assumir o fardo. Não obstante o esclarecimento intelectual de Dilma e sua convicção em aumentar a competitividade econômica do país, é contra ela (não só, mas em especial) que se direcionam as críticas, sejam os arroubos da “classe média que sofre”, dos industriais sufocados, ou dos excluídos.

As respostas às manifestações públicas combinaram, criativamente, ideias brilhantes com execução frequentemente atrapalhada. Por exemplo, a proposta da mini-constituinte para a reforma política, que distorcia elegantemente a ortodoxia do saber jurídico ao gosto da política, foi retirada tão celeremente quanto apresentada.

A questão da reforma política é necessária e inadiável, mas apresentou-se como uma panaceia capaz de transformar para melhor o sistema político brasileiro. Recomendo a leitura de artigo do Prof. Fernando Limongi, que explica por que não devemos esperar muito de uma reforma política, justamente porque os atores políticos têm uma capacidade notável de adaptação a diferentes incentivos e pelo fato de não ser nada fácil atenuar as distorções causadas pelo poder econômico.

A meu ver, o aspecto que mais saltou aos olhos foi a incompatibilidade da maneira pela qual Dilma faz política, com a oposição e a base aliada. Com pitadas de intransigência e concessões, Dilma parece atordoada como líder no sistema do presidencialismo de coalizão. Ela é obrigada a atuar segundo a geometria política herdada do lulismo, mas sendo incapaz de emular Lula (ninguém o é), o resultado, no mais das vezes, acaba sendo perdas estratégicas no Congresso ou o rearranjo de cargos públicos estratégicos.

Dilma, provavelmente, terá de se reinventar para governar em meio a sérias adversidades, coisa que ela não precisou fazer nem como ministra, muito menos como presidente. Ainda há muito o que acontecer até a eleição de 2014, mas à medida que uma parcela cada vez maior da oposição se articula em torno do nome de Aécio Neves, acredito que, a fim de evitar uma temeridade política no Brasil, seja melhor torcer para que Dilma recupere seu capital político.

Entretanto, rumo ao Largo!

por Artur Lascala

No exato momento em que escrevo este texto, milhares de pessoas se dirigem ao Largo da Batata, em São Paulo, para aquilo que será a maior manifestação popular que toda a minha geração já participou.

Não faltam textos na Internet explicando os porquês de seus motivos não se limitarem aos 20 centavos no aumento da tarifa. É consensual que o desconforto com o estado de coisas já transbordou para diversas outras áreas, e que acontecerá hoje é, simultaneamente, difuso em suas causas e uníssono em espírito.

Ainda assim, sinto um desconforto, algo difícil de descrever, meio como um sabor amargo que se mistura à doçura que a esperança de ver um povo se levantar causa.

Acho que esse mal-estar tem a ver com a súbita transmutação do movimento, passando de um caráter de marginalidade para um quase consenso, ao qual as próprias forças da ordem já foram tragadas. O obtuso Alckmin prometeu flexibilizar e jurou abrir da mão da tropa de choque. O vacilante Haddad, mais cedo ou mais tarde deverá capitular, e algum malabarismo financeiro-orçamentário poderá conservar a tarifa no preço de R$3,00.

Vitória?

Tomara que sim! Mas será? Os empresários de ônibus conservarão seus monopólios quase-feudos? A Polícia Militar continuará barbarizando os excluídos e os invisíveis, bem longe da estação Faria Lima da Metrô? E tantos gargalos político-existenciais por aí…

O otimismo de muitos vem da aposta de que questões profundas como essa possam conservar o momentum de brilho e levante popular. Detesto confessar que sou um bocado cético.

Contudo, estou indo para lá.

E espero estar tão errado… redondamente errado…

O que ocorre em Istambul?

por Artur Lascala

Istambul em chamas. A capital turca, nos últimos dias, levantou-se contra a proposta do governo de construir um empreendimento imobiliário onde, atualmente, encontra-se o parque Gezi. O parque está na parte europeia da capital turca e é uma das mais frequentadas por turistas. A classe política e a empresarial viram a oportunidade de bons negócios, mas os habitantes da cidade perceberam que, assim como aqui, não se podiam dar ao luxo de perder mais um espaço de convivência pública, de espaço de direito à cidade. Acho que é bem fácil entendê-los, pois, aqui em São Paulo, o conflito entre a ocupação privada e o aproveitamento público da cidade é, praticamente, o mesmo.

Mas Istambul não se levantou só por causa disso. Os relatos são muitos e não tive tempo de ler todos (portanto, posso estar relatando fatos desatualizados ou, eventualmente, enviesados). O que houve foi que um grupo de manifestantes reuniu-se na praça numa forma de piquenique-protesto, e levaram até crianças. Tratava-se de uma demonstração pacífica. Acontece que, em determinado momento, não se sabe exatamente a razão (os relatos ficam nebulosos nesse momento), a tropa de choque da polícia turca, de modo truculento e desproporcional, usou e abusou de todas suas estratégias anti-distúrbio. Jatos d’água, bombas de efeito moral etc. Até ontem, havia duas mortes confirmadas e uma mulher encontrava-se em estado grave no hospital por ter sido atingida, na cabeça, por uma bomba de gás lacrimogêneo.

A partir daí, a coisa só escalou dos dois lados. Manifestantes indignados juntavam-se à multidão e a polícia assegurou-se em mobilizar todo seu contingente. O resultado pode ser visto em muitas fotos e vídeos na Internet.  Afirma-se até que aparelhos que bloqueiam sinal de telefones celulares foram utilizadas pelas forças estatais, comprovando que a livre circulação de informações não interessa ao Estado turco.

Então fica claro que, como muitos jovens afirmam, não se trata de um movimento apenas em defesa de um parque. A violenta política urbanística deixou transparecer o quadro maior da violenta política do Estado turco. E essas, muitos turcos, em especial os jovens, não estão dispostos a aceitar, fazendo com que ocorre neste momento seja, efetivamente, uma luta por democracia.

A rigor, o Estado turco não é francamente autoritário, sobretudo se comparado ao estado político atual dos Estados do Oriente Médio. A ONG Freedom House classifica o regime como “parcialmente livre”, o que o coloca como número em liberdade política entre os países islâmicos. No entanto, a crise na Síria e o declínio do crescimento acelerado da última década, entre outros motivos, vêm trazendo à mostra as incongruências do regime de Erdogan e de seu partido. Ele ainda goza de bastante legitimidade na Turquia, em geral, mas sua popularidade aparenta estar em declínio nas principais cidades do país.

A crise atual é também mais um capítulo do processo de fracionamento político e ideológico, que orientou a formação do Estado turco moderno. A Turquia secularizada de Kemal, o pai dos Turcos, em oposição a uma Turquia islâmica. O conservadorismo de Erdogan é tributário de um projeto de “islamicização” do país, mas que traz consigo uma expectativa de centralização política e autoritarismo.

Erdogan parece disposto a avançar obstinadamente em sua empreitada. Os manifestantes também. Prestemos muita atenção no que ocorre na Turquia, pois trata-se de tempos interessantes, e ainda há muito para acontecer.