Neste dia, 20 de novembro

Por Matheus Jacob

É muito fácil acreditar – quiséramos nós fosse difícil – que ainda hoje, dia 20 de novembro de 2013, há gente querendo restringir a vida sexual de outra pessoa. A única resposta plausível aos primeiros é: não.  Apenas não. Por um único e simples motivo:

A outra pessoa não é você!

Sem “mas…”, sem “porém…”, sem “mas e se…”. Não. Apenas não.

Dia 10 de novembro de 2013, uma jovem do Piauí foi encontrada morta em seu quarto com o fio da prancha alisadora enrolado em seu pescoço. Em suas redes sociais, a jovem se despediu dos amigos e pediu perdão à mãe.

Pois bem. Já chegou e passou o tempo de culpar quem tem culpa. Não só nesse caso, no caso da aluna da USP deste mês de novembro, ou em qualquer outro: mas em qualquer caso. A mulher que tem seu vídeo íntimo exposto de forma vil e covarde não pode levar culpa alguma. O motivo, mais uma vez, é simples: o vídeo foi feito baseado num contrato tácito de confiança que não deve (ou ao menos não deveria) ser quebrado, mesmo mediante o término de um relacionamento.

Se utilizar de algo dessa natureza como simples revanche é de um absurdo que – infelizmente, como quase todos os absurdos – acontece com uma frequência alarmante. Isso não é de hoje nem de ontem: a revanche só vai adquirindo contornos e formas diferentes com o passar do tempo, sem perder sua essência: o constrangimento público de alguém que, na verdade, não deveria se sentir constrangido. O temor social, no entanto, é normalmente mais forte; e o resultado de toda essa mistura é quase sempre desespero e repreensão social velada (ou não) para com a pessoa exposta.

A lógica de perpetuação dessa infeliz situação não é complicada. O constrangimento público é quase o mesmo daquele que se abate sobre as vítimas de estupro: a vítima não se cuidou, a vítima parecia estar pedindo, a vítima não se deu ao respeito, a vítima foi estuprada porque usava roupa curta.

Acontece que essa lógica, apesar de simples (e talvez por isso), é monstruosa.

Nunca, nunca a culpa é da vítima. Nunca. Nunca a vítima está pedindo. Nunca. Ainda que ela ande pelada, nunca a culpa poderá ser dela. A culpa é sempre do agressor.

Voltemos ao caso exposto no início do texto sobre a menina que se suicidou no Piauí.

Não é culpa da menina nem da mãe da menina. Ela pode fazer o vídeo que quiser, e tem o direito sim de não ter seu vídeo divulgado pela internet. A culpa é de quem divulga o vídeo como diversão, e a culpa é de quem acessa esse tipo de vídeo. A culpa é da pessoa que estupra. Nunca de quem teve seu vídeo divulgado, nunca de quem foi estuprada.

Enquanto a culpa recair sobre a vítima e enquanto os homens não forem educados a não estuprar, veremos poucos avanços. A educação não pode ser sobre a menina que se “dá ao respeito” para não ser estuprada. A educação deve ser sobre o garoto para que ele não estupre.

É realmente inacreditável que nesse dia 20 de novembro de 2013, alguém ainda precise colocar em evidência a perversão que o machismo consolida numa sociedade. O machismo destrói vidas. Literalmente.

 

Matheus Jacob é estudante de Letras na USP, autor do livro É e convidado especial do Esparrela.

Contra as cotas e o Mais Médicos: o preconceito em nome do bem do país

Por Fernando Rinaldi

A Lei de Cotas, válida a partir de agosto de 2012, garante 50% das vagas das universidades federais para os alunos que fizeram o Ensino Médio em escola pública. Metade dessas vagas se destina àqueles com renda familiar igual ou inferior a 1,5 salário mínimo e a outra metade àqueles com renda superior a 1,5 salário mínimo. Um percentual dessas duas condições de renda é destinado a quem se declarar preto, pardo ou indígena – a famosa cota racial.

O programa Mais Médicos, lançado pela presidente Dilma, foi criado com a intenção de enviar médicos para regiões onde há carência desses profissionais, como as periferias e as cidades no interior do país. Dados apontam que 70% dos médicos formados aqui atendem nas regiões Sul e Sudeste, enquanto que as regiões Norte e Nordeste sofrem com a falta deles. Como resultado do primeiro mês do programa, foram selecionados 1.618 médicos, entre eles 358 estrangeiros, que irão trabalhar nos 701 municípios que não interessaram os médicos brasileiros apesar da bolsa de R$10.000,00 oferecida pelo governo brasileiro.

Embora as implementações do sistema de cotas e do programa Mais Médicos visem melhorias – diminutas se considerarmos a dimensão dos problemas, é verdade – em áreas deixadas de escanteio desde sempre, elas foram amplamente criticadas, a primeira no ano passado e a segunda agora, com a justificativa de que elas não trariam o verdadeiro avanço de que o país precisa.

As pessoas que pensam assim querem que o país mude num passe de mágica – e sem que seja preciso fazer concessões ou dividir os seus direitos com os outros, é claro – e esquecem que há seres humanos pobres e negros que não podem e não querem esperar décadas até que o sistema de educação seja inclusivo o suficiente a ponto de poderem dispensar as cotas; esquecem que há seres humanos que precisam se deslocar de seu município para serem atendidos por um médico.

Frases como “sou contra as cotas porque sou a favor da educação” e “sou contra o programa Mais Médicos porque sou a favor da saúde do nosso povo” resumem bem a contradição em que caem os falsos progressistas, dopados de “moralina” (cf. definiu Nietzsche). Sim, pois a rejeição das cotas nas universidades e do Mais Médicos parece ter as mesmas raízes do repúdio ao auxílio do governo aos mais pobres com o argumento de que o programa é uma compra de voto disfarçada e uma frágil sutura para a ferida aberta que é o problema da miséria no Brasil. Seguindo essa linha de raciocínio, a Lei de Cotas não deveria existir, pois trata-se de uma forma de maquiar o problema da educação. O mesmo se aplica ao Mais Médicos: médico estrangeiro nenhum deveria vir para um país sem uma infraestrutura mínima nos hospitais.

O que há por trás disso é um preconceito embutido, recôndito, nem sempre muito claro mesmo para quem o tem. A crítica às cotas está fortemente ligada ao apreço à meritocracia, que pode funcionar em outros lugares mas nem tanto no Brasil. Basta estudar um pouco da nossa história para entender por quê. É ignorância supor que um negro, que teve poucas oportunidades na vida e estudou em escola pública, tem as mesmas condições de entrar na faculdade que um branco, de classe média, que estudou a vida inteira em colégio particular e que tem dinheiro para pagar um bom cursinho por um ano ou mais. É estupidez ver esse negro, egresso de escola pública e que pôde entrar numa universidade federal pelo sistema de cotas, como alguém que roubou a vaga de alguém que tinha mais direito e mais capacidade de entrar na faculdade e, mais grave ainda, como uma ameaça à excelência da universidade. Esse estudante que teve uma vantagem na prova do vestibular é imediatamente desqualificado por aqueles que se sentem injustiçados, como se os exames pudessem avaliar igualitariamente a sociedade desigual em que são aplicados.

Já as críticas aos Mais Médicos, advindas sobretudo dos próprios médicos, partem de duas premissas: a de que o Brasil não precisa de mais médicos, mas de hospitais melhores, mais bem equipados e com melhores condições de trabalho; e a de que os médicos cubanos não são capacitados para tratar de qualquer doenças. Com relação à primeira premissa não há o que se discutir: o Brasil realmente precisa melhorar o sistema de saúde e a infraestrutura dos hospitais. Essa melhoria necessária, no entanto, não precisa excluir a ida dos médicos a lugares onde há pouquíssimos ou nenhum. É sabido que organizações médico-humanitárias, cujo maior exemplo é o Médico Sem Fronteiras, atuam em condições adversas e mesmo assim auferem grandes resultados de suas missões. Já quem parte da segunda premissa parece desconhecer, em primeiro lugar, que médicos de outras países também virão para trabalhar para o Mais Médicos. Desconhece também que Cuba tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa do continente americano e uma expectativa de vida tão alta quanto à dos países chamados de desenvolvidos, além de certamente não ter-se informado sobre os médicos que vêm para cá nem ter parado para averiguar seus currículos. Quem parte dessa premissa não leu também que os médicos formados em Cuba foram os mais aprovados em 2011 e 2012 no Revalida, o famoso Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos que tem gerado tanta polêmica recentemente. Essa série de desconhecimentos e desinformações traz à tona um lado obscuro do Brasil: o julgamento dos imigrantes pelas suas origens.

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A foto dos médicos cubanos sendo vaiados é emblemática e choca pela quantidade de denotações acumuladas em uma só imagem: o estrangeiro negro sendo chamado de escravo pelos médicos brasileiros, que não cruzaram com quase nenhum ou nenhum negro na universidade em que estudaram, na mesma época em que o governo tenta concertar uma realidade completamente desacertada, consequência dos séculos de escravidão e de mais décadas e décadas de marginalização dos negros. E o tweet da jornalista Micheline Borges, e a declaração do João Batista Gomes Soares, e a farsa da Folha de São Paulo corroboram não só que o Brasil é só racista e xenofóbico. A grande impressão que fica é a de que nossa elite é completamente vulnerável e pusilânime, uma vez que se sente acuada ao menor sinal de fratura de seus privilégios.

Diante dessa situação, fica claro que as críticas a esses dois programas, cujas falhas certamente podem ser apontadas aqui e ali, não têm como intenção aprimorá-los, e sim eliminá-los. Pois o medo de que os cubanos, os negros, os pobres etc. ocupem um espaço que seria da elite brasileira por mérito é maior do que a vontade de tentar mudar o Brasil, ainda que ela, patriota quando lhe convém, argumente que se opõe a essas mudanças pelo bem do país. Um bem que, sem sombra de dúvida, não quer dizer outra coisa senão o seu próprio bem.

Qual é a narrativa da Mídia Ninja?

Por Beatriz Macruz

Curioso, inflamado e fundamental é o debate em torno da rede Fora do Eixo que se formou na internet e começa extrapolar para os grandes veículos de comunicação. Fundamental em várias instâncias: desde discussões mais teóricas sobre ativismo político e concepções de cultura, passando por propostas de políticas públicas e produção cultural, até a tentativa de manobra e manipulação de grupos e opiniões a respeito destes temas.

Mais curioso ainda, no entanto, é que a discussão em torno do jornalismo independente da Mídia Ninja tenha sido escanteada em meio à polêmica. Afinal de contas, o seu estopim foi o Roda Viva que entrevistou Pablo Capilé e Bruno Torturra cujo tema era a Mídia Ninja. Além disso, a Mídia Ninja é neste momento o projeto do Fora do Eixo em maior evidência, e talvez por isso ela seja mais esclarecedora a respeito das práticas e propósitos da rede do que todos os depoimentos, acusações e hashtags que invadiram as timelines de todas as redes sociais nas duas últimas semanas.

A Mídia Ninja – sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação – parte do princípio que o jornalismo não pode ser imparcial. Concordo, e acho importante que cada vez mais se diga e repita isso. Partem daí, para fazer coberturas ao vivo via twitcasting, sem edição nem corte, para que a informação venha bruta; nas palavras de Bruno Torturra no Roda Viva, “da maneira mais crua, honesta e abrangente possível”.

Ora, isso pode até ser verdade, mas de que maneira essas transmissões rompem com o paradigma do jornalismo imparcial da imprensa tradicional, se o que elas buscam de fato é a informação crua? Não desconsideremos os méritos e a coragem dos ninjas que peitaram as tropas de choque durante a jornada de lutas de junho passado; como cidadãos eles se colocaram de maneira ativa e excepcional naquilo que acreditavam que era necessário defender, mas quando se trata de jornalismo, talvez mais urgente do que falar de cidadania – e a sigla que contém a palavra “narrativa” acusa isso – é falar da produção de discursos.

Se a Mídia Ninja afirma assumir e agenciar uma narrativa, entre muitas, com as suas coberturas, cabe a pergunta: qual é esta narrativa?

Voltemos ao marco inicial do que se conhece por midiativismo para pensar na resposta. Quando, no final da década de 1990, o Movimento Zapatista começou a experimentar meios de produzir e comunicar seus discursos através da então discada internet, o fizeram porque precisavam fazer circular suas ideias, seu projeto, suas reivindicações. Necessitavam de autonomia para fazer circular o projeto e a narrativa do próprio movimento.

A experiência zapatista influenciou inúmeras iniciativas de veículos de comunicação autônomos dali em diante, entre eles o CMI, Centro de Mídia Independente, que nasceu durante os protestos antiglobalização do início dos anos 2000 e se pulverizou por todo o mundo com uma orientação ideológica autonomista clara.

A Mídia Ninja, por sua vez, nasce dentro do Fora do Eixo, e o material produzido por ela circulou no Facebook, em sites de notícia e de movimentos sociais, em redes de televisão, em jornais impressos – serviu a veículos ligados aos mais diversos interesses. A qualidade e o alcance dessa produção servem, portanto, às mais diversas plataformas e isto, por si só, é admirável. No entanto, os ninjas, em sua maioria anônimos, não falam por interesses políticos específicos de um grupo ou movimento, e seus criadores se orgulham de circular através de diversos (e às vezes antagônicos) espectros políticos.

Perguntar qual é a narrativa que a Mídia Ninja defende é, portanto, ponto central e urgente no debate sobre o Fora do Eixo (o que torna o debate sobre o Fora do Eixo fundamental para discutir mídia independente neste momento). A ideia de uma mídia que defenda o discurso dos movimentos sociais dentro de um “mosaico de parcialidades” gira em falso quando a rede à qual os ninjas estão umbilicalmente conectados é acusada de explorar e capitalizar em cima de outros coletivos e movimentos sociais.

Mais grave do que essas acusações que precisam ainda ser investigadas, é o fato de que enquanto a Mídia Ninja defende o discurso da parcialidade e da adesão, ela se exime justamente de aderir ou defender qualquer coisa que não a sua marca (e a do FdE), ao fazer circular o seu material bruto em diversas narrativas.

Até agora, a Mídia Ninja não se desviou do que ela critica: surfou nas manifestações para emplacar a sua produção de conteúdo e sua audiência – assim como as grandes empresas de jornalismo fazem. Também não foi capaz de produzir sua própria narrativa – se apropriou de jargões e conceitos de movimentos sociais, culturais e políticos sem, contudo, aderir a eles (será por isso que dizem fazer “narrativas independentes”?), capitalizou seu discurso e sua marca em cima disso, e deu um baile em entrevista à uma imprensa tradicional engessada e em crise.

Mas é bom lembrar: foi só depois da entrevista no Roda Viva (o mais tradicional programa de entrevistas da televisão tradicional, que é o mais tradicional veículo da imprensa tradicional) que todo mundo, inclusive eu, deu para falar de disputas narrativas e de midiativismo. Resta saber quem é que vai falar de jornalismo.

 

*Beatriz Macruz é jornalista e convidada especial do Esparrela.

Procura-se Amarildo

Por Fernando Rinaldi

 

Procura-se Amarildo de Souza, 43 anos, negro, conhecido como “Boi”. Procura-se o pedreiro, o pescador, o morador da favela da Rocinha, o pai de seis filhos, o marido de Elizabete, desaparecido desde o dia 14 de julho, logo após prestar depoimento a policiais da UPP sem fosse dada qualquer explicação posterior aos seus familiares e amigos. Procura-se um dos vários desaparecidos políticos da democracia brasileira.

Mas quem procura?

Os políticos? Amarildo representa o completo descaso das autoridades em relação aos seus cidadãos e é a síntese de uma política incompetente. Os olhos de Cabral se encheram d’água quando pediu que os manifestantes respeitassem seus filhos. Cidadãos podem continuar analfabetos, podem continuar doentes, podem continuar sendo depredados, podem continuar vivendo num caos completo, podem continuar morrendo, podem continuar sumindo. Mas, por favor, respeitem os filhos do senhor governador! Cabral, que governa com desleixo e abandono, que quer todos os bônus e nenhum ônus da vida pública, prometeu empenho nas investigações em seu Twitter.

A polícia procura? Segundo dados do Instituto de Segurança Pública, houve um aumento no número de desaparecimentos após o início das UPPs nas comunidades.  Os PMs da Unidade Pacificadora da Rocinha declararam não ter tido contato com Amarildo, versão que foi contestada pela família. Depois do desaparecimento de Amarildo, os PMs vêm perguntando em tom de deboche para a família: “E aí, o Amarildo voltou?”. No Brasil, a polícia pacificadora mata e o feto tem mais direito à vida do que os marginalizados.  No Brasil, desde sempre sobrevive só quem não reage à truculência policial, e os bandidos – ou os que são estigmatizados como tal – são uma categoria diferente de ser humano que merece morrer. A Operação Paz Armada tem o paradoxo no nome e nas ações, justificadas e até legitimadas pelo medo da classe média.

Então quem procura? A família procura sem descanso, apesar de achar que não o encontrará com vida. Querem apenas encontrar o corpo para que ele tenha um enterro digno. Amarildo, que não está vivo nem está morto, continua existindo enquanto uma ausência que não se define como tal, um espaço vazio na sua casa que não pode ser preenchida com lágrimas de luto, mas tão somente com o desespero. A mulher de Amarildo não dorme mais em casa e tem medo que algo aconteça com os outros membros da família.

Quem mais procura? Nós, brasileiros, procuramos. Os moradores da Rocinha protestaram nos dias 17, 19, 21, 22 etc. A Autoestrada Lagoa-Barra foi fechada. Moradores da Rocinha, inclusive crianças, foram para o Leblon. Os manifestantes atravessaram o túnel Zuzu Angel. Outros protestos também se deram em outros lugares do Rio e em São Paulo. Amarildo ligou diferentes classes sociais e regiões por uma mesma causa, colocou todos numa mesma horizontalidade atacando uma verticalidade que custa a se manter rija. Nós, que não aceitamos as histórias mal contadas que até agora surgiram, não procuramos tanto com a esperança de encontrar, mas no afã de não perdermos mais ninguém. Quando perguntamos “cadê o Amarildo?”, estamos perguntando também “qual é a justiça de que precisamos?” – como escreveu Clarice Lispector na famosa crônica “Mineirinho”, “essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela”.

O que encontramos até agora? O corpo encontrado na terça-feira, dia 30, não é de Amarildo. Ou melhor: é sim. Os casos de morte e desaparecimento sem explicação não começaram com Amarildo nem terminarão com ele. Quem não vive no morro não sabe o que é conviver com as linhas de força que buscam controlar uma comunidade, mas a verdade é que nós que pagamos a conta somos também, em maior ou menor escala, Amarildos. Diante de uma polícia militarizada, somos todos inimigos do Estado: alguns são atacados por balas de borracha; outros (os mais pobres), por balas de chumbo mesmo.

Sorte foi que Amarildo se tornou um “homo sacer” conhecido da população e o seu caso não será esquecido tão cedo. Num momento em que as manifestações brotam aqui e ali, o seu rosto acabou virando imagem recorrente nas bandeiras de protesto contra o governo do estado do Rio de Janeiro e a favor da desmilitarização da polícia. Se muitas manifestações não representam as reais demandas da sociedade, como discorri no meu texto de duas semanas atrás, outras são verdadeiros gritos contra um Estado disfuncional, que dispõe de estratégias anacrônicas em muitos sentidos, que claramente patina para os que o olham de perto embora pareça deslizar continuamente para o que o veem de longe. Amarildo é o vácuo entre o poder público e a população, a lacuna entre os anseios do povo e os projetos políticos, o longo caminho da Rocinha ao Leblon, o espaço que separa os que o procuram e os que não o procuram.

Oxalá explicações sobre o seu sumiço não tardem a vir à tona. Enquanto isso, e mesmo depois disso, nós continuaremos procurando. Pois a luta do Brasil agora tem nome: chama-se Amarildo.

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Direitas já?

Por Fernando Rinaldi

No último dia 10, alguns manifestantes se reuniram na Avenida Paulista, pegando carona na onda extática de protestos do mês passado, para pedir a volta de um regime militar no país. Tendo como uma de suas principais características a aversão ao governo do PT, a “Marcha da família com Deus” queria chamar a atenção para o fato de que o Brasil vai em direção a um golpe comunista. Familiar, não?

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Não é de hoje que grupos de direita vêm-se formando e ganhando visibilidade. Um desses grupos é o “Direitas Já!”, criado para “as pessoas que acreditam na liberdade, para quem acredita que o ser humano deve ser livre para ir e vir, crer e descrer, falar, ouvir, pensar, ter e ser reconhecido pelos seus méritos.”

Outro desses grupos é o Instituto Endireita Brasil, que se diz “uma associação de direito privado, sem fins lucrativos, apartidária e sem filiação a nenhum partido político, mas que pretende difundir o ideário conservador e de direita”. Um dos textos mais visualizados do site se chama “10 soluções para melhorar o Brasil”, dentre as quais estão a pena de morte para crimes hediondos, alegando que “eliminando os bandidos mais perigosos, os demais terão mais receio em praticarem seus crimes”, e a menoridade penal e trabalhista a partir de 16 anos, com o argumento de que “[a lei] serve apenas para criar bandidos perigosos, que ao atingirem 18 anos, estão formados para o crime, já que não puderam trabalhar e buscaram apenas no crime sua formação”. Em abril deste ano, Ricardo Salles, fundador desse movimento e assessor de Geraldo Alckmin, afirmou: “não vamos ver generais e coronéis acima dos 80 anos presos por crimes de 64, se é que esses crimes ocorreram”, declaração que levou o escritor Marcelo Rubens Paiva a cobrar do governador de São Paulo um pedido de desculpas.

O senso comum tem o costume de alegar que as diferenças entre esquerda e direita não mais existem, sobretudo no Brasil, onde partidos de fachada são criados constantemente e o jogo político exige a construções de coalizões duvidosas entre partidos. Além de carregar certa confusão entre determinados conceitos, tal modo de pensar é perigoso, pois exime quem pensa assim de uma real tomada de posição e impede uma maior participação da população na política.

O nacionalismo tolo que acompanhou os protestos de junho, quando alguns, ingenuamente ou não, “vestiram-se com as cores do país” – como dizia Machado de Assis dos românticos –, foi somente uma pequena amostra do que podemos presenciar daqui para frente. O Brasil, país de interesses privados, acaba de descobrir a rua como espaço público e a consequência imediata disso é que a direita aprendeu a protestar. Esses protestos de direita são, no fundo, protestos contra os protestos, isto é, manifestações contra as reivindicações da população que sempre estiveram aí, latentes ou não. De um modo geral, não são questionados as injustiças e os privilégios que há anos resistem intactos, mas as pequenas mudanças que são pensadas para tornar o sistema atual um pouco menos injusto. No momento em que o governo cria uma solução para uma das demandas da população, mesmo que a curto prazo, a resposta reacionária invariavelmente é de condenar a solução encontrada, acusando os políticos de demagogos ou assistencialistas.

Penso que valha a pena destacar aqui um trecho de um artigo do Slavoj Žižek que fará parte do livro Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, a ser lançado em breve pela Editora Boitempo: “Os protestos e revoltas atuais são sustentados pela sobreposição de diferentes níveis, e é esta combinação de propostas que representa sua força: eles lutam pela democracia (‘normal’, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente contra o ódio dirigido a imigrantes e refugiados; pelo estado de bem-estar social contra o neoliberalismo; contra a corrupção na política e na economia (empresas que poluem o meio ambiente etc.); por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários (participação etc.); e, finalmente, questionando o sistema capitalista mundial como tal e tentando manter viva a ideia de uma sociedade não capitalista.” (leia o artigo completo aqui)

Žižek, que esteve recentemente no Brasil, gosta de repetir que as elites políticas e econômicas não sabem o que querem nem o que estão fazendo. Brinca também que é mais fácil descobrir o que as mulheres querem (a maior das dúvidas freudianas) do que descobrir o que quer um manifestante do terceiro milênio. Portanto, essa combinação de várias pautas representa não só a força das revoltas, mas também sua fraqueza.

Nesta sociedade sem um rumo claro, em que os donos do poder estão perdidos e onde o povo se revolta por vezes sem saber contra o quê, abre-se uma imensa brecha para o reacionarismo. Em outras palavras: já que não está bom do jeito que está e não sabemos para onde vamos, o melhor a fazer é voltar a um lugar seguro do passado. Provavelmente essa é uma razão pelas quais a Europa em crise assiste a grupos neonazistas ganharem força e o Brasil, país que não tem nem trinta anos de democracia, vê uma parcela de sua população apoiar o retorno da ditadura militar. Embora o número de pessoas que participaram da “Marcha da família com Deus” dez dias atrás seja quase ínfimo, não seria exagero dizer que uma parte considerável dos brasileiros a endossou.

Afinal de contas, como serão as caras da esquerda e da direita pós-junho de 2013? Difícil saber. Deleuze definiu neste vídeo que a esquerda é a minoria que é todo mundo e a direita é a maioria que não é ninguém. Será que ainda conseguimos reconhecer essa equação em nossa sociedade? Caso contrário, o que será que há de errado?

A história da humanidade ainda se escreve nas paredes

Por Fernando Rinaldi

 

No momento em que escrevo este texto, vai chegando à reta final a décima primeira edição da FLIP, que este ano prestou homenagem ao escritor alagoano Graciliano Ramos. Tendo já visto comparecido duas vezes a essa que é a mais famosa festa literária do Brasil, lamento por não poder ter podido ir desta vez. Consegui assistir a uma ou outra palestra pela transmissão simultânea, o que não se compara a estar lá, de corpo e alma presentes. E não se compara porque algumas das melhores partes do festival literário ocorre não dentro da Tenda dos Autores, mas ao redor dela – e isso não pode e nem poderia ser transmitido via internet. Enquanto escritores, críticos e artistas célebres discorrem sobre as assim chamadas alta literatura e alta cultura, músicos, atores, pintores, escritores de literatura de cordel, palhaços, estátuas vivas, artesãos e poetas independentes mostram sua arte nas ruas e encobrem a cidade de uma atmosfera lírica e sensorial.

Eric Hobsbawm, em seu livro publicado postumamente, Tempos fraturados, dedica um capítulo – que é, na realidade, a transcrição de uma palestra dada em 2006 no Festival de Música de Salzburg – a discorrer sobre os festivais. O historiador afirma que eles parecem florescer bem em pequenas cidades, pois nelas se instaura um espírito comunal entre todos os presentes. Bem, é exatamente isso que ocorre em Paraty: embora os holofotes mirem nomes como Enrique Vila-Matas, Ian McEwan, Jonathan Franzen, Antonio Candido, Milton Hatoum, Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Valter Hugo Mãe, Davi Arrigucci Jr., Alessandro Barrico, Roberto Schwarz, Amós Oz, J. M. Coetzee etc., eventos e manifestações artísticas paralelas convivem perfeitamente bem com as atrações principais e também chamam a atenção dos visitantes de uma cidade embebida de sons, cores e poesia.

Não é minha intenção aqui estabelecer uma distinção entre a arte dos escritores nacionais e estrangeiros cujos nomes são de conhecimento de todos e a arte dos anônimos que encantam os paralelepípedos de Paraty, muito menos compará-las. Em verdade, os tempos são confusos para as artes de um modo geral, como Duchamp já antecipou com a criação do conceito de ready made. A máxima de Baudelaire de que metade da arte é o efêmero e a outra metade é a eternidade parece não mais capturar os fenômenos artísticos contemporâneos em sua totalidade.

Além de muitos objetos artísticos terem-se transformado em produtos descartáveis, os produtos, os objetos de nossa vida cotidiana se transformaram, num certo sentido, em objetos artísticos. Pois que a beleza é uma estratégia eficaz de veiculação de afetos a uma determinada marca ou a um determinado produto, o capitalismo é um sistema que, para sobreviver, precisa se amparar na estética dos produtos a serem consumidos pela massa. E, como se sabe, ética e estética são conceitos indissociáveis.

A arte de rua, ou a arte que se faz na rua, tem uma relação outra com o mercado: ela recua da industrialização da cultura e propõe uma expressão estética capaz de tocar nossa sensibilidade breve e intensamente. Ela se dá no espaço comum dos homens, sendo, portanto, completamente democrática. Se bem que em Paraty, durante a FLIP, ela se concentre num espaço-tempo reduzido, não é preciso sair da cidade onde se vive para notar sua existência. Ela está presente em todas as cidades do mundo, chamando nossa atenção para o que provavelmente não somos capazes de ver no cotidiano, atravessando nossas vidas práticas e as questionando. É verdade que, em grandes metrópoles, não encontramos a todo o momento com esses artistas, mas o que eles têm a dizer – muitas vezes um grito dos excluídos socialmente – está nos muros para quem tiver olhos límpidos.

Por falar em muros, Hobsbawm afirmou em outra palestra presente no mesmo livro citado acima que “o muro que separa cultura e vida, reverência e consumo, trabalho e lazer, corpo e espírito, está sendo derrubado”, palestra que ele terminou dizendo não saber responder para onde vão as artes – e alguém sabe? Uma coisa, porém, é certa: embora o modo como se faz e como se percebe a arte possa ter mudado, a história da humanidade ainda se escreve nas paredes, como dizia uma frase que eu li recentemente num muro de São Paulo. E as ruas certamente continuarão a ser o palco dessa história, seja em Paraty, São Paulo, Berlim ou em Tóquio.

A fábula das ratazanas e dos camundongos

Por Fernando Rinaldi

Era uma vez uma comunidade de ratos. Lá todos viviam em ordem e harmonia e tinham suas funções bem estabelecidas: as ratazanas saíam para buscar comida enquanto que os camundongos ficavam na comunidade para cuidar da limpeza e da organização do lar. Cada ratazana vivia com dez camundongos. Assim que a ratazana chegava com o pedaço de queijo, eles o dividiam da seguinte forma: metade do queijo ficava com a ratazana e a outra metade ficava com os dez camundongos.  À noite, os camundongos dormiam amontoados e só podiam relacionar-se ou sair da toca com a autorização da ratazana responsável; a ratazana, por sua vez, dormia num lugar limpo e confortável, e para ter relações ou passear bastava ela querer. E desse modo tudo funcionada maravilhosamente bem.

Foi então que uma ratazana resolveu mudar as regras da divisão do queijo. “Os pedaços de queijo que eu estou encontrando estão cada vez menores, e eu tenho fome, muita fome”, disse ela, “então vou passar a comer dois terços do queijo e vocês ficam com o resto.” Alguns camundongos, indignados com aquela asseveração, ameaçaram se pronunciar, porém logo foram calados pelos outros que achavam bastante justa a nova divisão: “A ratazana é maior e é ela que traz comida para cá. Se os pedaços de queijo são menores, a parte que nos cabe irá diminuir também”, comentavam.

Os dias se passaram e os camundongos se acostumaram a comer menos. Um dia, porém, um camundongo travesso e faminto resolveu se arriscar no mundo lá fora para encontrar seu próprio pedaço de queijo, mesmo sabendo que ele seria severamente punido se a ratazana descobrisse a sua infração. Perambulou por horas, mas nada de encontrar um mísero pedaço de queijo. Resolveu, então, voltar para casa de estômago vazio. No seu caminho de volta, o inesperado aconteceu: encontrou um pedaço de queijo diferente, esquisito, que tinha um gosto horrível e que refletia a imagem de todos aqueles que iriam comê-lo. O camundongo concluiu que aquilo não era queijo e nem era comestível, mas achou que era um objeto mágico e o levou para comunidade.

Conseguiu chegar a casa são e salvo, antes de a ratazana responsável chegar. Mostrou o queijo diferente aos nove colegas, que se riram ao verem-se duplicados, depois colocou o objeto mágico num lugar onde a ratazana nunca pudesse encontrá-lo. Algumas horas depois, a ratazana chegou com um pedaço de queijo ainda menor e disse: “A partir de hoje, eu fico com três quartos do queijo e vocês ficam com o resto.” Novamente, alguns camundongos quiseram protestar; a grande maioria lamentou, mas julgou correta a decisão da ratazana e reprimiu as reclamações dos outros.

À noite, quando todos estavam prestes a se deitar, o objeto mágico, posicionado numa posição que refletia a imagem de toda a toca, mostrou ao camundongo travesso o que estava na frente da sua fuça – ele é só um e nós somos vários; ele tudo pode e nós nada podemos. Assim que a ratazana se retirou para o seu aposento, o camundongo travesso exclamou aos seus: “Nós somos todos ratos!”. Como a princípio os outros camundongos, confusos, não entenderam muito bem, o camundongo travesso lhes explicou com perguntas: “por que só a ratazana pode sair e nós não?”; “por que só ela pode decidir quem entra e quem sai e o quanto podemos comer?”. Daí todos refletiram e entenderam e, mesmo aqueles que estavam do lado da ordem e dos bons costumes dos roedores, consentiram em apoiar a revolta arquitetada pelo camundongo arteiro, já que, afinal de contas, a fome estava falando mais alto do que as suas consciências.

Na manhã seguinte, assim que a ratazana saiu para procurar comida, os camundongos roeram suas roupas e pertences como mostra do descontentamento em relação à redução da parcela de queijo destinada a eles. Encontraram, em meio aos seus objetos, imensos pedaços de queijo escondidos, e um sentimento de fúria e uma vontade de fazer justiça se apoderou deles. “Traidor!”, gritaram alguns.

Foi aí que os camundongos daquele grupo tiveram a ideia de se comunicar com os camundongos de outros grupos para que, unidos, eles derrubassem aquele sistema desonesto imposto pelas ratazanas. Descobriram que as outras ratazanas também haviam diminuído a parcela de queijo destinada aos camundongos e que a condição de vida deles estava cada vez pior. Com a adesão de todos à rebelião, o movimento ganhou força e tomou proporções imprevistas. Quando as ratazanas voltaram, tudo estava dominado pelos camundongos. “Não é só pelo queijo”, bradavam, “é por uma vida mais digna e livre!”.

As ratazanas, sentindo que iriam perder seus privilégios se não reagissem àquela insurreição, resolveram contra-atacar, alegando que estava se dando a instalação de uma “ditadura de camundongos” e que aquela baderna acabaria de vez com a comunidade de ratos.

Embora as ratazanas fossem mais robustas, elas foram neutralizadas pela quantidade de camundongos que se colocaram contra elas. Muitos camundongos se machucaram, muitos camundongos morreram, mas no fim a vitória foi deles. E desde então tudo mudou na comunidade de ratos: todos passaram a ter permissão para sair para buscar seu próprio queijo, relacionar-se com quem entendessem (ratos, ratas, ratinhos, ratinhas, ratões e ratazanas). Todos tinham, enfim, os mesmos direitos e deveres.

De tempos em tempos, no entanto, as ratazanas conseguem tomar o poder de novo e subjugar os demais, daí as novas gerações são obrigadas se lembrar de um passado de iniquidades e abusos que elas já haviam esquecido.

Moral da história: não é só por vinte centavos.