Onde o povo pousa seu clunis

Por Guilherme Grava

Os últimos dias nos trouxeram acontecimentos interessantíssimos – e muito curiosos: vimos a comoção mundial com o falecimento do Mandela ser acompanhada por um intérprete auto-diagnosticado com esquisofrenia, vimos a pseudo-novela entre o Obama e a primeira-ministra da Dinamarca bombando nas mãos da Dilma Bolada, e até mesmo a triste história do advogado que teve o seu carro cimentado na calçada em Belo Horizonte… http://migre.me/h0jd4 (haha).

Mas de tudo o que circulou nos jornais nos últimos dias, o que mais me causou comoção (vamos chamar aqui de comoção para não dizer que eu mijei de rir): foi a declaração do Ministério Público de Santa Catarina após a confusão entre Atlético e Vasco no jogo do domingo.

Todos sabemos da triste realidade que enfrentamos no País em relação à violência nos jogos de futebol – violência essa, aliás, que até hoje não encontrou uma solução em definitivo. É evidente que não é neste episódio lamentável que está a graça. Muito pelo contrário. A graça está, na verdade, na desonestidade intelectual que fundamentou a bobagem sustentada pelo parquet catarinense (que praticamente me fez sentir o estômago embrulhar):

“Segurança pública é voltada para o público e o público está nos locais de acesso ao público. O campo de futebol onde os artistas se apresentam juntamente com os árbitros não é acessível ao público, ali não precisa segurança pública. Deve ser segurança privada.”

Hahaha não é mesmo?

Sejamos sinceros: é possível acreditar que alguém acha minimamente justificável esse argumento? É evidente que em um jogo como este, por mais que a entrada seja paga e por mais que o evento tenha um caráter nitidamente comercial, estamos lidando com a presença de um grande público.

É dever inequívoco do Estado zelar pelos seus cidadãos e não se colocar nesta confortável posição em que se diz: “dessa linha eu não passo”. Não existe lógica em um argumento desse tipo. Estádio de futebol não é o mundo da lua onde tudo pode acontecer. O MP errou sim. Errou feio, errou rude. E o preço está aí – caro demais!

O fato é que a declaração infeliz gerou um jogo de empurra-empurra que é o típico discurso que, no Brasil, tem cheiro de “meia muçarela, meia calabresa”:  PM diz que agiu conforme instrução do MP; MP diz que a polícia entendeu errado. No fim, não vai sobrar pra ninguém.

Interessante é perceber como questões deste tipo são tratadas com o mais absoluto descaso e despreparo. E aí vem a frase que todos estão esperado… vamos lá, vou dizer: “quero só ver como vai ser na Copa”. E foi aí que eu me lembrei de mais uma leitura interessante da semana, agora proporcionada por Gaudêncio Torquato na sua coluna semanal no site Migalhas (http://goo.gl/jpx7o7).  Trata-se de uma citação da carta deixada por Vespasiano ao seu filho Tito quando do seu leito de morte:

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos. “De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho : não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.” “Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa : onde o povo prefere pousar seu clunis : numa privada, num banco de escola ou num estádio ? Num estádio, é claro.” “Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma ‘per omnia saecula saeculorum’, e sempre que o olharem dirão : ‘Estás vendo este colosso ? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.” “Outra vantagem do Colosseum : ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.” “Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. ‘Vel caeco appareat’ (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma”. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase : ‘Ad captandum vulgus, panem et circenses’ (Para seduzir o povo, pão e circo).” “Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

Pois é. Pão e circo e Copa do Mundo. Moral da história: no País do futebol, estádio é lugar privado. Ou, talvez, a privada onde o povo pousa seu clunis…