No Egito e aqui

Em 2011, a quantidade sufocante de jovens que foram às ruas no mundo árabe por não poderem mais suportar a situação em que viviam pareceu, por algum tempo, apontar para uma mudança radical no  status quo do Oriente Médio. No caso do Egito, os protestos derrubaram o presidente Hosni Mubarak, já há 30 anos no poder, e abriram a possibilidade para a invenção de uma nova maneira de se viver. No lugar de algo novo ou revolucionário, como foi chamada a Primavera Árabe por alguns, instaurou-se uma eleição aos moldes ocidentais segundo as aclamadas democracia e liberdade norte-americanas. Na eleição realizada em 2012 os dois oponentes que disputavam a presidência representavam as duas principais forças presentes no Egito: a militar e a religiosa. Vence a religiosa e Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana sobe legitimamente ao poder: eleito pelos princípios democráticos e transparentes. Mas não por muito tempo. Os protestos voltam ao cenário egípcio e inundam a Praça Tahrir, no centro do Cairo. A repressão é intensa, egípcios são mortos. Dessa vez, quem sabe, a democracia consiga vingar nessa terra seca e infértil deixada por três décadas de ditadura. O único problema foi que havia ainda no Egito quem gostasse de ditadura e de um Estado militarizado: os militares. Eles tomaram o poder e permanecem lá desde então, praticando o terror.

No dia 19 de Março foi decidido que o filho de Mursi, o vencedor da eleição que foi deposto pelos militares, será julgado por consumir maconha.

No dia 20 de Março um menino de 15 anos pró-Mursi é morto.

Ainda no dia 20 de Março dois são mortos e centenas feridos em protesto realizado pelos islamitas.

Ontem, o governo do Egito condenou 528 pessoas à pena de morte, todos eles islamitas.

Agora vamos dizer que a democracia simplesmente não funcionou no Egito? Nos Estados Unidos a democracia funciona belissimamente. Ontem mesmo os EUA declararam repúdio total à decisão do governo egípcio em relação às penas de morte, alegando que isso vai contra os direitos humanos.

Lembremos apenas que os Estados Unidos possui e aplica a pena de morte, mas jamais condenará 500 pessoas de uma vez só, por isso muito mais humano. Lembremos que a política anti-terrorista norte-americana mata por precaução os inúmeros suspeitos e perigosos. Lembremos, portanto, que o terrorismo de Estado não é exclusivo de ditaduras, mas é inerente ao próprio funcionamento estatal.

obama

Os belos tempos modernos

Por Hannah Maruci Aflalo

Durante uma aula de história, uma aluna minha da oitava série me contava como achava religião um absurdo. Ela me explicava como tinha decidido, já há dois anos, que era agnóstica e como seus pais achavam tal fato inaceitável. Ela se incomodava com a desqualificação que eles dirigiam aos pensamentos dela dizendo que aquilo era “apenas uma fase”. “Não, não é uma fase”, ela dizia. Estudante de colégio católico, ela mesma parecia assustada com sua própria decisão e repetia pra si mesma que não estava fazendo nada de errado. Apesar de não ter sofrido pressões nesse sentido dentro de casa, me identifiquei com a aflição dela de várias maneiras. Não é raro alguém me perguntar, quando digo que sou ateia, coisas como: “Então você não acredita em Deus?”, seguida logo de uma outra pergunta, emitida com perplexidade após a confirmação da primeira: “Mas então você não acredita em nada?”. Claro que acredito, acredito em muitas coisas. Apenas não acredito em deuses, messias e, muito menos, em virgens marias. Para alguns é inadmissível que outros não acreditem numa força maior que nos guie, simplesmente porque lhes parece insuportável que esse guia não exista. “Mas então você não tem fé?”, curiosamente, fé não é algo exclusivo das religões, é possível acreditar cegamente em praticamente tudo. Mas até aí, são apenas alguns desconfortos cotidianos pelos quais todos passamos. O que realmente me assustou foi quando, ao me perguntar se eu era ateia e eu responder que sim, a resposta da minha aluna foi: “Eu já tinha percebido, mas eu não contei pra minha mãe porque ela gosta muito de você e isso iria mudar muito a opinião dela”. Em outras palavras, ela estava me dizendo que, caso a mãe dela soubesse de minha “orientação religiosa”, ela não a deixaria mais ter aulas comigo. Sempre tomei muito cuidado para não impor aos meus alunos minhas visões políticas, embora eu saiba que neutralidade é uma bobagem. Mas acho que fui ingênua ao pensar que não haveria consequências em dizer, em qualquer lugar, que sou ateia. A convivência na universidade nos faz muitas vezes pensar que vivemos num mundo muito menos conservador do que realmente vivemos e que nele pode-se sim perder um emprego por não se acreditar em Deus.

Aos que não esquecem

esparrela

Por Hannah Maruci Aflalo

 Na história e em muitos lugares do mundo há, e sempre houve, ditadores que são cegamente idolatrados por uma população. Hitler foi amado, assim como Mussolini. E não poderia ter sido de outra forma, não é novidade que um homenzinho isolado não conseguiria mobilizar uma sociedade inteira caso essa não quisesse. Todo governo, seja ele ditatorial ou não, é constituído por uma relação amorosa recíproca: apaixonados pelo poder, de um lado, apaixonados pela servidão, de outro. Em outras palavras, só há governo se há quem queira governar e quem queria ser governado. Mais doloroso é admitir que só há ditadura se uma grande parcela da população a aceite e a deseje. Portanto, toda ditadura é, acima de tudo, civil – pouco importa se o golpe foi militar.

Mês passado, no dia 11 de setembro, foram lembrados os 40 anos do início da ditadura chilena (e o atentado às torres gêmeas, que com certeza ganhou maior destaque, mas isso não vem ao caso). O ditador Augusto Pinochet matou oficialmente 40.280 pessoas. Oficialmente. Pinochet, no entanto, é só osímbolo de um período tenebroso na história do Chile. Tenebroso não porque um homem louco resolveu sair matando gente. Isso sempre existirá em qualquer sociedade. Mas tenebroso porque se esse número de pessoas morreu, desapareceu ou foi desaparecida é porque um outro número significativo de pessoas contribuiu para isso: torturando, delatando, ou “apenas” se omitindo.

Hoje, no entanto, o combo reformas econômicas + caça aos esquerdistas ainda é sedutor para aqueles que DEFENDEM Pinochet. Mas esses não merecem mais que uma linha. Deixemos espaço para aqueles que são tão pouco lembrados: os que não se omitiram, que não suportaram, os que resistiram. Em uma visita à Santiago, no mês passado, conheci o Museu da Solidariedade Salvador Allende. Esse museu foi fundado em 1970 em solidariedade ao governo de Allende, uma vez que esse havia sido o primeiro presidente marxista ao chegar no poder. O que se iniciou como um culto a um líder, seja ele marxista ou não, a partir do golpe, em 1973, principalmente, se transformou em um museu de resistência. Os artistas, que haviam doado sua obras desde 1972, continuaram as doações, mesmo com a ditadura instituída, as quais eram escondidas ou no Museu de Belas Artes ou no Museu de Arte Contemporânea. Aqueles que eram exilados mantiveram as obras em suas casas, como uma resistência ao que estava acontecendo no país. Fora do Chile foram criados Museus da Resistência Salvador Allende, que recebiam as doações que não chegavam no Chile.

Atualmente, todas essas obras estão reunidas em um casarão que abriga o Museu da Solidariedade Salvador Allende. Além das obras do período da ditadura, estão lá também obras recentes: depoimentos, pinturas e instalações que dão voz para aqueles que de alguma maneira viveram a ditadura. Assim como a ditadura não foi feita por um homem só, acredito que a resistência, nesse caso, também não foi. Salvador Allende acaba sendo também um símbolo, mas o símbolo de algo potente. Esse é o museu dos que resistiram, dos que resistem e o dos que não esquecem e não deixam que seja esquecido.

O recalque do Facebook e o Marco Civil na Internet

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Por Laís Saleh

Alguns dias atrás, repeti a palavra ‘hímen’ em uma conversa no Facebook, ao fim da terceira repetição minha conta foi bloqueada automaticamente. O resgate para esse sequestro puritano veio na sequência: eu deveria enviar uma cópia de algum documento válido em território nacional. Por alguns instantes ponderei se deveria ou não expor algum documento dessa forma, mas decidi por enviar. No mesmo dia minha conta foi desbloqueada e um e-mail sucinto agradeceu o contato.

Não, eu não tinha expectativas de privacidade na internet, apenas me surpreendi com o alto grau de monitoramento da conta de uma simples mortal. Decidi então conhecer melhor o Marco Civil da Internet, projeto da autoria de Alessandro Molon (PT-SP), que teve seu debate impulsionado após as denúncias de espionagem do governo norte-americano e talvez pudesse garantir a paz da palavra ‘hímen’ no Facebook. O Marco Civil seria o equivalente a Constituição da Internet, estabelecendo princípios, direitos e deveres para o seu uso. São três os principais pontos: a neutralidade da rede, a privacidade e a responsabilidade pelo conteúdo e armazenamento de dados.

O que realmente me surpreendeu foi o traffic shapping, que consiste na manipulação da forma como trafegam os dados. Uma forma de ilustrar isso é imaginar o trânsito paulistano, os automóveis estão lá dispostos e terão que aguardar sua vez, seja uma Mercedes ou um Uno Mille. Esta é a beleza democrática dos nossos congestionamentos. Agora, imaginemos que a Mercedes fosse privilegiada e conseguisse furar a fila de qualquer trânsito. É isso que acontece na internet, grandes sites como Facebook e Google tem seu fluxo de dados privilegiado por acordos comerciais e carregam milagrosamente mais rápido do que o BiTorrent ou o Youtube.

O artigo 9 do Marco Civil da Internet traduz o combate ao traffic shaping por “Neutralidade de Rede”, garantindo que os dados de quaisquer sites trafeguem no mesmo trânsito sem distinção por conteúdo, origem e destino. O que torna ainda mais esdrúxulo o traffic shaping é que quanto menor for seu pacote de dados, menor a sua liberdade de escolha sobre quais sites acessar, pois ele nunca terá os megabytes suficientes para ultrapassar os acordos feitos com os grandes sites e carregar outros conteúdos. É aqui que se torna mais contundente o reconhecimento do acesso à internet como um direito humano, necessário ao desenvolvimento da personalidade e exercício da cidadania. Pois, mais uma vez, o acesso à informação é limitado pela quantia de$embol$ada.

O Marco Civil também pretende definir os limites da privacidade, garantindo que o seu histórico de navegação e dados armazenados estejam protegidos. Isto serve não apenas para a proteção dos dados pessoais, conversas e e-mails, mas também para acabar com a venda de dados para publicidade direcionada. O que você pesquisou recentemente no Google vai deixar de se transformar em anúncios no Gmail, finalmente.

O deputado do PMDB Eduardo Cunha sintetizou no debate do dia 06.11 as críticas feitas ao projeto como intervencionismo na infraestrutura e consequente precarização dos serviços. Este, curiosamente, também é o discurso das empresas de telecomunicação. Mas, cá entre nós, não é bem por aí.    

Lou Reed vive

Por Hannah Maruci Aflalo

Na minha casa sempre se ouviu música boa. Meus pais estampavam camisetas de rock e sempre foram fãs de David Bowie, Lou Reed, The Cure, Iggy Pop, The Doors, etc. Além das músicas que aprendia na escola, a que mais tenho presente e que hoje mais me lembra minha infância é “The Laughing Gnome”, do David Bowie. Nada melhor pra uma criança do que um música com um gnomo rindo.

Apesar dessa influência, que eu considero muito boa, dos meus pais, eu sempre fui meio do contra e lá pelos oito anos de idade desenvolvi um amor incondicional pela duplinha mais famosa do Brasil. Sim, como tantas outras meninas, eu amei Sandyjúnior.

Isso até o dia que decidi entrar em uma loja de CDs e comprar o Transformer. Não vou dizer que Lou Reed me salvou de Sandyjúnior, isso seria forte demais. É difícil admitir, mas ainda lembro com carinho de Dig Dig Joy tocando milhares de vezes nos meu disc-man.

Mas Lou Reed soube dizer as coisas certas na hora certa, ou melhor, soube me dizer o que eu queria ouvir. E com ele eu tive dias que me pareceram perfeitos, cheios de séralairólove, no meu inglês macarrônico de doze anos de idade. Não tinha problema, eu não precisava entender. Lou Reed e Velvet Underground fizeram parte da minha formação musical e os carrego comigo desde muito cedo.

Nesse domingo fiquei sabendo que o homem das mãos grandes morreu. Foi um dia estranho. Já que nunca o vi, resolvi fingir que ele não morreu.

E não morreu mesmo.

Lou reed vive. Vive toda vez que uma agulha encosta em um disco seu. Vive nos quadros de Andy Warhol. Vive nas fotografias de Mick Rock. Vive nas palavras de David Bowie e Iggy Pop. Vive em todas as JanesSuzannesStephaniesCarolines, e Lisas. Vive em qualquer um que já tenha tido um sonho, que já tenha desempenhado um papel, que vá viver solitário, que já tenha ficado distante.

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Quando quem mata é heroi

Por Hannah Maruci Aflalo

 

Escrevo hoje meu primeiro post no Esparrela. Sou estudante de Relações Internacionais a se formar o quanto antes e dividirei as terças-feiras com o Luís Henrique Deutsch. Começo aqui com um tema que me incomoda e me instiga e que essa semana, por conta de algumas notícias divulgadas, esteve em pauta.

O Estado Penal em que vivemos hoje, não apenas no Brasil, mas em inúmeros outros países pelo mundo, vai contra a liberdade de todos nós: não apenas daqueles que são presos, mas também, e talvez principalmente, daqueles que ficam soltos acreditando estarem livres e seguros. Falar em um Estado Penal, porém, pode levar ao pensamento de que quem quer punição é apenas o Estado e a polícia, sem considerar que quem pede incansavelmente pelo fim da impunidade é o chamado cidadão de bem. Basta assistir a um noticiário na televisão (e nem precisa ser no programa do Datena) para concluir que são os próprios cidadãos que veem na pena a garantia de segurança, e mais do que isso, de vingança. Isso sem contar a forma como o criminoso é definido. Aquele que rouba um pão porque sente fome será muito mais facilmente chamado de criminoso do que aquele que frauda uma eleição; a esse chama-se corrupto. É apenas quando o corrupto atenta contra a propriedade, desviando dinheiro, por exemplo, que passa a ser chamado bandido e, mesmo assim, de um jeito ainda muito diferente. “Bandido bom é bandido morto” é uma sentença que se aplica apenas para alguns. Seria repetitivo demais dizer que o bandido é aquele da outra classe social, considerado vagabundo, pois prefere roubar da gente de bem ao invés de trabalhar, e que por isso merece ser morto.

No Brasil, a luta contra a impunidade cresce a cada dia. Pode se ver até mesmo estudantes de jornalismo fazendo passeatas reivindicando pela diminuição da maioridade penal. Quem comete um crime deve ser eternamente punido por ele: primeiro, passando pela prisão sob condições desumanas, depois, voltando à sociedade (após cumprida a pena) sem conseguir se livrar do estigma por ter sido já preso uma vez. Pouco se importa com as condições das prisões, pois acredita-se que quem está preso é porque merece estar ali e não deve ter direito a nenhuma condição mínima de vida. O governo brasileiro foi recentemente interpelado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa do Presídio de Araraquara e suas condições escandalosamente precárias, que levaram a um motim em 2006. Pede-se o cumprimento da lei, mas as condições carcerárias brasileiras estão completamente em desacordo com a legislação. Direitos humanos, portanto, só para alguns. Cumpra-se a lei, mas não para todos. Presos ou criminosos são tratados como uma outra classe de ser humano (quando muito) que da sociedade nada deve receber, mas que a ela sempre deve.

Clama-se por punição para quem viola as leis (mais especificamente para aqueles que atentam contra a propriedade), acredita-se na ilusão de que os chamados criminosos nada têm a ver com o “cidadão de bem”, investe-se em prisões de segurança máxima e de condições internas precárias. Negligencia-se, no entanto, o fato de que crime é uma relação social que envolve não apenas os chamados os criminosos. A própria noção de crime, por si só, é imprecisa, maleável e historicamente descontínua. Por isso, pedir que a lei se cumpra por meio da punição está longe de ser um pedido por justiça. Não existe uma lei universal, nem crimes universais e muito menos punições proporcionais ao delito cometido.

            Enquanto o crime continuar a ser entendido como algo absoluto e mensurável que tem sua resposta proporcional definida na lei por meio dos castigos, a punição não cessará, mas os crimes também não. Nessa semana, a divulgação de um vídeo que mostrou o ato “heroico” de um policial atirando em um suposto bandido gerou comemorações e lotou os comentários da UOL (aqueles que sempre que a gente lê promete nunca mais olhar pra não perder a fé na humanidade, sabe?) de papagaios repetindo a frase já mencionada aqui de que “bandido bom é bandido morto” e defendendo que se todo policial fosse assim viveríamos hoje numa sociedade menos violenta. Será mesmo? Por outro lado, quando o PCC anuncia que o governador de São Paulo está jurado de morte, são essas mesmas pessoas que se adiantam logo pra dizer que se trata de um atentado contra os direitos humanos. Não estou aqui defendendo o PCC (nem o Alckmin), mas são as reações a fatos como esses que mostram como as noções de crime e de bandido são completamente flexíveis, e o mesmo vale para os direitos humanos.

A associação do crime à pobreza é algo recorrente e, no entanto, extremamente delicado. Mapear os perigos parece tornar mais possível que o ideal de segurança seja atingido: ora, basta isolar a pobreza. Se fosse assim tão simples, eu estaria agora mesmo fazendo um comentário qualquer na UOL, pedindo por mais punição ou, quem sabe, aplaudindo o policial que atirou no bandido. O único problema dessa lógica é que a miséria é produzida dentro e pelo Estado, e não apartado dele. Os muros da prisão, além de não trazerem segurança, não escondem a relação inseparável entre o criminoso e o cidadão de bem.

geraldo