AUTORRETRATO

Por Laura Trachtenberg

Um dia, faz mais ou menos um ano, estava no metrô de Paris indo pra sabe-se la onde. O ambiente desse meio de transporte é particular,  uma mistura de máquina vintage que nos faz darmos ainda mais conta da violência do mecanismo moderno. Ele vem com uma força e um barulho enormes, ele para: sobem pessoas e descem pessoas.

Mas mais brutal que a própria maquina, é a interação entre os indivíduos presentes dentro dos vagões. Ou melhor: é a falta dela. Existem regras de boas maneiras: você entra, senta ou não; não se fala com ninguém, por isso vale trazer um livro ou os fones de ouvido, entrar na sua própria capsula e não sair dela até o destino desejado. As vezes entram os músicos, tocando La vie en rose (ironicamente) para agradar os turistas e irritar os franceses, que por sua vez “bufam” e olham feio para a caixa de som presente no meio do vagão.

Mas nesse dia em especial a viagem foi diferente. Uma estação depois da minha entraram uma mãe e uma filha dentre do vagão onde eu estava – cumprindo todas as regras de conduta: sentada num canto, fones de ouvido apostos, olhando para um ponto fixo. A menina sofria de alguma deficiência mental que não pude reconhecer, mas que transparecia por seus movimentos, sua fala e, principalmente, pela sua relação com o outro, pelo seu olhar.

A “jeune femme” de mais ou menos 11 anos, acredito, encarava a todos fixamente; chegava bem perto, olhava nos olhos, observava tudo de todos e sorria ou saía indiferente. A situação começou a incomodar a todos no vagão, inclusive essa que escreve. Lembro-me de pensar: “Por quê essa mãe não controla sua filha?” Mas um tempo depois dessa jornada a reflexão foi outra “Por quê essa mãe deveria controlar essa criança?” e mais “Por quê seu olhar me incomodou tanto?”

Tanto que estudante em história, artes e mediação cultural, um gênero da pintura ou da fotografia que sempre amei foi o autorretrato, sobretudo aquele co olhar direto, olhar nos olhos. Pois ele tira o espectador da obra de seu lugar passivo, o indivíduo passa a participar do momento artístico.

Um dos autorretratos mais famosos é aquele de Velazques, As Meninas (1656), obra inovadora e genial em diversos sentidos: o primeiro pela qualidade da obra, por sua técnica, mas sobretudo pelo jugo de olhares e pela sociologia de uma época que o pintor escancara.

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Num primeiro olhar vemos o artista num instante de hesitação, ele olha sua obra, ele a analisa; o que por si só já foi revolucionário numa época em que apenas o trabalho final do artista era levado em consideração, Velazques mostra o work in progress da criação artistica. Além disso, Velazques não se mostra violentamente como um autorretrato, ele se coloca descontraído, como se quase não estivesse la, deixando que a luz principal recaia sobre Margaita, filha de Philippe IV e Mariana da Austria que aparecem refletidos no espelho ao fundo.

Para quem Velazques olha? Para o espectador da obra? Para os reis da Espanha (uma das mais fortes potências da época, em plena globalização)? E qual o sentido desse olhar? O quadro estabelece nomes históricos em seu dia a dia de corte, mas também tipos sociais: o rei, a rainha, a princesa, o “bouffon” e, muito importante, o artista. A obra é impressionante pois ela torna o que seria invisível, os bastidores da corte e do artista, visíveis e olha como quem diz: “mire e veja” em sobretudo se reconheça, numa pessoa, num governo, numa sociedade. Será que Velazques não percebia sua vanguarda? Acho que sim, mas naquele contexto o melhor era ser discreto.

Diferente da versão de Picasso (1957), que pôde, graças a uma nova era, assumir sua violência e vanguarda. Picasso muda o olhar em relação a obra. Sem duvidas ele quebra regras, mas justamente ele consegue fazê-lo graças ao conhecimento (consciente ou não) de uma historia em que ele se insere, politica e ao mesmo tempo artística.

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Talvez seja essa uma verdadeira revolução: não negar a história, ou onde nos inserimos nela, mas encontrar uma maneira de ser sujeito dentro dela, de transformá-la. Para isso é necessário mudar o olhar e observar, às vezes friamente, a realidade; e isso pode ser invasivo, pois é um olhar que nos tira da zona de conforto.

Como mostra esse ultimo autorretrato de Parmigianino (1503), ainda mais que os outros pois ele é concavo, e invade o espectador fisicamente, o olhar do outro e a imagem do outro nos remetem a nos mesmos. Nos nos reconhecemos através do olhar alheio e somos obrigados a sair do estado de catatonia quotidiana. Já diria Sartre: “o inferno são os outros”.

 

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Talvez por isso a menina no metrô tenha causado tanto incômodo. Ela quebrou nossa rotina, nossa educação tão fria e polida, nossa falta de interação. Ela nos observou e tirou suas proprias conclusões, e nos deixou pensando sobre os bastidores de nossas vidas que são tão dificeis de serem expostos, mais que os de qualquer corte ou governo… os bastidores da intimidade pessoal que apenas quem sabe ler um olhar e mudar, junto com ele, a forma de ver o mundo consegue se deixar invadir e compreender o outro.

Quatro estações depois a menina desce com a sua mãe arrastando-a pelo braço. Respiramos todos aliviados…

 

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Crônica da dengue ou Ploc, ploc, ploc

Ploc, ploc, ploc.

Vai meu vôo pela via do vácuo. É vácuo do poder.

Ploc, ploc, ploc.

A chuva é minha benção, minha fazenda líquida e meu ninho. Cada gota soa como uma semente. Sou paladino de febre. Você, presa intragável. Mas presa, de qualquer forma.

Ploc, ploc, ploc.

Abaixo a seca! Quem deixou faltar água?

Ploc, ploc, ploc.

Perscruto sala, banheiro e quarto. Faço barba, cabelo e bigode. Estou dentro da sua casa e logo, dentro de você. Sou imperador das manchetes de verão, o faraó da desordem sanitária. Mas não, do Egito é que não venho. Nenhum Atlântico, nenhum Mediterrâneo entre eu e você.

Ploc, ploc.

Sai a fera, entra o bisonho zumbido de querer ser. Sou fino, mato aos poucos. De torpor e de calor, consumo você.

Quem sou eu? Você pode me deter? Vai ter Copa?

 

Zzzzzzz…

Que som é esse?

É o sono? É o sono do poder?

Ou o abocanhar da minha asa, pairando encima de você?

 

Ploc.

Já reservou?

 

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Varsóvia, 2013

COP19

 Ah, Polônia. A casa do clima em 2013. É mais uma gloriosa ocasião para “salvar o planeta”. Agora vai. Estão quase todos os países reunidos, numa espécie de arco-íris internacional para lutar “juntinhos” contra o aquecimento global.

 Estamos no momento solene que precede a abertura oficial. Os jornalistas apontam seus lápis. Lá fora, os ativistas esquentam as cordas vocais para berrar. Nas salas de negociação, os delegados ajustam os nós das gravatas para proferir belas palavras.

Estamos agora na sala mãe da conferência do clima, onde será dado o ponta-pé inicial.

O clima está esquentando.

Vai começar.

(…)

Enquanto isso…

Na terceira fileira, o delegado da Xislândia sussurra no ouvido da delegada da Ypsilonlândia:

E ai, já reservou o hotel de Paris

A limpa

É inevitável. Todo mundo sabe disso (ou vai saber um dia). Chega uma hora em que tem que acontecer. Você pode postergar e postergar, esperando que se faça magicamente por duendes operários enquanto você dorme. Mas não adianta e você tem que cumprir esta tarefa. Pois é, um dia você tem que arrumar o armário.

Sabe aquele armário, lotado de tralha e objetos de utilidade quase nula? Roupas velhas, brinquedos de criança, anotações de cursinho, elucubrações universitárias, poemas tolos que nunca viram luz do sol, brindes de conferências e simpósios são alguns itens que podem povoar aquele armário. É a luta de um único ser humano contra o império das tralhas. Se estivesse ainda vivo, Camões escreveria uma epopéia sobre essa aventura mnemônica.

Oh, céus, mas por que tamanha dificuldade?

Talvez porque realizar a “limpa” do armário é mais que despejar alguns objetos anacrônicos e criar espaços vazios. É terapia. É catarse. É a hora de aparar as arestas com o tempo, ou melhor, com o passado. Explorar as entranhas do armário é um passeio laborioso pela canopéia das memórias, é relembrar-se de encontros passados e esquecidos em algum lugar da caminhada, seja para revisitá-los, seja para deixá-los esquecidos. É colher frutos doces de outrora. Mas também alguns amargos. E, freqüentemente, alguns agridoces. Você vai cavando, encontrando pepitas de tempos dourados, mas também dragões adormecidos e preguiçosas quimeras. Aquele bilhete com telefone da menina mais popular da sala e o seu troféu de tricampeão de bocha.

Há de tudo nos subterrâneos do armário, assim como há de tudo na vida.

Que complicado é passar pelo portal do armário, desvendar o micro-cosmo das prateleiras e das caixas submissas à poeira. Esse momento de  revalidar o contrato de moradia de algumas tralhas e se desfazer de algumas outras. Se desfazer para refazer. Abrir as alas para as novas tralhas…

São tralhas tolas, sem uso nem significado? Tudo porcaria? Talvez.

Mas talvez seja um protesto ontológico contra o fim e a absurdidade deste mundo. Vai saber.

Da grandeza das pequenas coisas

Descobri o livro “O primeiro gole de cerveja”, de Philippe Delerm. Nele, o autor discorre sobre o prazer das pequenas coisas. Fala do prazer indizível do primeiro gole de cerveja acariciando os lábios e adentrando geladamente garganta abaixo, e de outros prazeres pequenos. Da anedota, tece-se uma “micro-filosofia de vida”, que implica capturar e repertoriar estes diminutos eventos carregados de prazer. Eventos que podem passar invisíveis para o olhar frenético de um urbanóide padrão. Eventos  que a vida, essa soma incalculável e “aleatória” de encontros e desencontros, nos oferece. Prazeres sem preço e, ao mesmo tempo, gratuitos. Prazeres tais como observar uma aranha almoçar na perfeição arquitetonicamente de seu ninho. Tais como deixar-se consumir pelo vazio operacional de um domingo à tarde. Tais como alimentar um blog.

24 horas no metrô de Paris

Diário de viagem – Crônica meio imaginada-

07h02: Ouço os choques de centenas de saltos pretos, rumando ao labor. Dantesco sapateado. Frenesi matinal.

08h17: Metrô parado. Acidente com viajante. Leia-se suicídio nos trilhos.

09h50: Hordas de turistas se proliferam pelas veias subterrâneas, misturando-se com os povos daqui. Deixei Paris, desembarquei em Babel.

13h14: A generosa pausa de almoço faz os vagões se encherem de engravatados. Muita classe, pouca face.

13h50: Cheiro de urina. É charme.

14h29: A voz robótica avisa: “Cuidado com pickpockets”.

14h45: Roubado por um pickpocket.  

15h03: Dueto toca Piaf dentro do vagão. Morador de rua pede dinheiro. Um homem pede meu telefone.

16h59: Sentado num banco imundo. Um rato passa ao meu lado. Abro meu sanduíche de frango e espero o tempo passar.

17h12: Olho para as cores humanas que compõem os vagões. De novo, em Babel.

17h31: Um interlúdio composto de silêncio. Acho que é o silêncio que precede a tormenta.

18h00: A tormenta. Empurrões, golpes de cotovelo, onomatopéias. “Roh la la”.

18h01: Sou uma sardinha enlatada, muito prazer.

18h44: Baguetes debaixo do braço.

19h45: O oxigênio retorna aos corredores. Respirar é possível. Respirar é agradável.

21h12: A juventude parisiense brota nos corredores, falando alto e desfilando com garrafas de vinho. Hora de soltar as amarras.

22h30: Um morador de rua prepara seu querido leito sobre os bancos da plataforma. Um engravatado retorna a sua casa desapontado por ter que preparar o seu, sozinho.

01h30: Há briga fugaz e um abraço entre bêbados. Eu me junto a eles.

02h01: O último trem, aquele que carrega todas as desilusões.

05h50: Os ladrões da aurora entram em ação. Carteiras voadoras.

06h11: A cidade está de ressaca. Eu também.

07h02: Atrasado, preciso ir.

Russos Versos de Testosterona

“Há uma mosca na minha sopa,
Uma ratada em meu império.
Querem roubar o meu brinquedo,
Me tirando assim do sério.

Aos camaradas, peço calma.
E façamos à moda antiga.
Já perdemos uma no hóquei,
E eu não quero mais urtiga.

Do porrete, saco a poeira.
Limpo as panelas e o morteiro.
Dou um sopro e jogos os dados,
Avançando no tabuleiro.

Dados rubros, adoidados,
Rolam neste exato momento.
Dos vizinhos, pobres coitados,
Ameaças e anseios.

À mosca, então eu digo:
Eu botei o meu na mesa,
Mas você não amoleceu.

Olha lá, abre os olhos pois,
Tratando desse assunto,
O meu é maior que o seu”.