Uns cálculos

Gosto de números, sabe? É sempre bom ter alguns na ponta da língua para poder argumentar e um deles dificilmente será esquecido: os 65% que concordaram que ‘mulheres que usam roupas que mostrem o corpo merecem ser atacadas’. É em cima desses sessenta e cinco que eu quero fazer uns cálculos. Não seria surpresa para ninguém que uma pesquisa sobre a ‘Tolerância social a violência contra a mulher’ demonstrasse por a + b outra conta que há muito tempo é feita: homem > mulher. É assim numa sociedade sexista, o sinal nessa conta é de desigualdade.  Os números divulgados, ai, os números… Eu não mereço ter que dizer que não mereço ser estuprada, mas é preciso.

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A pesquisa tem poucas e necessárias páginas, recomendo. Ao ler me lembrei do dia em que, aos nove anos, escolhi inocentemente um livrinho com uma menina desenhada na capa para ler em casa. Era sobre direitos das mulheres, eu acho, o que me marcou mesmo foi a descrição vívida de cortarem os clitóris das meninas da minha idade em alguns países. Mal eu sabia o que era um clitóris, mas logo quis saber e proteger o meu, oras! É essa sensação, de medo de violarem o meu corpo, que passa pela cabeça de tantas mulheres todos os dias. No metrô, em casa, no campus da faculdade, nas prisões. A sociedade nos é muito hostil, assim também foram os entrevistados.

Eram postas frases e para cada uma delas o entrevistado deveria responder se: concordava totalmente, concordava parcialmente, era neutro, discordava parcialmente ou discordava completamente. De uma forma muito brilhante, estas frases deixavam cair por terra as hipocrisias e máscaras. Num primeiro momento dá até para ter alguma esperança, afinal 78% concordaram totalmente que marido não pode bater em mulher. Mas, algumas frases depois, eles demonstraram que lá no fundo a lógica que impera é outra. O número cai para 58,4% quando questionados se concordam totalmente que ‘o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros’. Quando surgiram dois ditos populares então, nossa! Apenas 13% discordaram totalmente que ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’, enquanto outros 6,3% discordaram totalmente que ‘a roupa suja deve ser lavada em casa’. É, nem tudo que reluz é ouro.

‘O homem deve ser a cabeça do lar’: aproximadamente, 64% concordaram. ‘Toda mulher sonha em casar’:  79% concordaram. ‘Uma mulher só sente realizada quando tem filhos’: quase 60% disseram concordar totalmente ou parcialmente com isso. Então, qué dizê, as mulheres sonham em casar, apenas se realizam ao procriar e devem ser lideradas em casa pelos seus maridos, numa doce submissão de anúncio publicitário. Eu me arrisco a dizer que se torna inegável o quanto nossa sociedade é machista, patriarcalista e heteronormativa. Conquistamos direitos? Sim, conquistamos. Mas não nos permitiram ser iguais, ainda.

A violência é uma eficaz forma de controle, em todos os casos, e não seria diferente nessa relação de desigualdade entre homem e mulher. A violência doméstica é o mando do homem sobre o espaço privado. A violência sexual é o mando do homem no espaço público. Mas saber que 65%, sessenta e cinco!, concordam que merecemos ser atacadas por mostrarmos o corpo é estarrecedor. Até decidi recorrer a gradação da resposta para tentar acalmar os ânimos, mas ainda assim: 42,7% concordaram totalmente com isso! O restante concordou parcialmente. Agora, meu senhor, o que é concordar parcialmente nessa questão? É dizer ‘é, pode ser que sim’? Não dá, não adianta. É essa cumplicidade com a cultura do estupro que me dá náuseas. Não são estes sessenta e cinco estupradores, mas são eles que promovem a banalização desse crime hediondo.

Outra prova disso é a frase seguinte do questionário: ‘se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros’. Dos 58,5% que de alguma forma concordavam, 35,3 concordaram totalmente. Eu posso concluir duas coisas, um, a mulher não merece respeito, mas se houver tecido cobrindo seu corpo, é favor respeitar o tecido.  Dois, o estuprador é, no final das contas, um educador de mulheres mal comportadas. O estupro é o golpe final, mas não o único. As encoxadas no metrô, o assédio nas ruas, a pressão do estereótipo vêm todas no mesmo pacote.

Podem não cortar nossos clitóris, mas tentam nos convencer a todo custo que não somos donas do nosso corpo e quem dirá da nossa sexualidade. ‘Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama’ foi, sabiamente, outra das frases e 54,9% não querem casar com as mulheres que são sexualmente livres. Que tristeza, não? Quer dizer que algo tão delícia não pode fazer parte do casamento desses obtusos. Olha, pena! Pena para esses homens que vão buscar na ‘pureza’ das mulheres um repositório dos seus frígidos valores sexistas. Pena para essas mulheres que não saberão a beleza pura do sexo. Ambos saem perdendo, mais uma vez.

A escolaridade e menor interferência da religião foram variáveis importantes na maioria das frases. Católicos e evangélicos tendiam muito mais do que a média a culpabilizar a vítima pela violência sexual. Retirar a culpa que a religião impõe aos corpos femininos, a culpa da volúpia, da serpente e da maçã.  A tendência se invertia com o grau de escolaridade e o sexismo se dissipava através da educação.

A matemática pode ter aí um papel, na troca de um simples sinal:

Homem > Mulher

Homem = Mulher

Há quem sambe diferente

Explicar o Brasil não é fácil, quisera eu que alguém o explicasse pra mim! Mas é essa responsabilidade que sinto quando alguém me questiona sobre o meu país em terras lusitanas. Algumas das perguntas eu adoro responder, principalmente as musicais! Todo Lepo Lepo se transforma numa oportunidade de mostrar outra face da música brasileira, que costuma ser sempre bem recebida. Caetano já tem sua fama, Adoniran é sempre garantido, Itamar Assumpção, Jards Macalé e outros malditos apresento mesmo pelo espanto.

Mas, em tempos de carnaval, o que eles querem entender é como se dá essa festa que mora no imaginário mundial. Os estereótipos vem todos juntos e misturados, com muita mistificação, exotismo e erotismo. A Vice publicou a seguinte definição:

CAR.NA.VAL
 s. m.


1. Orgia romana. Só que bem mais colorida, com confetis, música e bebida.


2. Época do ano em que “ninguém é de ninguém”. Todos os corpos estão expostos numa montra de perdição e prazer. Toda gente fica louca e, nove meses depois, a taxa de natalidade do país sobe.

Ai, que preguiça, há quem sambe diferente! Eu aplaco os ânimos e hormônios dos que tem essa idéia dizendo que é uma festa muito diversa e divertida, com sambódromo, bloquinhos de rua, Garantido e Caprichoso no Amazonas, o Galo da Madrugada, frevo, maracatu, putaria, festa de família. Frustração em alguns, curiosidade em outros.

Temos sempre pano pra manga! O Brasil é sim o país do Carnaval, do B do Brics, do tamanho de um continente, do povo simpático, da feijoada, da floresta e do Cristo, da Copa e da Olimpíada. Somos também o país das favelas, de tenebrosas transações, dos recentes protestos, do PCC, de Amarildos, de Felicianos e de Sheherazades. O interesse é crescente, seremos manchete de muito mais notícias esse ano e estamos na boca do povo.  As perguntas têm evoluído, assim como seu grau de dificuldade.

Aguardei ansiosamente a edição de hoje de um dos principais jornais do país, o Público. Essa quarta-feira de cinzas é o aniversário de 24 anos do periódico e a edição foi dedicada ao Brasil, tendo a Adriana Calcanhotto como diretora. Achei que seria importante saber o que andam falando de nós por aí, pra saber o que falo ou rebato sobre nós por aqui. Quero dividir algumas coisas que me chamaram a atenção…

Brasil descoberto? B de Banana? Oi? Engoli a seco e, para sobreviver até a última página, ia deixar passar uma escolha publicitária no mínimo duvidosa.

Brasil descoberto? B de Banana? Oi? Engoli a seco e, para sobreviver até a última página, ia deixar passar essa escolha publicitária no mínimo duvidosa.

O editorial da Adriana Calcanhotto me fez torcer pra que ela entrasse por essa porta agora, dissesse que me adora e em meia hora voltasse atrás em algumas palavras. Mas ela logo avisou que era difícil falar de um país tão inapreensível. Eu aí então me identifiquei com a corda bamba que é fugir de estereótipos e da chatice que é só falar mal do Brasil. É preciso estar atento e forte para não recair sobre o samba ostentação, do meu Brasil Brasileiro, grande pela própria natureza. Dá saudade e por vezes o Brasil é tudo isso pra mim, é o carnaval do Rio de Janeiro, a Bahia da Tropicália, a São Paulo do multiculturalismo e todas as nossas incríveis paisagens naturais. Aí eu lembro de todo resto e tento equacionar numa resposta convincente às perguntas, inclusive para as minhas.

No mais, o resto da edição foi surpreendente! Eles também estavam nesse exercício de desconstrução e conseguiram em boa parte mostrar nossas peculiares incongruências. É engraçado como até fico espantada com a habilidade do jornalismo em propor questões e mostrar diferentes olhares depois de tanta Folha e Estadão na minha vida. Mundial 2014: delírio tropical ou porta para a modernidade? Bolsa família: instrumento eleitoral ou combate inevitável a pobreza? O apartheid educacional no Brasil. Com grifo especial para a última manchete, apenas afirmativa, que foi das mais corajosas ao expor as dificuldades do ensino público e dos próprios professores. Ah, sobre as manifestações, tópico citado em diferentes matérias, a única pessoa que usou a palavra vândalos foi a nossa própria Adriana.

Ainda bem que em Portugal há quem olhe o Brasil além do B de Banana! Agora, imagina na Copa…

Três contos lusitanos

Há quem diga que a melhor forma de passar o tempo dentro do transporte público é ler um livro, ouvir uma música. São boas, mas gosto mesmo é de encarnar a psicóloga-socióloga-voyeur! Olho para aquele amontoado de relações humanas e não consigo me conter, quero observar o que se passa. Tento ler os títulos dos livros e imaginar porque foram escolhidos. Adoro quando ouço uma história de amor, uma fofoca. Fico sentida quando vejo gente chorando. Para alguns eu adoraria dar dicas de moda: legging marca a celulite. Para outros, dicas de higiene: o bilhete é tão importante quanto o desodorante. Como não posso, guardo para contar depois.

Faz pouco menos de um mês que me mudei para Lisboa e o hábito está cada vez mais forte, acho que é o sotaque que atiça ainda mais minha curiosidade! Comecei até a tomar notas do que vejo por aí… Escolhi três breves histórias de três meios de transporte para compartilhar.

Esparrela Mapa

O autocarro da loucura

O autocarro 735 Hospital Santa Maria me leva todos os dias até a faculdade e nele acompanhei uma das cenas mais tristes na minha carreira de analista barata dos transportes. Um senhor, possivelmente um dos muitos imigrantes das ex-colônias, sentou-se e começou a falar com um conhecido sentado mais ao fundo. O colega se despede e desce no próximo ponto. Ele continua a falar, dessa vez sozinho. Não percebi nada no começo, eram algumas frases, alguns sorrisos.

Entram três ciganas pouco mais adiante e o teor do monólogo se altera, elas se tornam o alvo de uma ira gratuita de forma como nunca vi. Estão de tênis para não fazer barulhos ao nos roubarem! Com a voz alterada, exclama que é um absurdo a Europa abrir-se para este povo. Deveriam todos morrer! Duvido que tenha sido a primeira vez que elas, ciganas, lidavam com a xenofobia. Apenas se entreolharam, com um desconforto resignado, até o fim do trajeto. Desceram sobre outros berros, ameaças e gestos.

Surge outro velhinho, muito velhinho no autocarro. Sentou-se por perto e, notando a raiva no companheiro de viagem, começa a dizer com um carinho familiar:

– Não deves ficar sem a medicação, há de tomar todos os dias! Eu tomo todo dia, sagradinho! É assim que damos a volta à essa condição!

O senhor não o responde, apenas sorri contrariado e fica em silêncio até o ponto final. Ódio, xenofobia e fascismo são sintomas de uma violência demente. Lamentei pelo senhor e desejei que em seu remédio ele encontrasse alguma empatia pela humanidade.

O comboio da crise 

A crise está por todo lado, em todas as conversas, em todos os salários.  Este tema recorrente não poupou nem a literatura. Era uma conversa de telemóvel no comboio a caminho de Coimbra:

–       Olha, ele não tá a ver que não se pode com tantos livros! Um homem de quarenta e tal não tem como se dar ao luxo de ter uma biblioteca. Com os livros não se faz nada de jeito!

–       …

–       Oh, tá-se bem, cultura, mas só os lemos uma vez! Ele deveria vendê-los ao invés de deixar dinheiro empoeirar.

–       …

–       Pois, é por isso que devem se desfazer dos livros, é um quarto a menos. Pagar por um T3 para ter um quarto para os livros é um disparate! Ainda mais com o dinheiro que farão com a venda deles!

–       …

–       Tás a ver? Não podemos mais viver à fartazana…

–       …

–       Fale com ele! Porta-te bem. Beijinhos!

O metro do amor  

Aguardava o metro chegar na estação Colégio Militar/Luz, sentada no banco ao lado de um casal. Cinco minutos de espera, de acordo com o placar instalado no teto. O silêncio era apenas interrompido por tosses doloridas e alguns espirros. Não havia palavras, mas sinais. Sinais que eu logo reconheci: amor. Sem movimentos bruscos, muito menos românticos. Uma prova de companheirismo subestimada frente às grandes declarações, mas ainda assim amor.

Era apenas aquele carinho que damos aos nossos queridos doentes, desejosos de que nossa insistente presença retire dali qualquer enfermidade. Ela apertava seu corpo contra o dele, com todo o desdém frente ao contágio. Eu, pelo contrário, já estava imaginando o trajeto dos vírus ou seja lá o que fosse para saber se estava no raio de alcance. Eu  não o amava, mas ela… a cada tosse o carinho se tornava mais forte, segurando seu braço e apoiando a cabeça em seu ombro.

 

Emaranhado prisional

Era uma sexta-feira a caminho da faculdade, ônibus vazio, dia nem frio nem quente. Ia descer e estranhei o esbarrão que levei logo à porta. Mãos na bolsa, o celular que eu havia acabado de guardar já não estava mais lá. Não reagi bem, não julgue por aí. Tentei argumentar, pedir, segurar a mão, fazer cara de dó. Ele tentou descer, me agarrei e desci junto. Falávamos em espanhol, ele era peruano, 42 anos. Surge o outro integrante da dupla de dentro do ônibus, que pega meu celular e corre. Tumulto. Ponto de ônibus, nervosismo, gente ao meu redor. Fomos cercados.

Ele entrou em uma viatura, eu e a testemunha em outra. No caminho começaram os impropérios: “ainda bem que vocês apareceram!”, “vocês tem que dar uma prensa nele”; “é boliviano, aposto”; “eu o algemei, não podia ter feito isso, então diga que você viu a mão dele na sua bolsa”. O Patrick, policial formado em Recursos Humanos que busca coisa melhor, me acompanhou o tempo todo e torcia o nariz quando eu balbuciava, entre as lágrimas, coisas como “mas eu não gosto de prisão”. É, poderia ter sido uma boa esquete. Foram 4h na delegacia, saímos os dois ao final. Um celular a menos, muitas reflexões a mais e eu continuo não querendo mais presos. Os episódios recentes me deram uma boa oportunidade de falar o por quê.

ESPARRELA

O presídio de Pedrinhas, Maranhão, conseguiu transpor seus muros e expor velhas e generalizadas mazelas do sistema carcerário brasileiro. Já foram 63 detentos mortos desde 2013, todos com um toque de idade média. A gravação de um desses momentos chegou ao lar da opinião pública e a turma do ‘bandido bom é bandido morto’ diminuiu o volume, ao menos por enquanto.  São 2.500 enjaulados em Pedrinhas, 47% a mais do que a capacidade do presídio. A superlotação, a insalubridade, a falta de suprimentos, a dissecação dos membros! Tudo isso com a tutela de governadores, promotores, juízes e muita ‘gente de bem’. Não é exclusividade da família Sarney, ainda que sejam eles os protagonistas da política maranhense que chancela a pobreza e licita lagostas.

A questão prisional já conquistou manchetes anteriormente, não pelo meu celular subtraído e o drama classe média sofre aqui compartilhado. Mas quando em 2009 a Conectas expôs a situação nos presídios do Espírito Santo, com corpos desmembrados em carrinhos de roupa, isolamento em contêineres metálicos ao sol e muito mais. Até mesmo em São Paulo, quando em 2006 a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA buscou intervir na prisão de Araraquara, que soldou as portas de uma ala com quase 1.600 detentos, alimentando-os com comida jogada por um buraco no teto e outras inúmeras medidas criativas.

É encarcerar sobre essas condições a solução preferida de nossa sociedade excludente, retirando do seu convívio os ‘bandidos’ e ‘marginais’. Medidas socioeducativas? Penas alternativas? Reinserção na sociedade? A resposta é simples: prender! Isso explica como nos últimos 20 anos a população carcerária cresceu 380%, enquanto a população brasileira cresceu 30%. São quase 550 mil brasileiros em prisões, e ainda assim faltam outras 207 mil vagas. Conquistamos o quarto lugar no ranking de maior população carcerária do mundo, perdendo apenas para Estados Unidos, China e Rússia. Dentre nossos presos, 42% estão em prisão provisória e aguardam dentro das celas a condenação definitiva.

Essa tentativa de retirar do convívio dos humanos direitos é a ilusão de que nos excluímos deste emaranhado prisional. Lamento informar que réus, presidiários, vítimas, bandidos, marginais, gente de bem, Datena, o peruano, eu, você, nós continuamos parte da mesma sociedade. O crime é a expressão da disputa pelo acesso à riqueza, aos bens de consumo, ao celular (!), ao tênis, à comida. O aprisionamento é acompanhado da desumanização.

A pena vai muito além da privação do direito de ir e vir, é ampliada a todos os outros direitos numa espécie de vingança. Essa cegueira voluntária frente à condição carcerária fornece o álibi para nossa inerente cumplicidade com tantos outros crimes que são cometidos dentro e fora de nossas cadeias. O choque causado por Pedrinhas diminuiu por ora os ânimos dos justiceiros de plantão. A crueldade que se atingiu ali é mesmo indigesta. Ela é a mimetização da crueldade imposta pela sociedade e pelo Estado na relação entre os próprios presidiários.

Não se engane repetindo que devemos recrudescer as penas, construir mais presídios ou reduzir a maioridade penal. Realmente, só assim caberiam todos os presos que nossa sociedade anseia: o pobre, os negro, a galera do rolezinho, o pedinte, a puta, o vândalo, o boliviano. O atual sistema penal está fadado ao fracasso, falido, c’est fini! A questão não é apenas ter mais e melhores prisões, mas sim almejar o seu fim e entender que ele implica numa sociedade cada vez mais justa.

Mulher é…

Periguete. Feminazi. Puta. Pra casar. Gorda. Gostosa. Fácil. De respeito. Rodada. Direita. Ser mulher é andar na corda bamba dos rótulos sociais, numa vigilância incansável dos fiscais da moral e bons costumes. Nosso corpo é alvo de julgamento constante, inclusive de nós mesmas.  A violência contra a mulher toma muitos formatos e atinge 70% das mulheres do mundo em algum momento de nossas vidas. Pode isso?

Não! O dia de hoje, 25 de Novembro, é o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. Este ano o IPEA divulgou uma pesquisa sobre a violência contra a mulher no país e a coisa tá feia. Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que já foi vítima de violência, e para 70% da população a violência dentro de casa é mais forte do que a dos espaços públicos. No país da Maria da Penha, muitas mulheres não chegam a denunciar a violência que sofrem por acreditar que não haverá punição. O feminicídio faz no Brasil, em média, 5.664 mortes por ano, o que equivale a uma vítima a cada 90 minutos. Os parceiros íntimos são responsáveis por 40% desses crimes, enquanto a proporção no caso de homens assassinados é de 6%. O que, com algum eufemismo, sugere fortemente que o gênero é o fator preponderante. A maioria das vítimas era negra (61%) e baixa escolaridade (48%). Mulher, preta e pobre chega a ser quase uma maldição. O óbito é a expressão máxima do machismo, mas também se deve estar atento às formas mais sutis.

Eu nunca fui sujeita a violência doméstica, meus pais não me educaram de forma sexista e eu pude crescer sem sentir o forte machismo em meu cotidiano. Posso me considerar bastante sortuda frente a esses números. Meu erro é esperar que essa sorte continue nesse mundo véio sem porteira assim que saio de casa.

Muitas são as técnicas para evitar o desgosto dessas situações: mudar a forma de vestir, escolher caminhos alternativos, evitar o contato visual, não usar transportes públicos ou andar de fones para não ouvir comentários indesejados são alguns exemplos. O debate sobre o assédio nas ruas ganhou força com a campanha Chega de Fiu Fiu, que questionou quase 8.000 pessoas. A relação entre cantada e violência física é nítida: 85% das respondentes já foram agredidas fisicamente.

Quando abusos acontecem, ainda somos obrigadas a aturar outra face do machismo resumida em “mas ela pediu por isso”. Essa brilhante análise é feita por homens e mulheres com base em: tamanho de saias, maquiagem, decotes, teor alcoólico no sangue, entre outros. Quando nenhum desses itens é encontrado, talvez o homem seja culpado. Talvez.

O machismo tem impacto também na vida dos homens, rotulando qualquer desvio do comportamento neanderthal como bichice. Sempre que o homem se feminiliza, ele desce um degrau na cadeia hierárquica, afinal, quanto mais próximo de uma mulher você for maior será o desprezo. Chorar? Demonstrar sentimentos? Vaidade? Coisa de menininha. Aqui, nesse país de cabras machos, não pode não!

Mas não se iluda de que lá no famigerado primeiro mundo as coisas estejam resolvidas. Recentemente a Bélgica foi estremecida com 17 minutos de um documentário chamado Femme de La Rue. Sophie Peters gravou com uma câmera escondida o seu caminho pelas ruas da capital Bruxelas e registrou os impropérios pelo caminho. Resultado: o país instaurou uma multa de 75 a 250 euros para quem assedia mulheres na rua. Simplório e paliativo, por mais que passe uma mensagem.

Outras soluções são ainda mais questionáveis, como vagões apenas para mulheres no metrô, o que já acontece no Rio de Janeiro. É um cercadinho onde os homens não podem chegar e assim as mulheres teriam paz. Mas e o restante do espaço público? Transforma a mulher em coisa pública também? Entender isso como avanço é negligenciar a inércia que traz, sem alterar a lógica que torna aquele ambiente hostil e toda mulher em puta. Apenas quando questionarmos da mais sutil forma de violência ao feminicídio é que rompemos esse ciclo. Que esse dia sirva para refletir sobre os preconceitos que estão dentro de todos nós e nos comentários maldosos, nos olhares maliciosos e nas desculpas esfarrapadas. Até porque não há nada mais sexy do que homens feministas e mulheres livres.