Polícia para quem precisa?

Por Hannah Maruci e Leonardo Calderoni

A polícia dos séculos XV e XVI foi criada não apenas para garantir a ordem e reprimir revoltas, mas para assegurar a saúde, a higiene e os padrões urbanos das populações. Essa polícia tinha como principal dever orientar a população à salvação.

Tal função é mantida no Estado moderno. No entanto, essa salvação não está mais direcionada à salvação em um outro mundo, mas nesse mundo. Esse termo adquire, então, novos significados. A pergunta que se faz agora é: afinal, do que estamos sendo salvos? Já fomos salvos das bruxas, dos comunistas, dos transgressores, dos terroristas etc. E hoje, quem são os pertubardores da nossa harmoniosa ordem social na qual ninguém tem motivos para revoltar-se?

Os saldos das manifestações são sempre medidos em termos de prejuízos materiais: 12 agências bancárias destruídas, 150 reais roubados, três latas de lixo queimadas, 10 catracas estraçalhadas e assim por diante. Os danos “menores”, aqueles direcionados às pessoas, são tratados de forma secundária. A não ser que se trate de um policial agredido por um “vândalo”. A polícia está aí pra nos salvar? A polícia está aí pra assegurar a propriedade e qualquer atentado contra esse bem é passível de punição. Para a classe média: balas de borracha; para os pobres: balas de verdade. Não seremos salvos pela polícia, precisamos nos salvar da polícia. Ainda mais se esta é a Polícia Militar.

Vale sempre lembrar que a Polícia Militar brasileira é uma instituição reconhecida internacionalmente. Não por sua excelência, mas por sua truculência. A ONU (e não os black blocs) recomendou expressamente que o Brasil acabasse com suas Polícias Militares, desmilitarizando suas forças de segurança pública. E por que a ONU fez isso? Por desconhecer a realidade brasileira? Pelo contrário: por conhecer a nossa realidade melhor que muitos brasileiros.

Só para dar um exemplo macabro: a Polícia Militar do Estado de São Paulo matou, durante o mesmo período de tempo, mais do que todas as polícias dos Estados Unidos da América juntas. E isso segundo estatísticas da própria Polícia Militar! Se imaginarmos o que não deve ter entrado nas estatísticas da instituição, o quadro se torna ainda mais assustador. É claro que como a quase totalidade desses mortos tem um perfil social bem definido: jovens, pobres e negros, moradores das periferias, favelas e outros rincões de pobreza, a estatística não desperta o furor permanente da “opinião pública”.

Em contraste, é só pensar como reagem os jornais quando um jornalista ou um empresário em um bairro nobre sofrem com alguma ação policial truculenta. Há evidentemente diferentes medidas para a desmedidas ações da instituição militar. A diferença é que a matança da “gente diferenciada” já está há muito normalizada; qualquer abuso aos “cidadãos de bem”, por sua vez, não estão e não podem ser naturalizados. Por isso, quando os movimentos sociais que buscam denunciar a violência policial falam em “genocídio da juventude negra”, eles infelizmente não estão exagerando em sua caracterização.

O problema é que para grande parte da sociedade e dos formadores de opinião, quando se trata sobre a Polícia Militar no Brasil, há quase sempre uma narrativa pronta para justificar o injustificável. A mais recente tem sido a seguinte: “Havia um protesto pacífico, até que vândalos doidos sem pai nem mãe começaram a fazer atos de vandalismo. Só aí a ação policial, sempre respeitadora da lei, começou”. E assim nos “esquecemos” que há pouquíssimo tempo atrás a polícia estava prendendo pessoas por “porte de vinagre” nas manifestações e que, entre outros abusos, ela prende pessoas ilegalmente de maneira sistemática.

Exemplo recente dessa prática foram as prisões de dois estudantes de Filosofia da USP durante a ação de reintegração de posse da reitoria ocupada. Como não encontraram alunos dentro da reitoria, a Polícia simplesmente resolveu, para “mostrar serviço”, prender dois estudantes que passavam pelos arredores do local, a despeito do “pequeno e irrelevante detalhe” de que eles não se encontravam na ocupação!

Além de serem indiciados por dano ao patrimônio público e furto qualificado, conseguiram também ser indiciados por formação de quadrilha. Esta última acusação é especialmente “curiosa”, afinal se tratavam só de dois acusados e a definição literal e jurídica de quadrilha é três ou mais pessoas. Só duas pessoas não formam nunca uma quadrilha; podem no máximo um tango ou um forró. Fizeram-no, é claro, não porque sejam ignorantes ao ponto de não saber o que é uma quadrilha de fato, mas porque isso dificulta o processo de soltura. “Formação de quadrilha” virou uma espécie de supertrunfo das polícias para criminalizar a atividade política.

Assim, mais uma prática policial característica da ditadura se perpetua. A prisão justificada pelo crime da “transgressão” aparece agora com outros nomes, mas mantém a mesma lógica que prendia (torturava, desparecia, matava) aqueles que desafiavam a ordem.Muda a Constituição e mudam os estatutos jurídicos, mas segue, em suma, a criminalização da atividade política.

Enquanto não entendermos de uma vez por todas que a truculência e o despreparo das polícias, e em especial das Polícias Militares, são males estruturais e não “casos pontuais”, continuaremos a conviver com toda essa sorte de abusos: das patéticas prisões por “porte de vinagre” e por “formação de quadrilha de 2 pessoas” ao genocídio da população carente, suspeita a priori pelo simples fato de existirem enquanto pobres. Por mais difícil que o debate sobre a extinção (ou desmilitarização) das polícias seja, é imperativo travá-lo com seriedade e destemor. Afinal de contas, quem é que realmente precisa de polícia?

Monica Cambulão

 

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Os 10 mandamentos do Rei da MPB

Eu sou Leonardo Calderoni, tenho 26 anos, sou estudante e essa noite eu vou ouvir MPB.

Os 10 mandamentos do Rei da MPB são os seguintes…

1. Roupas de grife

Primeiro: você tem que se vestir com as melhores roupas das grifes mais descoladas, que são: Hering, TNG, Ópera Rock ou melhor ainda: uma camisa confortável que você achou em um brechó.

2. Chico Buarque

Em casa, no carro ou mesmo a pé, você tem que ter um vinil ou um CD player potente que dê pra ouvir bastante Chico Buarque. Chico Buarque é um mito, suas músicas são um sonho de consumo de qualquer pessoa em qualquer lugar. Chama a atenção e toda mulher gosta.

3. Bar com música ao vivo

Quando a pessoa tá ouvindo MPB em qualquer lugar, ela é só mais uma. Agora quando a pessoa tá perto de uma banda ao vivo em um bar de MPB como o Roda Viva, ela acaba ficando em evidência porque uma boa banda é uma questão de statis, é uma questão que todo mundo quer. E a conta você sabe né, só em breja e batata frita pode ir de 15 reais ao infinito por pessoa, 40, 50, 60 conto.

4. Tratar bem os garçons/garçonetes

No bar de MPB sempre tem um ou mais garçons/garçonetes que acabam servindo eu os meus colegas. Precisa tratar eles bem, não só porque eles podem cuspir na tua comida ou urinar na tua bebida, mas sobretudo porque eles trabalham pra caralho e o mínimo que você pode fazer  é não ser um cliente babaca.

5. Segurança: vá de taxi

Eu vou pro bar de MPB de taxi até pela minha integridade física quando preciso. Infelizmente as pessoas acabam até por bobeira né, tem um pouco de infantilidade né de querer dirigir depois de tomar várias, então faço isso até “pra mim” ter cuidado com a minha vida mesmo e com meus bens.

6. Breja

Vou ser muito sincero: a questão da breja. Eu gosto mais de tomar um vinho, mas a breja com MPB são statis entendeu, até porque existe toda uma preparação para ela ficar estupidamente gelada. Quando você pede umas breja o que acontece? Elas vêm todas geladas, combinam com a batatinha frita, então é uma coisa que chama a atenção no bar.

7. Canções famosas

Outra coisa importante é conhecer músicas famosas, clássicos de artistas consagrados da música brasileira, aqueles que de vez em quando são perseguidos pela mídia, são fotografados comprando baguetes ou fazendo quaisquer trivialidades. Isso com certeza agrega a tudo, agrega à breja, à batatinha, à companhia dos amigos, agrega a tudo.

8. Amigos

No bar de MPB tem que ter amigos, uma companhia, pessoas gente boa. Porque não faz sentido você ter tudo aquilo ali e não ter ninguém junto. É que nem cê comprar um Boeing e colocar um piloto de teco-teco pra pilotar.

*

Sabe de uma coisa, mas aí eu acho que é pesado… (fala!)

Eu já ouvi MPB urinando… rs… no banheiro… rs

*
9. Música

Os bares que gosto de frequentar são os que além de MPB tocam samba tradicional, Bossa Nova, música brasileira atual e antiga, de Noel Rosa a Los Hermanos.

10. Curtir a companhia

Quem tá no bar tem que curtir o momento da conversa. Pode até tirar uma foto ou outra, mas se ficar muito no Instagram não é legal, tem que esquecer um pouco essa mania de fotos e vídeos.

Quem não queria ir para um lugar tranquilo, tomar uma boa breja, comer uma batata frita, ouvir música de alta qualidade e jogar conversa fora com os brothers? Sei que muitos vão te criticar, propor outros rolês, mas enfim, eu vejo isso como uma inveja.

Rei da MPB (2)

PS: se você é uma das poucas que não conheceu o “Rei do Camarote” ainda e não entendeu do que se trata esse texto, veja este vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=atQvZ-nq0Go.

Pepe Mujica e a necessidade pragmática de sonhar

Por Leonardo Calderoni

Faltam bons adjetivos no dicionário para definir o discurso que Pepe Mujica, presidente do Uruguai, fez na Assembleia Geral da ONU. Em cerca de 40 minutos, ele conseguiu tocar com profundidade e simplicidade ímpares nas grandes questões do mundo e da humanidade. Antes de tudo, recomendo que tire um tempinho para ler e/ou escutar esse discurso, clicando aqui. Se não quiser ler o que tenho a dizer depois disso, para mim está muito bem. Mas, por favor, se faça esse favor. Não será um tempo perdido.

Poderíamos partir para diversas reflexões a partir do que disse Mujica. Mas agora o que mais estou pensando é como a nossa geração perdeu a capacidade de sonhar. Como nos tornamos muito mais “pragmáticos” e “realistas” para lidar com a nossa vida e de alguma maneira extremamente cínicos ao mesmo tempo. Tão pragmáticos em nossa esfera individual que acabamos sendo incapazes de pensar pragmaticamente em nosso futuro coletivo.

Penso nos inúmeros jovens que já com seus 18 anos ou menos adotam um discurso ultrapragmático e conformado em relação à vida. Ou em todos que, mesmo quando tentam desviar-se um pouco desse caminho, enxergam esse desvio como algo absolutamente temporário, “coisa de jovem”. E aí chega o Pepe, com seus 78 anos e tudo que já passou na vida e consegue, sem perder por isso a lucidez, idealizar sobre um mundo melhor e a necessidade de sonhar e lutar por ele. Coletiva e politicamente.

Quando converso com pessoas mais velhas e estudo sobre a geração do Maio de 68, me dou conta de que talvez naquela época os jovens pecassem pelo excesso de idealismo. Talvez tenha lhes faltado pragmatismo para ir mais longe. Hoje mal damos um passo adiante porque somos tão “realistas” que acabamos nos conformando. De alguma forma sonhamos porque sonhar é uma necessidade humana, mas nossos sonhos são em geral de realização individual. Ter um “bom” diploma, um “bom” emprego, um “bom” status etc. E temos uma brutal dificuldade de sonhar e agir coletiva ou politicamente, mesmo quando tentamos sinceramente fazê-lo. O problema é que as grandes mudanças, as que mais importam, para além de “se dar bem na vida”, demandam a força coletiva e não presunçosas individualidades.

Quais são as soluções para reverter isso? Será que a partir dos últimos acontecimentos de mobilização, abre-se uma brecha para romper essa inércia individualista? Não sei. E tampouco estou aqui julgando moralmente as pessoas: de certa forma é até natural que em geral elas ajam assim pela maneira que foram criadas e educadas e por não sentirem que haverá alguém ao lado delas se realmente precisarem. Sejam quais forem os caminhos de reverter esse quadro, eles também não surgirão de uma cabeça apenas ou da ação de uma pessoa, por mais capaz que ela seja.

De qualquer forma, as palavras de Mujica podem nos servir para, ao menos, percebermos a dimensão da armadilha em que nós estamos. Independente das divergências que tenhamos, Mujica deixa claro com sólidos argumentos que as consequências de pensarmos e agirmos tanto individualmente é muito clara para nós enquanto humanidade: não teremos futuro. Nosso modelo de sociedade de consumo é perverso sob diversos aspectos e ecologicamente insustentável. O maior e mais nefasto idealismo será a crença de que poderemos viver como vivemos para sempre. Nesse cenário, sonhar com outro mundo torna-se, irônica e poeticamente, uma questão de pragmatismo.

Ora, sem medo sonhemos, portanto.

Pepe Mujica

Mensalão: crônica de uma indignação seletiva e de um (não) debate sobre a corrupção

Por Leonardo Calderoni

Vira e mexe, vem gente querer discutir comigo o ingrato assunto: mensalão. Minha timeline no Facebook, bombardeada de posts sobre os embargos infringentes (muito deles com uma abordagem nada moderada sobre o assunto). Não entro mais em discussões sobre o caso e busco evitar o assunto porque grande parte das pessoas perdeu faz tempo o senso da razão para discutir a questão com alguma civilidade e racionalidade. Claro, por trás disso, há paixões políticas e é normal que isto ocorra até certa medida. O que mais me irrita, no entanto, é como o debate é recheado de dois pesos e duas medidas e como se discute o mensalão como se este caso em si e por si só e seu desfecho fossem supostamente os definidores de um futuro Brasil mais corrupto ou não.

Diferentemente de Celso de Mello, resolvi ceder à pressão e vou escrever o que eu penso sobre os embargos infringentes, que é o assunto da hora e do mensalão em geral, tentando trazer alguma racionalidade para o debate e tentando dele tirar algumas lições. Doravante, toda vez que me perguntarem sobre o mensalão e afins, passarei este texto. Minha vida melhorará substancialmente.

E eis que a República está supostamente em polvorosa (pelo menos se a medida disso fosse a grande mídia) porque o STF, afinal, acatou a admissibilidade dos embargos infringentes. O que são embargos infringentes (muitos parecem condená-los sem saber bem do que se tratam exatamente)? Configuram eles o direito a um novo julgamento para alguns crimes que tiveram pelo menos 4 votos contrários no primeiro julgamento (como o de formação de quadrilha para o José Dirceu). Com isso, os réus podem ter algumas reduções de pena ou ser absolvidos por parte dos crimes pelos quais foram originalmente acusados. Na prática, o que está em jogo é se Dirceu e alguns outros réus terão que começar a cumprir suas penas em regime fechado ou não e se a tese do Mensalão-quadrilha seguirá tendo respaldo jurídico (talvez isso cause deixe os ânimos mais a flor da pele do que qualquer outra coisa). Ao contrário do que disse o ex-presidente FHC, se o STF passar a desconsiderar que houve formação de quadrilha, muda-se, sim, a “essência” política do julgamento, porque a imagem da quadrilha é fundamental para quem retrata o Mensalão como uma espécie esquema maquiavélico-demoníaco diferente de todas as outras corrupções que o país já teve.

Ok. Então o circo foi armado. Até colegas de STF foram coagir o ministro Celso de Mello (que não cedeu) a mudar de posição sobre os embargos. Escreveram até colunas em grandes jornais (jogando no lixo a Lei Orgânica da Magistratura, diga-se de passagem, ao tomar tal atitude), para não falar dos inúmeros colunistas falando em “pizza” e tudo mais. Celso de Mello, outrora herói de destaque na GloboNews por ter feito um voto muito duro e incisivo pela condenação dos réus, agora torna-se uma semi-persona non grata para os mesmos setores. Estão meio chateados com o decano.

Ocorre que diga-se o que quiser de Celso de Mello, ele manteve uma posição coerente ao aceitar os embargos infringentes. Lá atrás, em 2012, no começo do julgamento, a defesa dos réus solicitou o desmembramento do julgamento (ou seja, que os réus fossem julgados individualmente e começassem a ser julgados em instâncias inferiores quando não coubesse privilégio de foro), o mesmo ministro citou a possibilidade de embargos infringentes para justificar o não-desmembramento. Se o julgamento fosse desmembrado e fosse para instâncias inferiores, os réus poderiam apelar várias vezes de suas eventuais condenações, até que o caso chegasse às instâncias superiores novamente. Certo ou errado (eu acho que está errado do jeito que está), é assim que a Justiça brasileira funciona e não é de hoje. Mas aí o Celso de Mello disse, em seu voto, basicamente o seguinte: ok, não vamos desmembrar, vocês vão começar já no STF essa ação e não ter as possibilidades de recursos e apelação (afinal não há tribunal acima do STF), mas não se preocupem, há possibilidade de recursos porque existem os embargos infringentes para condenações apertadas.

Minha pergunta sincera, então, é: por que esse nível de escândalo com a posição do ministro e dos outros que, por motivos similares ou outros, o acompanharam nessa posição?

Vamos lembrar de um “detalhe” importante: o mensalão mineiro, do PSDB, teve o pedido de desmembramento aceito pelo STF. Sim, a despeito das inequívocas similaridades, neste caso o STF o aceitou! Então, se a lógica que motiva o escândalo é que o STF está impedindo um julgamento célere e de que fato não implique em impunidade, o caso do PSDB deveria causar tanto ou mais escândalo. Primeiro porque começou antes do caso petista (muito antes) e ainda não foi julgado. Segundo porque ao aceitar o seu desmembramento, corrijam-me se estou errado, possibilita-se muito mais manobras e recursos por parte da defesa.

Então, sinceramente, essa conversa toda ultra-recheada de indignação seletiva não tira o meu sono. É mais de um dos capítulos dessa farsa que querem fazer-nos engolir de que a corrupção começa e termina no PT. O PT não inventou (e também não terminou, como advogava que faria tempos atrás e agora está pagando o pato) com a corrupção no Brasil. O PT não é o partido que redimiu a ética da República e nem aquele que criou os seus vícios éticos e muito menos uma fonte única e exclusiva desse mal. Entendam isso. Tampouco adianta falar que “todos os políticos são corruptos”, mas só vociferar energicamente a indignação quando quem está na berlinda é o PT.

Esse “dois pesos e duas medidas”, evidente a qualquer um que acompanhe minimamente os fatos e não os obscureça por conveniência política, cegueira ideológica ou quaisquer outros motivos, do qual a postura da grande mídia é a grande representante, é o que não contribui para que a gente combata corrupção de verdade no Brasil.

A melhor maneira de julgar eticamente um ator político (seja ele um parlamentar, um órgão de imprensa, uma setor de sociedade, o que seja) não é observar o seu comportamento em relação aos seus adversários, mas ver como ele age consigo mesmo e com seus aliados. Falar das feridas alheias, principalmente em relação a quem não gosto, é extremamente fácil. Difícil mesmo é falar das próprias feridas, das feridas daqueles a quem temos apreço. O mensalão mineiro, o caso do metrô de São Paulo (que está circulando há anos em meios mais alternativos e só veio à tona na grande mídia quando ficou muito evidente), provam isso de maneira cabal. O benefício da dúvida aos aliados é proporcional ao ímpeto de condenar antecipadamente os adversários. Grande lição de ética e republicanismo, não é mesmo?

Estou esperando, sem muito otimismo, que os tempos mudem e chegue um dia diferente, um dia no qual possamos qualificar muito mais nossos debates políticos. Não custa sonhar que eventualmente vamos discutir não tanto o corrupto da vez, mas reformas políticas, eleitorais, judiciárias e outras tantas mais que, de verdade, podem coibir vícios como a corrupção. Seja ela azul ou vermelha.Calderoni luto

Meu luto é pelo nível desse debate

Queria ser poeta

Por Leonardo Calderoni

QUERIA SER POETA

 

Mas não palavreio como Leminisk

Não tenho o rio e o Tejo de Caeiro

Menos ainda o tato de Luiz Tatit

E nem sei fingir como Pessoa

Só sei falar mediocremente sobre política:

Tampouco tenho a firmeza de Bandeira

Compartilho da náusea de Drummond

Mas não de sua flor

Como poderia eu assim

Verbalizar aqui a minha dor?

Minhas rimas são duvidosas

Minha métrica inexistente

Minhas metáforas óbvias

Meu vocabulário deprimente

E no entanto

Vale a pena

Esse mal e fútil intento

De sinceridade plena

É preciso tentar-nos poetizar!

A despeito de tais considerações

Pois não inventaram ainda

Melhor forma de expressar

Todas as nossas contradições

*

A barriga com dor,

O frio na espinha:

Ansiedade insuportável

Prenúncio e denúncia

Do por fim inevitável:

A volta do medo

E da esperança

*

LATTES LATO SENSU COMUM

 

Graduado em aristocracia

Mestre em hipocrisia

Doutor em autoidolatria

Pseudomeritocracia

“Não tenho preconceito nenhum, mas…”

Por Leonardo Calderoni

As últimas semanas foram marcadas por tantas manifestações preconceituosas que poderíamos chafurdar nelas se quiséssemos. No entanto, é sempre melhor tentar refletir do que se deprimir por causa dessas coisas. Praticamente todas essas manifestações preconceituosas possuem algo em comum e que diz muito sobre o “jeitinho brasileiro” de ser preconceituoso. De maneira geral, os discursos dos envolvidos são marcados por uma retórica que por mais que seja evidentemente preconceituosa, ao mesmo tempo busca negar o preconceito. Tal mecanismo é perverso e torna os preconceitos menos aparentes e muito mais difíceis de serem combatidos.

No famoso caso do selinho de Emerson (o “Sheik”, jogador do Corinthians), um dirigente da Gaviões da Fiel negou motivações homofóbicas, mas que ele tinha que “dar satisfações para a torcida”. É interessante que mesmo em uma manifestação tão evidentemente machista e homofóbica, existe a preocupação de um dirigente em negar a todo o custo que tenha a ver com isso. Não é um caso isolado.

Enquanto isso, no Nordeste, médicos cubanos foram chamados de “escravos” e “incompetentes”, instados a “voltar para a sua senzala” e hostilizados de outras maneiras em protesto organizado pelo Conselho Regional de Medicina do Ceará. Depois o mesmo Conselho negou qualquer preconceito em relação aos cubanos e disse que as críticas e dirigiam aos “gestores dos Mais Médicos” (programa do governo federal que trouxe os médicos de Cuba) e que eles estavam “do lado dos cubanos”. Obviamente, não foi o que sentiram os cubanos na hora em que passaram literalmente por um corredor “humano” de jaleco branco.

De volta ao “desenvolvido” Sudeste, temos outro episódio de xenofobia que merece uma atenção especial. Maristela Basso, nada menos que uma renomada professora de Direito Internacional da USP e comentarista política da TV Cultura, disse, ao vivo e a cores e com uma espantosa naturalidade, a seguinte frase:

“A Bolívia é insignificante em todas as perspectivas, (…) nós não temos nenhuma relação estratégica com a Bolívia, nós não temos nenhum interesse comercial com a Bolívia, os brasileiros não querem ir pra Bolívia, os bolivianos que vêm de lá e vêm tentando uma vida melhor aqui não contribuem para o desenvolvimento tecnológico, cultural, social, desenvolvimentista do Brasil.

Não tenham dúvidas de que Maristela Basso jamais admitira ter sido preconceituosa ou xenófoba em “qualquer perspectiva” com o seu comentário. Tampouco se surpreendam se ao mostrar o comentário a uma outra pessoa, ela diga algo como: “não que eu concorde com o que ela disse, mas você não acha exagerado dizer que ela foi xenófoba e/ou preconceituosa?”. Quem nunca ouviu algo assim de alguém próximo? É mais um sintoma da extrema dificuldade que existe aqui de dar alguns necessários nomes aos bois.

Haveria muitos outros exemplos recentes para dar de manifestações similares. Algumas mais explícitas e outras mais sutis. Mas não é isso que importa: o que interessa é que passou da hora de enterrarmos o mito do povo generalizadamente alegre, receptivo, cordial e tolerante que tanto nos ensinaram a acreditar. Ele é falso como uma nota de 3 reais.

É preciso entender que não é necessário açoitar um negro para ser racista, matar imigrantes para ser xenófobo ou torturar um homossexual para ser homofóbico. Discursos e atitudes por vezes consideradas “menores” também contribuem para a reprodução das opressões. Não é à toa que é extremamente difícil caracterizar um crime como de motivação racista em uma delegacia. No Brasil, o opressor tem sempre o benefício da dúvida. Ainda mais quando essa opressão supostamente “não existe” ou só existe “nos outros”.

A má utopia inconsciente do preconceituoso brasileiro é conseguir viver em uma bolha na qual ele possa continuar sendo preconceituoso sem jamais ter que expressar o seu preconceito. Se não houver negros, homossexuais e imigrantes em um raio de 200 km de onde eu vivo, é fácil não ser racista, homofóbico ou xenófobo. Mas como utopias são sempre utopias, sendo elas boas ou más, tal anseio vai por água abaixo, como demonstraram as últimas semanas.

É preciso sempre tomar cuidado para não cometer injustiças e analisar cada caso particular, mas vamos combinar que é imperativo que o benefício da dúvida passe a ser mais do oprimido do que o do opressor. Para que isso ocorra, teremos que parar com esse negacionismo patológico, seja ele mais sutil ou explícito, de nossos preconceitos. O primeiro passo para nos curarmos de uma doença é admitir que estamos doentes. Para lidar com o racismo, homofobia e a xenofobia, entre outras intempéries da intolerância, cabe à sociedade adotar semelhante comportamento.

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A visita de Mandela

Por Leonardo Calderoni

Recebi uma visita de Nelson Mandela. Quando cheguei ao meu quarto, me deparei com a lenda. Sim: simples assim. Ele estava sentado na mesma cadeira em que eu estou agora. Com as pernas cruzadas, demonstrava estar totalmente à vontade. Encarou-me fixamente. Silêncio. Não sabia o que fazer. Quem esperaria receber uma visita dessas desta maneira? Deveria pedir um autógrafo? Oferecer-lhe um chá de camomila? Dizer-lhe algum clichê do tipo “sou fã do seu trabalho”?  Não: só fiquei paralisado.

Mandela se levantou. Veio até bem perto de mim. Entonou uma voz de convicção. “Nunca se esqueça: o apartheid está dentro de cada um de nós”, foi o que ele me disse. Depois me deu um de seus característicos e carismáticos sorrisos, abriu a porta e sem mais, nem menos: se mandou. Fiquei perplexo e sem entender nada do que havia acontecido.

É claro que não tardou muito para eu me tocar de que tudo não passara de um sonho. Mas foi um daqueles sonhos tão nítidos que na hora parecem deveras verdadeiros. O que para pessoas como eu – que raramente se lembram de algo que a cabeça apronta durante o sono – é ainda mais significativo. Da visita da Mandela, recordo cada detalhe. Sua aparência era muito mais jovial do que a do real Nelson Mandela com seus 95 anos e para falar a verdade ele parecia um pouco o Morgan Freeman.

E o que será que ele quis dizer com a única coisa que me disse durante a visita? Aquela frase sobre o apartheid “estar dentro de cada um de nós”? Há muitas interpretações possíveis.  Acredito que seria pobre tentar atribuir necessariamente um único significado ao que eu disse a mim mesmo na voz de Mandela durante o sonho. Nem por isso é possível deixar de pensar em algumas possibilidades.

Conhecendo-me um pouco, provavelmente quis dizer que dramas humanos como o apartheid não são obra de uma força maligna exterior ou de uma excepcionalidade histórica, mas advêm da potencialidade para o mal que está presente em cada ser humano. Ser humano que pode ser eu, pode ser você ou a vizinha velhinha boazinha. Trocando em miúdos: podemos ser cada um de nós os responsáveis pelo apartheid ou situações similares.

Tal reflexão me faz inevitavelmente pensar em quais são os apartheids contemporâneos pelos quais nós somos, em algum nível, corresponsáveis e o que deveríamos fazer para que as coisas melhorassem. Mas disso não vou tratar agora: deixo para cada um pensar consigo mesmo. Ou então fica como assunto para outros textos (como o belo relato que Maíra Souza escreveu aqui nessa semana) ou para outros sonhos futuros. Oxalá sejam todos eles sempre assim: inspiradores como receber uma visita de Mandela.