Na bolha, na guerra, no meio do rolê…

por Luís H. Deutsch

TEL-AVIV – As sirenes antibomba param a ‘cidade que nunca dorme’ por alguns minutos. Percebi isso desde a primeira vez que ouvi o desagradável barulho. Na estação de ônibus central, de onde partem pessoas para todas as partes de Israel, soldados das IDF em prontidão esperam que as explosões ouvidas nos céus sejam apenas projeteis interceptados, assim como eu. Ontem, visitei o prédio no bairro de imigrantes que é também um alojamento da equipe de emergência do exército desde o começo de Julho.

A brigada 997 das IDF é um dos serviços de resgate urbano na ocasião de uma ocorrência grave, como no caso de um míssil atingir um edifício habitado, por exemplo. Na região metropolitana de Tel-Aviv, eles são responsáveis por socorrer quase 3,5 milhões de pessoas se o pior acontecer.

O espaço, assim como a quase totalidade do país, está razoavelmente seguro no que diz respeito à nova leva de hostilidades entre Israel e Palestina. São 18 dias em que a operação Margem Protetora (Protective Edge, em inglês) acontece na Faixa de Gaza para – segundo o governo e as IDF – ‘destruir as instalações terroristas do Hamas, que continua atirando foguetes e mísseis contra o território israelense’. Nas mais de duas semanas de tensão, o “código vermelho” foi acionado na Grande Tel-Aviv todos os dias. Nenhuma casualidade grave foi registrada.

O tenente Gal Goldman, 25, controla uma equipe de 10 soldados da brigada 997. “Todos estão preparados caso sejam chamados e podem chegar a qualquer lugar de região metropolitana em poucos minutos”, explica o oficial. Pela base estar situada em um bairro central e dispor de ônibus especiais para a equipe, a mobilização é realmente rápida. Salas de controle se misturam com diversas camas onde os soldados dormem e passam seus dias. Uma programação de treinamento diária deixa os convocados ocupados e preparados para diversos tipos de emergência.

Porém, alguns fatores fazem com que a rotina vivida pelos soldados seja apenas cansativa. Só Tel-Aviv, segundo sua prefeitura, dispõe de local de abrigo para 800.000 pessoas, sendo que a cidade tem 400.000 habitantes. O sistema de defesa antimíssil de Israel, o Iron Dome, apesenta até agora uma porcentagem de mais de 70% no sucesso em interceptar os recentes morteiros dos Hamas, afirmam as IDF.

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Isso é o que falo e repito sempre para minha mãe no Brasil desde que a primeira sirene tocou enquanto eu estava na rua. Essa cidade é super-protegida. Tel-Aviv ainda continua na bolha enquanto a situação do conflito entre Israel e Gaza parece piorar.

As cifras entretanto são muito dramáticas. O número de mortos na Faixa de Gaza, até o fechamento deste artigo, ultrapassa os 1000 – sendo a maioria de civis, segundo fontes do governo palestino e mídia, além de ONGs e da ONU. Cerca de 100 são crianças. Israel passou a registar mais baixas após o início da operação por terra no último dia 17. São mais de 40 pessoas – soldados na grande maioria.

A nova onda de violência começou no meio de Junho, quando três jovens israelenses foram sequestrados em um assentamento judaico localizado na Cisjordânia.  O crime ainda não foi comprovadamente atribuído ao Hamas, porém, todas as evidências indicam que os sequestradores tenham agido em apoio ao grupo terrorista que controla Gaza e ultimamente aliou-se ao Fatah, que ainda mantém laços diplomáticos com o governo de Israel.

Os meninos foram provavelmente mortos horas depois do sequestro, baleados e enterrados próximos à cidade de Hebron. Seus corpos foram encontrados no dia 30 de junho e durante o período das buscas, centenas de Palestinos foram presos nas investigações – o que esquentou os ânimos do já conturbado conflito.

No dia seguinte da descoberta, um grupo de seis israelenses militantes de extrema direita sequestrou e queimou vivo um adolescente palestino. Após o ato que indica uma vingança, a escalada apenas intensificou, com protestos diários em Jerusalém Oriental, onde morava o jovem assassinado.

A ação militar de Israel não tardou. A “Margem Protetora” atacou até agora aproximadamente 3.700 locais em Gaza. Hospitais e escolas inclusive, os quais as IDF alegam terem relação ‘comprovada com o terrorismo do Hamas, que esconde armas e usa civis como escudo humano’. A chuva de mísseis do grupo contra o território israelense não para, são mais de 2.300 – chegando até cidades onde o armamento antigo não conseguia alcançar.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Ambos envolvidos acusam-se de cometer crimes de guerra.  Na mídia, jornalistas e meios de comunicação travam batalhas paralelas em apoio às causas. Protestos das mais variadas tendências ganham as redes sociais e também as ruas do West Bank, das cidades israelenses e do mundo todo, tendo a violência de manifestantes, das IDF e da polícia como pano de fundo em muitas ocasiões. Todas as tentativas para um cessar-fogo falharam até agora e apenas tréguas “humanitárias” de poucas horas foram aprovadas.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

O medo e a morte tornaram-se rotina em Israel e em Gaza. De dentro, vemos que a situação é uma moeda com dois lados manchados de sangue e desesperança.

E onde parece haver apenas espaço para o desespero e rancor, venho com minha inevitável opinião sobre o assunto. Mas, tento ser o mais construtivo possível. Pois, acredito que disseminar o ódio e escolher um lado para sustentar 100% como uma cega torcida de futebol é apenas prestar um desserviço à solução pacífica.

Afirmo com coragem que sou a favor da solução dos dois Estados. Pois é assim que a situação já “é”, apesar de não ser formalmente aceita.  Ambos precisam se aceitar. Israel, como o lado mais forte do conflito, naturalmente apresenta sua superioridade bélica. Porém, precisa apresentar uma urgente proposta para realmente trazer “tranquilidade” para toda a região. Instável desse jeito, ela só se mostra vulnerável a perigos muito maiores e infinitamente mais radicais, como o ISIL, por exemplo.

Não creio que a ação militar israelense – por mais implacável que seja – botará um ponto final na luta armada do Hamas. O financiamento do grupo persistirá e as sementes para represálias violentas vingarão nos terrenos arrasados pelos ataques da força aérea de Israel. Assim como acontece em qualquer caso onde a violência substitui a razão, a educação precisa entrar para mudar as coisas.

Israel e Palestina precisam trabalhar juntos para que haja a opção justa e pacífica na representação de um povo hoje tão sofrido. Só a cooperação pode trazer benefícios eternos e estabilidade.

A coalizão atual do governo israelense não considera parar sua política de assentamentos na Cisjordânia nem o bloqueio à Gaza, o que é essencial para fomentar as premissas de qualquer discussão, ao ponto que , atualmente, ela só gera mais ranhuras na relação entre os lados e isola Israel na comunidade internacional.

O Hamas – sendo uma organização terrorista reconhecida internacionalmente, precisa ser desmantelado. Seu modo de lutar não é legítimo e caberá a um futuro Estado Palestino, o papel de combater e eliminar a via política do terror. Só uma Gaza livre do grupo e com acesso a uma economia aberta sem as sanções israelenses será capaz de destruir a opção belicista de dentro.

Ambos lados desconfiam dessa solução. Mas é a única possível. Esse voto de confiança precisa ser dado, uma vez que todos os olhos do mundo – mesmo com todas as podridões que o planeta passa – são focados quase que totalmente nessa região. Isso é urgente.

Por fim, as pessoas precisam conviver. Só quando conhecemos a rotina dos outros, somos capazes de dividir os problemas que nos afetam e construir uma nova realidade. Sendo assim, conheçam e apoiem o projeto da Peace Factory.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

Sim, pode parecer que tudo o que eu falo funciona para colocar minha cabeça levemente em meu travesseiro. Sim, é exatamente por isso.

Enfim, Tel-Aviv continua segura. Mas ainda é um alvo. Mesmo durante os preparativos do jantar de Shabbat – dia sagrado para a religião judaica, a equipe especial de resgate segue em alerta na estação central. Completamente uniformizados e preparados para qualquer situação, soldados cantavam as rezas enquanto eu entrevistava o Tenente Goldman – ou apenas Gal, pois é um grande amigo meu. No final da visita, presenteei meu brother com uma fitinha do Bonfim e o lembrei da importância de fazer os desejos.

Fui embora alimentando minha alma de esperança, mesmo no meio de toda essa zona. Pois é isso o que venho fazendo desde que toda a confusão começou. Fui embora esperando que as preces desse Shabbat em Israel, as do final do Ramadã em Gaza e os desejos do meu amigo falem a mesma língua: a da paz.

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Ele já ganhou (por enquanto…)

por Luis H. Deutsch

A Rússia já atacou e venceu a Ucrânia. Desde o último 27/02, dia em que Vladimir Putin pediu autorização ao seu parlamento para usar força militar na Crimeia, a gigante potência já havia aniquilado sua vizinha. Como?

Muito simples:

  1. O exército russo é muito mais poderoso que o ucraniano. Apenas a presença dos russos (mais ou menos 30.000 soldados na Crimeia) é capaz de intimidar qualquer um. A Ucrânia não tem a mínima chance de repelir qualquer ação militar e sabe disso. Além disso, os russos dominam quase todas as fronteiras ucranianas. A “ajuda externa” só pode chegar vinda da Romênia ou da Polônia.
  2. A Rússia ameaçou cortar o fornecimento de gás para sua vizinha, caso ela não ceda às condições para um acordo: abandono de preferências pró-europeias, reforma constitucional e formação de um governo de coalizão em Kiev. Moscou joga sua melhor carta, seu ZAP. Pois ele sabe que a Ucrânia jamais aceitará declarar guerra contra seu maior fornecedor de gás e petróleo do mundo. Não há alternativas de outros países que possam suprir a demanda ucraniana, pois muitos deles também dependem do combustível made in Russia.
  3. A União Europeia e os EUA não vão mover um dedo. Não podem e não querem movê-los. Sim, você leu por aí que Obama e os líderes europeus aumentaram o tom, ameaçaram sanções econômicas, expulsão do G8 e o caramba a quatro… Estão só ladrando. Mas, efetivamente, nem eles, nem a OTAN farão grande coisa. E a URuSSia tá cagando pra isso. A Rússia sabe muuuuuito bem jogar o jogo das Relações Internacionais. Faz teeeeempo, viu? Além da Ucrânia, os russos também alimentam generosamente os estoques energéticos de França e Alemanha. Putin também compra a rodo materiais vindos da zona do Euro. Quem quer perder esse mercado, hein?
  4. Com os States, o esquema é outro. Tem a tensão nuclear, claro… Mas tem um maluco chamado Edward Snowden que está lá em Moscou e já contou todos os segredos de estado da Casa Branca para o Kremlin. Putin deve guardar a maioria das confidências do ex-agente para si, claro. Mas, está doidinho para jogar tudo no ventilador. Basta os EUA “provocarem”. Também, o presidente russo sabe de cor e salteado todas as intervenções militares norte-americanas feitas sem consenso da ONU e por motivos controversos desde sabe-se lá quando.

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Essa crise atual nos evidencia duas coisas: A primeira é que Vladimir Putin só quer mostrar que ele faz o que bem entender. Ele é doido, esqueceram? Uma mistura de czar, com agente secreto da KGB, com líder soviético. E hiper narcisista! (vide galeria de fotos aqui) O cara está nervoso porque perdeu um aliado num país vizinho (ou vassalo) e quer descontar a raiva… A Crimeia, nem tão importante assim atualmente, que quer ir pra Rússia. Declararam independência hoje e dia 16 de Março vão votar sobre a anexação ou não.

segunda coisa é que as promessas do resto do mundo “civilizado” estão cada vez mais vazias. O Ocidente deixou-se colocar em mãos russas e agora quer dar uma de herói para proteger a Ucrânia, sendo que quase ninguém pode fazer grande coisa. O momento é de apreensão, claro. Mas os nervos devem ser mantidos sob controle.  Afinal, uma nova Guerra Mundial não seria aquela coisa “clássica” de jogo de War. Seria uma catástrofe nuclear! O verdadeiro apocalipse. O que Oeste deveria fazer é parar com essas políticas hipócritas de dois pesos e duas medidas, e começar a fomentar algo realmente construtivo em regiões em crise.

Houve um golpe na Ucrânia quando da destituição do presidente por vias parlamentares. Você sendo ou não a favor, houve um golpe. Havia sido decidido que as eleições seriam adiadas e até o badass do Putin tinha malemal concordado com isso. Daí, aconteceu o que aconteceu! As potências ocidentais apoiaram o novo governo. Putin foi às vias de fato para defender aos seus. E agora só nos resta esperar o clima amenizar.

Olha, a Rússia não é nenhum modelo de país perfeito. Tá tudo errado lá! Economia desastrosa, infraestrutura fraquíssima, corrupção abundante, zero respeito às minorias, processos eleitorais obscuros e uma quase inexistente liberdade de expressão. E num mundo completamente globalizado, mesmo esta enorme porção de terra que cobre 1/6 do globo não está mais isolada do resto dos humanos. A desgraça de Putin virá de dentro, um dia. Por enquanto ele ganhou, mas não sabemos até quando. Afinal, na Rússia… É a vitória que derrota você.

Cheira azedo

por Luís H. Deutsch

Há algo de podre no Reino da Dinamarca. Ou melhor, no Reino do Brasil. Melhor ainda, há algo de azedo. Traduzindo finalmente o que eu quis dizer: Eu não gosto da Rachel Sheherazade.

A insuportável âncora do jornal de horário nobre do SBT é uma das jornalistas que entrou na onda das crônicas do ódio para ganhar seus 15 minutos de fama.  Em suas “reflexões”, Rachel (por favor, não me forcem mais a escrever esse sobrenome) transmite uma mensagem de fúria. Zero construtiva e que realmente não serve para nada.

A última deixa foi ao falar do rapaz suspeito de roubo que foi pego pelos “Justiceiros da Zona Sul”, no Rio. Nu, ferido e amarrado ao poste, o jovem foi colocado como exemplo de justiça sendo feita num “país falido”. A tradicional família foi ao delírio e ejaculou orgasmos múltiplos ao ouvir da voz da jornalista, que essa é uma violência “compreensível”. Ou seja, que bandido bom é bandido morto e se você tá com dó, leva pra casazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Rachel Charizard sabe o poder que tem. Em um país onde metade da população ainda não têm acesso à internet, a televisão é o meio principal de comunicação. Sua mensagem alimenta a polarização entre “gente do bem” e “vagabundo”. Entre “gente certa e direita” e “esquerdista de iPhone que defende viciado”. E, além dela que fica famosa, ninguém mais ganha nada com isso!

Da bancada do principal jornal do SBT, Rachel Cheirazedo parece ser mais uma daquelas pessoas que só viu o Tropa de Elite 1 e saiu por aí a própria personificação do Capitão Nascimento. Esqueceu que na segunda parte do filme o próprio “herói” brasileiro tenta mostrar que o buraco é mais – BEM MAIS – em baixo. Ela levanta sua voz contra o lado mais vulnerável do problema da violência no país.  Sendo simplista e reducionista, chuta cachorros mortos enquanto se esquece dos gigantes pitbulls das corporações de mídia, do empresariado e da política que deitam e rolam com a crise na segurança pública.

Pobre Rachel… Ela não é burra! Sabe que nos morros e favelas a grana manda a tal ponto que os próprios policiais são comprados para que os bandidos possam assaltar a gente. Mas, ela esquece que ao apoiar milícias, como os “Justiceiros da Zona Sul”, ela pode estar cavando sua própria sepultura e virando refém de um sistema que um dia pode destruir tudo o que construímos a respeito de leis e direitos civis. Em poucos minutos de asneiras, Rachel samba na ideia dos Três Poderes e nos conceitos de legítima defesa, de humanidade e de justiça.

Tudo isso porque ela não quer defender vagabundo… Acha que eles já têm regalias demais,  enquanto cachinas sangrentas e uma crise penitenciária sem precedentes explodem por aí.

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Ninguém quer saber sua ‘opinião”, querida. 

Espécie de profissional de quinta categoria que entende 0,001% do Brasil, mas vomita palavras como se fosse A voz da salvação. Usa a justificativa de governo ineficaz, mas não desenvolve em suas intervenções UM debate útil. Não fala em reformas, não fala em importância de voto, não fala em EDUCAÇÃO, nem de consciência política. Só ódio.

Gostaria que a Rachel fosse “promovida” a correspondente internacional na Coréia do Norte, sabe?

E que o Sílvio Santos voltasse a preencher a grade televisiva do SBT com Chaves, TV CRUJ, Casos de Família e novela mexicana. Se for pra não agregar nada na cabeça do telespectador, que seja engraçado e divertido pelo menos.

Torcida do Bom Senso

por Luís H. Deutsch

Meu coração pertence ao Santos F.C. Na Europa, minha simpatia fica com o PSG  graças a alguns amigos franceses fanáticos, uma boa série de partidas sem derrota e uma puta equipe. Mas, é necessário admitir que vou vestir mais uma camisa: a do Bom Senso Futebol Clube.

O “time” é uma organização de profissionais do futebol criada neste ano para tentar botar um pouco de ordem no AUÊ que é o esporte tupiniquim. Entrou em briga de cachorro grande. Num campeonato de gigantes, no qual a Globo, a CBF e os patrocinadores são os favoritos de sempre. O Bom Senso vai pro ataque num 4-3-3 pra fazer gente pensar e repensar no “fato” do Brasil ser o “país do futebol”. Será que a regra é mesmo clara, Arnaldo?

A amarga décima posição do Brasil no ranking oficial não diz isso. A FIFA sambando em nossas leis, soberanias e herança cultural também não. Há uma crise representativa no mundo da bola. Além disso, há dúvidas claras a respeito do desempenho da seleção na Copa e questionamentos (MUITOS) sobre o próprio torneio em 2014. Porém, o Bom Senso tem um esquema de jogo que vai primeiro na provável raiz do problema do esporte brasileiro. Foca na questão estrutural. Talvez depois, quem saiba, o país se dê mais ao respeito e volte ao topo com dignidade.

O “clube” viu o óbvio: jogadores dos grandes times brasileiros tem um calendário pesado  e bizarro de competições. Basicamente de Janeiro a Dezembro, praticamente duas vezes por semana, tem jogo. As pré-temporadas são mínimas e os simultâneos campeonatos desgastam o futebol e os profissionais… Mas não os que ganham dinheiro em cima disso. Pouco ganha um time grande que vai disputar a quinta rodada do Estadual em um estádio não muito preparado no interior. Engana-se quem pensa que um time pequeno tem seus “dias históricos”. A grana, a gente sabe, rola fora das quatro linhas.

O Bom Senso ainda foi além e enxergou aqueles que os milhões de Euros acabam apagando: Os jogadores de pequenos clubes. Aqueles que permanecem no mais profundo desconhecimento.  Os que jogam um estadual que passa na tevê e, depois… Só os fãs mais dedicados que os encontram. Vivem em regime de exploração. Ganham (ganham?!) pouquíssimo. Desistem do sonho de fazer história com os pés.

É um contraste absurdo. Seria necessário rever algumas estruturas arcaicas do futebol brasileiro. Estruturas que como aquelas que inflaram revoluções políticas, geram benefícios para poucos e malefícios para muitos.

O BSFC viu que campanhas positivas como a do Atlético-PR no Brasileirão (3º lugar até agora) deram mais certo porque o time poupou seus titulares no Estadual, fez uma pré-temporada de verdade e foi com gás no Nacional. Viu também que é necessário gerar trabalho para o ano todo àqueles que ainda não jogam nos São Paulos, Flamengos e Cruzeiros da vida. Dar trabalho e dar visibilidade!

bomsensofc_reproduçaoEssa equipe já está peitando os “donos da bola” para humanizar nosso futebol. Eles desafiam os dirigentes que atrasam salários, botam pingos nos is nos contratos com patrocinadores e afirmam que se tiver de ser… Paralisam o futebol brasileiro para que mostrar que as reivindicações são sérias e carecem de atenção. É uma tática ótima. Amedronta quem entra em jogo de salto alto.

Bom senso é coisa raríssima de se encontrar hoje em dia. Tê-lo no Futebol não é mandar o Galvão Bueno calar a boca. Ver isso ser debatido de maneira pertinente em âmbito que estava despolitizado desde a Democracia Corinthiana é sensacional. Como as pedaladas do Robinho, como aquele gol do Neymar contra o Flamengo em 2011… Ou como aquele do Ronaldinho – de cobrança de falta contra a Inglaterra na Copa de 2002 – que acordou os 3% dos brasileiros que não tinha madrugado para ver a partida.

País do futebol não é aquele só das equipes que disputam série A e B. País do futebol é o que pensa no futuro de todos. É o que joga com a cabeça.

Um apelo à consciência

por Luís H. Deutsch

Olha que beleza, feriado no Brasil! No meio da semana… Para dar um alívio ao seu estresse.

Feriado do quê, Joãozinho?” – perguntou a professora.

Dia da Consciência Negra, professora” – respondeu o esperto aluno. “Um dia para lembrar-se de um dos heróis nacionais, o Zumbi dos Palmares. Ele salvava os escravos e botava todo mundo pra morar junto nos Quilombos.”, concluiu o garoto.

Muito bem!”, parabenizou a querida professora dando uma estrelinha azul de papel laminado para ele grudar no caderno.

Legal se as coisas fossem simples assim. Porém, em 10 anos que este feriado é aos poucos implantado em terras brasilis, muita gente ainda discute a NECESSIDADE dele. Assim como a necessidade de cotas em Universidades e concursos públicos e uma real reformulação da nossa Polícia Militar. Muita gente mesmo! Desde o pai de Joãozinho, até esclarecidos estudantes de faculdades boas que dizem que o Racismo é uma coisa que não existe nesse carnaval pós-racial que é nosso Brasil. Estes dizem que o dia 20 de Novembro deveria ser o “Dia da Consciência Multicolorida” – e não só da negra. Pois isso significaria dar BENEFÍCIOS a apenas uma parte da população.

Envergonhe-se agora se você pensa desse jeito, leitor. Você não tem consciência, isso sim. E estude mais História também.

O Brasil – desde sua origem como Colônia até um ano antes da Proclamação da República – foi um país movido a escravos. Índios e africanos. Construímos bases para uma economia agrícola poderosa a partir do suor e sangue de pessoas retiradas de seus lares e enviadas para destinos não conhecidos. Para o inferno sobre a Terra chamado trabalho escravo. Um trabalho que concluía que existem raças superiores e inferiores. E que as inferiores deviam servir ao máximo as de cima, sem o mínimo de condição humana necessária. Até quase o início do século XX era assim. Igreja apoiava, política apoiava, sociedade apoiava.

Ignorância achar que o 13 de maio de 1888 realmente quebrou todas as correntes e transformou diretamente o Brasil, num país de todos. Quase 400 anos de escravidão não é uma coisa que se esquece fácil e se muda da noite para o dia.  Estamos hoje há 125 anos da Abolição e – se tratando de História – isso é apenas um pulo. Um pulo que não foi capaz de destruir as estruturas de Casa Grande e Senzala que o país insiste em manter. As populações negras, após serem libertadas, não encontraram o paraíso do bem estar social. Foram para as margens. E lá estão mergulhadas quase que completamente até hoje. Fazem parte de uma parcela ignorada e de um Brasil que, na teoria, é uma nação mista… Mas na hora do vamos ver… Tem raízes importantes simplesmente ignoradas.

Pesquise. Quem ganha os menores salários? Quem demora mais a ser contratado e menos a ser demitido? Quais jovens morrem mais? Que história a gente aprende na escola? Quem é chamado de macaco por humorista? Que religiões são resumidas como “macumba”? Quem não consegue as mesmas chances para estudar? Quem sofre mais na pela a repressão policial e o preconceito? Quem é a protagonista da novela das 9? Quem “precisa” alisar o cabelo para “estar decente”?

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E o que achou das respostas? 😦

Então, aqui vai um apelo às consciências:

SIM, pelo Dia da Consciência Negra! SIM para as cotas, para a inserção cada vez mais ampla! SIM para rigor na lei e na cultura! E finalmente, SIM por uma reflexão sobre o que nós estamos fazendo para um futuro realmente igualitário e para um Brasil verdadeiramente multiétnico e multicolorido. 

Recalque Social

por Luís H. Deutsch

Nesses últimos dias, as redes elegeram o ativista é a coisa mais chata do mundo. Superou o tédio do Domingo, aquele bonequinho-clips do Word 2000 (sim, as pessoas ainda lembram-se dele), os testemunhas de Jeová e, pasmem… O Galvão Bueno.

Tem gente disseminando o ódio contra esse tipo de gente. “Ativista é chato demais” Só posta as merdas que acontecem no mundo… AFF”. “Meu, ativista é tudo hipócrita. Onde já se viu ser anti-EUA e ter iphone kkkk”. Entre essas e outras frases, a razão para tanta implicância, está o Recalque Social.

Ora… O que é recalque social? Um bando de gente mal amada invejando foto de gente bonita no Instagram? Indiretas para ex em 140 caracteres no Twitter? Compartilhamento de foto-filosofia barata no Facebook? Não. Quer dizer… TAMBÉM.

O Recalque Social é mais profundo. Atinge nossa sociedade e nossa realidade em um âmbito mais psicológico, mais político. Para não dizer mais sério, pois tem gente que vive de espezinhar os outros na Internet. Mas cada um com seu cada qual, né?

Toda vez. TODA VEZ que acontece alguma coisa “boa” nesse mundo aí, a discussão quando migra para o mundo virtual, adquire sempre dois polos. Um francamente a favor e outro 1000% contra. É normal isso, acontece nas melhores mesas de bar.

Porém, na rede a coisa toma proporção maior. Você fica obrigado a participar de todas as conversas de mesa de bar. Mesmo aquelas mais insuportáveis.

Comecemos pelos Beagles. Lindos cachorros. Inteligentes, bonitos, fofinhos. Todo mundo quer ter um. Inclusive os laboratórios de teste de cosméticos / medicamentos. Uma crueldade. Ponto. Na semana passa, um grupo de ativistas heroicamente invadiu uma propriedade privada e salvou a vida dos cães. Por mais que a batalha para a adoção seja difícil agora, não serão mais submetidos a coisas que só Deus sabe – e que eu nem quero desenvolver nesse texto.

Acontece que tem gente que não saber ver felicidade. O recalcad@ social vê isso e logo dispara. “AH! Queria ver é salvar os frangos que comemos todo dia.” “Adotar TODOS os cachorros de rua vira-lata.” “Quero só ver esse povo parar de comer McDonald’s.”

Segundo essa infeliz e reducionista pessoa. Ativistas pró-animais DEVEM ser vegetarianos e ter uma mansão de 200 milhões de metros quadrados.

Voltemos às revoluções do ônibus em Junho. Um aumento nas passagens de busão de todo o Brasil gerou o histórico momento de manifestação que botou muita gente pela primeira vez na rua para tentar mudar alguma coisa. Obviamente isso gerou inconformismo de muitos no começo da luta. “O que essa bando de gente desocupada tá fazendo atrapalhando o trânsito?!” “São tudo playboy na maioria, sabia? Nem pegam ônibus. Papai paga tudo. O pobre mesmo… Ah, esse tá sofrendo calado”. Essas eram as frases dos pensadores digitais no momento. Bom… Deu no que deu após…

Mas essas pessoas não mudam. Segundo as mesmas, os ativistas pelos direitos do transporte mais barato devem ser Pobres com p maiúsculo e morar na Vila Não-sei-o-que-lá que fica 2h ao sul do Terminal Santo Amaro. Vixe.

Viajemos um pouco mais para um último exemplo. Lembram daquele AUÊ na USP em 2011? Então… Lembra que tinha um moleque invadindo a reitoria com casaco da GAP? Então… Apesar de toda a crise democrática que a Universidade vivia no momento (e ainda vive), a mídia e a opinião recalcada socialmente resolveu minimizar toda a discussão nas posses do moleque. De UM moleque. E dane-se o resto.  “É uma revolução de mimadinhos”, diziam.

Para estes, o ativista tinha que respeitar o ponto crucial da luta social: ser completamente desprendido de bens materiais. ” Tem que ser  é ‘bixo-grilo com piolho’! Celular, só se for o mesmo Nokia tijolo de 2006. O resto, deve só se conformar que é um vendido ao sistema como todos. Vamos ser feliz assim e aceitar!”

Por que tanto incômodo?  Tanto Recalque Social?

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Ativistas incomodam porque tocam na ferida ainda aberta por uma sociedade que vê o que quer, mas realmente não enxerga muita coisa além de final de novela e bola no gol. Ativistas levantam-se do sofás em feriados chuvosos para ocupar a Paulista por temas que nem sabemos que realmente são problemas. Porque estamos “ocupados demais”… Saem de casa à noite para salvar cachorrinhos. Invadem navios da Rússia. Ajudam baleias no Japão. Denunciam as espionagens dos EUA no mundo… Coisa que nem metade de uma “timeline padrão” faz.

No mais, os ativistas ousam. Duvidam do senso burro e comum. E daquela velha opinião formada sobre tudo.

Então, amiguinhos. Sem regrinhas de comportamento dos ativistas. Por um mundo com menos recalque social. Perdão pelo clichê, mais por um mundo com mais gente feliz fazendo a sua parte. Valeu?

Morrer na praia

por Luís H. Deutsch

O balanço de vítimas do naufrágio  na Itália expressa uma triste realidade. Quase 300 pessoas morreram na tentativa de buscar uma nova vida na Europa. Mais que uma nova hecatombe, “Lampedusa é uma vergonha” (Papa Francisco).

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O que vão fazer milhares numa terra que “não é a deles”? Por que saem de suas casas? As perguntas ao Globo Repórter-style são levantadas diariamente, mas as respostas – mesmo óbvias – parecem ser esquecidas de vez em quando.

O assunto da imigração, ainda mais na Europa, nunca está fora da pauta. Independente de uma tragédia, ou de uma declaração polêmica recente, o convívio com um grande número de pessoas que vêm de fora é um fato social. E não acontece há pouco tempo.

Imigrantes vindo da Ásia vão para a Europa desde os anos 60. Na década de 70, com a descolonização da África, foi vez de algerianos, marroquinos e líbios. Final da Guerra Fria, desmantelamento da URSS e migrantes do Leste Europeu se aproximam “Ocidente”.  Anos 2000, e temos um mix de nacionalidades que constituem uma Europa cada vez mais plural, mas não necessariamente mais unida.

Todos os dias é um vai e vem e a vida se repete na estação. Gente que vem, mas que não viaja à Paris a turismo. E sim para garantir um modo de sobrevivência.

Muitos parecem esquecer que, atrás das vestes típicas, de uma família grande e da dificuldade em falar a língua nativa do novo lar, está um ser humano. Uma pessoa que provavelmente cansou de passar FOME. De não ganhar o suficiente para sustentar filhos. Que cansou de uma coisa chamada miséria.

A extrema-direita, famosa na Europa pelo abominável nazi-fascismo, ressurge com um ignorante discurso: “Imigrantes roubam nossos empregos.” “Destroem nossa cultura.” “Os muçulmanos são ainda piores. Suas mulheres são o símbolo da repressão e do terrorismo (?!).” “Os ciganos são sujos.” “Não conseguem se adaptar a um país ocidental.” “Não faz parte da cultura deles.” Assim, ganham as pessoas mais simples e desesperadas. Com uma demagogia pobre, fraca, boba e burra.

Estranho. Já ouvimos antes… EM ALGUM LUGAR! Que não estava na cultura / na genética de um povo xis, pertencer a país/povo ípsilon. E que eles deveriam ser mandados para onde vieram. Ou DESCARTADOS. Mas não são todos que se lembram das aulas de história. E nem são todos políticos que querem dar uma revisão para a galera.

Os países europeus, em primeiro lugar, tem sim uma dívida história com outros países os quais colonizaram durantes anos. Lá, o Ocidente implantou um idioma. Uma institucionalização, um modo de vida e um status que destruiu quase completamente as características iniciais das colônias. As independências vieram com mais destruição e guerra, além do mais. E nada mais natural de se esperar do que as pessoas buscarem na antiga metrópole, uma forma de recomeçar. Ou de enfim, começar uma vida.

Ficar esperando a cooperação internacional não dava. A própria ONU estima que as mais de 200 milhões de pessoas que trabalham fora de seus países de origem geram uma renda de mais de 400 bilhões de dólares anuais de remessas para suas terras natais. Esse montante representa um valor quatro vezes maior que a ajuda que países ricos dão a países pobres.

Ué… Os EUA mesmo não ensinaram a filosofia do “faça você mesmo”? O calvinismo europeu não dignifica o esforço e o trabalho? Ou isso só vale para legítimos europeus e norte-americanos?

Fica claro que a melhor forma de lidar com o tema não é o combate. Para que não se repitam tragédias como essa, o mundo precisa de um ato de coragem que é a integração. O verdadeiro exemplo de cooperação internacional que esperamos não é nem de longe um grande muro que separe povos ricos de povos pobres. Já vimos que isso não funciona, e que vai ter gente sempre arriscando sua vida, para poder viver.