O que é Kinderwhore e como ele influenciou os anos 90

O Kinderwhore, termo popularizado nos anos 90, delineou a estética feminina de uma geração. O termo consiste na junção das palavras “kinder”, que em alemão nos remete ao universo infantil e “whore”, do inglês prostituta.

O estilo foi popularizado por bandas de rock com mulheres na liderança, como Kat Bjelland (Babes in Toyland) e Courtney Love (Hole), que se diz inspirada pela vocalista Christina Amphlett (Divinyls). O Kinderwhore é uma versão mais alternativa do estilo “lolita”, e pode ser facilmente identificado por roupas que por um lado lembram a inocência infantil, como vestidos delicados com rendas, golas e um shape tradicional, misturados à maquiagem pesada, com batom vermelho, penteados desgrenhados, sapatos pesados, etc.

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Divinyls

À primeira vista, o Kinderwhore parece não ir além de um nome polêmico dado a uma simples modo de se vestir que se popularizou entre as mulheres da cena grunge dos anos 90. Mas ele é um estilo propositalmente polêmico, inventado e usado por mulheres, e por isso sugere a ideia de autonomia e liberdade.

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Hole

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Kat Bjelland

 O Kinderwhore mostra que as mulheres não precisam renegar sua feminilidade para se impor em um universo tradicionalmente masculino. É claro que as mulheres são livres para adotar o estilo que bem entenderem, o que o Kinderwhore nos mostra é que é possível ser, ao mesmo tempo, ultra feminina e liderar uma banda de rock. É uma ironia que acabou dando certo. Por isso, considero essa expressão como uma parte da imposição feminina, ainda que inconsciente, no rock.

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Kurt Cobain no estilo Kinderwhore

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Sylvia Plath e a mídia

por Luisa Fochi

Não é incomum encontrar por aí, aos moldes de Caio F. Abreu e Clarice Lispector, citações de uma escritora que mais parece se tratar de uma celebridade alternativa. É o caso de Sylvia Plath, autora norte-americana cujos poemas habitam incansavelmente as redes sociais e os mais variados blogs.

Recentemente, Plath foi a inspiração de um ensaio fotográfico de moda para a revista Vogue, na qual Lana Del Rey a interpreta. No álbum de Lady Gaga lançado em 2009 (The Fame Monster), a autora é citada na música “Dance in The Dark”, junto com outros famosos que tiveram o fim trágico.

O que mais se vê de Sylvia Plath na mídia é uma objetificação de sua imagem, em vez de análises consistentes sobre sua obra. Não acho que o ensaio para a revista Vogue tenha ficado feio ou qualquer coisa do tipo, muito pelo contrário, achei de extremo bom gosto. A real questão é que, se por um lado não é incomum que Sylvia seja retratada apenas por uma imagem idealizada de mulher sofrida, não é comum que se faça uma sequer análise ou menção sobre elementos de poesia.

A mitificação de sua figura é, porém, mais atrelada aos mistérios de sua vida particular do que com sua obra em si. A tragicidade da sua vida é mostrada por biografias (muitas delas equivocadas) e uma recente publicação de seus extensos diários. Entre os temas mais comentados, estão a sua relação conturbada com o seu marido, o também poeta Ted Hughes, e a sua morte precoce aos 30 anos, fruto de um suicídio.

É comum encontrarmos trechos de poemas de Plath por aí, com qualquer linha de seus escritos sendo atrelados à sua vida particular. Sylvia é autora de um romance autobiográfico, intitulado The Bell Jar – que foi um sucesso de vendas após seu noticiado suicídio. Como diz o tradutor Rodrigo Garcia Lopes, na edição bilíngue “Sylvia Plath: Poemas”, o romance  “contribuiu ainda mais para consolidá-la como um mito literário, quase nos fazendo esquecer que Sylvia Plath é uma poeta” (…) Sylvia Plath não se limita a usar em sua poesia material autobiográfico em estado bruto. Seus poemas são um delírio lapidado por um método. Restringir a leitura de seus poemas ao que a vida da poeta teve de trágico e curioso é desprezar seu método de escrita que tinha, como um de seus paradigmas, o controle absoluto sobre a linguagem”.

E para finalizar bem, um belo poema de Sylvia Plath:

 

CONTUSION

“Color floods to the spot, dull purple.

The rest of the body is all washed out,

The color of pearl.

 

In a pit of rock

The sea sucks obsessively,

One hollow the whole sea’s pivot.

 

The size of a fly,

The doom mark

Crawls down the wall.

 

The heart shuts,

The sea slides back,

The mirrors are sheeted.”

 

Sylvia Plath.  4 February 1963

 

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Uma breve reflexão sobre “Correio Feminino”, de Clarice Lispector

por Luisa Fochi

Há pouco mais de um mês que o tal livro chegou aqui em casa. Até então, com exceção de uma amiga que sabia alguns trechos de cor, não soube de mais ninguém que o tivesse lido de cabo a rabo, ou que apenas soubesse do que se tratava. Eis que uma postagem me chamou a atenção: o Fantástico, atração global, vai exibir uma série inspirada em “Correio Feminino”. Ouch! Pois então, achei que seria de bom grado escrever sobre ele aqui no blog, já que nas últimas semanas o assunto voltou à cena.

Correio Feminino

Decidi ignorar aqui a adaptação global, pois não passa de alguém narrando alguns trechos do livro com pouco mais de 4 pessoas mudas encenando. É melhor ficar com o livro mesmo, que além de apresentar inúmeros artigos, também tem ilustrações bem legais.

“Correio Feminino” é uma compilação – organizada pela doutora em literatura brasileira Aparecida Maria Nunes – de artigos de jornal com temática feminina, escritos majoritariamente entre os anos 50 e 60.  Clarice, aliás, “Helen Palmer”, um de seus pseudônimos, escreve sobre autoajuda. Dentre eles, dá conselhos de beleza, mostra como manter acesa a chama do seu casamento e, a mais importante de todas, a conquista do amor próprio. A pergunta que me faço: é realmente possível se amar com todas essas condições impostas? Buscar o autoconhecimento em meio a tantos ruídos por todos os lados?

Como feminista, a minha primeira impressão do livro não foi boa. Há trechos que sugerem, incansavelmente, a subordinação feminina em relação ao homem: “Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos” p.17.

Em um primeiro momento, os artigos conversam entre si. Uma conversa sobre como ser bonita visando agradar o seu homem, dicas sobre como segurar o cigarro sem parecer uma figura masculinizada, entre outras.

Correio Feminino

Porém, conforme a leitura avançou, percebi alguns artigos que se destoaram dos demais. Clarice (ou Helen Palmer?) cita até Simone de Beauvoir em um deles. Em outro, critica as mulheres que, em vez de amar, estão apenas interessadas em “arranjar marido”. Outros, destoando ainda mais, não apresentam pretensão alguma. São dicas sobre como arrumar a casa, o cabelo, o guarda-roupas, etc: “Se você vai oferecer um coquetel em sua casa, comece afastando a mesa para um canto da sala e sobre ela coloque os salgadinhos ou doces. A toalha deve ser de preferência toda branca(…)”. pg 68

Essa não é a Clarice que você conhece. E esse não será, muito provavelmente, o seu livro preferido. Mas através dele, podemos traçar paralelos com a nossa época. As revistas femininas atuais não estão muito longe de “Correio Feminino”. Elas não são de todo ruim, pois apresentam matérias muitas vezes utilíssimas para alguma coisa que estávamos à procura. Afinal, qual o problema em querer saber da última novidade capilar? Isso nos torna piores de alguma forma? Com certeza não.

É a variedade que se torna necessária. Queremos sim, dicas capilares. Queremos depoimentos reais, queremos dicas de relacionamento. Mas queremos, sobretudo, saber que não iremos encontrar, nessa mesma revista, uma matéria sobre os comportamentos que os homens condenam em nós. Apenas porque não é do nosso interesse (ou não deveria ser).

Correio Feminino