Justiceiros: riqueza não é sinônimo de bondade

Por Maíra Souza

JUS.TI.ÇA s.f. Virtude moral pela qual se atribui a cada indivíduo o que lhe compete: praticar a justiça. / Direito: ter a justiça a seu lado. / Ação ou poder de julgar alguém, punindo ou recompensando: administração da justiça. / Conjunto de tribunais ou magistrados: recorrer à justiça.

Para os justiceiros, o sentido único, pleno e verdadeiro da justiça é aquele limitado aos seus semelhantes: os cidadãos de bem da família brasileira. Aí, há uma definição um tanto quanto subjetiva em dicotomias como: o bem e o mal; nós e os outros;  o menor infrator e o adolescente inconsequente; o marginalzinho que furta Iphone e o despachante que sonega impostos; ou o chefe do morro e  os eternos coronéis e suas famílias que ainda mandam em parte do Brasil.

O justiceiro contemporâneo tem dificuldade em aceitar que a sua empregada não quer mais trabalhar todos os dias da semana, não quer mais dormir na senzala no quartinho dos fundos, e que ela pode comprar uma TV igual a sua, ou até mesmo um celular igual ao seu. Ainda que considere “a moça que trabalha lá em casa”, a babá e o motorista como se fossem “da família”, esquece-se de que as famílias reais destes moram do lado de lá da ponte, escondidas pelo insulfilm e pelas liminares que defendem a ~propriedade privada~.

O justiceiro tem licença pra matar, é marrento, olha feio, e, na primeira oportunidade, comenta : “tinha que ser preto”. Ele faz parte da turma de bem com a vida de comentaristas do UOL, crentes de que todas as mazelas do mundo são fruto do PT, da preguiça, do funk, da baderna de mascarados, etczzzz. A relação de causa e consequencia só faz sentido quando não é aplicável aos seus semelhantes.

É claro que o justiceiro se comove quando assiste aos quadros ~filantrópicos~ do Caldeirão do Huck – inclusive, quando chega o Natal, ele doa as suas roupas velhas aos mais desfavorecidos. Porém, para aquela criança que outrora ele deu o pão, hoje ele dá o tapa. Absurdo é sustentar Bolsas Esmolas pra pivete sair por ai roubando. Querem mais é se vingar de todos os transviados, daqueles que sairam da curva – sempre ignorando o fato de que a maioria destes nunca entrou na curva, nem nas vias de acesso aos direitos civis, políticos e sociais.

E, falando em dar tapa, há o justiceiro que crê em Jesus Cristo – aquele que oferecia a outra face, pregava a mudança da ordem vigente, e propagava sentimentos como o amor e a compaixão. O justiceiro, por sua vez, acredita que o correto é oferecer o discurso de ódio, propagar o sentimento de vingança e proliferar seus julgamentos pré-concebidos como forma de provar quem é quem na sociedade.

O atual justiceiro que se considera cristão também parece se esquecer de que Jesus também salvou Maria Madalena do apedrejamento (ou, como diria Rachel Sheherazade, da legítima defesa coletiva), viveu momentos de tensão com as autoridades, foi julgado pela lei dos homens, cercado pela multidão, torturado, ridiculizado e crucificado sem roupas entre os ladrões. Contudo, para o justiceiro, a lógica de “amar ao próximo como a ti mesmo” só se estende aos seus semelhantes, pois caso contrário, ele faz a ronda e ainda posta fotinha no Facebook.

Aliás, por falar em família brasileira, é por ela que o justiceiro luta. Pela tranquilidade nas ruas, pelo passeio pacífico no shopping com a devida segurança pela qual ele paga os seus impostos. Ele acredita que o segredo do Brasil está na educação, mas educa-se assistindo Sheherazades do horário nobre e acha que mídia alternativa é coisa de comunista petista vagabundo vândalo desocupado defensor de bandido tudo sem vírgula mesmo.

Considero, por fim, que o problema não está na Rachel Sheherazade, nem no Reinaldo Azevedo, nem nas novelas, nem no Big Brother Brasil, nem na Veja. Mas sim, na legitimidade dada por grande parcela da população ao discurso de tais jornalistas supracitados, simplesmente porque eles falam o que eles querem ouvir, profanam o senso comum (ou ódio comum?), alimentam ainda mais o círculo vicioso da violência, e não promovem aquilo que é mais urgente na sociedade brasileira: refletir e questionar.

A justiça, quando dada a somente uma parcela da população, e o sentimento de vingança constituíram a linha de raciocínio por trás de aberrações históricas como o holocausto e, não muito distante, a Chacina da Candelária. As vítimas da violência urbana não estão somente atrás das câmeras de segurança, nos carros blindados e nos restaurantes saqueados, mas na periferia desse sistema podre e falido que executa pais, mães e “menores” que também são cidadãos de bem. Enquanto a riqueza for considerada como sinônimo de bondade e merecimento, enquanto houver tanta gente que defenda o conservadorismo, racismo, elitismo e justiça com as próprias mãos, a família brasileira vai continuar assim: hipócrita.

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O espertão do trânsito

Por Maíra Souza

São Paulo é assim mesmo, um combo de pressa, tensão, emoção e atenção. Na capital paulista, há 25 milhões de veículos, sendo aproximadamente 5 milhões de carros, acumulando não sei quantas milhões de horas vividas no trânsito. Dessa galera toda, há quem passe esse tempo se entretendo num smartphone, se maquiando, lendo o Metro, ou só curtindo um som de buenas. Tem gente que masca chiclete e abre os vidros para não pegar no sono, gente que liga o Waze quando o trânsito para, e se enfia na primeira viela que vê para fugir do inevitável. Tem gente irritada, gente de bem com a vida, gente #chatida. Além disso, no meio dessa galera, tem muita gente esperta.

De alguma forma, todo dia você interage com os espertos.  Mas como identificá-los?

Em primeiro lugar, o espertão tem sempre prioridade nas ruas. Ele é aquele que buzina assim que o farol abre, porque a pressa dele vem sempre em primeiro lugar e ele desconhece o conceito de paciência. Ele não nasceu para esperar, mas sim para passar na frente dos outros – e ele, de fato, acredita que tem esse direito. Portanto, aqueles que ficam numa faixa para conversão, por exemplo, são trouxas, burros ou desocupados que não tem mais o que fazer da vida. E ai de quem cortar o espertão, viu?!

O espertão acredita no poder mágico e sobrenatural da buzina. Sua crença consiste na convicção de que tal dispositivo é capaz de gerar hélices ao amiguinho da frente, de modo que o veículo transforma-se num helicóptero, dando, portanto, livre passagem ao espertão. Se não funcionar de primeira, ele insiste mais uma vez, e mais uma e mais uma… até reger uma sinfonia!

O espertão tem um tempo diferente dos demais. Ele para na vaga de deficiente e de idosos, mas com ele é tudo rapidinho, é só ali, só 10 minutinhos. Mas daí tem dias que não tem jeito… a Marginal tá travada e ele vai se atrasar de qualquer jeito. Porém, o espertão é bastante apegado ao metro quadrado de asfalto. Logo, ele se mantém o mais próximo possível do carro da frente, de modo a impossibilitar até a passagem de um pernilongo. Imagina só se alguém rouba aquele pedacinho de chão que é só dele?!

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O espertão é muito macho. Ele é tão, mas tããão foda que canta pneu quando sai do farol, reafirmando a sua masculinidade e virilidade até atingir os 60 km/hr. Ah, ele também tem fobia de seta, porque dar seta ou qualquer sinalização é coisa de veado. Daí ele já chega embicando com tudo, não agradece, não gesticula. Gentileza gera gentileza é o c*ralho!

O espertão muito é valente também. Ele sente prazer ao xingar alguém no trânsito, pois esta é a melhor forma que ele encontra em aliviar toda a sua frustração fora das 4 portas. Desta forma, ele mentaliza sua infelicidade e/ou stress na vida profissional, pessoal e amorosa por meio de agressões gratuitas – sejam estas verbais ou físicas. Ele desce do carro mesmo, e se for para uma mulher então… aí que ele não se esconde por trás do insulfilm e se sente realizado como homem! Com sua carinha de marrento, ele profana as palavras “puta”, “vagabunda” e “vadia”… tinha que ser mulher mesmo!

O espertão odeia. Odeia sempre e muito. Odeia motoboys, embora sempre reclame quando o boy da firma se atrasa. Odeia ônibus porque atrapalha o trânsito e a sua capacidade de mobilidade urbana. Odeia o PTralha do prefeito que colocou mais faixas ~inúteis~, mas também odeia quando alguém chega atrasado porque veio de transporte público. Odeia também quando a CET o flagra arrasando nas faixas exclusivas. Pô, puta sacanagem isso… ele é quem nasceu para ser exclusivo!

O espertão é super sortudo. Ele confia cegamente na sorte que tem, pois desde pequeno a sua mãe diz que ele é muito iluminado. Ou seja, ele pode beber o quanto quiser e dirigir, porque além de dirigir melhor quando bêbado, os acidentes só acontecem com os outros – e os outros, são sempre os outros e só. Despreocupado, o espertão para na faixa de pedestres e passa no sinal vermelho sempre que possível, não tá nem ai. O povo desvia, o povo para, ~ISSO É BRASIL~.

O espertão, por fim, compõe a estatística de pessoas com transtornos mentais na maior cidade do Brasil. Se você, querido smartão, estiver lendo esse texto, deixo apenas uma dica: você NÃO é nem um pouco esperto, campeão.

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Os corpos perfeitos

A gorda é desesperada, incapaz de seduzir e de conquistar. A gorda faz tudo errado, e nenhum homem consegue amá-la, nem que seja por apenas uma noite. A gorda é desatenta, desligada, não percebe que aquele cara não está se aproximando dela por que a acha interessante. A gorda é heterossexual, está condicionada a ser virgem, e tem a sua virgindade exposta diariamente por meio de piadas. A gorda tem amigas e amigos magros, eles tiram sarro dela e ela nunca responde, afinal, ela tem que continuar sendo amável e simpática, pois esta é sua única opção. Por fim, a gorda também merece o seu final feliz, que se resume a um casamento.

Segundo a novela Amor à Vida, é isso aí, tá certinho. Com o discurso de combater o preconceito, ela não o expõe, mas sim reafirma os estereótipos, e legitima a caricatura da mulher gorda. A moça não descobre a felicidade por meio da aceitação de si, nem por meio da realização profissional, e tampouco por ignorar a superficialidade dos padrões de beleza e ser gorda porque assim o é ou quer ser. Não. Ela simplesmente supera do dia pra noite todas as humilhações e preconceitos que sofreu na vida porque encontra a felicidade no primeiro e único homem que se apaixona por ela – afinal, há sorte maior do que essa?!

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De outro lado, mas ainda no âmbito da busca pela aceitação social, há a procura da perfeição por meio da magreza extrema disfarçada pelo discurso de saúde. Ossos mais visíveis e a gordura zero exigem muito empenho e dedicação, logo, qualquer preço vale a pena: enfrentar transtornos alimentares, fazer competição de dias sem comer, ingerir desinfetante para vomitar e inibir o apetite, remover uma costela, tomar remédios proibidos pela ANVISA, e por aí vai… até o dia em que você simplesmente não se reconhece mais no espelho, distorcendo diariamente a própria imagem. Essa rotina é registrada e compartilhada nas redes sociais, cobiçada e incentivada por outras milhares de mulheres, mesmo que este sonho seja causador de morte – como, por exemplo, da webcelebridade que faleceu recentemente devido a uma hepatite viral desencadeada por anorexia nervosa. [Leia mais aqui

Ainda assim, há inúúúumeros blogs que ensinam receitas para alcançar esse resultado, considerado como estilo de vida, e não doença. Basta digitar “como emag…” no Google. Na mesma linha, praticamente todas as revistas femininas publicam semanalmente alguma fórmula regada a sacrifícios para sermos perfeitas e conquistarmos de vez o nosso macho. Há sempre manchetes em sites de notícias que nos mostram exemplos de como deveríamos afinar nosso corpo, como deveríamos nos alimentar, como nossa barriga poderia ser negativa e como deveríamos tirar foto de espelho na academia.

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Por fim, no meio disso tudo, nota-se que também há muitas mulheres afirmando-se como são e expondo suas curvas e suas “imperfeições”. Desafiando o peso que insiste em derrubar a autoestima, elas têm orgulho de quem são, aceitam suas formas fora do padrão, suas cicatrizes, seus pêlos. Elas contam suas histórias em tumblrs, blogs e páginas com o intuito de fazer com que aquelas que se identificam com estas histórias também se permitam serem felizes com o corpo que tem. Exemplo: o tumblr Batalha dos Corpos, com fotos de mulheres sem Photoshop, de partes do corpo que as incomodam e relatos de como elas tentam superar esses sentimentos.  

Talvez no futuro, a gordofobia e a anorexia não sejam mais assuntos tão recorrentes, não causem tanto desrespeito, preconceitos, depressões e mortes. Talvez haja mais desfiles como o do estilista Rick Owens na Semana de Moda de Paris, que optou por modelos acima do peso, e em sua maioria negras para exibir a sua coleção primavera/verão 2014. Quem sabe um dia, a personagem gorda não seja nem coadjuvante e nem a vítima?!

“Meu nome é Kevin: qué vim, vem”

Por Maíra Souza

O teor de sedução nulo da frase do título demonstra as babaquices que nós, mulheres, temos que ouvir diariamente ao sairmos de casa. Esta semana, conheci a campanha Chega de Fiu Fiu e o incrível resultado da pesquisa feita com mais de 7 mil mulheres sobre cantadas o assédio em locais públicos, e decidi compartilhar algumas histórias que já aconteceram comigo, e que tenho certeza que já foram vividas por amigas, desconhecidas, mulheres.

Quando eu estava no período de transição entre a infância e a pré-adolescência, já parecia ser mais velha do que realmente era, afinal, eu tinha uma estatura acima da média e tudo mais. Logo, isso já era motivo o suficiente para que determinados homens me enxergassem como mais um ser humano que poderia excitá-los, principalmente se eu estivesse com o uniforme da escola. Lembro de diversas ocasiões em que estava com a minha mãe numa fila de mercado, por exemplo, e ela discutia com um cara qualquer que olhava pra mim com aquele ar de desejo. Naquela idade, eu achava que ele estava só olhando por olhar, e ficava tímida perante a cena da minha mãe esbravejando a minha idade para quem quisesse ouvir, e que eu era “apenas uma criança, seu safado/nojento/porco, etc”.

Na época, achei que ela estava exagerando em brigar assim com tanta frequencia, mas conforme fui crescendo, percebi que as imagens do “velho safado” foram se multiplicando e se tornando cada vez mais evidentes. A cada dia, as regras de convivência com os assédios em espaços públicos ficavam cada vez mais claras:

  1. Nunca olhar pra trás.

  2. Nunca responder.

  3. Nunca estabelecer contato visual.

  4. Nunca andar com algo que possa parecer provocativo na rua, como um pirulito ou um picolé, por exemplo.

  5. Entrou por um ouvido, saiu pelo outro.

  6. Sempre, SEMPRE ignorar.

Isso sem contar os padrões de vestimentas, principalmente em dias de calor.

Assim, somos ensinadas a nos acostumar e a lidar com assédios na rua como se fosse algo normal e natural do sexo masculino. Como se o homem tivesse que auto-afirmar a sua masculinidade e virilidade desta maneira. Como se a rua fosse um espaço tão público ao ponto de nos tornar igualmente públicas e expostas, de modo que o homem tem o direito de falar o que quiser pra nós, de cobiçar e de demonstrar esse desejo como bem entender. Ou seja, seguramos uma placa inconsciente e invisível de “qué vim, vem”.

Tal como um grande pedaço de carne exposto numa vitrine pública, já ouvi coisas como “que carnão, hein!” ou “nossa, buc*tão!“. Ouço “oi linda/gostosa“, ou sons de beijo do cara do carro do lado quando estou no trânsito com os vidros abertos. Inclusive, já fui seguida por um carro às 09h da manhã, e depois de muito acelerar e de tentar fugir dele, descobri que ele queria que eu abrisse o vidro para tomar café da manhã com ele na padaria mais próxima. Aham, tá certinho, moço.

Não estou falando que não deva haver interação social entre homem e mulher, mas contanto que os dois estejam interessados e pré-dispostos a iniciar uma conversa e/ou um flerte. Isso é completamente diferente de estar em uma situação de vulnerabilidade, sendo obrigada a passar por qualquer tipo de situação como se não fosse nada de mais.

Os sentimentos que as “cantadas” provocam vão do repúdio ao asco. Essas atitudes não se tratam de um problema apenas brasileiro, nem ocidental, nem oriental, nem cultural: é universal e mascarado de inúmeras formas. Já fui assediada por homens de terno e gravata, mendigos, pedreiros e até pelo cara que me assaltou – sim, pois é… ele disse que tinha me achado gata, e que, portanto, levaria apenas o meu celular, poupando a minha bolsa.

Mas o pior episódio se deu numa balada, quando um cara pegou na minha bunda. De súbito, eu empurrei o rapaz, ele pediu desculpas e disse que queria apenas CONVERSAR. Eu falei algumas coisas inapropriadas para o horário, e ele empinou seu dedo indicador no sentido do meu rosto, dizendo que ele não era qualquer um, que não era como qualquer playboy que eu estava acostumada (?), e que se ele quisesse, poderia ME MATAR com apenas um soco.

Até hoje, a minha vontade é de jogar gás lacrimogêneo nele, e quando me perguntarem por que eu fiz isso, responder: porque eu quis.

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A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

Racismo: Como É Ser “01 em cada 10”

Por Maíra Souza

Em 2010, tive a oportunidade de conhecer Paris. Numa tarde durante a minha primeira semana lá, estava esperando o ônibus no ponto de um bairro nobre da cidade. Um homem se aproximou de mim e começou a puxar assunto. Ele perguntou de qual país eu era, o que fazia em Paris, e como eu havia aprendido francês. Meio seca, disse que estudei o idioma durante alguns anos no Brasil, e que estava em Paris para um intercambio acadêmico na Sciences Po. Ele respondeu: então você não sabe sambar?

Fiquei sem reação. Milhares de respostas passaram pela minha cabeça, milhares MESMO. Porém, optei pelo silêncio acompanhado da cara feia de reprovação. Felizmente, o ônibus chegou e foi o cenário de uma das reflexões mais importantes que tive na vida. Durante os minutos daquela viagem, refleti sobre quem eu era, o que eu significava e o que eu representava, preparando-me para quantas vezes mais teria que ouvir aquela pergunta durante o intercâmbio.  Quantas mulheres do mesmo porte físico que eu estavam vivendo em situações completamente opostas – e não por serem brasileiras, mas por serem negras?

Sim, eu sei sambar, assim como sei ler, escrever e pensar. Igualmente sei da responsabilidade que, ainda inconsciente, carrego: a responsabilidade de ser uma exceção. Sou aquele “01 a cada 10” das melhores escolas, das melhores universidades, dos cursos de idiomas. Sou o “01 em cada 10” dos hospitais particulares. Sou o “01 em cada 10” do público consumidor de acima de 3 salários mínimos. Sou o “01 em cada 10” que nunca foi abordado pela polícia.

Do berçário até o fim da faculdade, eu era uma das poucas – ou se não a única- negra da sala de aula. Os meus amigos, em sua grande maioria, são brancos, afinal, compartilhamos da mesma realidade socioeconômica, frequentamos os mesmos lugares e temos os mesmos acessos ao lazer e a cultura. A minha realidade é uma exceção porque a cor da minha pele nunca me impediu de nada, assim como tenho nenhuma recordação de ter sofrido racismo. Simplesmente porque o dinheiro nos torna transparentes.

A diferença era mais berrante quando eu era criança. Cheguei a pensar diversas vezes que as minhas amigas eram mais bonitas do que eu, e que, consequentemente, atraiam mais a atenção dos garotos que eu gostava. Ué, não era a Barbie quem conquistava o Ken?! Eram as protagonistas brancas das novelas que tinham o seu final feliz com o mocinho.  Ou seja, eu queria o cabelo das minhas bonecas, e sonhava com um Ken pra chamar de meu no final feliz da minha própria história. Mas a moça negra dos filmes e das novelas era das duas, uma: ou a empregada, ou a pobre.

http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ

Conforme fui crescendo, deixei tudo isso pra lá e percebi que a beleza se dá de inúmeras formas. O que passou a incomodar mesmo eram outras coisas como, por exemplo, a pejoratividade implícita no termo “neguinha”-  ao contrário de “branquinha”, que não tem uma conotação negativa. Da mesma forma , os homens que me “””””””””elogiam””””””””” ” na rua se referem a mim como morena, demonstrando o eufemismo existente nas palavras morena/moreninha/morena de pele,  numa tentativa de não “ofender” o afrodescendente.

Não, não ofende. O que ofende é uma sociedade que insiste em ignorar a herança histórica do Brasil escravocrata. O que ofende mesmo é esquecer que a Lei Áurea não trouxe a liberdade em seu sentido pleno, pois os ancestrais de grande parcela da população negra continuaram sem receber nada pela sua força de trabalho, restando-lhes as beiradas da sociedade como moradia. Seus filhos, seus netos, seus bisnetos  e seus tataranetos continuam ali, às margens: nas periferias, nos subempregos, nas favelas, nos orfanatos, nas prisões.

Gostaria de deixar claro que estou me referindo a uma maioria comprovada por estatísticas e por análises a olho nu, e não generalizando a imagem que todo negro é pobre e de que todo pobre é bandido. Mas sim, reafirmando que a cor da pele ainda faz com que o buraco seja sempre mais embaixo.

Se, hoje, eu me considero uma exceção, é porque meus pais foram uma exceção, porque meus avós foram uma exceção, porque meus bisavós foram uma exceção. Minha família se construiu no “01 a cada 10”. Mas meus tataravós não. Eles foram reféns de sua própria condição de existência, tiveram sua cidadania, cultura e religião reduzidas. Em 1800 e pouco, não havia a opção de traçar o próprio caminho, não existia auxilio do governo, não existia cotas.

Quanto a mim, continuarei sendo uma exceção até as minhas próximas gerações não o serem; até a maior parte da população carcerária não ter o mesmo tom de pele que o meu; até os hospitais, escolas particulares, universidades, shoppings Iguatemis, e tantos outros espaços privados da elite brasileira estiverem tão definidos por um só tom.  E se eu e a minha família somos exceções, é porque a regra existe. E a regra está muito clara na nossa sociedade, basta perguntar para a família dos milhares de Amarildos.

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