Detox Espiritual

por Maria Shirts

“…magina, ele me deu uma bota falando que precisava de um ‘detox espiritual’”.

“Que porra é um detox espiritual?”

As duas mulheres, calculei uns 35 anos e algum grau etílico, caíam na gargalhada enquanto vinham para fora do bar, na minha direção, fumar cigarros e discutir relacionamentos.

“Não sei o que é pior. Falar uma merda dessas ou fazer o que o Alexandre fazia comigo, tipo me usar de mina troféu, sabe?”

“Não, que que é mina troféu?”

“Ah, o cara te deixa ali de standby na estante e só tira de vez em quando pra dar uma lustrada e mostrar pros amigos”.

“Puts, isso é foda. Mas pior mesmo foi a humilhação que eu passei antes do espiritual-entoxicado, em 2010, com o Lima. Lembra dele?”

“O loirinho com cara de cafa?”

“Esse mesmo. Fui viajar pro Réveillon na Baleia com ele e uma galera e o cara só me esquentava, ficava fazendo carinho, me elogiando, me deu uns beijo… aí meu, quando chegou a… a…, qual que é o nome dela? Até esqueci. Enfim, quando chegou uma menina que eu não conhecia, amiga da Rê…”

“Rê era a dona da casa?”

“É amiga, a Rê loira, que pega o Celsinho”

“Ah, total”

“Enfim, aí chegou a menina e o Lima não pensou duas vezes… se agarrou com ela e não largou mais. Eu chorava, mas eu chorava, tive que ir embora tipo no dia 1 de janeiro de tanta humilhação. E o pior é que ele começou a namorar a menina, olha que loucura”

“Ai amiga, que mal…”

“Pois é. Aí to eu aqui, quatro anos depois, e o menino vem me mandar email falando que ele foi muleque, que ele se arrepende, que terminou com a menina e que queria tomar um café…”

“Gente, que cara de pau. E aí?”

“Aí que a gente marcou sexta”.

 

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15 mulheres, 4 homens e 1 cachorro

por Maria Shirts

Por mais crítica que eu pense que seja, não consigo deixar de curtir a Copa do Mundo. Acho que é por causa do meu pai – Freud explica. Foi ele que me levou, pela primeira vez, em um estádio. E a primeira partida a gente nunca esquece.

 Foi Brasil x Colômbia, um amistoso no Estádio do Morumbi. Lembro que o Dida, saudoso, era o goleiro, então deve ter sido lá pelos anos 2000. Se não me falha a memória, o jogo foi 3 x 2 para nós. Diferente do que o placar poderia sugerir, foi um jogo ruim. Na verdade, eu adorei. Mas recordo de ver inúmeras bandeirinhas serem descartadas lá de cima formando uma cachoeira verde e amarela no panetone Cícero Pompeu. Lembro de ter ficado revoltada com o protesto da elite branca e europeia-brasileira.

Esse é só mais um dos fatores que me faz acordar ansiosa – ou melhor, não dormir – a cada 4 anos, desde 98, às vésperas do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo.  

Neste ano, a estreia foi em casa. Chamei 20 amigos, comprei Doritos e cerveja, pendurei a bandeirona na janela. Pela 5ª vez reclamei que não tinha camiseta do Brasil – amarelo não me cai bem, nunca comprei roupa dessa cor –, roubei uma no armário do meu pai, verde, e esperei os convidados.

Aos poucos chegaram – 15 mulheres, 4 homens e 1 cachorro (que tem medo de fogos e, por isso, não pode ficar sozinho em casa). Desde às 15h prostrada no sofá menor da sala, o que fica do lado da TV, aguentei a histeria de todo mundo que queria mudar de canal, aumentar o volume, por no HD, tirar do HD – pô, HD tem muito ‘delay’, a gente vai ouvir os gols antes. Só não foi pior do que o segundo jogo, que assisti no boteco, porque eu ainda posso reprimir os meus amigos – diferente dos cornetinhas do Bar do Biro.

Algumas cervejas depois, Marcelo fez o primeiro gol da partida: contra. Só esse xabu mesmo pra silenciar os 20 amigos bêbados que alucinavam na minha casa. Era como se todos tivéssemos esquecido como pode ser tenso ser um brasileiro durante a Copa do Mundo – ainda mais no Brasil.

Depois da recuperação, os ânimos se exaltaram mais do que no início. As meninas berravam, os meninos mordiam os lábios e os dedos. O cachorro, como lhe restava, só latia.

Foi um belo jogo. Tão animado que os convidados foram todos comemorar na Vila Madalena, antro da boemia paulistana, selvagem e carnavalesca dessa Copa do Mundo brasileira. Eu, totalmente inebriada, fiquei em casa cantarolando “Olêê, olêê, olêê” e pensando que tá tendo muita Copa. Ainda bem.

 

Tropical Delicinha

por Maria Shirts

Toda vez que venho trabalhar passo por uma ou duas instalações que gosto de chamar de “Tropical Delicinha”.

Pra quem não sabe, são espécies de tabladinhos dispostos por algumas esquinas com… delicinhas: bolo de laranja, café de coador, goiabinha, às vezes um cházinho, enfim, várias opções pra quem saiu de casa correndo sem tomar café da manhã.

Fico observando o Tropical Delicinha e adoro as interações sociais que ele gera. Sempre tem dois ou três conversando sobre o bolo, a vida, o café da garrafa térmica de R$ 1,50 – forte, né?

Resolvi chamar assim, de Tropical Delicinha, porque me ocorreu que esse tipo de coisa só pode ser vista em países tropicais. Não só pelo que ali é oferecido, mas porque esse tipo de comércio informal, que ocupa a rua numa versão bem mais tímida de feira livre, é a cara de países emergentes e, por que não dizer?, tropicais.

Você imagina algum americano asséptico experimentado um home made bolo de laranja num Tropical Delicinha? Jamais! Agora, yakisujo de food truck em Manhéttén tudo bem, né. A diferença, como se pode perceber, é o industrializado, ave César, ó progresso! O home made bolo de laranja, ao contrário, é artesanal…

Vai ver que é por isso eu gosto tanto dos tabladinhos retráteis dessa esquina da Angélica onde trabalho. Eles emanam uma espécie de carinho que só uma comida caseira pode despertar. Pouco me importa se foi comprado na padoca, ou de algum fornecedor da Alameda Glete. Ele parece ter sido feito em casa pela própria senhorinha que o está vendendo aqui, debaixo dessa janela do escritório.

Aliás, ela já tá indo embora. Daqui do 6º andar posso ver que vendeu todo o aparato e, carregando uma caixa e duas sacolas, deve ir pro seu próximo posto. E olha que ainda são 9h30.

Qualquer dia desses, entre um café de coador e um bolo de laranja, vou perguntar o que que ela acha de chamar o seu empreendimento de Tropical Delicinha. Aposto que ela vai achar ridículo.

Sebo Silva

por Maria Shirts

Dia desses fui comprar um livro num sebo na Liberdade – o bairro. Fazia muito tempo que eu não ia atrás de romances usados porque tenho comprado mais lançamentos ultimamente. E também porque a minha tara por livros se tornou de tal forma um fetiche que acabo por pagar os olhos da cara pelo objeto de desejo sem pensar duas vezes.

Pois bem, a ficção que eu queria comprar estava esgotada nas megastores livreiras, o que me obrigou a procurá-la na Estante Virtual. Como queria o livro com alguma ansiedade (ó o fetiche aí de novo), optei por ir buscá-lo no sebo mais perto, o “Mania de Cultura”, ali na cara da Catedral da Sé.

Fui almoçar com uma amiga na Rua Augusta e decidi ir depois, a pé mesmo, pra curtir um centrão de São Paulo. Desci a via mais boêmia da cidade, entrei na Caio Prado, Rua Gravataí e atravessei a Praça Roosevelt. Precisava passar no Viaduto Nove de Julho e, de lá, iria para a Dr Rodrigo Silva, meu último destino.

É gostosa aquela São Paulo. Os pixos, a lanchonete do Estadão, as fuligens grudadas nas paredes dos viadutos. O gari, hoje agente ambiental, musicando a vassoura do lado do beleléu — igualmente musical. Aquele magenta de tijolo queimado antigo; as pastilhas dos prédios do Artacho Jurado.

Segui a Rua Dona Paula, xinguei um motorista folgado; admirei a Câmara dos Vereadores. Fazia tempo que não passava por ali.

Entrei na Dr. Rodrigo e, logo em seguida, no sebo. Não dei nada. “Pequeno”, pensei. Droga. Perguntei pelo livro, um do Tom Wolfe, e ela me indicou, polegar em riste: “lá em cima”. Passei por alguns patamares com livros socados embaixo das escadas, em prateleiras, empilhados, em qualquer rincón de 90º com apoio e abrigo.

Cheguei no andar de cima, eu e minha rinite, ao som de AC/DC. Aí apareceu o adolescente típico de sebo, trabalhador informal sem carteira assinada que quer fazer um troco no período da tarde, ele e o seu moicano loiro, o chiclete mastigado desde a hora do almoço.

“Você tem o ‘Eu sou Charlotte Simmons’, do Tom Wolfe?”.

Fez cara de decepção tão logo eu acabei de falar, emitindo aquele “iiiiih” desanimado. Desacreditei — como é possível ele saber assim, de bate pronto? Será um fã de Tom Wolfe que pega todos os livros do neojornalista pra ele? Ia ser maravilhoso. Não fosse a minha vontade primária de comprar a novela em questão.

“Poxa moço, vim até aqui só pra isso”.

Me levou na seção de literatura americana, procuramos, eu e ele, sentados naquele banquinho de criança, desconfortável até para as crianças — marca registrada das lojas de livros usados. Achei em menos de minuto. Ideia fixa, sabe como é.

Peguei o exemplar toda feliz, ele nem tanto (acho que ainda não tinha lido esse do Wolfe) e continuei fazendo hora, olhando os amarelados Manoel de Barros, plastificados Mil e Uma Noites, detonados Sagaranas, todos com 50% de desconto. Agradeci, paguei, desci.

Olhei pra trás com a sensação de que deveria ter ficado mais. “Deve ser o fetiche”, concluí, indo embora.

 

Sebo Mania de Cultura, Liberdade. SP.

Sebo Mania de Cultura, Liberdade. SP.

Se oriente rapaz

por Maria Shirts

Linha Verde

Pegar a linha verde do metrô no dia da Parada Gay é sempre exótico. Os tipos que entram e saem das estacões que desembocam na Avenida Paulista são invejáveis: desde um senhor musculoso trabalhado no mini-dress e desfilando muito melhor do que eu, por exemplo, num salto 15, até adolescentes com camisetas do AC/DC cantando Lady Gaga a plenos pulmões no trem.

Meu destino no último domingo, entretanto, não era o desfile do Orgulho LGBT, mas o Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. Lá havia ido apenas uma vez na vida, a trabalho, num dia de semana xexelento e desanimado. Acompanhava uma excursão de escola quando ainda era repórter institucional de um desses colégios proto-hippies-construtivistas. A impressão provocou um bode eterno, de maneira que eu nunca mais voltei. Até domingo.

Centro Cultural São Paulo

Cheguei no CCSP esperando um lugar cinza, fantasma e com funcionários mal humorados. “Programão, hein”, mentalizava sarcasticamente, até adentrar o andar Caio Graco – o de cima – e dar de cara com um jardim suspenso e de solzinho outonal que enchia de vitamina D os poucos casais ali estirados.

Desci a rampa central em direção à exposição do subsolo sobre a língua árabe. A montagem era bem qualquer nota, mas simpatizei com o estilo “lá em casa”.  De graça, circundava a biblioteca do Centro Cultural que, para a minha surpresa, estava cheia de estudantes de Medicina, Cálculo, Direito e um que lia As Leis da Doença Mental e Emocional (editora: Neuróticos Anônimos), cuja formação não consegui desvendar.

 

Mostra árabe no CCSP: "o conhecimento é luz, a ignorância é escuridão".

 

O guarda volumes atestou a minha única impressão correta sobre o lugar: o mau humor dos funcionários. Mas, também, não é como se todo mundo ficasse feliz em trabalhar num domingo, de modo que a suposição não era de todo reveladora.

Um bando de adolescentes chamou a minha atenção para a área externa do Centro. Não sabia que era tão grande. Eles ensaiavam uma coreografia em conjunto bem americanizada apesar de inspirada pela música Corean Pop. Quando saí para observar notei que não havia um, mas ao menos 12 destes grupos — um do lado do outro no corredor do C.C., como seus hormônios adolescentes me permitiram apelidar.

 

Jovens ensaiam coreografia ao som de Corean Pop

 

Além dos grupos de dança, alguns ensaiavam esquetes de teatro, mas com comedimento para não atrapalhar os que jogavam xadrez numa mesinha disposta no canto dos cantos. Outros se reuníam em roda para bater papo, fazer piquenique ou discutir questões mais profissionais – se entendi bem, um grupo de jovens do Rotary levantava pautas sobre o programa de intercâmbio da Fundação.

No mais, um casal de palhaços protagonizava uma contação de histórias para crianças enquanto outros casais, um pouco menos palhaços, tomavam um cafézinho enquanto não começavam as sessões de cinema mais hipsters que eu já vi numa mesma programação: às 15h30, The Punk Singer, sobre a vocalista Kathleen Hannah da banda “electroclash” Le Tigre; às 17h30, The story of Descendents/All, documentário sobre as bandas punks homônimas; e às 19h30Jimi Hendrix: Hear My Train Comin, “o olhar mais íntimo – e menos polêmico – sobre o guitarrista mais influente do Rock”.

Confesso que fiquei com vontade de assistir a todos, mas a fila e os demais 4 quilômetros que tinha para desbravar não me permitiram. Quem sabe eu não vou na semana dos “Dias Nórdicos” ou na “Mostra Prostituta”?

Caminho Vergueiro

Eu não sabia, mas a Avenida Vergueiro também tem ciclofaixa aos domingos, o que a deixa um pouco mais simpática – se é que isso é possível – nos fins de semana. Apesar de mais acolhedora, pra mim não faz muita diferença porque minhas habilidades ciclísticas não são incríveis.

Fui a pé ao meu segundo destino, o Jardim Oriental da Liberdade, para poder absorver o caído caminho Vergueiro, talvez o lugar da cidade com mais concentração de FMUs por metro quadrado.

Passei pelo deprimente Hospital do Servidor que parecia ermo, dado que alguns paramédicos descansavam despreocupados do lado de fora, batendo um papo que parei para escutar, como quem não quer nada, até ser interrompida por um mendigo loucão que me assustou e fez seguir meu rumo.

Me impressionei com a Rua Castro Alves e seu statement urbano – uma espécie de divisor de águas entre Paraíso e Liberdade. Pro lado de cá as neo-torres da classe média(val) da zona sul (nada) paradisíaca; de lá, os cortiços descascados, os olhinhos puxados e as luminárias vermelhas mais charmosas da cidade.

Fui pelo caminho maior para dar uma olhada na Praça da Liberdade. Que grande ideia estúpida. Esqueci da feira gastronômica (sempre) lotada. Saí pela Galvão Bueno em busca do meu Jardim Oriental que, próximo à ponte e mais distante do epicentro gourmet, achei que estaria mais pacífico. Ledo engano.

Jardim Oriental Liberdade São Paulo

…Depois de 300 metros e 30 minutos na Rua Galvão Bueno – cujo nome descobri que homenageia não o narrador mais insuportável do Brasil mas sim o advogado e professor Carlos Mariano de mesmo sobrenome, que teria morrido tragicamente afogado durante uma pescaria no Rio Tamanduateí – cheguei ao Jardim Oriental Liberdade São Paulo.

Sua entrada é charmosa: tem pedras, bambus e carpas num lago onde crianças orientais e ocidentais pescam com as próprias mãos — apesar de não poderem. É um lugar gostoso, a priori. Por pouco não se nota a Radial lotada costeando o muro rústico.

 

Jardim Oriental Liberdade São Paulo

 

Ao fundo do Jardim há um salão pouco convidativo com mesas de plástico e um palco inabitado. Defronte, vários espetinhos de camarão fritos, yakissoba, temaki, e outra tanta gastronomia exótica são vendidas a preços módicos. Notei que ali comiam mais japoneses e chineses do que na Praça da Liberdade, o que julguei ser um bom indício. Até olhar a cozinha.

Desisti de comer, fiquei olhando em volta e ri comigo mesma  ao notar o letreito luminoso “quick massage”: R$ 20 – 15 minutos. Achei cômica a situação de fazer uma massagem olhando o vizinho comer um espetinho ou, pior ainda, um temaki enquanto se suja de shoyo, derruba arroz na mesa inteira, o hashi no chão…

Em suma, achei o lugar bonito, mas um pouco baixo astral. Resolvi voltar para o Centro Cultural São Paulo para completar os 5 quilômetros prometidos à reportagem.

Foi então que conheci um pouco da Liberdade profunda.

Liberdade Profunda

É verdade que já estive em karaokês e restaurantes excêntricos (como o Chi Fu) na Liba (para os íntimos), mas nunca andei por ali mais do que o necessário (leia-se: metrô – destino).

Por isso me foi muito surpreendente desmistificar a Galvão Bueno e ver um lado desabitado, inóspito e pouco fantasioso do bairro. Diferente do começo da rua, seu fim tem um quê de centro mais puído, com vários predinhos baixos e acabados, de janelas estouradas, com estacionamentos duvidosos.

O cenário só é aquebrantado pelo edifício da Força Sindical, que tem uma imponência realista socialista de dar medo. Fora isso, continuam as FMUs, os cortiços e os restaurantes chineses até a Rua Tamandaré onde, descobri, há uma igreja ortodoxa russa no número 710. Estava fechada. Uma pena, porque deve dar uma boa história…

Igreja Ortodoxa Russa na Rua Tamandaré. Créditos: Douglas Nascimento

Igreja Ortodoxa Russa na Rua Tamandaré. Créditos: Douglas Nascimento

Haitiano no elevador

por Maria Shirts

Eu não sou boa de elevador. Parece piada. Afinal, é um elevador. Mas nunca consegui entender as condutas sociais, filosóficas e morais que regem o ascensor.

Faz tempo que eu descobri isso. Primeiro achei que era um medo, uma claustrofobia, uma paranoia dessas de gente doida, tipo a protagonista do filme Medianeras. Mas depois de ser abordada algumas vezes pelo papinho climatempo, os olhares constrangidos, a disposição errada do espaço e ser flagrada tirando a selfie no espelho, percebi que, na verdade, eu nunca aprendi a me portar direito no transporte 2×2.

Não é ‘rocket science’, eu sei. Mas, tente entender: eu nunca morei em prédio. Sempre trabalhei em sobrados, salvo algumas exceções (e o escritório atual). Adquiri menos referências ascensoristícas do que a maioria. É claro que sempre fui na casa de amigos, parentes, do namorado, em consultórios. Mas, faça as contas: eu provavelmente peguei muito menos elevador na vida do que você.

Dada a incompetência, criei eu mesma um modus operandi ascensorial. Entro ouvindo música, lendo ou com o os olhos já treinados para rastrear e atingir o mais rápido possível o/a Elemidia (não sei qual o gênero de ‘Elemidia’).

Pois bem, estava na última semana saindo de uma reunião no 25º andar desses prédios comerciais e espelhados quando botava meu plano operacional em prática. Antes das portinhas cinzas abrirem eu já tinha colocado os fones de ouvido e, uma vez ali dentro, aumentava consideravelmente o som do iPod. Mas foi questão de um só andar.

A porta abriu no 24º e, tão logo entrou, a senhora uniformizada operando um celular (provavelmente mandando um SMS) começou a gesticular, olhou para mim abrindo e fechando a boca, emitindo sons ininteligíveis aos meus ouvidos salvaguardados pela tecnologia appleniana. Era comigo. Tirei o fone, em sinal de educação, e perguntei:

– Pois não senhora?

– ….meu namorado, sabe. Um barato, mas muito ciumento!

Tá vendo? É por isso que eu não gosto de elevador. O que dizer? O que fazer? Por que que as pessoas se submetem a isso? Em 5 segundos muitas respostas potenciais surgiram na minha cabeça. Pensei em dar aquele sorriso amarelo, em condescender com o drama, em dar conselhor amorosos, em sair no primeiro andar em que a porta abrisse. Mas antes que eu pudesse tomar alguma decisão, ela emendou:

– Mas acho que é porque ele é haitiano. Você sabe se é um povo ciumento?

(A voz interna: ma che?)

– Haitiano? Não sei não senhora.

– Ai menina deve ser, porque olha… Cê sabe que ele mudou pro meu bairro só pra me vigiar?

– Ahn, er, poxa.. é mesmo? Onde a senhora mora?

– No Grajaú.

– E onde ele morava antes?

– Na Liberdade!

– Eeeita.

– Pois é menina. Mas ele é um barato. E fala português mal pra caramba! rárárá! Eu to tentando ensinar mas ele não aprende. Ê bicho burro.

– Mas português é difícil pra estrangeiro, senhora.

– É né? Deve ser mesmo. Pra gente é tão fácil.

-….

Térreo. Abre a porta, ela sai ligeira, rindo dos erros que o haitiano comete via SMS e, simpática, despede-se:

– Tchau filha! Fica com Deus.

 

¿Hablas español?

Este texto foi feito para um laboratório de jornalismo literário que tinha como proposta a produção de um perfil de um exilado em 1968 num cenário diferente: o Brasil como uma ditadura comunista

 

DIÁRIO DO GOVERNO – Jornal oficial da República Portuguesa

28 de outubro de 1968

por Maria Shirts

MADRID – Um bigode protuberante. Clichê, mas é sem dúvida a primeira coisa que salta aos olhos quando um vê Paulo Leminski detrás da porta, em seu sobrado azul claro no coração de Salamanca, Madrid.

O jovem poeta, hoje com apenas 24 anos, me recebe um pouco tímido mas, tão logo me deixa entrar, já pergunta sobre o Brasil. Faz pouco tempo que está na Espanha e, no entanto, já sente muita falta da terra onde canta o seu sabiá, Alice Ruiz, com quem casou há pouco menos de seis meses.

Sua casa é simpática, não muito grande. Decorada com motivos hippies-orientais, tem um grande poster no centro da sala do poeta japonês Matsuo Basho, seu mestre. Não demora muito e me oferece um trago de vodca ou, como prefere dizer, o chá das 5h. Recuso.

Foi muito inesperada a saída de Leminski do Brasil. Ou, pior, a sua expulsão. O regime que se instalou há quatro anos no país, liderado pelo comunista Luis Carlos Prestes, sempre simpatizou com o poeta, a quem imaginavam um possível Maiakovski brasileiro. A recíproca, ao que tudo indica, também era verdadeira.

A relação começou a amargar, entretanto, quando Leminski declarou em um sarau que ele “preferia um bom poema romântico do que um ruim poema político” já que, ao menos, o romântico não enfraquecia os ideais. Muito ofendidos, os companheiros do regime programaram seu exílio quando os irmãos Campos, já muito influentes, pediram calma pois se suspeitava que Leminski estivesse bêbado, de vodca, inclusive, a bebida pátria que, apesar de camarada, obnubilava o poeta.

Pouco convencidos, os representantes concordaram com sua estadia, mas sob advertência e vigilância. Leminski alega que não ficou sabendo da indisposição. Despreocupado, continuou produzindo e publicando seus haikais.

Inspirado pela tormenta de um mês de julho frio e tipicamente curitibano, lançou aquele que seria seu último poemeta em solo brasileiro: “Faça chuva/Faça Sol/Yo no hablo español”. Tido como a gota d’água, o regime exigiu sua averiguação, “sob a justificativa de que eu estava fazendo chacota dos irmãos bolivarianos. Mas não tinha nada a ver. Eu só queria um trocadilho com aquele rimete ‘chuva e sol, casamento de espanhol’, compreende?” disse, um pouco vencido pelo cansaço. “Mesmo porque… eu falo espanhol”, suspirou baixinho.

Quando inquirido pelos representantes do Partido, explicou que jamais tiraria sarro de Simón Bolívar, que falava espanhol e que não tinha absolutamente nada contra a América Latina. Como castigo pelo suposto desacato, foi enviado a Espanha do inimigo Francisco Franco, que pelo visto o aceitou de abraços abertos na tentativa de lograr o “Câmbio Intelec”, política de softpower que tenta atrair ao país os artistas e intelectuais de vários lugares com o intuito de seduzí-los com valores e ideais “francos”.

Ele não se interessou. É uma pessoa simples, contemplativa. Vive todos os dias uma mesma rotina: escreve, tenta publicação em revistas e jornais madrilenhos, ou então portugueses. Tem escrito, ironicamente, muito mais em espanhol. Treina judô toda semana, tendo conquistado a faixa marrom recentemente. E frequenta o cinema. Disse, entusiasmado, que daqui duas semanas vai para Paris encontrar Alice. E depois de me contar sua história, termina nosso encontro com um conselho, que acho bom publicizar: “Lugar onde todos têm razão, melhor não ter nenhuma”.