Vagão para mulheres: segregar não é proteger

Clara Averbuck

* Texto publicado originalmente no Lugar de Mulher

Os deputados estaduais de São Paulo aprovaram o projeto de lei que prevê a criação de um vagão exclusivo para mulheres.O deputado Jorge Caruso, do PMDB, acredita que esses vagões ajudarão a evitar o assédio sexual que ocorre nos horários de pico. O Metrô e a CPTM, assim como nós, não aprovam a ideia e, procurados pelo jornal Folha de São Paulo, declararam considerar que a criação dos vagões “infringe o direito de igualdade entre gêneros à livre mobilidade”.

Resta agora esperar que o governador Geraldo Alckmin vete esse projeto.

Comprar a ideia do vagão separado é partir do pressuposto de que o problema é a mulher e que ela é quem deve ser segregada, enquanto os assediadores ficam soltos por aí. É legitimar que ela é quem provoca o assédio. É dizer que os homens são animais incapazes de civilidade, incapazes de respeito, incapazes de controle.

Esses assédios não têm nada a ver com desejo; tem a ver, sim, com poder e com uma cultura machista. Assédio e estupro não fazem parte de conduta sexual e isso deve ficar claro de uma vez por todas. Se não há consentimento, não é sexo, é abuso.

Além do mais, devo frisar: os assediadores do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos homens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fazendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusive em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer uma parte do problema. E se a mulher estiver no vagão “dos homens” e for assediada, então a culpa será dela? E se ela estiver em outro lugar, a culpa vai ser da roupa? E se ela estiver toda coberta, a culpa vai ser do horário? Não. A culpa nunca é da vítima e não é segregando que se protege.

Seguindo essa lógica do vagão, a culpa sempre será da mulher, pois já que homem é homem e tem instintos, não é responsável por seus próprios atos. É nisso que vocês acreditam? Que o homem é um animal incapaz de se controlar e que a mulher é culpada? E então, sendo o homem um animal incapaz, ele deve ficar livre para cometer atrocidades enquanto as suas vítimas são isoladas dele? A culpa nunca é da vítima. Nunca. Nunca.

Sem esquecer do constrangimento que as mulheres trans estariam sujeitas por esses vagões, correndo o risco de alguém “decidir” que elas não são mulheres.

Outra falha no discurso de quem acredita no vagão exclusivo é dizer que a mulher deve se preservar usando roupas “decentes”, usando como exemplo que não se deve deixar um carro aberto na rua ou um laptop largado por aí; pois bem, amigos, nossos corpos não são posses. Mulheres não são coisas, são pessoas. Nossos corpos são nossos corpos e devem ser respeitados sem exceção.

E só pra finalizar: no Rio de Janeiro há essa política do vagões e, adivinha? Não funciona. Os homens utilizam o vagão destinados às mulheres e as mulheres frequentemente precisam usar os vagões “normais”, porque afinal, somos muitas. Quantos vagões desses pretendem fazer? Somos 51,5% da população brasileira, não cabemos em um vagãozinho.

Não queremos políticas públicas que limitem nossos espaços. Punição para quem assedia e liberdade para as mulheres é o que queremos. Não é segregando que se protege.

 

Da vingança.

 Por Barbara Freitas, convidada.

Em tempos de “mais amor, por favor”, a desconfiança, a mágoa, o orgulho, o medo, a insegurança, o individualismo e egocentrismo limitam o amor. Poucos são merecedores de carinho, de sorrisos e de ações despretensiosas. Quem não as merece? Nós mesmos!

Em tempos de “mais amor, por favor”, esperamos o amor do outro para que possa merecer o nosso. Limitamos, não o nosso amor, pronto e sedento para ser oferecido, mas, principalmente, o amor que poderíamos receber.

Em tempos de “mais amor, por favor”, vagamos, sem ajuda, pelas ruas das cidades com tapas* e olhares desfocados.

Em tempos de “mais amor, por favor”, ignoramos, em prol de nossas tranquilas cabeças nos travesseiros, realidades, problemas e sofrimentos alheios.

Nesses tempos de salve-se quem puder, o amor, que não seja o próprio, não cabe. No limite da razão, ele também não se encaixa.

Que ódio desse amor que não recebemos. Suplicamos por “mais amor, por favor”, mas não somos merecedores o suficiente do sorriso da atendente do supermercado, do cobrador do ônibus, do gari, do médico, do nosso colega de escritório ou da senhora que compartilha do nosso sofrimento na guerra pelo acento do metrô.

Envenenamos e matamos nossa alma, em prol de nossas tranquilas cabeças no travesseiro e se assim escolhemos, então que as súplicas sejam por “mais ódio, por favor”. Supliquemos para que não nos toquem, pela indiferença, por “justas” vinganças, por imperdoáveis erros. Supliquemos, individualmente, para que nos deixem em paz e viver nossas vidas!

Por vezes, a realidade ultrapassa nossos tapas* e somos obrigados a apontar culpados, em prol de nossas tranquilas cabeças no travesseiro. Malditos são os políticos. Malditas são a falsidade e desonestidade dos seres humanos. Malditas são as pessoas puxadoras de tapete. Malditos são os perigos que marginais e assassinos nos oferecem. Malditos pedintes de moeda para comprar crack. Malditos sejam!

Ignorantes e pouco vividos são os idealistas. Não conhecem as leis da guerra criada por essas pessoas perigosas e más. Poluidoras do mundo, assassinas de animais, desumanas com os pobres famintos da África…

Como um sorriso, um toque ou um bom ouvido mudariam algo, quando podemos assumir o papel do falho Estado e condenarmos e amarrarmos um perigoso marginal (coincidentemente, na maioria das vezes, negros)?

Somos bons de coração, de alma, obedecemos as leis, somos trabalhadores de verdade, vencedores na vida, justos e honestos… Pena todos os outros não serem assim e nos forçar a agir da mesma forma: puxar tapetes, espancar marginais, rir falsamente, corromper policiais, responder à altura da grosseria da atendente do hospital, nos proteger dentro de nossos carros e condomínios… Não somos assim! Somos muito bons, mas assim nos obrigam a ser.

Para o louco que disse “Não me esperem para a colheita. Estarei sempre a semear”, nós respondemos:

Mais ódio, por favor!

*Pedaço de pano, com que se vendam os olhos do burro pouco manso.

Um não-post carnavalesco.

Por Paula Elias

Hoje não tem jeito: não sai post! Não consigo pensar em nada que não seja o carnaval. Bom, eu e metade do Brasil, imagino.

Há dias venho matutando sobre que fantasia usar nos blocos de carnaval desse ano.

Ano passado fui de Frida Kahlo e: arrasei.

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Foi a segunda vez que usei a fantasia, e esse ano eu PRECISO pensar em algo melhor.

Dividi minhas idéias com algumas pessoas, que não pareceram dividir o meu senso de humor e/ou estética. Maaaaas, como eu sou teimosa perseverante, tenho certeza que a internet receberá meus insights muito mais carinhosamente!

1. SUPER EGO

Basta colocar uma capa de super-herói e sair podando as pessoas!

2. TEA PARTY

1 chapéu de festinha + 1 balão de hélio + pacotinhos de chá = LET’S MAKE FUN OF SARAH PALIN!

3. NÍQUEL NÁUSEA

Orelhas do Mickey e sarcasmo!

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4. Estátua da Liberdade.

Basta um vestido verde, uma lista telefônica, uma coroinha e uma lanterna. Eu já me vesti assim e curti! O lado ruim é o braço que dói depois de ficar com ele esticado segurando a lanterna.

5. Drag

Fantasia muito fácil de conseguir e ótima para sambar na cara da sociedade machista-patriarcal-heteronormativa.

Empresto vestido para os moçoilos que precisarem.

Ontem eu decidi, de uma vez por todas, que vou usar as minhas raízes (leia-se meu nariz) e ir de libanesa. Um vestido longo, um lenço no cabelo e voilà!

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Ok, pode não ser eeeeexatamente preciso, maaaaaaaaaaaas, é carnaval, não me diga mais queeeeeeem você é… lalalalalala…

Já já tudo volta ao normal.

É melhor a gente curtir a ofegante epidemia enquanto isso.

E, pensando bem, o importante é a gente (e as nossas mães) nos acharmos bonitinhos.

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1 bilhão.

Por Paula Elias

Foi em Paris. No metrô de Paris, mais especificamente.

Passei um tempo por lá para aprender francês. Era verão, e minhas lembranças são adornadas por dias e noites idílicos andando de vestido e havaianas pela margem esquerda do Sena.

Uma noite estava eu voltando do cinema para minha casa. Entrei no metrô e pude escolher meu assento no vagão vazio.

Eram umas nove da noite.

Reparei que tinha um homem olhando um pouco insistentemente para mim. Abaixei a cabeça e esperei passar.

Desci na minha estação rapidamente, apressando o passo quando vi que o homem desceu atrás.

Apertei com força as chaves de casa na mão.

Até que ele me chamou.

– Ei, quer ir tomar um café comigo, moça?

Eu o encarei. Parecia de origem árabe. Da minha altura.

– Não, obrigada.

Ele se aproximou.

– Vamos tomar um café!

Eu recuei em direção à parede.

– Não! Obrigada.

Ele segurou meu pulso e se aproximava mais, quando uma voz ressoou no corredor vazio:

– Ele está te incomodando, moça?

Meu salvador. Jovem, negro, alto, voz grave.

– Sim, muito.

Nesta altura o fulano do café se acovardou e foi embora em segundos. Meu herói se ofereceu para andar comigo até a porta do meu prédio, proposta que aceitei rapidamente.

Sã e salva na frente da minha casa, agradeci meu amigo de olhos marejados. Ele, francês, pareceu desconcertado com minha gratidão latina expressa por um abraço.

Essa é a minha “pior” história.

A contei para poucas pessoas.

Por mais informada, educada, feminista que eu seja, ainda ressoam os avisos da sociedade machista:

– De noite? Sozinha? O que você estava vestindo?

 

Não é fácil escrever sobre isso. Pode não ser nada para muita gente, mas foi um momento de medo para mim.

1 terço de todas as mulheres serão espancadas ou estupradas ao longo da vida.

Nesse “Valentine’s Day”, quero juntar minha voz ao movimento para por fim à violência doméstica. E contra as mulheres.

Para saber mais, acessem:

http://2013.onebillionrising.org/

historieta sobre gênero.

Por Paula Elias

 

Fui ao supermercado comprar escovas de dentes novas para mim e meu namorado. Na embalagem vinham 3: uma azul, uma amarela e uma rosa.

Sem pensar coloquei a amarela na nécessaire de trabalho.

Ficaram a rosa e a azul.

Eu, Mafalda, feminista, e com mania de super-analisar tudo pensei:

-E agora? A rosa fica para mim porque eu sou menina e a azul para ele? Que coisa mais gênero-hétero-misógina-normativa!

Continuei meu dia com a pulga da escova de dentes atrás da cabeça.

Ele chegou e eu só disse:

– Escolha uma.

Ele não demorou 3 milissegundos para responder:

– Eu fico com a rosa só para sambar na cara da sociedade.

o tal do Lulu.

 

Por Paula Elias

Aviso aos navegantes: se você não sabe o que é o tal do Lulu, sugiro que dê um Google rapidinho.

Usei o Lulu por uma semana.

Até decidir fazer o experimento, deletei e baixei o aplicativo duzentas vezes. A curiosidade e a mini-Mafalda dentro de mim se degladiavam. Por fim, baixei e lá deixei, pensando que, se não desse em mais nada, daria um post.

Depois de uma semana, eis um breve relato da minha experiência.

O Lulu é super machista, e é a primeira coisa que salta aos olhos. Desde a infantilização da sexualidade feminina (“encontre um garoto” ), até as hashtags assustadoras: #PagaAConta, #BemCriado, #BomPartido.

Alou, Lulu, 1950 ligou e quer suas birras patriarcais de volta!

A segunda coisa que chama a atenção é a completa violação de privacidade. Ao contrário da maioria das redes, os homens já estão lá, e tem de pedir para sair. Ninguém pergunta se ele quer ser avaliado minuciosamente por mulheres, porque pressupõe-se que tudo que um macho (sempre alfa) quer é atenção feminina ininterrupta. Mais um ponto pra turma machista.

Aliás, o Lulu confunde as esferas pública e privada o tempo todo. Qualquer amiga, ex, atual, parente, qualquer uma pode expôr a intimidade (real ou fictícia)  de um homem. Boa, mulherada, tá certinho. Sabem o que isto ajuda as muitas mulheres vítimas de “pornô de revanchismo”? Nada. Elas continuam circulando pelo WhatsApp.

A pergunta de um milhão de dólares é: mas, Paula, é legal?

Sim. 

Nos primeiros quinze minutos.

Depois que se tira do sistema todo o potencial perverso de julgar os outros com as pontas dos dedos, vem uma culpa, uma vergonha. Cheguei a ensaiar duas avaliações, mas não tive coragem de salvar.

Não salvei por motivos muito meus. Não foi porque eu sou uma mega feminista exemplar. Foi porque eu tenho dois irmãos. Nenhum deles cabe em hashtag alguma.

 

No fim das contas, eu só abri o Lulu nos primeiros 3 dias. Depois, me forçava a entrar uma vez por dia para ver se apareciam mais ou menos avaliações.

 

 

Sobre o Lulu, roubo as palavras da querida Pat Cam: ah, internet, essa eterna sexta série…

Carta para Isabella Fiorentino.

Por Paula Elias

Cara Isabella,

li uma matéria na internet onde você afirma que modelos têm de ser magras sim, que elas precisam ser “praticamente cabides” para as roupas ficarem bem nelas. Você se afirmou contra as modelos plus size – porque as magras é que ficam “bem em tudo” . Para as gordinhas, você recomendou um investimento em roupas feitas com tecidos de qualidade.

Já que você recomendou a nós, mulheres com umas curvas e quilos a mais, um investimento, vou retribuir a gentileza.

Recomendo que você invista em uma viagem para Paris. Isso mesmo! Paris!

Mas, calma. Não é para fazer compras nas boutiques da Chanel, Prada e semelhantes.

Primeiro, vá até o Louvre. Não tem erro: é o prédio com uma pirâmide de vidro na frente!

Pergunte por Renoir (se pronuncia Re-nu-á. Nada mais passé que um français meia-bouche!).

Passe uma tarde olhando para as modelos de Renoir. Olhe para as paredes do museu mais célebre do mundo, e veja quem são as estrelas da passarela da história.

Sim. Elas.

As gordinhas.

plus size no Louvre.

Se você continuar achando que estou exagerando, atravesse a rua.

Entre no Musée d’Orsay. Pergunte pelo Degas (dê-gá!).

As mulheres de Degas tem… BUNDA! Barriguinhas salientes. Dessas que qualquer revista feminina que se preze ia querer exorcizar com um projeto verão.

Isabella, estamos em todos os lugares.

Você, a indústria da moda, a televisão e as revistas podem tentar nos esconder, nos conter. Mas somos nós, grandiosas, Plus, mesmo.

A perfídia de comentários como o seu só nos tornaram mais sábias, maliciosas, mais cool.

É só ver a Monalisa. Aquela lá com certeza usaria um jeans 44, enquanto flertasse com os rapazes italianos soltando olhares lânguidos e aquele sorriso, o sorriso mais famoso do mundo.

E outra coisa: pare de comparar as magrinhas com cabides. Lugar de cabide é no armário, onde ninguém merece ficar. Meninas mais longelíneas não tem obrigação nenhuma de querer parecer com a Heidi Klum. Podem aspirar um tipo mais… Modigliani.

Beijos,

Paula.