Frente a um recrudescimento da violência da direita, esquerdistas israelenses aprendem a revidar

Publicado originalmente por Haggai Mattar* em 14 de Outubro de 2014 no site de notícias israelense +972 Magazine: http://972mag.com/facing-increased-right-wing-violence-israeli-leftists-learn-to-fight-back/97486/

Ataques contra árabes em Jerusalém se tornaram rotina neste último verão, e em Tel Aviv ativistas de esquerda encaram violência da direita. “Nós não queremos atacar o quartel-general de Baruch Marzel [líder israelense de extrema direita] nem nada, mas acreditamos que a vitimização da esquerda deve acabar aqui”, explica um ativista.

Noites de quinta e sábado no centro de Jerusalém se tornaram aterrorizadoras. Nestes dias, um grupo de jovens se reúne na Praça Sion, não raro ao lado de um estande permanente manuseado por membros do grupo anti-miscigenação Lehava. Os jovens se encontram lá e depois seguem para as ruas cantando “Morte aos árabes”, assediando e atacando taxistas árabes, mulheres trajando o hijab e negócios que empregam árabes. Desde que se tornaram mais ativos, cada vez menos palestinos têm pisado nestas partes da cidade.

Os poucos ativistas de esquerda que se atrevem a sair às ruas nestas noites normalmente andam ao lado dos jovens, silenciosamente, documentando suas ações e acionando a polícia – mas sem se envolver, pois sabem muito bem que a violência poderia a qualquer momento se direcionar a eles. Recentemente, no entanto, eles decidiram mudar sua abordagem. Na última quinta [dia 9 de outubro], cerca de duzentos deles se reuniram na Praça Sion para enfrentar a violência.

Aquela noite marcou a cristalização (temporária) dos grupos de auto-defesa de esquerda em Jerusalém, Tel Aviv e outras cidades em Israel. Poucos poderiam adivinhar, mas no meio daqueles duzentos manifestantes, vieram algumas dúzias preparadas para a possibilidade de uma confrontação violenta com extremistas de direita.

“Foi o evento de esquerda em Jerusalém mais significativo desde os protestos em Sheikh Jarrah [bairro de Jerusalém Oriental que foi palco de manifestações semanais entre 2009 e 2011 contra o despejo de famílias palestinas para assentar colonos israelenses]”, disse um ativista veterano.

“A presença coletiva antirracista não foi nada menos que chocante”, disse Eyal, outro ativista de Jerusalém. “Um mês atrás não se poderia imaginar um evento assim; não simplesmente ficando na defensiva e na surdina, mas atacando, marcando território, marcando seus inimigos e dizendo em alto e bom som que eles são ilegítimos – que eles não têm espaço no discurso público. Significa aparecer em massa, com confiança, mostrando força e estando pronto no caso de sermos atacados”.

Significado?

“Vamos apenas dizer que viemos preparados. Definitivamente preparados. De duzentos manifestantes, de quarenta a cinquenta sabiam como responder. Se a situação se fizesse presente – eles saberiam o que fazer. Se interpondo e defendendo, sem atacar ou procurar briga. Mas eles sabem muito bem como, se for necessário”, ele disse.

Daqui não dá pra ver, mas as pessoas da foto estão prontas para responder à violência. Um protesto contra o racismo em Jerusalém. [Na placa em hebraico lê-se “Amor Gratuito”] (Foto de Activestills.org)

Retomando as ruas

Nenhum confronto ocorreu àquela noite. Membros da Lehava não chegaram na Praça Sion em Jerusalém, preferindo passar a noite do feriado [judaico de Sucot, conhecido também como a “Festa das Cabanas”] no Quarteirão Judaico da Cidade Velha. Mas duas semanas antes, a briga era bem real. Um ônibus cheio de membros da Lehava viajou até Tel Aviv para entregar panfletos anti-miscigenação na Rua Allenby, no centro da cidade. Um grupo de ativistas de esquerda, alguns afiliados com os grupos de autodefesa treinados e outros não, apareceu e impediu [Bentzi] Gupstein [líder da organização racista] e seus seguidores de sair do seu ônibus.

A polícia interviu e separou os dois lados, enxotando o ônibus cheio de membros da Lehava para o porto de Tel Aviv, no que os ativistas viram como uma conquista. “Nos encontramos com uma hora de antecedência, decidimos quem estaria no comando na situação e com o apoio de nossos advogados fizemos um plano de ação”, disse um dos ativistas natural de Tel Aviv que estava lá.

“Originalmente nós nem pensávamos em impedi-los [de sair do ônibus] – nós só tínhamos preparado panfletos e íamos marchar ao lado deles, para mandar a mensagem de que incitamento racista é inaceitável”, o ativista adicionou. “Achamos que se eles fossem ao norte da Rua Bialik nós nos retiraríamos, porque essa é uma área com mais gente bêbada e outros que podem se juntar a eles contra nós. Mas em qualquer lugar ao sul dali, a chance de que a rua nos apoiaria aumentou. Em retrospecto, acredito que a mensagem de que eles não têm lugar aqui ficou bem clara”.

O encontro com Gupstein não ocorreu por acidente. Ali, assim como em Jerusalém uma semana antes, vários grupos se juntaram, organizações e ativistas independentes que decidiram que não queriam mais dar a outra face e se render à violência da extrema direita, e que iriam começar a retomar seu lugar na arena pública. Por isso, alguns decidiram estabelecer grupos para treinar autodefesa, seminários sobre não-violência ativa, planos de ação para proteger protestos e planejamento para situações nas quais eles podem encontrar violência nas ruas.

Alguns destes grupos se recusaram a ser entrevistados para este artigo, e a maioria dos ativistas só concordou em falar sob a condição de que não seriam identificados, por medo do assédio da polícia ou de ativistas de extrema direita. Eles também pediram que algumas de suas táticas não fossem reveladas. Mas além do seu manto de mistério, quem são essas pessoas que estão, pela primeira vez em anos, organizando uma resposta forte à direita radical? Como eles se juntaram e o que pretendem fazer? Para descobrir, e antes que eu comece a detalhar os vários grupos, precisamos de uma breve respectiva dos eventos deste último verão [ataques racistas contra palestinos em Jerusalém, efeito da Operação Margem Protetora de Israel contra Gaza].

‘Morte aos árabes’

A onda de violência contra árabes começou em Jerusalém no dia 30 de Junho, o dia do funeral dos três adolescentes israelenses sequestrados. Todo dia mais de mil pessoas invadiam as ruas, atacando pedestres árabes. Alguns dias mais tarde, o adolescente palestino Muhammad Abu Khdeir foi assassinado, levando a protestos e distúrbios em Jerusalém Oriental. Esses protestos continuam até hoje, e incluem jogar pedras e danificar o trem urbano de Jerusalém.

“Estou em Jerusalém há quarenta anos e nunca vi nada assim”, diz Eyal. “No começo era toda noite, e depois algumas vezes por semana, as pessoas andam pelas ruas, puxando motoristas árabes dos seus carros e atacando-os. Eles estão caçando nas ruas”.

Os ataques levaram ativistas de esquerda de Jerusalém, que desde os dias dos protestos em Sheikh Jarrah, haviam se separado e seguido em direções distintas, a se reagruparem para agir. Eles formaram redes de comunicação interna e começaram a organizar patrulhas nas áreas mais delicadas do centro da cidade. Quando podiam, tentavam proteger fisicamente árabes que estavam sendo atacados. Quando não podiam, eles filmavam, eles filmava, chamavam a polícia e aconselhavam palestinos a evitar certas áreas. “Não era ideal, mas parecia como a única opção na época”, Eyal me contou, frustrado.

Com o tempo o grupo cresceu e passou a ser conhecido como a “Guarda Local”. A eles se juntaram ativistas e jovens de opiniões diversas. O grupo começou organizando instruções mais diretas, e tomou sobre si a tarefa de fornecer apoio durante uma marcha semanal por paz e tolerância, organizada pela escola bilíngue local durante a guerra. Eram marchas pequenas que, apesar de não terem nenhum slogan, eram atacadas por jovens judeus e precisavam da proteção da “Guarda Local”.

Ao lado de grupos e coalizões maiores, do partido comunista árabe-judaico Hadash ao Partido Trabalhista e outras organizações, estas foram as pessoas que organizaram os protesto de quinta passada na Praça Sion.

Enquanto isso em Tel Aviv, as coisas evoluíram de forma um tanto diferente. Em 12 de Julho, extremistas de direita atacaram a primeira demonstração anti-guerra em Tel Aviv, ferindo várias pessoas. A polícia não fez nada. O episódio deu ao incendiário rapper HaTzel (“A Sombra”) um palanque público durante a guerra, o que deixou claro para ativistas de Tel Aviv que tal evento não poderia se repetir.

“A violência que ocorreu durante aquele protesto deixou claro que as regras do jogo mudaram. Não é claro se mudaram permanente ou temporariamente, mas algo aconteceu”, disse B, um dos manifestantes. “Surgiu uma necessidade imediata de se reunir antes de cada protesto, de planejar o que fazer, pensar sobre como prevenir confrontações, onde ficar, como formar uma divisão que controle os ataques contra nós bem como aqueles do nosso lado que queiram intensificar o confronto”.

“Quando formamos uma cadeia humana sólida, densa e seguramos nossas mãos e não respondemos mesmo quando eles cospem na nossa cara ou nos xingam, isso manda a mensagem que nós não recuamos, que estamos confiantes, que estamos fornecendo proteção e segurança àqueles que querem protestar contra a guerra e de outra forma teriam medo demais para isso. As pessoas nos agradeceram profusamente por lhes trazer um senso de segurança”.

Conforme continuaram os protestos, o grupo usou técnicas como cadeias humanas, organizadores que mantinham contato visual, vigias, pessoas de preto espalhadas pela área e prontas para intervir se necessário, um sistema de dispersão segura e bandeiras enormes que faziam cercas protetivas improvisadas ao redor dos protestos. Como alguém que estava nesses protestos, eu posso dizer – funcionou. Realmente deu aos manifestantes um senso de segurança, e minimizou os pontos de confronto com os direitistas.

Protegendo um protesto contra a guerra do lado de fora do teatro nacional de Israel em Tel Aviv. [lê-se na placa em inglês “Precisamos de esperança; acabem com o apoio militar”]

‘No More Mr. Nice Guy’

Além da organização de forma ad hoc antes de cada protesto, o que incluía manifestantes que não pertenciam a nenhum grupo, a crescente violência da extrema direita nas ruas levou ao estabelecimento de inúmeros grupos organizados.

O grupo anarquista “Achdut” [do hebraico, “União”] organizou a “Guarda Negra”, que treinava autodefesa e Krav Magá [arte marcial israelense]. Outros ativistas estabeleceram o “Antifa 972” [972 sendo o número mundial de ligação para Israel] (sem relação com a revista), uma abreviação para “antifascistas”. Pelo menos dois outros grupos, que pediram para não ser incluídos no artigo, também começaram a treinar e participar de atividades de autodefesa.

Os ativistas em cada um desses grupos denotam que não há apenas uma organização, tampouco qualquer tentativa de formar um poder político ou um novo movimento. Eles também que isso não seja uma nova moda, mas mais uma necessidade de reagir e se proteger de novos perigos que se tornaram uma realidade para palestinos e ativistas de esquerda nas ruas. No final das contas, incluindo os jerusalemitas da “Guarda Local”, os membros dos grupos somam aproximadamente cem pessoas.

“A esquerda radical não tinha a experiência ou o espírito militante para lidar com a violência dos fascistas”, explica Yigal Levin da Guarda Negra do Achdut. “É por isso que trouxemos pessoas que sabem artes marciais, e começamos aulas semanais de graça para esquerdistas interessados. Não foram só os anarquistas e comunistas que compareceram – até mesmo liberais sentem que qualquer um visto como um ‘esquerdista’ pode ser ferido agora”.

“Logo antes da guerra, amigos meus no grupo ‘Luta Socialista’ foram espancados em um protesto. Eles eram quatro contra dois direitistas, e os direitistas os atacaram. Nós não queremos que esse tipo de coisa aconteça de novo. Nós não queremos ser crianças mal tratadas – nós queremos nos dar respeito. Não queremos atacar o quartel-general de Baruch Marzel nem nada, mas acreditamos que a vitimização da esquerda deve acabar aqui”.

Treinamento em auto-defesa (cortesia do grupo ‘Solidariedade’)

Membros do grupo Antifa, um dos grupos mais ativos e bem-conhecidos, preferiram não ser entrevistados para a matéria, mas emitiram uma declaração na qual disseram que são um grupo nacional cujo objetivo é “estar presente quando os desgraçados chegarem, pra protestar contra eles, pra proteger nossas comunidades e as comunidades com as quais nós estamos em solidariedade, e às vezes apenas assistir e documentar. Os princípios básicos do grupo tal qual descritos na sua declaração incluem estar presente em todo lugar onde haja incitação ou ataques contra grupos oprimidos e esquerdistas, lutar contra qualquer forma de racismo, capitalismo, ocupação, machismo e outros, agir diretamente e sem ajuda da polícia ou de qualquer braço do Estado, e se manter solidários e unificados – sem sectarismo interno da esquerda.

O grupo tira sua inspiração de grupos parecidos na Europa, onde a luta violenta contra o fascismo nas ruas é uma tradição consagrada. Até mesmo o nome e o símbolo do grupo foram copiados de grupos europeus, e têm muitas semelhanças na retórica e táticas que foram aprendidas por ativistas que passaram algum tempo no exterior. Em um vídeo do confronto da Rua Allenby divulgado pelo grupo anti-miscigenação de extrema direita Lehava, é possível ver muitos dos ativistas gritando “No Pasarán” (“Não Passarão”), um lema usado por lutadores republicanos contra o fascismo durante a Guerra Civil Espanhola nos anos 1930.

O modelo europeu: um protesto anti-fascista no Reino Unido. (Foto de Tim Buss/CC)

Uma cultura de força

O novo método de ação, especialmente o bloqueio dos membros da Lehava em Tel Aviv, necessariamente acende dilemas e controvérsias entre os ativistas. Como estes métodos de organização são ainda muito novos e não foram totalmente cristalizados, o debate ainda está em seus estágios iniciais, mas já trata de questões sobre o que é proibido e o que é permitido, que perigos emergem de organizações mais violentas, e quais são os limites do discurso sobre o proibido e o permissível dentro de um panorama político.

“Nós temos aqui um grupo de pessoas cuja experiência é de perseguição, e se isso mudar no futuro – o que não é a situação hoje – teremos que avaliar o significado da violência exercida contra os perseguidos versus violências contra os que não são perseguidos”, diz Kobi Snitz, um ativista veterano em grupos de esquerda radical. “Eu olho para os movimentos confrontando a direita da Europa, e o cenário não é bonito. Eu vejo entusiasmo surgindo da violência. Existe um fenômeno psicológico ou político onde atingir algo por meio da violência justifica mais violência. Nós vemos isso diariamente entre soldados servindo nos territórios ocupados”.

“Eu não tenho nenhum arrependimento sobre o que fizemos no verão. Foi a coisa certa nos organizarmos e nos defendermos, além da proteção da polícia, que, por razões políticas, teve que nos defender depois da primeira demonstração. Temos que prestar atenção no que está acontecendo na Europa, apesar de uma diferença básica: ali, os grupos direitistas estão do lado de fora da lei, enquanto aqui, ameaçar a esquerda é apoiado institucionalmente pelas autoridades e liderança”.

Existem aqueles entre os ativistas que temem a ascensão de uma cultura militarista, que respeita aqueles que podem providenciar mais proteção, vir para uma demonstração com mais ‘músculos’, mais presença, mais “experiência de combate”, mais “bravura”, e estão pelas consequências dessa situação e sua influência na cultura da esquerda. Uma outra questão é quem é exatamente o inimigo a ser confrontado.

“Eu não tenho dúvidas de que Bentzi Gupstein é meu inimigo, um autodeclarado discípulo de [Meir] Kahane [fundador do grupo terrorista Liga de Defesa Judaica, assassinado em 1990], mas a questão é quem são os jovens em volta dele que gritam ‘Morte aos árabes’ em Jerusalém. Não é com eles que eu quero brigar. Não são essas pessoas que vêm com a ideologia da juventude dos assentamentos. Muitas vezes eles são os produtos da miséria, que se sentem marginalizados pela sociedade. Eu fui em patrulhas pela cidade com professores que reconheciam alunos seus entre eles. Eu realmente não quero empurra-los pro canto e fazer deles nossos inimigos, mas é difícil”.

“Focar nos kahanistas como um símbolo do racismo israelense é um tanto quanto problemático”, denotou Snitz. “Os kahanistas sim compõem uma parte da infraestrutura racista, a vanguarda, mas eles são uma cultura marginal. Confrontar os extremistas pode nos levar a esquecer do resto. Impedi-los de distribuir panfletos em Tel Aviv não vai levar árabes a serem aceitos como membros de kibutzim [comunidades rurais cooperativas], ou a Lei do Retorno [que dá cidadania imediata a qualquer judeu requerente] a ser revogada, ou o fim das revistas abusivas no Aeroporto de Ben-Gurion. Essas coisas não se originaram dos kahanistas”.

Mas a distribuição de panfletos é uma ameaça tal que deve ser combatida ou proibida, mesmo se o conteúdo é racista?

“Eu não acho que o discurso democrático deva servir como um escudo para a incitação”, diz [uma ativista que pediu para ser identificada como] B., e muitos nos círculos de defesa concordam com ela. “Se essas pessoas vêm pra maltratar trabalhadores árabes nas cozinhas de restaurantes, ou para promover condutas que foram designadas como ilegais já no começo dos anos oitenta, então sim – existe justificativa para agir. Eu não estou dizendo necessariamente que a polícia tem que agir – uma proibição contra eles [a extrema direita] pode acabar por nos prejudicar também, mas pessoalmente eu reajo com firmeza quando coisas assim no meu convívio”.

Uma faixa como uma muralha de proteção, Tel Aviv. [em inglês, “Parem o massacre; acabem com o cerco”]

Se preparando pra próxima vez

Para onde vai este movimento agora? Vimos que estes grupos, sem exceção, surgiram como uma reação aos eventos do verão. O que será deles quando vierem as primeiras chuvas?

Em Tel Aviv, alguns ativistas chegaram domingo [dia 12 de outubro] de tarde na demonstração da extrema direita no Parque Levinsky no sul de Tel Aviv, se posicionando discretamente ao redor da demonstração tendo em vista proteger comerciantes e refugiados à procura de asilo contra ataques em potencial. Em Jerusalém, a Guarda Local continua suas patrulhas, apesar de os ataques contra árabes nas ruas terem diminuído substancialmente desde o fim da guerra. E quanto à organização para defender as organizações da esquerda?

“No caso de uma demonstração que tenha a ver com os territórios [ocupados] – estes grupos estarão lá com certeza, assim como estavam no verão”, esclareceu B. “Se a Lehava tentar voltar para Tel Aviv, estaremos lá também. Pessoalmente, eu não acho que deveríamos ir a lugares onde não somos convidados e tentar salvar o mundo em todo canto, mas algumas pessoas de fato vão. A mobilização na Europa sempre tem um caráter local, das pessoas defendendo o espaço onde elas moram, e eu acho que esta é a abordagem certa”.

“A rua em Jerusalém não é como a de Tel Aviv”, contrariou Eyal. “Aqui, todos na rua tendem a estar contra você. Nosso objetivo é estigmatizar o racismo como anormal, como ilegítimo. Tem que estar no plano da rua, e no nível das demandas políticas – no plano municipal e no nacional”.

“De qualquer forma, apesar das coisas terem se acalmado relativamente, nós não voltamos de fato à situação de antes da guerra, que também não era lá grande coisa. Árabes ainda estão com medo de andar pelas ruas e eles nos pedem para acompanha-los até o correio ou aos escritórios do Seguro Nacional. Eu temo que a próxima onda, quando vier, vá começar no ponto onde essa onda de agora parou, e será mais violenta e mais perigosa. Nosso trabalho é pelo menos mudar o ponto de partido da próxima rodada”.

*Haggai Mattar é um jornalista e ativista político israelense. Depois de escrever para Ha’aretz e Ma’ariv, ele é agora coeditor de Local Call, o site gêmeo da +972 em hebraico. Ele ganhou o Prêmio Anna Lindh de Jornalismo Mediterrâneo em 2012 por sua série de matérias para a +972 sobre o Muro de Separação.

“(…) eles vão lutar até a morte”

No meu artigo anterior, tentei dar um overview da situação envolvendo o povo curdo frente às guerras civis na Síria e no Iraque, com a desestabilização dos governos xiitas seculares e corruptos em Damasco e Bagdá e o avanço do salafismo sunita virulento do Estado Islâmico (EI/ISIS/Califado/Dash), com suas bravatas e decapitações de jornalistas e trabalhadores voluntários ocidentais. De lá pra cá muita coisa rolou, com destaque pra intervenção conjunta da coalizão da OTAN com quase todos os regimes árabes da região para uma campanha de bombardeios de longo prazo ao EI, com níveis variados de efetividade.

Dando sequência ao tema, decidi procurar uma perspectiva pessoal dos acontecimentos recentes; entrei em contato com Sarjas Hussein, nascido na cidade Sulaimaniyah, no Curdistão Iraquiano, em 1989, e que desde os 8 anos vive em Colônia, na Alemanha. Sarjas trabalha meio-período em um restaurante de comidas do Oriente Médio, fazendo pratos típicos como falafel e shawarma, e estuda engenharia na Fachhochschule, a Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia. Sarjas não é um ativista, nem é particularmente politizado, mas ele é um curdo orgulhoso, e um muçulmano sunita devoto, e se sente impelido a ter uma opinião sobre o sofrimento de seu povo e o desvirtuamento de sua religião.

Quando e por que você deixou o Iraque?

O motivo foi a situação com Saddam Hussein. Ele nos caçou e tivemos que sair do país. Para encontrar uma vida normal. De 1989 a 1997 ele caçou os curdos. Nós saímos em ‘97. Ele nos bombardeou com toxina. Um de meus primos, ele tinha entre 15 e 20 anos quando foi sequestrado, e eles o mataram com eletrochoques. Existem muitos vídeos na internet mostrando como Saddam massacrou os curdos. Ele era um estudante, seu nome era Sayfadin. Hoje em dia existe um hospital em Sulaimaniyah nomeado em homenagem a ele.

Como você chegou na Alemanha?

Meu pai deixou o Iraque e veio para a Alemanha a pé, às vezes por carro. Ele saiu em 1994 e teve que viver na Turquia por alguns meses, e depois seguiu a pé, e depois atravessou a Grécia na caçamba de uma caminhonete, e dali até a Itália. Ele pegou um carro e um trem pra Alemanha. Ele trabalho aqui e conseguiu comprar três passaportes, pra minha mãe e meus dois irmãos. Eles fugiram da Turquia pra Alemanha em 1996. Eu fiquei na Turquia por nove meses com meu tio, porque meu pai não tinha dinheiro suficiente para trazer todos nós junto. Nós chegamos no ano seguinte, junto com umas trinta outras pessoas.

Você viu algum episódio de violência?

Sim, eu vi algumas coisas. Quando eu tinha cinco anos, uma mina explodiu em um contêiner na nossa rua, quando algumas crianças estavam brincando. A mina era do Saddam.

De que forma a ditadura de Saddam afetou você ou seus conhecidos?

Nós perdemos muito com Saddam. Tivemos que sair porque os homens de Saddam estavam invadindo casas e expulsando e prendendo as pessoas, para atirar ou torturar depois. Eles quebraram três tábuas na cabeça do meu tio. Ainda dá pra ver as cicatrizes.

De que forma a Guerra Civil Curda (1194-97) afetou você ou seus conhecidos?

Muitos amigos meus lutaram na Guerra Civil, lutando seja pelo PDC [o Partido Democrático Curdo , de Massoud Barzani], seja pela UPC [a União Patriótica do Curdistão, de Jalal Talabani]. Em 2012, todos eles receberam carros e casas destes partidos, como recompensa pelos seus serviços. Mas a maioria das pessoas de Sulaimaniyah são da UPC.

Vídeo feito pela TV britânica na época do massacre de Halabjah, perpetrado pelo exército iraquiano contra civis curdos em 1988

Como você vê o EI e seu avanço recente no Iraque?

Islã significa liberdade. Mas estas pessoas não estão realmente tentando fazer seu “estado” de uma maneira islâmica. Eles são parte de um plano para denegrir a imagem do Islã aos olhos do mundo.

Você ainda tem amigos/família no Curdistão Iraquiano? Que notícias eles te mandam?

Sim, minha tia e tios. Eu estava lá em abril. Tudo estava relativamente normal, mas alguns dias atrás eu liguei para um amigo meu, e ele disse que os negócios, como compras e vendas, tinha mudado. Eles não têm medo do ISIS, eles vão lutar até a morte. Além disso, muitos curdos que moram na Alemanha voltaram para o Iraque para lutar.

Quais você acha que são as chances para uma real independência curda nos próximos anos?

Eu não sei se é possível. No momento, eu acho que só precisamos de mais coração e humanidade, não necessariamente de independência. Só D’us sabe se os Peshmerga conseguirão salvar o Curdistão do EI. Acho que temos aproximadamente cinco vezes mais homens do que eles têm. Barzani lideraria os curdos em direção à independência; e os curdos na Turquia e no Rojawa [região da Síria controlada por grupos armados curdos, as Unidades de Proteção Popular, desde o começo da Guerra Civil] teriam que segui-lo, por causa de toda a sua influência.

Quem na comunidade internacional vai apoiar os curdos na sua luta?

Outros países nunca apoiariam os curdos. Acho que a situação com o EI é um plano para incrementar o exército do Curdistão Iraquiano, e renovar suas armas. Eles – a mídia e os políticos – querem usar os curdos para conseguir o que querem. Petróleo. Ouro no Eufrates. Sem falar da posição geográfica estratégia do Curdistão, entre a Ásia, África e Europa.

Considerações Finais

Sim, somente uma coisa: nós devemos aprender a viver em liberdade e com D’us. E devemos aprender a controlar nossas emoções.

E esse Curdistão, rola?

A guerra civil na Síria descambou para o Iraque e para o Líbano. O grupo extremista sunita “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS), agora rebatizado apenas de “Estado Islâmico” (IS) ou “Califado Islâmico”, que já lutava contra o domínio de Bashar al-Assad, decidiu fazer jus ao nome e cruzar a fronteira para combater outro aliado xiita do Irã, o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá. Em relativamente pouco tempo (aproximadamente seis meses) os rebeldes conseguiram capturar as regiões e cidades mais populosas do país, como Fallujah, a apenas alguns quilômetros de Bagdá, e Mosul, no Norte, a segunda maior cidade do país. Pego de surpresa, o governo iraquiano viu sua influência erodir rapidamente dentro do seu próprio território. Tropas do Governo Regional do Curdistão (GRC), em uma ação autônoma, aproveitaram para tomar os principais campos de petróleo ainda sob controle iraquiano e estenderam seu controle sobre a região de Kirkuk, dividindo, na prática, o Iraque em três.

Os curdos são um povo etnicamente relacionado aos persas, que tem habitado uma região vasta que inclui partes do Irã e da Síria, mas principalmente do Iraque e da Turquia. A grande maioria dos curdos é muçulmana sunita, embora exista uma minoria xiita, especialmente na Turquia; no Iraque, muitos curdos étnicos também são cristãos ortodoxos e adeptos da religião yazidi – vistos como hereges, são aqueles que mais têm sofrido com o avanço dos salafistas do IS. Em todos estes países os curdos sofreram com a discriminação, o desterro e a perseguição, em maior ou menor grau. O status de sem-Estado dos curdos os levou, ao longo do século XX, a se solidarizarem com outros povos refugiados do Oriente Médio, como os palestinos e os armênios.

O único país onde a autonomia política curda foi reconhecida foi o Iraque – primeiro em 1991, depois da Guerra do Golfo, e depois em 2003, após da invasão americana. Após o reconhecimento dessa autonomia, o GRC se tornou na prática um Estado semi-independente, com capital na cidade de Erbil. Isso representou uma grande conquista para um povo que sofreu atrocidades nas mãos de Saddam Hussein – que, na década de 1980, usou armas químicas para combater a insurgência curda do atual presidente do GRC, Massoud Barzani. Desde 2003, o Curdistão iraquiano tem sido visto como um dos poucos exemplos de “democratização” e “estabilização política” de sucesso no Oriente Médio, liderado pelo Partido Democrático Curdo (PDC) de Barzani e pelas forças armadas do GRC, os Peshmerga (em curdo, “aqueles que confrontam a morte”).

Às recentes conquistas do GRC, tanto territoriais (tomando territórios ricos em petróleo cujas forças de Bagdá estavam fracas e desorganizadas demais para manter) quanto políticas (os EUA já admitem estar treinando e armando os curdos contra o IS), soma-se o sucesso de outro grupo armado curdo, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (em curdo, PKK), baseado na Turquia e na Síria. Este grupo, surgido da efervescência política da Turquia dos anos 1970, combina seu nacionalismo curdo com ideais de socialismo e democracia direta, e tem travado uma guerra de guerrilha contra o governo turco desde 1984. O PKK, considerado pelos EUA e pela União Europeia um grupo terrorista, também é organizado fora da Turquia e conseguiu, em meio ao caos da guerra civil, estabelecer um pequeno enclave no nordeste da Síria, conhecido em curdo como Rojawa, fazendo fronteira com turcos, rebeldes do ISIS e curdos iraquianos. O Rojawa, controlado pelas Unidades de Proteção Popular (em curdo, YPG) tem sido defendido com sucesso, pelos últimos dois anos, tanto das tropas governistas de Assad quanto das diferentes milícias rebeldes, e, por ser mais estável que o resto do país, tem servido de refúgio para sírios de outras regiões.

 

Vídeo da Vice News, feito no final de Junho, após a tomada de Kirkuk pelo GRC, e antes das confrontações abertas com o IS.

 

Não obstante sua oposição ao IS e suas crescentes dificuldades em repelir seus ataques, o governo iraquiano faz coro às posições do Irã, se recusando a qualquer concessão política aos curdos. Ou, pelo menos, se recusava – a decisão do novo presidente iraquiano (etnicamente curdo) Fuad Massoum de substituir al-Maliki por Haider al-Abadi pode vir a moderar o sectarismo xiita do governo. Atentando à oportunidade de prejudicar os interesses iranianos no Iraque, o governo turco desenvolveu, ao longo dos últimos anos, relações diplomáticas e econômicas crescentes com o GRC, que lhe provê um suprimento relativamente barato de petróleo.

Mas espera – a Turquia não estava em guerra com os curdos do PKK? Pois é, a divisão política do Oriente Médio também afeta a luta curda por independência; até hoje nunca existiu uma frente única que englobasse os curdos de todos os países. Além disso, as diferenças ideológicas entre o PDC de Barzani, um partido laico e pró-Ocidente (mas, ao mesmo tempo, conservador e enraizado no caciquismo tribal), e o PKK, nacionalista e próximo de uma extrema esquerda, são latentes e deixam pouco espaço para uma eventual união composta por estes e outros partidos curdos.

Dentro do próprio Curdistão Iraquiano, ocorreu uma brutal guerra civil no período 1994-97, envolvendo, principalmente, o PDC de Barzani, que foi apoiado por Ancara e Bagdá, e a União Patriótica do Curdistão (UPC), do ex-presidente iraquiano (2005-14) Jalal Talabani, próxima do PKK e de Teerã. O Acordo de Washington, em ’97, dividiu o GRC em uma região controlada pelo PDC, com capital em Erbil, e outra nas mãos da UPC, com capital em Sulaimaniyah. Apesar da reconciliação e reunificação ocasionadas pela eventual queda de Saddam em 2003, as duas facções ainda guardam ressentimentos, até mesmo neste momento delicado; acredita-se que Peshmerga leais à UPC, na luta contra o IS pela vila de Rabiaa, na semana passada, foram abandonados pelos milicianos do PDC, e receberam ajuda das YPG do Rojawa sírio.

No entanto, o governo turco de Recep Tayyip Erdogan tem aplicado um processo chamado de “abertura curda”, i.e., o gradual estabelecimento de canais de comunicação com lideranças curdas, principalmente o PKK, com vistas a sanar as causas do conflito. O sucesso da iniciativa, porém, ainda está pra ser visto; em meados de Julho, as negociações de paz estavam estagnadas. Isso não impediu as recentes operações conjuntas realizadas pelas forças Peshmerga e as YPG na fronteira entre Síria e Iraque com o objetivo de retomar vilas como Mahmoudia, Makhmour, Zumar e Shingal, perdidas para o IS no último mês. No entanto, o sucesso da ‘empreitada curda’ no longo prazo depende da bênção política da Turquia – ou, se esta não se materializar, de uma união sólida de curdos de todas as facções, no estilo “contra tudo e contra todos”.