Torcida do Bom Senso

por Luís H. Deutsch

Meu coração pertence ao Santos F.C. Na Europa, minha simpatia fica com o PSG  graças a alguns amigos franceses fanáticos, uma boa série de partidas sem derrota e uma puta equipe. Mas, é necessário admitir que vou vestir mais uma camisa: a do Bom Senso Futebol Clube.

O “time” é uma organização de profissionais do futebol criada neste ano para tentar botar um pouco de ordem no AUÊ que é o esporte tupiniquim. Entrou em briga de cachorro grande. Num campeonato de gigantes, no qual a Globo, a CBF e os patrocinadores são os favoritos de sempre. O Bom Senso vai pro ataque num 4-3-3 pra fazer gente pensar e repensar no “fato” do Brasil ser o “país do futebol”. Será que a regra é mesmo clara, Arnaldo?

A amarga décima posição do Brasil no ranking oficial não diz isso. A FIFA sambando em nossas leis, soberanias e herança cultural também não. Há uma crise representativa no mundo da bola. Além disso, há dúvidas claras a respeito do desempenho da seleção na Copa e questionamentos (MUITOS) sobre o próprio torneio em 2014. Porém, o Bom Senso tem um esquema de jogo que vai primeiro na provável raiz do problema do esporte brasileiro. Foca na questão estrutural. Talvez depois, quem saiba, o país se dê mais ao respeito e volte ao topo com dignidade.

O “clube” viu o óbvio: jogadores dos grandes times brasileiros tem um calendário pesado  e bizarro de competições. Basicamente de Janeiro a Dezembro, praticamente duas vezes por semana, tem jogo. As pré-temporadas são mínimas e os simultâneos campeonatos desgastam o futebol e os profissionais… Mas não os que ganham dinheiro em cima disso. Pouco ganha um time grande que vai disputar a quinta rodada do Estadual em um estádio não muito preparado no interior. Engana-se quem pensa que um time pequeno tem seus “dias históricos”. A grana, a gente sabe, rola fora das quatro linhas.

O Bom Senso ainda foi além e enxergou aqueles que os milhões de Euros acabam apagando: Os jogadores de pequenos clubes. Aqueles que permanecem no mais profundo desconhecimento.  Os que jogam um estadual que passa na tevê e, depois… Só os fãs mais dedicados que os encontram. Vivem em regime de exploração. Ganham (ganham?!) pouquíssimo. Desistem do sonho de fazer história com os pés.

É um contraste absurdo. Seria necessário rever algumas estruturas arcaicas do futebol brasileiro. Estruturas que como aquelas que inflaram revoluções políticas, geram benefícios para poucos e malefícios para muitos.

O BSFC viu que campanhas positivas como a do Atlético-PR no Brasileirão (3º lugar até agora) deram mais certo porque o time poupou seus titulares no Estadual, fez uma pré-temporada de verdade e foi com gás no Nacional. Viu também que é necessário gerar trabalho para o ano todo àqueles que ainda não jogam nos São Paulos, Flamengos e Cruzeiros da vida. Dar trabalho e dar visibilidade!

bomsensofc_reproduçaoEssa equipe já está peitando os “donos da bola” para humanizar nosso futebol. Eles desafiam os dirigentes que atrasam salários, botam pingos nos is nos contratos com patrocinadores e afirmam que se tiver de ser… Paralisam o futebol brasileiro para que mostrar que as reivindicações são sérias e carecem de atenção. É uma tática ótima. Amedronta quem entra em jogo de salto alto.

Bom senso é coisa raríssima de se encontrar hoje em dia. Tê-lo no Futebol não é mandar o Galvão Bueno calar a boca. Ver isso ser debatido de maneira pertinente em âmbito que estava despolitizado desde a Democracia Corinthiana é sensacional. Como as pedaladas do Robinho, como aquele gol do Neymar contra o Flamengo em 2011… Ou como aquele do Ronaldinho – de cobrança de falta contra a Inglaterra na Copa de 2002 – que acordou os 3% dos brasileiros que não tinha madrugado para ver a partida.

País do futebol não é aquele só das equipes que disputam série A e B. País do futebol é o que pensa no futuro de todos. É o que joga com a cabeça.

A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

Racismo: Como É Ser “01 em cada 10”

Por Maíra Souza

Em 2010, tive a oportunidade de conhecer Paris. Numa tarde durante a minha primeira semana lá, estava esperando o ônibus no ponto de um bairro nobre da cidade. Um homem se aproximou de mim e começou a puxar assunto. Ele perguntou de qual país eu era, o que fazia em Paris, e como eu havia aprendido francês. Meio seca, disse que estudei o idioma durante alguns anos no Brasil, e que estava em Paris para um intercambio acadêmico na Sciences Po. Ele respondeu: então você não sabe sambar?

Fiquei sem reação. Milhares de respostas passaram pela minha cabeça, milhares MESMO. Porém, optei pelo silêncio acompanhado da cara feia de reprovação. Felizmente, o ônibus chegou e foi o cenário de uma das reflexões mais importantes que tive na vida. Durante os minutos daquela viagem, refleti sobre quem eu era, o que eu significava e o que eu representava, preparando-me para quantas vezes mais teria que ouvir aquela pergunta durante o intercâmbio.  Quantas mulheres do mesmo porte físico que eu estavam vivendo em situações completamente opostas – e não por serem brasileiras, mas por serem negras?

Sim, eu sei sambar, assim como sei ler, escrever e pensar. Igualmente sei da responsabilidade que, ainda inconsciente, carrego: a responsabilidade de ser uma exceção. Sou aquele “01 a cada 10” das melhores escolas, das melhores universidades, dos cursos de idiomas. Sou o “01 em cada 10” dos hospitais particulares. Sou o “01 em cada 10” do público consumidor de acima de 3 salários mínimos. Sou o “01 em cada 10” que nunca foi abordado pela polícia.

Do berçário até o fim da faculdade, eu era uma das poucas – ou se não a única- negra da sala de aula. Os meus amigos, em sua grande maioria, são brancos, afinal, compartilhamos da mesma realidade socioeconômica, frequentamos os mesmos lugares e temos os mesmos acessos ao lazer e a cultura. A minha realidade é uma exceção porque a cor da minha pele nunca me impediu de nada, assim como tenho nenhuma recordação de ter sofrido racismo. Simplesmente porque o dinheiro nos torna transparentes.

A diferença era mais berrante quando eu era criança. Cheguei a pensar diversas vezes que as minhas amigas eram mais bonitas do que eu, e que, consequentemente, atraiam mais a atenção dos garotos que eu gostava. Ué, não era a Barbie quem conquistava o Ken?! Eram as protagonistas brancas das novelas que tinham o seu final feliz com o mocinho.  Ou seja, eu queria o cabelo das minhas bonecas, e sonhava com um Ken pra chamar de meu no final feliz da minha própria história. Mas a moça negra dos filmes e das novelas era das duas, uma: ou a empregada, ou a pobre.

http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ

Conforme fui crescendo, deixei tudo isso pra lá e percebi que a beleza se dá de inúmeras formas. O que passou a incomodar mesmo eram outras coisas como, por exemplo, a pejoratividade implícita no termo “neguinha”-  ao contrário de “branquinha”, que não tem uma conotação negativa. Da mesma forma , os homens que me “””””””””elogiam””””””””” ” na rua se referem a mim como morena, demonstrando o eufemismo existente nas palavras morena/moreninha/morena de pele,  numa tentativa de não “ofender” o afrodescendente.

Não, não ofende. O que ofende é uma sociedade que insiste em ignorar a herança histórica do Brasil escravocrata. O que ofende mesmo é esquecer que a Lei Áurea não trouxe a liberdade em seu sentido pleno, pois os ancestrais de grande parcela da população negra continuaram sem receber nada pela sua força de trabalho, restando-lhes as beiradas da sociedade como moradia. Seus filhos, seus netos, seus bisnetos  e seus tataranetos continuam ali, às margens: nas periferias, nos subempregos, nas favelas, nos orfanatos, nas prisões.

Gostaria de deixar claro que estou me referindo a uma maioria comprovada por estatísticas e por análises a olho nu, e não generalizando a imagem que todo negro é pobre e de que todo pobre é bandido. Mas sim, reafirmando que a cor da pele ainda faz com que o buraco seja sempre mais embaixo.

Se, hoje, eu me considero uma exceção, é porque meus pais foram uma exceção, porque meus avós foram uma exceção, porque meus bisavós foram uma exceção. Minha família se construiu no “01 a cada 10”. Mas meus tataravós não. Eles foram reféns de sua própria condição de existência, tiveram sua cidadania, cultura e religião reduzidas. Em 1800 e pouco, não havia a opção de traçar o próprio caminho, não existia auxilio do governo, não existia cotas.

Quanto a mim, continuarei sendo uma exceção até as minhas próximas gerações não o serem; até a maior parte da população carcerária não ter o mesmo tom de pele que o meu; até os hospitais, escolas particulares, universidades, shoppings Iguatemis, e tantos outros espaços privados da elite brasileira estiverem tão definidos por um só tom.  E se eu e a minha família somos exceções, é porque a regra existe. E a regra está muito clara na nossa sociedade, basta perguntar para a família dos milhares de Amarildos.

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Vem, vamos pra onde?

Por Maíra Souza

Há um grande problema em generalizações, e muita confusão/contradição nas definições de vandalismo, violência, esquerda, direita.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que acredito que SIM: o vandalismo está no SUS, na qualidade das escolas públicas, na redução do salário dos professores e nas desintegrações de posse. Acredito que os verdadeiros vândalos estão vestidos de terno e gravata, desviando o dinheiro público e vandalizando o maior patrimônio da população. Sim, concordo que o vandalismo contra pessoas deveria chocar mais do que aquele contra o objeto inanimado e irrelevante para a grande maioria da população no dia-a-dia – é que nem jogar lixo no chão, e em dias de manifestação reclamar que a rua está imunda.

Ainda nesse sentido, penso que o vandalismo está nas balas de borracha e nos cacetetes, que além de agredir (ou proteger kkk) manifestantes e jornalistas, atingem diariamente a população pobre e negra da periferia. Da mesma forma, o vandalismo está nas grandes mídias parciais, quando estas evitam mostrar os dois lados da moeda para formar a opinião pública. Enfim, vandalizada é a cidadania do brasileiro, tão historicamente desacostumada com mobilizações populares e em acreditar que a mudança de e para si é algo possível.

Defendo a necessidade de uma certa “subversão à ordem” para que determinado movimento ganhe visibilidade, assim como ela se faz necessária para se defender dos inúmeros atos de covardia da Policia Militar, afinal, cada um se defende como pode. “Call me coxinha” ou algo que o valha, mas nessa altura do campeonato e numa cidade como São Paulo, por exemplo, caminhar nas maiores avenidas da cidade de forma pacífica atrai mais gente, inclusive aqueles que são a favor da causa e não vão por medo de apanhar, ser preso ou ficar cego. Isso PARA a cidade do mesmo jeito que se a manifestação fosse pautada na depredação proposital, ou mesmo se chovesse numa sexta-feira com 3 acidentes na Marginal Pinheiros. Há formas e formas de tumultuar, e gente demais sempre incomoda, incomoda, incomoda, incomoda muito mais.

Concordo que não podemos esquecer da ENORME parcela do povo que ainda não é vista, que ainda sofre com a truculência policiar e suas armas não letais desde o cordão umbilical. Porém, não concordo com a generalização de que a voz da periferia se reflete necessariamente na forma de depredação, numa espécie de alívio ou vingança da opressão vivida. Generalizar nesse sentido seria o mesmo que falar que todos os pertencentes à classe média são contra o Bolsa Família, por exemplo. A violência, por si só – seja como uma forma de vingança, apatia ou desprezo não vai fazer com que a ordem econômica vigente mude, independentemente de quantas prefeituras sejam apedrejadas. Infelizmente.

Agora vai, vamos lá, descruze os braços no ombrinho, joga eles pra frente e pense bem devagarinho.

O povo brasileiro – e, por povo, não estou me referindo a nenhuma classe social especifica – é sempre insatisfeito e sempre muito incrédulo. Além de não haver uma identidade nacional definida, há relutância em acreditar no poder que a população tem fora das urnas, e na possibilidade de uma mudança efetiva sem ordens vindas de cima.  As filosofias do “deixar pra lá cansa menos” e do “não vai adiantar nada mesmo” são inerentes à grande maioria, e isso não é novidade para ninguém. Muita gente prefere culpar a Dilma, pois culpar o presidente ou o partido sempre foi o caminho mais fácil ao invés de enxergar que o problema do Brasil vai muito além dos tapas e beijos entre PT versus PSDB. O buraco é e sempre foi MUITO mais embaixo, e no fundo dele tem MUITA grana envolvida.

Bom, todos já sabem que a mudança de postura da mídia fez com que muita gente mudasse a opinião e a postura do “keep calm e assina no Avaaz” para, quem dia… fazer check-in nas vias públicas.

Os 5 mil se transformaram em 100 mil em menos de uma semana, e tal multiplicação tornou evidente a existência da heterogeneidade de opiniões, visões e posições políticas no meio da multidão, com direito a vários adendos aos 20 centavos. Será o medo de não haver outra oportunidade do mesmo porte?

Fato é que o pêndulo que vai dos coxinhas extremes e aos mais intelectuais dividiram o mesmo espaço, e, do alto, éramos todos farinha da mesma massa. Rolou um mix de pautas e, consequentemente, um incômodo daqueles que “viram primeiro” e dos “partido nenhum me representa, foda-se”.

Isso não deve enfraquecer o momento histórico que estamos vivendo, afinal não é todo dia em que há uma mobilização emocionante fora dos contextos do futebol, da novela, ou do open bar em fevereiro. Sei que ouvir o hino nacional numa passeata remete à ditadura militar e a comportamentos que ameaçam de diversas maneiras, e não nego que haja uma desorientação na euforia nacionalista que beira o ufanismo. Porém não julgo expressões como “o gigante/povo/Brasil acordou” de forma tão pejorativa, generalizando a ignorância e a preguiça de todos– e, muito menos, ignorando os movimentos sociais já existentes há anos e desapercebidos pela, novamente, maioria. Eu vejo como uma expressão de que a massa está finalmente se importando. Agora, se a massa em questão é de coxinha, risoles ou de kibe, ainda é uma vitória e tanto.

Prefiro acreditar que o que estamos vivendo não será uma história de amor de praia que não sobe a serra. Talvez agora que o debate político tem sido mais difundido, principalmente entre pessoas que não estavam acostumados a fazê-lo, seja mais recorrente, instrua e informe. Assim como a opinião pública é capaz de mudar em 01 semana, acredito que a conscientização coletiva é algo possível, seja por meio da educação, da mídia alternativa, dos debates, ou mesmo naqueles 5 minutos antes de dormir. Acredito que o significado de “vandalismo” e o sentido da palavra “violência” sejam repensados por muita gente, bem como uma desconstrução de argumentos elitistas e de preconceitos de classe. Acredito que possa haver um diálogo com empatia e tolerância na elaboração da ideia do que é tornar, de fato, um país melhor.

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As famosas 1000 palavras

por Luís Henrique Deutsch  (e por milhões de filhos da Pátria Mãe Gentil que tiraram essas fotos e participaram da maior  Manifestação Popular desde o “Fora Collor”)

Meu post hoje economiza no texto. Acho que a velha máxima do que quanto uma imagem vale em palavras pode se expressar vendo as que estão abaixo.  PRE-PA-RA que é palavra de monte, então. Obrigado, brasileiros. Deu orgulho e foi bonito

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” O povo unido, é gente pra caralho”

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“Vem pra rua, vem contra o aumento”

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Hoje tem mais, pessoal. Com partido, sem partido, com bandeira, sem bandeira. De branco, de preto, de vermelho, de rosa.

A rua é nossa.

De Luís para Luiz

por Luís H. Deutsch

Notícia muito divulgada na internet, nem ao menos muito discutida (porque também nem merceia ser) falava sobre a recente eleição que Lula, havia ganhando. O ex-presidente fora eleito, com esmagadora maioria, o político mais corrupto do ano de 2012 no Brasil.

Sim, o Lula. Que nem Presidente da República é mais ( e isso já faz dois anos, ok?). Ganhou a votação do Instituto sei lá o quê de Julho. Com quase 70% dos votos o que correspondem a quase 15 mil pessoas. O segundo colocado foi o Demóstenes Torres.

Bom. Pausa para a reflexão.

15 mil pessoas é um número expressivo? Depende, não é? No meu quarto, essas 15 mil pessoas seriam insuportáveis. Não só pelo espaço… Mas pelo tipo de banalidades que elas argumentariam para eleger Lula o cara mais ladrão do ano passado. “Ah, eu vi na VEJA que o Marcos Valério descascou o homem”. “E o mensalão?! Aposto que ele sabia de TUDO!”. “Fiquei sabendo que ele pediu uma caixa de vinho importado e não pagou”. “E aquele vídeo dele xingando o moleque na favela”. “Me disseram que ele era amicíssimo daquela Rosemary que roubou dinheiro público pra ir no show do Bruno & Marroni”. Aí sim eles me incomodariam.

Agora, num espaço maior, por exemplo, considerando o país todo… Em que números expressivos de popularidade aprovavam o governo do Lulão, isso se torna uma piada pronta. De como uma minoria ainda insiste em considerar um dos melhores presidentes que esse Brasil já teve, o cara mais picareta do século.

Falar que gosta do Lula e que votaria nele hoje bizarramente se tornou polêmico. Você pode falar que fuma maconha em redes sociais, pode sair do armário, pode falar que torce pro Palmeiras… Mas em algumas vezes pega mais mal falar que admira Luiz Inácio Lula da Silva.

Pois bem. Eu o admiro. Tenho meus prós e contras porque sou um humano básico normal estudado que tenta sempre estudar mais pra falar menos, mas tenho profunda admiração pelo cara. Votaria nele de novo. Para presidente, para governador, prefeito de São Bernardo – caso morasse lá – e até para SÍNDICO do meu prédio. PRINCIPALMENTE para síndico do meu prédio… Porque no que eu morava antes, os militares dominavam (de verdade) e no que eu moro agora, a síndica MORREU.

Achar que todos os avanços proporcionados ao Brasil desde que o projeto de Lula se instaurou  na política nacional podem ser jogados na lata do lixo que a “elite intelectual e social” desse país comprou é um desrespeito à história. Sem exageros. Além de tudo, preconceito.Muitos ainda não conseguem admitir que um ex-operário sem dedo conseguiu governar um país sem falar inglês, sem ter escrito um livro. Sem exageros ².

Somos sim, um país mais igualitário, menos pobre, maior (economica e politicamente) e respeitado internacionalmente. Pode ter sido um processo natural de evolução. Mas que Lula tem sua importante participação nisso, tem. Não vai ser eu quem vai negar.

Por isso, quando vejo eleiçõezinhas e prêmiozinhos como esses… Que parecem aquelas antigas enquetes do ORKUT, fico até com raiva. Raiva de ver que quase 15 mil nego preferiram mais uma vez se jogar no abismo escuro da opinião da mídia tendenciosa. Raiva de ver que políticos com ficha suja AMPLAMENTE COMPROVADA foram ignorados. E raiva dessa notícia ainda ser divulgada.

Os fatos que comprovam. Se um dia encontrarem todas as provas para os 600 mil crimes e delitos que Lula supostamente cometeu, eu racho minha cara. Mas, diante toda tempestade de acusações e conspirações dirigidas ao presidente mais bem avaliado da história… Desse Luís para aquele Luiz, só há respeito.

Os sons de um Brasil que se transforma arrastando seu passado

Por Fernando Rinaldi

As pessoas saíram da sessão de O som ao redor em silêncio, impactadas por um suspense cujo desfecho fugiu do esperado. Você entendeu o filme?, alguns se perguntavam por telepatia. Depois de já estar a certa distância da sala do cinema, uma senhora não aguentou ficar calada e falou para sua amiga, também uma senhora de mais idade: “Desculpa, querida, eu te trouxe para ver esse filme porque estavam falando muito bem dele. Não sabia que ele seria assim… Eu não entendi nada!” Provavelmente a senhora se referia ao final do filme, que não convém reproduzir aqui.

O som ao redor, primeiro longa-metragem de ficção do diretor Kleber Mendonça Filho, realmente não é um filme com uma narrativa clássica, e não só por causa de suas últimas cenas; é um filme diferente do que estamos habituados a ver e talvez justamente por isso ele seja aquele que dará início a um belo caminho para o cinema nacional, que nos últimos anos esteve à procura de sua identidade.

São muitas as histórias e são muitos os personagens, conectados porque convivem numa mesma rua de classe média do Recife, de modo que é difícil resumir em poucas palavras do que trata o filme. Vemos Bia, uma dona de casa que fuma maconha escondida, que coloca os filhos para estudar mandarim, que disputa com a vizinha quem tem a televisão maior e que é atormentada pelos latidos de um cachorro. Vemos João, que é um corretor de imóveis numa cidade que parece estar dominada pela especulação imobiliária e que se envolve amorosamente com Sofia, que tem o carro arrombado por Dinho, primo de João. Vemos Francisco, avô de João e de Dinho, dono de grande parte dos imóveis da região, o mandachuva da história em torno do qual todos orbitam. Vemos uma reunião de condomínio realizada para discutir a demissão do porteiro que dorme em serviço. Vemos a chegada de um grupo de seguranças particulares à rua, que procura suprir a falta de um Estado que não consegue defender seus cidadãos da violência nas grandes cidades (não é à toa que o filme é dividido em três capítulos e todos eles têm a palavra “guarda” no nome) e que observa, por sua vez, a vida dos moradores. Vemos cidadãos com medo, sempre à espreita de um perigo iminente. Vemos a vida e a mentalidade da classe média que se está perfilando no Brasil atual. Vemos as pequenas violências do cotidiano. Vemos gestos e anseios de personagens com os quais nos identificamos.

Vemos e ouvimos, pois todos os sons têm peso e significado em O som ao redor. Entramos no mais íntimo dos personagens para logo em seguida termos uma visão panorâmica do todo, em movimentos de aproximação e distanciamento, assistindo tanto à vida privada quanto à vida pública de todos eles, transpassadas pelos sons que produzem – como Kleber Mendonça Filho mostra muito bem, o som que produzimos pode escapar de nossas vidas privadas, tornar-se público e revelar quem somos.

O som ao redor não é, contudo, somente um simples recorte de nossa sociedade. É o começo do filme, um pouco esquecido pelos espectadores desatentos, que evidencia a ferida aberta em que se quer tocar: são mostradas várias fotos antigas de fazendas em Pernambuco. O passado e o presente estão, portanto, intimamente ligados e a nós nos resta tentar entender quais são implicações de viver numa sociedade marcada pelos resquícios de uma tradição latifundiária e escravocrata.

Sobretudo entre os anos 1930 e 1960, o Brasil viveu uma “modernização conservadora”, na expressão famosa de Florestan Fernandes: a sociedade brasileira se urbanizou e ocorreram mudanças no campo da superfície, mas esse processo foi elitista, em benefício de poucos, ao contrário do prometido pelos governos da época. Parece-me possível a analogia com as transformações ocorridas nos anos 2000: o Brasil passou a ser caracterizado como um dos países cuja economia seria dominante para o mundo no prazo de algumas décadas; no âmbito interno, presenciamos a saída de milhões da miséria e o crescimento da classe média. Na contramão dessa onda de otimismo que vem nos acompanhando, O som ao redor vem dizer, em alto e bom som – peço desculpas, caro leitor, por esse inevitável trocadilho –, que, não obstante esse crescimento econômico, essa redução da desigualdade e essa mobilidade social, subsiste ainda um imenso abismo socioeconômico, político e cultural que separa inclusive pessoas consideradas da mesma classe social. As cidades brasileiras cresceram (e continuam crescendo) vertiginosamente, e pode ser que agora diferentes classes sociais habitem o mesmo bairro, ou até a mesma rua, mas ainda vivemos sob uma estrutura social na qual quem tem dinheiro e poder, como Francisco, manda em tudo e em todos e está além do bem e do mal; quem não tem, infelizmente ainda pena para encontrar seu espaço em meio à lacuna deixada pelo poder público, tendo de se organizar como sociedade civil para se proteger, para se sentir seguro e para sobreviver em tempos de insegurança generalizada.

Bem, se eu encontrasse de novo aquela senhora que esperava ter visto outra coisa no cinema, eu perguntaria se ela não ficou com a audição mais apurada para a sociedade ao seu redor depois de assistir a esse filme, talvez o melhor brasileiro desde Cidade de Deus. Acho que ela, em silêncio, responderia que sim.

kleber mendonca filho