Sou a favor da inclusão do curso de Relações Internacionais no Ciência sem Fronteiras

por Luís H. Deutsch

Sou a favor da inclusão do curso de RI no Ciência sem Fronteiras. Trabalhei na seleção e na implementação da bolsa para centenas de bolsistas CsF para a França, sempre tive inveja e quis aproveitar pra fazer meu intercâmbio necessário pro meu currículo e ao mesmo tempo tomar os bons drink e comer os bons queijos com a grana do contribuinte.

Infelizmente, em alguns casos, na argumentação da defesa da não inclusão do curso de Relações Internacionais no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras, tremulam as bandeiras da meritocracia e a do reducionismo. E não, não estou falando isso por que sou um “gauche que vai contra qualquer abuso imperialista que alguém de direita fala”.

Em primeiro lugar, se nem o mundo não se divide em dois desde o famigerado fim da Guerra Fria, por que ainda insistir em dividir pessoas em apenas dois grupos? Direita não é mais derecha, ex-querda não é mais esquerda. URSS não é mais comunista, EUA agonizam para continuarem a dar as cartas. Quem sustenta que o planeta é bipolar e que tudo que existe nele OU é xis, OU é ípsilon já é praticamente considerado peça de museu e de tese de mestrado em antropologia.

Classificar pessoas (que já são completamente inclassificáveis por natureza) de um curso tão abrangente quanto Relações Internacionais (mais inclassificável ainda) em dois grupos já é o primeiro erro.

Quem garante que todo mundo em uma faculdade renomada vem de escola renomada? Quem garante que em faculdade menos renomada só tem classe C e B sufocada pelo governo extremamente social? Um país e uma sociedade tem uma gama de realidades que nem jornal , nem pesquisa e nem blog nenhum jamais conseguirão definir.

Dizer que seria desperdício de imposto dar dinheiro a estudantes de RI (a das Ciências Humanas em geral) que querem um ano sabático fora do país para tomar vinho barato na Europa ou conhecer Aspen é simplesmente reduzir o interesse e a ambição de milhares de jovens em simplesmente subir na vida. Em experimentar o mundo.

Ou seja, engenheiro mecânico pode gostar de carro, o veterinário de animal… E o estudante de RI não pode gostar de viajar?! E se gostar, Deus queira que ele seja rico, ou ele que se mate e se vire e revire em dobro para conseguir um financiamento impossível? Afinal, dinheiro público não foi feito para ser jogado na mão de um oportunista. Que sejam então vangloriados somente os estudantes das ciências exatas, pois esses não estão em dois grupos distintos e esses são os verdadeiros merecedores de benefícios públicos, pois estes que sabem fazer conta de cabeça, controlarão nossos computadores e construirão nossos prédios.

Blá… Está aí a hipocrisia. Quando a lógica do “eu mereço” vira a arma de destruição em massa numa guerra completamente desigual entre as pessoas que se deram bem e continuarão a se dar bem na vida pessoal e profissional, contra pessoas que lutam por oportunidades iguais a que só alguns grupos sempre tiveram.

O problema é essa máxima de que todo mundo tem o mesmo objetivo na vida mesmo num local onde existem condições individuais diversas. Excelentes para poucos. PÉSSIMAS para muitos. A merda é o pensamento de que “Se você não chegou lá, é porque não fez por onde. Agora espere um revolucionário da Zona Oeste / Zona Sul lutar por você em vão”.

O Programa Ciência sem Fronteiras é um dos raros casos que mistura o “eu mereço” com  o “eu também quero e posso” – ainda que restrito às áreas lucrativas e aquelas que podem resolver nossos gargalos. Ele dá oportunidade a jovens estudantes e doutorandos que têm um projeto de pesquisa, uma iniciação científica e participação na Universidade. Gente que quer ter futuro e não só encher a cara de bebida e sexo no Erasmus. E dane-se se a pessoa é rica, ou pobre, “primeiro ou segundo grupo”. O importante é a experiência valorosa e duradoura que a vivência internacional faz na cabeça e na carreira de alguém. Não é só jogar R$ 30 mil na conta de uma criança e mandar ela se divertir lá fora. Viver o mundo é um direito de todos e não um luxo. E no caso de estudantes de Relações Internacionais, chega a ser obrigatório para formar profissionais no mínimo mais comprometidos em formalizar uma área tão importante e carente de pessoas que a defendam.

No mais cru de seus significados, a palavra ciência significa conhecimento. E um país que dá valor a isso está no caminho certo. Portanto, que o conhecimento sem fronteiras seja abrangente a todos os estudantes. Enquanto não houver tal universalidade, está aí o único defeito desse bagulho todo

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Mais respeito à ignorância

Por Fernando Rinaldi

Quais foram os principais artistas do Renascimento? Quais são as capitais do Canadá e da Austrália, respectivamente? Quem foi o autor dos romances Pamela e Clarissa? Beethoven foi um compositor do período barroco ou romântico? Qual é o nome do atual secretário-geral da ONU? Como definir o super-homem nitzscheano? Por que a mordida do dragão-de-komodo é letal? O que é uma antonomásia? Como se chamam as bacias hidrográficas brasileiras? Quando foi o Dia D? Quem foi o presidente do Brasil entre 1926 e 1930? Como se conjuga o verbo “amar” na segunda pessoa do plural do presente do subjuntivo? A hanseníase é uma doença viral ou bacteriana? Quanto tempo durou a viagem de Ulisses de volta à Ítaca?

– Eu sei lá! – exclamamos em pensamento uma ou mais vezes ao lermos as perguntas acima, se é que não pedimos socorro ao Google para saber de pronto as respostas, que possivelmente serão esquecidas minutos depois.

A verdade é que quem está vivo sente que precisaria ter lido mais, ter visto mais filmes, ter ido mais ao teatro e ter-se informado mais sobre os acontecimentos do dia-a-dia. Quem está vivo sente que não estudou o suficiente ou, se o fez, sente que esqueceu grande parte daquilo que passou horas memorizando para ir bem numa prova qualquer. Quem está vivo acha que a vida é curta para conhecer todos os países que quer conhecer, para aprender todos os idiomas que quer aprender. “A vida é um sopro”, disse o arquiteto que viveu quase 105 anos. Por isso, é inevitável que quem está vivo se sinta, uma hora ou outra, ignorante.

Quando pensamos em grandes eruditos como Antonio Candido ou Hobsbawm, só para citar dois bem conhecidos, temos certeza de que nunca chegaremos lá. Há quem diga que tal erudição não é mais possível; outros, mais otimistas, pensam que hoje temos mais ferramentas para superá-la com mais rapidez.

Particularmente eu costumo pender mais para o lado pessimista. Só nessa semana que passou foram vários os momentos em que eu me senti ignorante: “como se fala ‘executivo’ em francês mesmo?”; “é bem-feito ou benfeito segundo o novo acordo ortográfico?”; “o título em português daquele filme do Woody Allen é Noivo nervoso, noiva neurótica ou Noivo neurótico, noiva nervosa?”; quem compôs aquela música “A flor e o espinho”?; “tem que fazer regra de três nessa conta?”. Consegui rapidamente as respostas para as minhas perguntas, mas não estou certo de que me lembro de todas elas agora.

As informações estão todas aí, muito fáceis de serem adquiridas, mas como apreendê-las, incorporá-las, gravá-las no nosso cérebro? Estudando, dirão. Certo, porém espero que ninguém ainda mantenha a ilusão de que estudar faz a sua ignorância diminuir; pelo contrário: estudar só nos faz perceber o seu tamanho. E, nossa, como ela é grande! Uma vez, um professor da faculdade, no primeiro dia de aula, pediu que nós escrevêssemos os conceitos de “Estado”, “guerra”, entre outras palavras usadas à exaustão no curso. O significado das palavras, embora conhecido por nós, custava a ser descrito. Nesse momento, a ignorância nos sorriu e nós sorrimos de volta um sorriso amarelo, sem graça.

A sensação de que somos ignorantes não vem só de nós mesmos, mas muitas vezes também por conta da atitude perversa dos detectores da ignorância alheia:

– Você fez faculdade de Relações Internacionais, né? Me explica o que está acontecendo no Egito? Ué, como assim você não sabe direito?

Ou:

– Você está lendo Dom Quixote pela primeira vez? Nunca tinha lido antes?

E é daí que pensamos:

– Sai para lá, ignorância, que eu não te quero mais por perto! Você me envergonha!

A ignorância, no entanto, não larga do nosso pé e do nosso pescoço. Às vezes tentamos escondê-la, mas ela é gordinha, espaçosa e pegajosa; ou seja, é impossível ignorar sua existência. A minha me atraca quando se trata de esportes, de tecnologia, da história das religiões em geral ou de músicas internacionais. Ademais, devo dizer que eu desconheço o funcionamento do meu próprio corpo e do universo, não sei nada de nenhuma lei, não falo com a fluência que gostaria nenhum idioma, acho economia um campo complicado e só sei de cor a história de uns filmes, de uns livros. E essa lista poderia se prolongar infinitamente – a minha ignorância é tão ignorante que até ignora o que desconhece. Mesmo assim, prezados juízes da ignorância alheia, queria dizer que ela merece respeito. Uma pergunta, meus caros, vale muita vez mais do que mil respostas…

Mas que fique claro: ignorância é diferente de burrice, de idiotice, de falta de noção e de ética. Que fique entendido: respeitar a ignorância é diferente de resignar-se, de refestelar-se na própria estupidez.  Como ela é gordinha, tentar escondê-la por inteiro é tarefa fadada ao fracasso. E, no entanto, é preciso reconhecê-la, pois é ela que move o nosso desejo de saber. Como a minha curiosidade é grande em se tratando de determinados assuntos, eu tento superá-la nesses campos do conhecimento, com esforço e criatividade. Em outros, porém, eu não me importo muito em tê-la como companheira de vida.

E aqui também – confesso – eu escrevo frequentemente junto à minha ignorância, às vezes me arriscando, às vezes me abstendo de comentar alguns assuntos. Invento um tanto, desvio dos detalhes e de especificidades que desconheço, tento disfarçar com palavras a minha falta de conhecimento sobre fatos e conceitos ou, simplesmente, quando minha memória falha. Sim, esquecimento, olvido, desmemória. Afinal de contas, por sorte não sou (nem ninguém é) Funes, o Memorioso, a personagem criada Borges que não tinha uma ignorância fofa para lhe sorrir de volta.