Torcida do Bom Senso

por Luís H. Deutsch

Meu coração pertence ao Santos F.C. Na Europa, minha simpatia fica com o PSG  graças a alguns amigos franceses fanáticos, uma boa série de partidas sem derrota e uma puta equipe. Mas, é necessário admitir que vou vestir mais uma camisa: a do Bom Senso Futebol Clube.

O “time” é uma organização de profissionais do futebol criada neste ano para tentar botar um pouco de ordem no AUÊ que é o esporte tupiniquim. Entrou em briga de cachorro grande. Num campeonato de gigantes, no qual a Globo, a CBF e os patrocinadores são os favoritos de sempre. O Bom Senso vai pro ataque num 4-3-3 pra fazer gente pensar e repensar no “fato” do Brasil ser o “país do futebol”. Será que a regra é mesmo clara, Arnaldo?

A amarga décima posição do Brasil no ranking oficial não diz isso. A FIFA sambando em nossas leis, soberanias e herança cultural também não. Há uma crise representativa no mundo da bola. Além disso, há dúvidas claras a respeito do desempenho da seleção na Copa e questionamentos (MUITOS) sobre o próprio torneio em 2014. Porém, o Bom Senso tem um esquema de jogo que vai primeiro na provável raiz do problema do esporte brasileiro. Foca na questão estrutural. Talvez depois, quem saiba, o país se dê mais ao respeito e volte ao topo com dignidade.

O “clube” viu o óbvio: jogadores dos grandes times brasileiros tem um calendário pesado  e bizarro de competições. Basicamente de Janeiro a Dezembro, praticamente duas vezes por semana, tem jogo. As pré-temporadas são mínimas e os simultâneos campeonatos desgastam o futebol e os profissionais… Mas não os que ganham dinheiro em cima disso. Pouco ganha um time grande que vai disputar a quinta rodada do Estadual em um estádio não muito preparado no interior. Engana-se quem pensa que um time pequeno tem seus “dias históricos”. A grana, a gente sabe, rola fora das quatro linhas.

O Bom Senso ainda foi além e enxergou aqueles que os milhões de Euros acabam apagando: Os jogadores de pequenos clubes. Aqueles que permanecem no mais profundo desconhecimento.  Os que jogam um estadual que passa na tevê e, depois… Só os fãs mais dedicados que os encontram. Vivem em regime de exploração. Ganham (ganham?!) pouquíssimo. Desistem do sonho de fazer história com os pés.

É um contraste absurdo. Seria necessário rever algumas estruturas arcaicas do futebol brasileiro. Estruturas que como aquelas que inflaram revoluções políticas, geram benefícios para poucos e malefícios para muitos.

O BSFC viu que campanhas positivas como a do Atlético-PR no Brasileirão (3º lugar até agora) deram mais certo porque o time poupou seus titulares no Estadual, fez uma pré-temporada de verdade e foi com gás no Nacional. Viu também que é necessário gerar trabalho para o ano todo àqueles que ainda não jogam nos São Paulos, Flamengos e Cruzeiros da vida. Dar trabalho e dar visibilidade!

bomsensofc_reproduçaoEssa equipe já está peitando os “donos da bola” para humanizar nosso futebol. Eles desafiam os dirigentes que atrasam salários, botam pingos nos is nos contratos com patrocinadores e afirmam que se tiver de ser… Paralisam o futebol brasileiro para que mostrar que as reivindicações são sérias e carecem de atenção. É uma tática ótima. Amedronta quem entra em jogo de salto alto.

Bom senso é coisa raríssima de se encontrar hoje em dia. Tê-lo no Futebol não é mandar o Galvão Bueno calar a boca. Ver isso ser debatido de maneira pertinente em âmbito que estava despolitizado desde a Democracia Corinthiana é sensacional. Como as pedaladas do Robinho, como aquele gol do Neymar contra o Flamengo em 2011… Ou como aquele do Ronaldinho – de cobrança de falta contra a Inglaterra na Copa de 2002 – que acordou os 3% dos brasileiros que não tinha madrugado para ver a partida.

País do futebol não é aquele só das equipes que disputam série A e B. País do futebol é o que pensa no futuro de todos. É o que joga com a cabeça.

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Imagina na Copa, né?!

Ontem foi um dia bem emocionante para os bandos de loucos e para os são paulinos. Desde às 8h da manhã até o começo da madrugada, ouvimos uma sinfonia de fogos de artifício, gritos e demonstrações de amor e ódio nas ruas e nas redes socais. Mas, banzai Curintia à parte, a final da Copa Sul-Americana ontem teve de tudo: choradeira, emoção, hostilidade, desistência, despedida do Lucas, sangue do Lucas, provocação do Lucas, e a sempre presente xenofobia futebolística entre Brasil e Argentina. E, além do São Paulo ser campeão, a história também acabou num inquérito policial por intolerância esportiva, com direito à presença do cônsul argentino causando na delegacia e tudo mais.

Daí já surge a frase mais falada pelos brasileiros em situações de desconforto e confusão: “imagina na Copa!”. A infinita lista de prós e contras do Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014 é sempre tópico de alguma conversa de bar ou tema de redação de RH. Falar da falta de preparo ou de infraestrutura do Brasil ou da nossa cidade é que nem falar mal da família: só nós podemos fazê-lo.

O que me desperta a atenção é que parece que, contanto que estejamos fora do nosso território, há sempre um orgulho, um nacionalismo, um prazer em contar e falar das qualidades do nosso país e/ou da nossa cidade. Entretanto, tenho a impressão de que quando é o estrangeiro quem forma uma opinião a respeito do Brasil a partir da sua própria vivencia aqui, o negócio é diferente. Frases como “não quero estar aqui em 2014”, ou “imagina a vergonha que vamos passar na Copa”, refletem o medo de um julgamento, como se uma imagem negativa do país significasse uma imagem negativa do próprio cidadão brasileiro.

Ou seja, tenho a impressão de que o que o estrangeiro possa ver e/ou viver aqui representará uma desmistificação do que é ser brasileiro e do que se trata o Brasil. Os planos de higienização social e a preocupação com as favelas são excelentes exemplos disso, de tentar esconder que o Brasil não é tão bonito assim em todos os aspectos. Ou seja, o estrangeiro – aquele que é visto historicamente como “”superior”” e mais “”””civilizado””””- pode sambar, beber caipirinha, conhecer as garotas de Ipanema, ir à praia, dar uns rolês desde as Cataratas até o Amazonas, visitar o MASP, subir o Cristo, comer no Mercadão, essas coisas. Mas ele não deve ver o trânsito desgastante, a pobreza, a fome, os hospitais públicos, o analfabetismo, a tristeza (afinal, onde já se viu brasileiro não sorrir da vida?!), a informalidade, a confusão nos aeroportos (Congonhas <3), a violência urbana etc.

Muito se fala dos grandes volumes de desvio de dinheiro gasto nas obras superfaturadas, nos interesses daqueles que não sabemos ao certo quem são, da exploração sexual, do atraso das obras (afinal, legal mesmo é a emoção da pressão em cima da hora) etc. De outro lado, temos também a versão cor-de-rosa da história: aumento dos investimentos, herança das melhorias em infraestrutura para a população (tipo no Pan, sabe?! kkkk), os empregos diretos e indiretos, a movimentação da economia graças às centenas de milhares de turistas nacionais e internacionais, enfim.

Nas últimas Copas, me lembro da sensação do orgulho de ser brasileiro – até a seleção ser eliminada, pelo menos – exaltada nas bandeirolas nos carros, nos bares, nas pinturas faciais e no Facebook. Porém, desde que soubemos que a Copa seria aqui, não conheci ninguém que demonstrasse ansiedade para a realização do evento.

Não sei se a Copa será tão divertida para a população tal como nas propagandas de cerveja, pois ela não é só um evento esportivo. Envolve cultura, economia, política (#RI #pãoecirco), publicidade, e, acima de tudo, trata-se também um fenômeno social que transcende o espaço do estádio e o tempo de 90 minutos – ou, se o Tigre estiver jogando, de 45.