Bolsa Crack

Por Maíra Souza

A implementação do Cartão Recomeço, apelidado pejorativamente de Bolsa Crack, no Estado de São Paulo foi divulgada pela Época com o título “São Paulo vai dar auxílio mensal de R$ 1.350 para dependentes químicos”.

Os indignados que vi compartilhando a notícia no Facebook talvez não se deram ao trabalho de lê-la com calma e sem considerar a manipulação da informação. Comentaram frases como “mais uma prova de que o Brasil é uma merda mesmo”, “era só isso que faltava!!”,vai ter mãe pondo crack na mamadeira porque paga mais do que o Bolsa Família”, entre outros.

O Brasil é o maior país consumidor de crack no mundo, com uma população de 2 milhões de dependentes da droga que, como bem sabido, vicia de primeira e destrói em pouco tempo a saúde, a integridade, os valores e a personalidade do usuário. A dependência química é uma questão de saúde, uma epidemia que não escolhe classe social e que uniformiza todos como nóia – aquele que é facilmente reconhecido devido à degradação da sua aparência, e que vive numa condição de zumbi, o morto vivo.

E o que fazer? Esperar a morte chegar? Esperar até as próximas gerações para ver se o problema se resolve sozinho?

O sistema público de saúde é incapaz de suprir a demanda por internação e tratamentos, assim como o Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas) não é o suficiente para todos. A internação – compulsória ou voluntária-, é uma medida paliativa, considerando que o tempo de recuperação dura meses, anos. Não adianta que haja policiamento, e nem dizer que a Cracolândia acabou em troca de valorização imobiliária, porque ela continua por aí, com seus milhares de frequentadores descentralizados e espalhados pelo Brasil.

O Cartão Recomeço consiste em R$ 1350 mensais destinados às famílias dos dependentes que não têm condições de pagar a fortuna das clínicas de reabilitação particulares, e que não conseguiram vaga nas clínicas públicas. Este valor não será dado diretamente à família para que ela invista na recuperação do parente por conta própria, mas será repassado diretamente às clinicas credenciadas mediante a apresentação do cartão. Em teoria, os tratamentos contarão com oficinas laborais e medidas de fortalecimento de vínculos familiares, a fim de evitar recaídas.

Os que acham que este dinheiro será muito custoso aos cofres públicos desconsideram os prejuízos que os dependentes causam à sociedade, à família e a si mesmo. Desconsideram aqueles que não têm família, ou que têm uma que não se importa, ou uma que já desistiu. O estereotipo existente em torno da figura do “drogado” desqualifica o dependente como ser humano digno de tratamento, de segunda chance e de recuperação. A filosofia do “deixar pra lá cansa menos” é comum no poder público e na sociedade.

É preciso força de vontade, apoio familiar, acompanhamento médico e mudança de hábitos? Sim. É preciso haver combate ao tráfico (onde o buraco é bem mais embaixo) e políticas de prevenção? Sim.  Assim como também é fundamental ampliar a rede de tratamento e permitir um recomeço.

A internação é o suficiente? As clínicas são eficazes? O dependente poderá sair e ter uma vida reestruturada na sociedade? Há tratamento capaz de mudar a mentalidade de um ex-dependente, evitando assim, recaídas? Não sei, mas para tudo é necessário um primeiro passo.

Image

Pedra sobre pedra

por Luís H. Deutsch

“Queria ver com seu filho, com seu pai, ou com um de seus irmãos… O que você faria?”.

A frase profética, em tom às vezes de praga é disparada em n situações que envolvem discussões polêmicas  Quando falamos de direitos humanos então, é quase uma presença obrigatória essa expressão. Chegam até a apostar quando ela vai aparecer na conversa.

“Imagine se fosse com você, um bandido qualquer tocar o puteiro na sua casa.. E aí quero ver se você continua a defender política de bem estar para vagabundo!”. Essa é uma das mais comuns.

Muitas vezes essas questões, dirigidas a mim, me fazem sentir repúdio ou vontade de não discutir mais. Outras vezes me fazem pensar sobre o que eu faria. Depende muito do assunto. Um desses assuntos é o crack. E para esse, precisei digerir (e ler) muito antes de escrever.

Fez um mês que o Estado de São Paulo começou sua política de internações compulsórias aos dependentes que vagam sem rumo pela já conhecida e infeliz Cracolândia – região que engloba vários bairros do centro da cidade. Para quem não sabe, internar compulsoriamente é, sem o aval do usuário, submetê-lo ao tratamento clínico e social que ele precisa para se ver livre da droga. O ideal na vida era que a luz do livre arbítrio atingisse a todos os dependentes dessa droga de droga e que os viciados aceitassem se curar. Mas, sabemos que não é bem assim.

Internação Compulsória. Palavras fortes, ação mais forte ainda. Autoritária? Sim. Violenta? Também. Mas cada vez mais estou tendendo a pensar ser necessária – pelo menos em um primeiro e crítico momento.

Image

Poucas vezes na vida, vocês me verão falar bem de alguma política pública da gestão governamental em São Paulo. No Estado em que vivo, tudo parece ser feito sem o mínimo de planejamento e com o máximo de falhas. O que acaba tornando o nosso caos de cada dia mais confuso e tenso ainda. Porém, creio que a medida escolhida possa representar alguma melhoria na atual situação.

Quem morou perto da Cracolândia por mais de 2 anos (eu), sabe o que aquilo representa. Avenidas e ruas históricas da cidade, como as do entorno da Estação da Luz e as alamedas dos Campos Elísios (de que Campos não têm nada e de Elísios, menos ainda) são “casa” de uma verdadeira horda. Pessoas que perderam suas características humanas e que vivem hoje em um labirinto infernal chamado de dependência. A pedra, o óxi e qualquer outra merda entorpecente que passa bem longe só de dar um barato, acabaram matando a alma dessas pessoas – deixando o que restou de corpo vagar na rua. Não precisa ser especialista pra constatar isso. Dá pra ver a olho nu.

São indivíduos que não mexem com ninguém, que não querem saber se você tá ouvindo música ou andando com tênis novo e que não têm noção de dia, hora, clima… São zumbis. Oferecem perigo mais a si mesmo do que aos outros. Por simples falta de cuidado e de noção, morrem atropelados e infectados. É triste constatar isso, mas é a verdade.

Pensar que estes, que hoje são doentes, precisam requerer ajuda para tornar a política pública coerente e realmente eficaz… É difícil. Os usuários de crack podem ter sido pais de família, filhos prodígios, amantes, amados… Mas hoje, infelizmente, não passam de um grupo largado e esquecido pela população e pelo poder público que esperou a situação se tornar insustentável para agir. Os únicos que lembram deles são os traficantes. Esses sim tem um “carinho especial”.

Hoje, a internação compulsória é necessária. E mesmo sabendo que ONU e OMS posicionem-se contra, mesmo que os engajados contra a política higienista sintam-se incomodados, mesmo que a história comprove que o governo poderia ter caçado os que sustentam o tráfico e criado estruturas complexas para evitar o consumo incontrolável nas ruas, eu faço o papel do inquisidor / rogador de praga / profeta: “E se fosse com alguém de sua família?”.

Deixaríamos nossos irmãos, primos, filhos, amigos, (insira uma pessoa que você ama aqui) vagar pela rua como um andarilho mal vestido e isento de emoção, sensação e raciocínio lógico?

A política adotada pelo governo estadual (e as que outros estados também estão adotando) deve seguir à risca suas premissas: não envolver força policial nas internações, ter um mecanismo profissional de triagem e criar um ambiente de condições favoráveis aos ex-usuários após o tratamento com auxílios financeiros, acompanhamento emocional e re-inserção social. Ao que tudo indica, e os resultados iniciais mostram isso, tudo vem sido seguido. Mas nosso papel é continuar de olho, pois essa tão polêmica medida será um importante passo para controlar a epidemia dessa devastadora droga (ou arma química, como preferirem) que assola grandes e pequenas cidades. Grandes e pequenas famílias.

Que os Campos voltem a ser Elísios, que a Estação volte a ser a da Luz. E que não sobre pedra sobre pedra.

Gato, galã, bonitão etc

Por Maíra Souza

Outro dia eu estava parada no trânsito, ouvindo traquilamente Gangnam Style no rádio, enquanto cultivava meus hábitos saudáveis de alimentação entre um sinal vermelho e outro. Foi quando um rapaz bateu no vidro do meu carro e pediu um gole da minha Coca-Cola e um pouco das minhas batatas fritas do Mc Donald’s. Imaginei meus pais recomendando a não abrir os vidros, mas ignorei minha racionalidade preventiva de paulistana e cedi: dei o meu lanche e passei algumas horas pensando no quão ruim deve ser viver de restos.

E é sobre essa população que sobrevive com os restos do dinheiro público, das roupas, da boa-vontade e dos Mc Donald’s alheios. Essa semana, acompanhei o caso do Rafael Nunes, a nova subcelebridade conhecida nas redes sociais e nos jornais como “Mendigo gato de Curitiba” ou mendigo galã, mendigo bonitão, e afins.

Para quem não sabe, a história é a seguinte: uma mulher passeava no centro de Curitiba quando o Rafael pediu para que ela tirasse uma foto dele porque ele queria ser famoso. Ela assim o fez, postou a foto dele no Facebook e em algumas horas, ele já estava no feed de notícias de milhares de pessoas. A questão é que o Rafael se destacou dos outros milhares de mendigos de Curitiba, do Brasil e do mundo porque ele é gato – definindo, aqui, gato como: estilo de beleza totalmente adequada aos padrões europeus, pele branca, loiro, olhos azuis, alto, e com aquela barba por fazer que as mina pira. [vide] E, de fato, houve um alvoroço de mulheres dispostas a adotá-lo e comentando que o levariam para casa, dariam casa, comida e roupa lavada. Afinal, onde já se viu mendigo feio, não é mesmo?! Logo, surgiram diversas especulações sobre o rapaz ser uma farsa, pois “um cara desses não pode viver na rua!”.

Uma vez comprovada a veracidade da desgraça do Rafael, sabemos que ele veio de uma família de classe média e costumava ser modelo, até que entregou-se ao crack, disse “no, no and no” para a rehab, e optou por viver na rua. [veja a tentativa da entrevista com ele] A repercussão dessa história sensibilizou uma clinica de reabilitação que ofereceu tratamento ao rapaz, e agora Rafael passa bem e internado por tempo indeterminado – e, aposto que daqui a alguns meses ele dará uma entrevista exclusiva ao Fantástico ou até participará de algum reallity show.

Engraçado como a figura de vagabundo ou delinqüente muda drasticamente quando uma exceção foge à regra. Do paradoxo da foto, notou-se que “viciado” passou a ser “doente”, que “vagabundo” transformou-se em “ex-modelo” e que “degradante” virou “misterioso”. Um dos comentários sobre a foto afirmava: “Lindo e viciado… ele não devia ser mendigo. Devia ser galã da Globo”. E quem deveria ser mendigo? Que beleza abre portas nunca foi segredo para ninguém, e, assim como o dinheiro, pode trazer cor aos invisíveis. Triste que os outros milhares de feios não mereçam um pouco de audiência ou uma oferta de tratamento.

Os malefícios do crack não estão imunes a nenhuma classe social ou características físicas, e desejo toda a sorte do mundo ao Rafael. Vale observar que há quem viva nessas condições por ironia do destino, do livre arbítrio e da própria realidade. Assim como há quem já nasceu nas ruas, há quem nasceu feio, há quem nasceu bonito. Acontece, não é mesmo?!

Os atributos físicos são mais perceptíveis, inclusive para a solidariedade. Muitos viram no Rafael a figura de um sapo que, a partir de um beijo (ou, no caso, de uma rehab) se transformaria num príncipe digno de qualquer final feliz da Disney. A imagem do galã que não pertence ao submundo vivido nas ruas, repleto de todos os antagônicos de beleza incomoda, assim como a Cracolândia ou o sopão.

Dei uma lida no último censo dos moradores de rua de São Paulo, e, dos frenquentam os albergues da prefeitura, a maioria é paulista, alfabetizado (muitos com ensino superior completo), dependente químico, com passagens pela FEBEM Fundação Casa, e quase a metade não possui nenhum documento, excluídos, portanto, da vida civil, da cidadania, da visibilidade – inclusive, uma vez liguei para o SAMU quando presenciei um mendigo tendo uma convulsão na rua, e a moça informou que não poderiam fazer nada pois o SAMU não atende mendigos.

Enfim, escândalo mesmo é ser GATO. Simples assim.